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Capítulo 10 de 17
Deus — parte 10 de 17
Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro
A história da Terra está cheia de erros e tremendos crimes. Os errados e criminosos, porém, não desaparecem. Tudo é vivo perante Deus, e a Lei abarca todos quantos fatos se dêem, por mínimos que pareçam ser, a fim de que a Justiça tenha o seu curso normal, forçando o reequilíbrio. Por vezes, tão profundos e tão vastos se revelam os tentáculos do Supremo Organismo Judiciário, que a criatura menos avisada supõe jamais poder haver tamanha ou tão completa e perfeita exação! Entretanto, a Terra de todos os momentos revela-se em absoluto processo judiciário. Basta sondar cada indivíduo, perscrutar-lhe a história das vidas e dos feitos. Nele mesmo encontram-se os fatos, os indícios e a marcha das prestações de contas. Tudo encerra a criatura! Nada lhe falta, nem lhe sobra, a ponto de imaginar possível lesão da parte do Supremo Organismo. Cochilos não há, nada é transferível por falha ou qualquer omissão no imenso mecanicismo. Todos nós encontramos criaturas irmãs pelos caminhos da eterna vida, seja na carne, fora dela, em melhores ou piores lugares, condições e situações. Quer dizer, certamente, que temos a Lei e a Justiça em franco funcionamento. Tendo deixado Glicério e Nina, aproveitei a folga para visitar certo irmão encarnado, grande errado da história, agora um monstro físico, infeliz rastejador pelos caminhos do mundo, sempre a estender a mão, sempre a repetir, minuto a minuto às vezes, a palavra antanho odiada, motivo de perseguições e sangueiras. Acérrimo adversário de Deus, truculento perseguidor dos cristãos nascentes, armazenou faltas a valer, encharcou sua história com o sangue de milhares. Sempre o mesmo errado, lançado nas vidas futuras pela carga do passado, repetia faltas, achava jeito para novas conquistas macabras, até que, nas últimas cinco vidas, de ordem superior, foi indicado às mais penosas atrofias, aos mais prementes aleijumes. Muitos encarnados pensam que os velhos criminosos já estejam redimidos. Que se tenham arrependido e feito, e levado a cabo a esteira das vidas ressarcitivas. No entanto, há muito engano em tais concepções, pois quem fabrica lastro poderoso, em bem ou em mal, conta com o seu poder tangente, embalador. Felizes aqueles que se votam aos caminhos do amor! Ai daqueles que se fazem presa do crime! O carma, que é o lastro íntimo, opera como agente jungidor, tangente, e se ao amorável se converte em propulsor de novas e sublimes conquistas, ao revoltado e criminoso tornase a máquina de pensar errado e de reincidir nas faltas! A encarnação jamais deixará de ser, normalmente, ou por Lei, a válvula evolutiva e redentora do indivíduo; mas os indivíduos falham perante a reencarnação, deixam-se arrastar pelas farpas injuntivas do passado, repetindo faltas e até as avolumando! Por via disso e dos erros humanos, beatos e santos há, cujo paradeiro nunca foi uma região feliz. Outros tantos, egressos do crime, tanto mais se hão chafurdado. E há os que se têm redimido, bem assim como outros se acham em trabalhos redentores. Há de tudo, nada falta! A questão é procurar saber, poder localizar e fazer os devidos estudos, pois a demografia é opulenta e cada cidadão é uma história viva. Sameiro dava contas, sem pernas e com os braços retorcidos, do seu título infame. Quem diria encontrar-se ali, naquele monstro, um dos algozes do Cristianismo nascente, um dos conselheiros de Nero? E se é dado aos homens não acreditar, quem negaria provimento à Lei e à Justiça? Desde quando o Emanador pede conselhos à criatura, a fim de ser Absoluto Senhor? Fui encontrá-lo a dormir, na soleira de uma porta, depois de haver comido a esmola oferecida por alguém. Andava sobre um carrinho, pedia esmolas, comia do que lhe davam e dormia em qualquer parte, quando o tempo favorecia ou alguma árvore lhe oportunizava sombra agradável. Enquanto fitava aquele quadro desolador, mas respeitável ao extremo, um clarão surgiu; era Abel que chegava. – Coincidência? – indaguei, sentindo alegria pela sua presença. Algo triste, respondeu-me: – Não. Eu sabia que viria... Indiquei a um amigo para que o inspirasse a vir. E quando ele me avisou, tratei de baldear-me para cá. – Alguma novidade? – Também não. Apenas, como nos convém, devemos ativar alguns elementos de convicção a este irmão. Está bastante submisso, já aprendeu a ser dócil e a fazer as suas orações; isto é, já merece