[user_registration_my_account]
Capítulo 5 de 17
Deus — parte 5 de 17
Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro
Tudo quanto devia acontecer com Glicério consistia em subtraí-lo às trevas e às chagas. Apenas isso. Como, porém, trevas e chagas eram as comprovantes de toda uma avalanche de erros e desmandos, devia-se começar pelos detalhes, pelas mínimas questões. Aliás, que verdade não importa em múltiplas verdades? Onde está a questão que se não componha ou constitua de mil e um matizes? Só a Verdade Una é simples, só Deus é Integral. Quando, entretanto, se mergulha a atenção ou se focaliza qualquer problema de ordem relativa, forçosamente se tem que considerar o complexo, o multiforme e o relacionado. Um homem perante a vida, a sua vida perante a coletividade, tudo forma um emaranhado fantástico, um entrelaçamento de fatores, de conseqüências e contingências a valer. Um espírito e suas trevas, somadas às suas chagas purulentas, fazendo ver um corpo astral horrível, significa corrupções, introversões, calamidades de ordem intelecto-moral. A centelha interior, o ser brilhante, que é a individualidade, nunca se entreva, mas pode ficar envolta em coscorão impenetrável.
A individualidade espiritual é sempre límpida, mas a construção da personalidade chega a ser viciosa e terrível, medonhamente horripilante. Em torno da centelha formam-se as gamas energéticas mais sublimes; depois estão as mais grosseiras, pois se está a caminho do perispírito, que é matéria fluídica. A seguir temos os elementos mais tênues, mais rarefeitos do perispírito; depois temos os elementos mais grosseiros, que se podem tornar até densos ou palpáveis, por materialização. Durante a encarnação sucedem-se os gases, os vapores, os líquidos, os sólidos do corpo somático. Esse o diagrama de um homem completo, visto pelos escaninhos gerais, sem entrar pelos detalhes, pelos entrelaçamentos minuciosos. Diremos que tudo isso forma uma unidade humana, porque assim de fato o é. Mas, que poder encerra o pensamento, a mente, sobre a economia geral? Entretanto, como a mente funciona em virtude de concepções, e as concepções à custa de fatores evolutivos, muitas vezes ou quase sempre, dá-se o caso de haver profunda dificuldade para analisar uma simples questão, um simples caso.
De uma nonada profundamente íntima surge o turbilhão catastrófico, tudo veio vindo, veio crescendo, veio aumentando. E o resultado é aquela monstruosidade que se pode encarar de frente, na Terra e nas zonas inferiores. Na Terra, digamos, há muitas lesões encobertas, pois a reencarnação é sempre, pouco ou muito, uma graça. E as graças, transcorrendo sobre leis, nem por isso deixam de ser medidas de oportunidade, recursos merecedores de profundo respeito. Nas zonas astrais inferiores, entretanto, passa-se o contrário – as lesões estão expostas e as monstruosidades à mostra. Há casos de seres que, de tanto introverter a ordem no plano mental, vão se tornando irreconhecíveis. Perdem a forma humana, perdem as carnes, sofrem revoltas indizíveis. Não é concebível por uma inteligência daí, sem ser a custo, o que há por aqui, nas zonas realmente trevosas. E tudo se resume em simples questão de ordem mental-acional; porque é o resultado de ordens que partem do íntimo, atravessam as zonas energéticas mais chegadas, vão avançando, estrugindo, marcando... No exterior, na forma física, vê-se o que foi criado, o efeito e não a causa.
A motivação, entretanto, nunca poderia deixar de haver; o bolor interno, por estar oculto, nem por isso deixou de ser a causa-máter da tremenda reviravolta, do transtorno ocorrido. Glicério estava reduzido a isso; era alguém que se havia introvertido mentalmente, forçado as gamas tênues, determinado todo aquele transtorno, toda aquela patenteação teratológica. – Um caso como milhões de outros, apenas – observou o velho Alimelech, agora o potente mentor Abel. De fato, Glicério estava convertido numa chaga só, e com as feições ultra-animalizadas. Vivia, não mais para xingar ou blasfemar, mas apenas emitindo grunhidos roucos. Rolava, todo nu e procurava comer o que havia; como vivia nas trevas, comia o que achava, roía pedras, pedaços de pau, tudo quanto encontrasse, fosse o que fosse. E já deveis saber o que pode oferecer o mundo astral inferior, na opulência de suas validades ecológicas. – No que dá o mau uso do sagrado direito de livre arbítrio relativo! – disse um outro servidor, em tom de queixa. – Às vezes é quase inacreditável o que se vê – comentou um outro.
