[user_registration_my_account]
Capítulo 14 de 17
Deus — parte 14 de 17
Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro
Estávamos em conversa, ativando elementos de reforço fluídico junto ao velho Siciliano, quando entrou recinto adentro um irmão destas plagas, e humildemente falou-nos: – Bondosos irmãos. Sou consciente do meu estado e desejo ser útil. Entretanto, embora viva em orações, embora acompanhe meus parentes em seus cultos religiosos, nada me ocorre, não consigo melhora, ninguém me atende... Estando em frente a esta casa, vi-os entrar, e como noto haver em vocês outros qualquer coisa, um não sei quê de ordem superior, tomei a liberdade e penetrei neste recinto. Desejo ser útil, quero servir... Por que Deus não me ouve? Que faltas graves terei cometido? E, no caso, se as cometi, como deverei agir a fim de encontrar o caminho que tanto desejo? – Onde tem residido? – perguntei-lhe. – Na segunda casa ao lado. Sou conhecido de seus amigos desta casa, pois Siciliano foi ao enterramento de meu corpo. Também sou avô. Vivia com a filha caçula, quando me veio o mal que me obrigou a separar do corpo, datando daí a minha relativa tristeza. Digo relativa, porque sendo crente em Deus e estando em paz, muito já se tem. Perambulo às vezes por aí, entro nos lares amigos, converso com alguns, não consigo conversar com outros, e tenho visto coisas de amedrontar! Gente que eu julgava boa, que tinha crença, que fazia questão de ser respeitada... No entanto, amigos, estão bem mal! Bem mal!... De minha parte, já que nunca gostei de andar batendo a mão no peito para os outros verem, creio que estou muito bem. Só me resta ser atendido, guiado... – Quando entrou no conhecimento de seu estado? – quis Nina saber. – Ao deixar o corpo... No momento, tudo ficou claro, até brilhou um pouco, tendo eu visto o meu corpo inerte, largado, desgastado... Seguiu-se o enterramento, ocorrido entre preces e falatórios idiotas, protestos de amizade e insinuações cavilosas... Havia muitos mortos entre os acompanhantes, alguns conhecidos, outros desconhecidos, indivíduos sensatos e criaturas estultas... Cheguei a ter medo, cheguei a me sentir humilhado, pois alguns elementos vieram com as suas risadas cretinas, motejantes, dizendo palavras acintosas, provocando... – Como agiu? – tornou a indagar Nina. – Corri para junto de meus parentes. Eles sempre estavam melhor, porque oravam. Demais, não sei por que, estavam livres daqueles elementos. Parece que Deus os protegia, como não sei, mas sei que devia ser obra de Deus. Fiquei com eles, acompanhei-os, assisti a missa do sétimo dia, tenho vivido assim... Ninguém me diz palavra sobre que destino tomar, como agir. Por isso, oro como sei e posso e aguardo um fim... Terá um fim, não é?... Disse-lhe, então: – Sente-se nessa cadeira. Estando sentado, recomendei-lhe: – Faça uma prece pelo seu anjo de guarda. Dirigi-me aos companheiros: – Concentremos os pensamentos no seu anjo de guarda. O efeito surtiu, apresentando-se um espírito bastante superiorizado, que nos disse: – Amadeu foi um bom, mas teve lá o seu orgulho. Dizia entre outras coisas, que se deveria falar aos servos, falaria então ao Senhor. Julgava poder obter de Deus, sem a interferência dos semelhantes; e isso, convenhamos, por vaidade, por se julgar independente, acima da generalidade. Ora, na Ordem Divina, como sabeis, tudo força ao entrosamento, tudo obriga ao máximo de harmonia. Ninguém se basta, seja no que for e para o que for! Portanto, quem despreza a colaboração dos semelhantes, claro que despreza a Deus. Olhou para o seu tutelado, com infinito carinho, asseverando: – Foste bom filho, bom marido e bom pai. Um pouco menos de orgulho e teria sido recolhido na hora da separação, porque também foste um bom cidadão do mundo, prezando a ordem e a paz, respeitando o direito alheio