algumas atenções. – Também julguei assim, irmão Abel. E como serão fornecidos esses elementos incentivadores da fé? Cura ele não tem... Sorrindo, aparteou-me: – Daremos remédio ao espírito; ele mesmo tratará do corpo... – De fato. Não é possível sarar o corpo de quem tenha o espírito assim doente, a menos que se trate primeiro do espírito. Sameiro fez muitas e fortes! Se não o tratassem a rigor, onde iria parar? Outra vez sorriu em tom de advertência, afirmando: – Bem, iria parar no devido lugar. Alguém já conseguiu esgotar as medidas da Justiça Divina? – Quero dizer que ficaria muito mal. – Há quase dois mil anos que está muito mal. Quem não avança atrasa, porque a estática significa esforço dinâmico em sentido contrário à lei de evolução. Onde estaria Sameiro, se tivesse aplicado elementarmente os esforços? Tais empenhos, aplicados negativamente, que lhe teriam garantido, se fossem aplicados positivamente? – De acordo. Empregou múltiplos esforços para contrariar a Lei, pensando, talvez, que lhe seria possível sobrepujá-la? Ou estaria alucinado? Franziu o cenho e balbuciou: – A Terra está cheia de alucinados... Mas a Lei não os ignora nem poupa. A vida, com mais dias ou menos, a todos provará a tremenda lição. Felizes, portanto, aqueles que não se iludem com as próprias suposições. Uma vez que há Lei, é imprescindível observá-la. Em caso de falha, tudo pode ser admitido, menos a rebeldia, e muito menos ainda a recalcitrância proposital. Para quem se arrepende, a Lei confere Justiça flexível, isto é, atenua o processo ressarcitivo; mas para quem se rebela não há atenuância. Fez breve pausa e a seguir completou: – Sameiro, tal como tantos outros errados, pensou estultamente, julgou poder enfrentar a Lei, provocando contra si todo o rigor judiciário. Teve oportunidades e não soube aproveitá-las; antes, fez delas instrumento de rebeldia. Se não lhe impusessem tamanhos aleijumes, e contínuos, por si mesmo nada faria melhor, descendo sempre, caindo velozmente. Por ser assim, é pouco merecedor... Os que se orientam pela razão e vencem, claro que são dignos de melhores atenções e recebem oportunidades vantajosas. Enfim, Lira, quem apela para a dor, espontânea ou calculadamente, é sempre menos do que aquele que apela aos sentidos superiores, que são amor e inteligência. É hora de se por fim ao critério dolorista que vem deturpando a melhor forma de objetivação espiritual. A Humanidade tem que fazer o possível, a fim de vencer mais uma etapa da escala intelectual; deve primar pelos recursos mais honrosos, mais compatíveis com a Origem Sagrada. Sameiro acordou, bocejou, abriu os olhos. Em sua frente estava um cãozinho magro, esquelético. Sameiro, vendo-o assim, tirou do bolso um naco de pão e atirou-lho, dizendo: – Rapaz!... Que você está pior do que eu!... Toma lá... Arrumou-se e foi indo, indo, rodando o seu carrinho, assim como Abel lhe impunha fazer, mentalmente. Chegado a uma casinha pobre, bateu palmas. Surgiu à janela uma senhora e mandou-o entrar. – Estou na hora? – perguntou, meio aflito. Respondeu-lhe a senhora, visivelmente apiedada: – Ora! Quem faria pressa a você?! Desculpando-se, explicou-lhe ele: – Estive dormindo... Pensei que... Desculpe-me. A senhora ajudou-o a entrar, sempre irradiando piedade, sempre a envolvê-lo com a sua aura rosada. – Que alma boa! – exclamei. – Amor! – sentenciou Abel, todo satisfeito. Lá dentro estavam algumas pessoas, aguardando a hora da sessão. Sameiro ficou observando, sentindo a simpatia geral. Todos lhe endereçavam olhares amigos. Uma senhora travou com ele conversa, quis saber alguma coisa, pelo que ele respondeu: – Cura não espero. Queria saber de minha mãe... Só isso. A senhora anunciou que iria abrir os trabalhos, razão por que todos fizeram silêncio. De fato, feitas as preces habituais, abriu ela o Evangelho e leu umas linhas. A seguir, fechando o livro, colocou-o sobre a mesa, dizendo aguardar que algum irmão desencarnado fizesse comentário a respeito. Abel foi, encostou-se ao lado de uma senhorita, dominou-a e saudou a todos. A seguir, afirmou estar ali a fim de servir Sameiro, cujos pensamentos haviam atingido sua progenitora. Antes, porém, faria o comentário desejado e necessário. Como o texto lido dizia respeito ao degolamento de João Batista, e como nunca há falha na Justiça Divina, Abel lembrou as vidas de Moisés e de Elias, repousando aí as responsabilidades de João. Havia feito as suas e devia responder, mais tarde ou mais cedo, na razão direta, mesmo que em