Abel, grande conhecedor, para quem tudo se resumia em leis justas, fez a sua exposição: – A grande questão não está no direito de individualidade, pois essa condição é-nos imposta pelo Supremo Poder; ninguém precisa pensar em ser uma entidade vivente, nem em sustentá-la, porque é e não adianta discutir contra ou a favor. A grande questão é organizar a personalidade, é dar caráter à individualidade. Sabemos que a individualidade vem dos reinos inferiores, vem crescendo, vem aflorando, até atingir, no plano hominal, o alcance da razão e a consciência individual. Ora, se depois de tanta luta, de tanto viver, quer a criatura usar mal o imenso recurso, como não terá que sofrer a sua própria desorganização? Quem faz por subir, sobe. Quem faz por descer, desce. Quer melhor Justiça do que essa? Sabino, um companheiro de serviços, num quase gemido atalhou: – Muito bem. Não adiantam comentários, pois tudo já é por base. Vamos tratar de recolhê-lo e encaminhá-lo. Repartimos o grupo. Cada qual tinha lá os seus afazeres. Eu, Sabino e Abel fomos à cata de Glicério, na região trevosa onde se achava.
E transitando pelas escalas superiores, fácil o encontramos e nada sofremos. Aliás, todo o tempo que estive observando Glicério, nunca o fiz mergulhado nas escalas do éter inferior, sofrendo suas trevas e dores ou os perigos a si condizentes. Sempre estive acima de males e torturas, navegando em plano vibratório superior. Ali estava ele, metido em suas trevas e torturas. Um pregador transformado naquilo! Ali estava exposto, entretanto, e de maneira inconteste, o que pode custar a fé cega, a crença contemplativa, a falta de conhecimentos básicos, o nenhum conhecimento das verdades simples, como sejam a evolução gradativa, a reencarnação, a responsabilidade.
Ficou entre nós combinado, que Glicério iria ver uma luzinha, muito ao longe; que faria algum esforço para alcançá-la, pois estava cansado de tanta treva e de tanto sofrimento. E assim aconteceu. Ora eu, ora Sabino, fazíamos a ele ver uma luz, muito distante, à qual teria vontade espontânea de atingir. Com isso, foi andando, ou arrastando-se, e no decurso de alguns meses deu-se nas fronteiras de um lugar melhor, no limiar de zona onde ao longe se avistava avermelhado horizonte. Era de ver a sua terrível estrutura! Mas, também, causava alegria vê-lo fremir pelo fato de ter seguido aquela luzinha e de, através dela, vir a encontrar aquele avermelhado horizonte. Fazia os seus esgares, grunhia, avançava. Cada vez mais se achava encorajado, porque o vermelho-escuro se ia tornando vermelho-claro... Chegou a hora de Abel, o velho Alimelech, dizer: – Vamos, agora, falar-lhe. Até em Deus já pensa o infeliz. Merece desde já a nossa ajuda. Para mim foi um grande alívio, pois vinha sentindo, desde a visão do passado, agrura na alma por tudo quanto com ele se estava passando.
Cercamo-lo um dia, quando ingentes esforços empregava, a fim de alcançar melhor lugar, pelo menos mais claro. – Glicério! Glicério! – bradou-lhe Abel. Ele estacou, ficou imóvel, estirado no chão, apenas com a cabeça erguida, com aquela repelente catadura a nos fitar. Havia inchado muito, parecendo ser esse o motivo de menos ainda poder falar. Grunhia, pois, o infeliz; mas, revelava intensa alegria, pois os seus olhos esbugalhados e congestionados emitiram certo brilho. – Que tal pensar em Deus, Glicério? – aventou Abel. O monstruoso homem continuou imóvel, apenas revelando alegria no olhar. Abel fez um gesto de adoração a Deus, postando as mãos. Glicério prosseguiu alheio à insinuação, apenas revelando alegria no olhar. – Vamos auxiliá-lo – decidiu Abel, chegando-se a ele. Por as mãos naquela chaga, e naquele monstro, custava um pouco; só mesmo apelando ao Céu é que se podia vencer tamanho escrúpulo. Abel fê-lo e nós o fizemos também. Oramos. Fizemos o possível para sintonizar, no local e na intimidade de cada qual, com as mais divinais escalas etéricas, a fim de captar elementos de poder e de cura.