e procurando fazer o bem. Deixaste a carne em bom estado de paz, sem sofrimentos, mas algum tanto abandonado... Lembra-te, pois, que ninguém recebe coisa alguma diretamente de Deus, por ser de Sua Vontade que haja solidariedade entre as criaturas. Amadeu falou, em tom de arrependimento: – Deus me perdoe, então... Errei, reconheço o meu erro. O espírito seu tutelar foi, abraçou-o, disse-lhe palavras de conforto, tendo-o convidado a partir com ele, a fim de ser encaminhado. Quando Amadeu nos enviou suas despedidas, o tutelar observou-o: – Não só as despedidas, mas sim os devidos agradecimentos. Não pense que foi por acaso que eles o serviram, mas sim por determinação de mais alto... Você devia sentir o abandono e devia pedir. Pediu na hora a quem tinha para dar, ficando na obrigação de reconhecer nos servos a vigência da Soberana Vontade do Senhor. Amadeu veio, abraçou-nos, prometeu-nos sempiterna amizade. Era mais um que aprendia as lições da Verdade através dos pequeninos itens da vida comum. Peço inteligência para o seguinte – compreender a importância da espontaneidade, encarecer os merecimentos da livre iniciativa, sempre que se sente a possibilidade do ato de ser útil. Eu apenas tentei servir, sentindo que havia motivos e elementos para fazê-lo. Tudo aconteceu a favor, estivemos com a Lei, a ponto de, servindo, sermos servidos. Demos alguma coisa? Obtivemos alguma coisa? Claro é que sim. No entanto, saibam, a simples presença daquele tutelar e as suas palavras, ungidas de marcante sublimidade, temperadas com os ardores envolventes de sua personalidade amorosa, foram para nós penhorosa oferta do Céu! É assim, amigos, que o Senhor da Vida nos envolve com a Sua Lei. Quando pensamos em dar, estamos recebendo; quando nos fazemos cainhos, retendo oportunidades de agir bem, estamos afugentando as dádivas celestes, estamos obliterando as válvulas do amor e as vertentes da sabedoria. E como não podia deixar de ser, após partirem, serviu-nos o assunto, aquele simples caso, do qual muitos proveitos obtiveram Glicério e Nina, cujas vidas valeram por verdadeiras obras de nulidade espiritual, cujas atividades, no mundo, constituíram simples armazenamento de agravos, embargos futuros, sem dúvida. Glicério, que se mostrava sempre mais próximo das raízes concepcionais, deu evidente apoio às minhas conjeturas: – Realmente, devemos discernir entre fazer e não fazer, e acima de tudo entre haver ou não espontaneidade ao ato de fazê-lo. Deve ser bastante meritório tomar iniciativas, levar a termo obras de amor, atingir o grau de abnegação, subir pela espiral divinizante da renúncia. Todavia, plumitivos não podem fazer tanto... Naquela hora chegava Glorinha, trazendo seu noivo, de chofre consultando-o: – Veja, Narciso! Vovô não está meio ressurgido? Enquanto Narciso apresentava sua admirada apreciação, o velho murmurou: – A outra metade não aconteceu, porque a velhice é ciosa de suas prerrogativas. No entanto, com apenas a metade, quero tentar levantar-me, assim que o Sol esquente um pouco o dia. As últimas palavras do ancião deram de encontro com as primeiras do jovem, que lhe foram endereçadas: – O senhor, então, é pela ação dos espíritos? Siciliano avivou-se, lançou-lhe simpático olhar, afirmando: – Rapaz, nunca se afaste de Deus! Casando com minha neta, encontrará nela, por índole, um espírito crente e confiante. Siga-lhe os passos, aproveite o ensejo, cresça nas virtudes do Céu. Eu me arrependo... O jovem, que lhe absorvia as palavras, admirou-se da expressão: – O senhor se arrepende!? Glicério, que o atuava intensamente, sorriu, significando o efeito de sua atuação, enquanto Siciliano prosseguiu: – Sim, eu me arrependo de ter sido incrédulo. Mesmo que não tivesse a certeza da ação espiritual, mesmo que não me compelisse a necessidade, eu me arrependeria... O jovem