função superior. E, assim sendo, como as leis básicas são de ordem geral, todos que ferirem virão a ser feridos. Não houve nem haverá, jamais, inocentes sofrendo! Toda e qualquer dor encerra um motivo causal, significa uma necessidade ressarcitiva. Apontando para Sameiro, que se empinava sobre o carrinho a fim de ver e ouvir do melhor modo, tornou particular a sua preleção: – A ti, Sameiro, que rastejas pelo mundo e pedes em nome de Deus! A ti, cujos sofrimentos fazem transparecer vislumbres de obediência à Lei! É a ti que a minha palavra se dirige, neste momento, por iniciativa de tua mãe! Ela rogou e o plano superior atendeu-a. Vim dizer o que ela gostaria de fazê-lo pessoalmente, se fosse do teu merecimento... Note bem, se fosse do teu merecimento. Estacou, deu tempo a um pouco de imaginação e depois falou, com brandura: – Irmão, ninguém está aqui para condenar, que isso cumpre a cada um de per si, através das próprias obras, quando são más. Aqui estamos, em função cristã, para ministrar ensinos e consolar aflitos... Somos a Igreja do Cristo em exação, cumprindo a sua função, esclarecendo, incentivando, observando; mas, como todos estamos ligados ao plano inferior, de onde vimos emergindo, subindo, cumpre-nos manter alerta a inteligência, e de prontidão as forças do coração, a fim de vencer no presente as faltas do passado, tanto quanto nos seja possível. Fez um largo gesto, abrindo os braços da jovem médium, para invocar: – Senhor Deus! Livra-os de todas as tentações! E vagando a voz trêmula sobre a pequena ambiência: – Amigos! Tende cuidado com as vossas mesmas obras!... E falando a Sameiro: – Aguarda um sonho feliz. Há de ver sua mãe, como não? Entretanto, para que estejas bem contigo próprio, mantendo o plano mental alerta, procura ler assuntos de ordem espiritual. Cultiva o bom pensar, o bom sentir, para que possas agir segundo a Lei! Eu me vou, por ora, deixando aqui as palavras de tua mãe. O que disse foi de seu gosto e intenção. Não a esqueças!... Isto digo a todos, pois a ninguém é dado olvidar os seus ditos mortos! Porque a vida continua e os sentimentos crescem!... Os vossos mortos estão ao vosso lado!... Ao deixar a jovem, deixou uma lágrima em cada face. O mundo terreno estava opaco, mas o nosso lado brilhava, fulgurava. A vasta assembléia fremia. – Eu não sabia do caso Sameiro, de ser assim tão próximo a si – disse eu. Explicou-me Abel: – O mundo prepara-se a um renovo tremendo. E nós estamos focalizando os grandes inimigos do Cristo. Pelo menos aqueles que o foram no curso da história, para que tenham a sua oportunidade, caso desejem... Não forçamos além do que a Lei garante e autoriza; mas visamos o surto mediúnico que está por eclodir, conclamando a Humanidade ao melhor de seus deveres. O primeiro ciclo do Cristianismo está no fim, os abalos serão de ordem universal e todos os esforços serão poucos, a fim de que se mantenha o melhor equilíbrio moral e social. Que seria de um tempo convulsivo, se não surgissem os arautos do Senhor, mantendo acesa a tocha da espiritualidade? E é para que se convertam em tochas da fé, que apelamos aos inimigos de ontem... Servindo, serão servidos, como é da Lei. Apenas isso. – Interessante, sob todos os pontos de vista. Mas, que poderá fazer Sameiro, sendo como é, um aleijão? Fez afirmação com a cabeça, emendando: – Amanhã não o será. Ele voltará à Terra no fim do século vinte, quando haverá grande necessidade no mundo, por causa do que está para acontecer. Não lhe digo mais, por não me ser permitido, e por estar, em parte, sujeito ao livre alvedrio humano, precipitar, retardar ou mesmo eliminar a catástrofe. Oxalá tenham os condutores de povos um bom critério. Mas, pelo que se vê, tudo está decidido e pronto, embora nas preliminares... A prosseguir nessa linha, não haverá como ser de outro modo. E nós, como sabe, não podemos ficar de braços cruzados. Temos obrigação de manter acesa a lâmpada espiritual, custe o que custar. Respeitável é o patrimônio histórico-religioso, para que se esfacele em frente ao animalismo que avança pela seara humana. Temos de opor barreira, é claro. E a nossa barreira é a Revelação, é o Batismo de Espírito, que ressurge no mundo na hora exata, a fim de coibir os maiores abusos. Por haver responsáveis, que caro pagarão, nem por isso os simples e os humildes terão que ser transformados em servidores da brutalidade, da negação e do aviltamento íntimo. Terminada a sessão, partimos.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.