Durante o processo, quis abrir os olhos, tendo notado o quanto Abel estava brilhante, glorioso, divinizado. Sua mente, impulsionada pelos mais nobres sentimentos, devia pairar em esferas sublimes, devia estar elaborando nos mais elevados planos da ciência de vibrar. Glicério, aos poucos, emitia gemidos surdos, parecia monologar. Não fosse conhecê-lo, tal como era e estava, e diria estar orando, rogando a Deus cura ou aquela paz tanto almejada pelos que sofrem terríveis agruras, tenham ou não consciência das causas, saibam ou não de suas raízes e motivos. Não sarou o pobre irmão; mas fortaleceu-se bastante, pôs-se em condições de pensar e dizer coisas à vontade. – Fale-lhe – ordenou-me Abel – que devo partir. A seguir, sabe para onde o conduzir e entregar. Ali ficamos, então, os três, Glicério, eu e mais um companheiro, naquele rincão opresso, iluminado por um clarão róseo-vermelhado, bastante triste para nós, porém suficientemente agradável para Glicério, que vinha das mais densas trevas e dos mais dolorosos ambientes.
O tom de tristeza era quase insuportável, tínhamos a impressão de estar cercados de elementos invisíveis em agonia, tal a angústia que vinha daquela atmosfera seca, abandonada e sinistra. O vago, a solidão, tomavam ali o aspecto de qualquer coisa assombrosa e envolvente. E foi necessário reagir, principalmente com a ida de Abel, cujos poderes eram altamente superiores, mantendo um nível de estar acima do grau ambiente, sem o menor esforço. – Bem, devemos agir com brevidade – opinou Sabino, o companheiro. Considerando o auxílio de Abel, que até ali nos prestara, como sendo mero impulso inicial, e considerando aqueles recursos ora inexistentes, observei: – Abel já não está aqui, para nos prestar o concurso de seus avantajados poderes. Temos de, portanto, em primeiro lugar vencer o meio-ambiente, fazendo oposição mental. Depois, como seja possível, faremos o restante... – Como faremos? – entrecortou Sabino, que nos sabia neófitos na arte de orientar elementos de tal ordem. – Eu não tenho lá muita prática, pois sempre trabalhei noutros afazeres, até o dia em que me foi ordenado acompanhar Glicério; mas, como sabemos o que Deus quer, podemos falar-lhe.
Sentimentos nobres não nos faltam, e, creio, também não nos faltarão auxílios superiores. Sabino acresceu, num tom de retraimento: – Eu só posso oferecer boa vontade... Creio que Abel não nos devia deixar aqui, sozinhos, com tamanha responsabilidade, neste lugar bem pouco agradável. Glicério começou a revolver-se, tomando nossa atenção. Estava ainda em frangalho, porém visivelmente revigorado. Devia, é claro, dar de si tudo quanto mais fosse necessário, a fim de merecer outras conquistas. Falei-lhe, então: – Como se sente, Glicério? Brutalmente, replicou: – Como se sentiria você, se estivesse no meu lugar e nas minhas condições? – Para mim – respondi-lhe – pouco importa como pense a meu respeito; quero saber é de suas disposições mentais, com referência à Soberana Vontade. Se tem o que dizer, contra ou a favor, cinja-se ao seu próprio crivo, considerando, porém, que a Lei a ninguém pede conselho nem opinião. – Que é a Lei? – indagou, com ar jocoso. – Deus, Lei e Justiça, eis a tríade que, formando um todo, a tudo origina, determina e disciplina.