interrompeu-o, sempre admirado: – O senhor, então, fez marcha-a-ré?! O ancião, tomado de forte impressão, deu novo curso à conversa: – Bem, falemos de Glorinha, de si, pois o senhor admira-se com muita facilidade. Como vão os seus? E os negócios de seu irmão? Narciso, meneando a cabeça, voltou atrás: – Vovozinho, vamos prosseguir... Eu quero saber muitas coisas e devo sabê-las de si. O senhor era o fortão do ateísmo, o irredutível, como dizem os meus. A sua reviravolta será um estouro, vai escandalizar! O velho peito arfava, sob o guante de tamanha impressão. Glicério convidou-me ao serviço de auxílio, prevendo alongar-se a discussão. Eu decidi que Nina fizesse a sua parte. Siciliano disse, evasivo: – Glorinha ensiná-lo-á, sem dúvida. Você mesmo aprenderá... Eu não posso estar discutindo, agora, fraco assim... Mas, que tem isso? Um homem, então, não pode admitir um Deus? Os seus, que se arrependam também, que é hora... Ou talvez eu esteja maluco, senil? Fazendo transparecer brejeiro sorriso, considerou o jovem: – Antes isso, por estar senil, se assim julga, do que ser jovem, inteligente e racional, para ser contra Deus. Loucura por loucura, sempre é certo que homem algum fez o universo e o sustenta e conduz. Há um Poder, uma Força, não sendo asneira chamá-la Deus ou Divindade. – Você não era ateu? – interrompeu-o Siciliano, ajeitando os óculos. – Milagre de Glorinha... – balbuciou o rapaz, olhando para ela – Temos conversado, discutido, visto alguma coisa... O ancião interessou-se, aprumando-se no leito, fazendo-se todo ouvidos: – Vendo alguma coisa!... Que viu?... Onde? – Glorinha que o diga – respondeu o rapaz. O avô endereçou-lhe inquisitivo olhar, pelo que a neta lhe disse: – Narciso não queria ir, vovô, de teimoso ou por mera vaidade, sei lá. Quando lhe disse que era a bem do senhor, que se estava sumindo em vida, tomou-me pelo braço e acompanhou-me até o Centro. Ali, creio eu que como paga de Deus, pelo ato de sentir bem pelo próximo, recebeu carinhosas palavras de um espírito. Como este fizesse menção da descrença reinante no seio da família, e dissesse particularidades, tive a curiosidade e perguntei-lhe o nome. Foi, então, que o espírito se anunciou a vovozinha, pedindo, entretanto, para não lhe falar a respeito, a fim de não causar abalo. Agora, como quis saber, e está bom, achei que convinha saber. Está contente, vovozinho? Emocionado, Siciliano quis falar e não conseguiu. Minutos depois, tomando um pouco de água, e passada a forte emoção, voltou a falar, indagando pelo que dissera a companheira de tantos anos e há tão pouco desencarnada. A neta, explicou-lhe: – Dentre as muitas coisas ditas, uma salientou – que a fé em Deus será o último bem da vida a perder! Que se gloriava de ter sido crente, mesmo vivendo entre orgulhosos que se diziam ateus, ignorantes que se julgavam sábios... Desculpe, vovozinho, mas ela falou assim mesmo... Falou com tamanha força, com vigor tal, que pensei estar falando autorizada pelo próprio Cristo! Toda aquela gente presente, e eram várias centenas, ficou suspensa! O senhor devia estar lá e ver a maravilha, apreciar a satisfação geral. Narciso emendou, com entusiasmo: – O senhor devia estar lá, vovozinho, para estremecer como eu estremeci! O que houve não sei, mas fiquei meio fora de mim. Parecia ter febre! Enxugando as lágrimas, meditativo, indagou-se o ancião: – E que mal poderia isso fazer, meu Deus?... Crer fará mal a alguém?... Minha hora estava marcada, para atender a um rogo, havendo partido. Deixei-os em paz e grande prazer espiritual. O Céu vislumbrava nos confins íntimos daquela criatura macerada pelo mundo, endurecida pelo orgulho, e agora em fase de reaproximação, tangida pelo carinho envolvente daquele par de jovens e sacudida pelas avalanches da Verdade.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.