A chamada Criação, que é antes emanação, pois tudo é de sempre no próprio Deus ou Essência Primeira, nada mais representa que não seja o dever de harmonizar com a ordem básica. A Lei é, portanto, a medida salvadora, a trilha a ser observada. O Cristo não deu total exemplo? Não disse vezes sem conta que tudo fazia consoante a Vontade do Pai? Veja, portanto, que há sempre uma Lei a ser observada, a fim de que haja, conseqüentemente, ordem, progresso e glória. Meneou a cabeça negativamente e repetiu: – Nunca! Nunca! Nunca!... – Quer impor condições a Deus? – perguntou-lhe Sabino. – Mas há um Deus? Há um Deus?!... – gritou ele, meio possesso. – E quem deu origem ao Universo Infinito? Foi por acaso algum homem como... Interrompeu-me: – Como quem? Se eu tivesse feito o universo, fique sabendo, nele reinaria a Justiça! A Justiça!... – Glicério – disse-lhe Sabino – parece um demente. Como pode, partindo de tamanha ignorância, pretender julgar a Deus? Busque primeiro conhecer as leis fundamentais... Nova intervenção de Glicério, que fazia esforço para se levantar: – O princípio de todo conhecimento é a fé! É a fé!... Compreendeu?
Eu dei fé e o vosso Deus deu-me lepra!... Lepra!... E vocês me falam em Justiça... O que é Justiça? – Primeiro busca conhecer as leis fundamentais – repetiu-lhe Sabino, com toda a serenidade e convicção possível. Glicério fitou-o, de maneira a evidenciar um misto de ódio e incompreensão. Sabino avançou, repetindo e completando o pensamento: – Sabemos o que estamos fazendo. Portanto, faça por saber mais e realizar melhor, que em Deus não prevalecem chicanas e negligências. A Lei é uma para todos e todos somos um perante a Lei. Se o Cristo, para ser Cristo, observou a Vontade do Pai, como poderemos nós vingar e triunfar, contra a Lei? – Fui um pregador! Um pregador! – respondeu. – E que tem isso? Quantas religiões já foram inventadas e desapareceram? E quantos pretensos pregadores de Deus pairam nos infernos astrais? Uma coisa é procurar aprender as Verdades Fundamentais, e outra coisa é repetir erros em nome de Deus. Não se engane, pensando que está ou esteve certo, porque a ignorância não é programa de salvação. Foi apenas um dogmático, um idólatra da letra...
Mas, repito, saber Verdades é que importa, a fim de vivê-Las e, pela vivência, subir na escala dos valores íntimos. – Procurei fazer o bem. Fui bom filho, bom marido... O Evangelho me traiu... Eu dei o que tinha em boa vontade, nele depositei toda a minha fé. Cantei os milagres do Cristo, fiz chorar milhares de crentes, mas, na hora de minhas necessidades, tudo faliu!... Evangelho de conversa!... Pode ser um bom negócio, porque até os ladrões e os imbecis têm direito à vida e ao sustento... – Glicério, não blasfeme tanto. Procure saber alguma coisa mais interessante, procure conhecer Verdades que não falham... Ele entrecortou, raivoso: – Se o Cristo, como dizem, viveu a Lei, e me falhou, como poderei crer noutras verdades e ter esperança noutros recursos? Eu fui um pregador do Cristo! – Somente um pregador teórico, não um conhecedor e vivedor. Lembre-se, Glicério, de que Jesus não atravessou a vida apenas falando em Deus, na Lei e na Justiça, mas sim dando-lhes vivência prática, execução imediata.
Para tanto, estava no conhecimento das leis regentes, sabia a origem dos males, conhecia os recursos de que se valer e tinha plena certeza das Sagradas Finalidades. Falar em Deus, fazer discursos, inventar concepções, criar idolatrias, fomentar rituais e impor liturgias, bem assim como levantar clerezias e ampará-las com as grandezas e rompâncias do mundo, isso não é fazer obra de cristão. Queira ter a bondade, se é que não deseja descer muito mais na escala dos sofrimentos... Qual fera acuada, interrompeu, cheio de raiva: – Descer ainda mais?!... E fala em Deus, em Justiça?!... – Tudo por Deus, tudo por Lei, tudo por Justiça – repliquei-lhe. Fez umas caretas e rosnou, entredentes: – Não os entendo, não os entendo!... Fui bom, bom... Em troca recebi lepra... Todos fizeram orações e de nada valeu... Lei?... Justiça?... Deus?... Observei-lhe: – E o passado? E as vidas pretéritas? E os crimes de antanho? Sabemos que viveu um longo programa de erros e crimes; quem deve responder por tudo isso? É ou não o delinqüente? Arregalou os olhos e bramiu: – Sei eu disso tudo, por acaso? Deus me falou dessas coisas? – Nunca procurou sabê-las.
Importou-lhe apenas a parte sectária da fé, não a parte científica, aquela parte que facilita conhecer e repetir, mais ou menos, o exemplo do Cristo. Já lhe dissemos, Jesus não se ateve em conversas e discursos, mas sim procurou agir, e agiu, através dos conhecimentos que possuía. Por que não fez questão de aprender com o Cristo, ao invés de imitar homens errados, filhos da corrupção doutrinária? Por que não seguiu o exemplo dos Apóstolos? Agora esbugalhava os olhos, mostrando o quanto estavam congestionados e imersos em plena chaga. Verdadeiramente, seu estado era horripilante, motivo por que a sua rebeldia não provocava mais do que profunda piedade. Estático, mas naquela condição horrível, perguntou: – Não estão a pregar um novo cisma?!... – Por que pensa assim? Falamos do Evangelho do Cristo, nada mais, que nunca foi um evangelho de conversa e idolatrias, pois aos poderes do Cristo sucederam-se os fenômenos do Batismo de Espírito ou da Revelação ostensiva. – Jesus não ordenou a pregação do Evangelho? – inquiriu, admirado. – Com as comprovantes do Consolador, da Revelação tornada pública.
Jesus veio ao mundo para saldar a promessa antiga – derramar do Espírito sobre toda a carne, para que todos pudessem ter os testemunhos da imortalidade e da responsabilidade. Essa a obra de Jesus, esse o testemunho dos Apóstolos. Quanto ao que Roma fez, deve saber que foi corromper a doutrina do Mestre, liquidar a Revelação e levantar a pior das clerezias. Glicério estava absorto, cismático, duvidoso. Sabino falou-lhe, com profunda bondade, movido de compaixão: – Deve procurar a cura do corpo através da sabedoria do espírito. – Se eu ignoro tanto, por via de erros alheios, por que me pune Deus? Sabino deu-lhe a devida atenção: – Nós três temos parte em muitos erros... Quem disse que é inocente dos erros doutrinários? Demais, compreenda, Deus a ninguém pune. A Lei é íntima e cada qual a move segundo as suas obras, recebendo bens ou males na razão direta. Cumpre, de uma vez por todas, saber que o Céu nos é dado em elementos, em potencial, estando a nosso cargo erigi-lo à custa de trabalhos e aprendizados, e de dores quando se é, como direi melhor?... Seria negligente ou teimoso?
Glicério esboçou perceptível sorriso, emendando: – Se é assim, diga a palavra "estúpido"... A grande alegria do momento foi a chegada de Abel. É desnecessário dizer que a presença de Abel tornava a todos felizes, porque a sua aura continha divinos recursos. – Um anjo de Deus? – exclamou Glicério, medindo-o de alto a baixo, numa expressão de grande alegria. Abel falou-lhe, com doçura: – Um irmão, apenas um pouco mais desenvolvido em seus valores íntimos. Tenha em mente o que disse há pouco, pois eu também considero estupidez deixar o livre exame das Escrituras, para seguir imposições sectárias. O Evangelho, por exemplo, ensina as obras do Cristo, que devem ser repetidas pelos cristãos na medida do possível, e as recomendações do próprio Cristo, sobre amarmos a Deus com toda a força do coração e de toda a inteligência. Para que, pois, andar atrás de sectarismos e conveniências de homens menos escrupulosos? Não leu, então, que muita coisa não pode o Cristo dizer, deixando-a por conta do Consolador que havia de vir?
Truncando, porém, o que vinha da parte do Senhor, que poderiam desejar os homens, sem ser erros e crimes? Glicério murmurou: – Tendes razão, senhor... Quem estuda a Escritura, sente a falta do Consolador prometido pelo Cristo... Veio para derramar do Espírito sobre toda a carne, mas a carne toda nunca viu o Espírito... Ou Jesus falhou, ou alguém, de fato, cometeu grave erro...
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.