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Capítulo 4 de 17
Deus — parte 4 de 17
Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro
Longa foi a visão daqueles dias idos. Posso dizer que revi, não digo toda aquela vida, mas da juventude em diante. E posso, também, afirmar que tive Jesus pela frente três vezes, em três épocas diferentes, sendo que uma durante a Sua infância, ao fazer visita à prima Isabel e ao primo João, e outras duas já na plenitude de Suas atividades messiânicas. O fim da ação de Jesus, coincidia com os últimos tempos de minha vida; como não havia boca que se não pronunciasse a respeito Dele, uns contra, outros a favor, eu também dizia as minhas, e com alguma autoridade, por ter-lhe conhecido os pais e a linhagem. Ora, eu não era da descendência de Davi, o Grande Rei, por cuja razão mantinha prevenção contra aqueles que o eram. A falar verdade, quem era da linhagem de Davi sofria por isso, pois os que não eram lhes tributavam regular soma de prevenção. Bastava alguém dizer alguma palavra, e lá vinha o moto tradicional: – Sim, vocês trazem o Rei Davi na barriga... Por que esse luxo, se tudo passou, sumiu, perdendo Israel a própria liberdade? Não percebem que o jugo romano nos oprime por igual? Não vêem que Herodes redobra, sobre vocês, que pretendem um dia oferecer o Salvador ao mundo, suas prevenções e rapinas? Qual o descendente de Davi que ainda mantém as suas propriedades?... E querem, ainda, ser melhor do que nós, os pobres, os míseros e rudes camponeses? Todos falavam das curas do Messias, e todos relembravam os acontecimentos que envolveram o nascimento daqueles dois primos, João e Jesus. Embora fossem marcantes os sinais, para tudo havia alguma explicação maliciosa, capciosa ou mesmo infame. De resto, andavam espalhados, por ali e por todos os recantos de Israel, os Nazireus, os pretensos ou reais teurgos, aqueles homens que tinham ou supunham ter certos poderes, articulados que eram ou julgavam ser, com o mundo espiritual superior. Eram fazedores de curas, realizavam trabalhos julgados misteriosos; queriam ser respeitados como tal, não através de palavras, diga-se isso e bem alto, mas pela eficiência de seus poderes. Todavia, se esses elementos, que mais apareciam nos desertos e vilarejos do que nas grandes cidades, se diziam articulados com o mundo espiritual superior, aqueles que os queriam achincalhar, descrer ou ridicularizar, afirmavam que eles tinham tratos com o diabo, ou que sabiam alguns segredos da natureza, em virtude do que obravam tais prodígios. Era inútil afirmarem que traziam consigo os conhecimentos ocultos, as verdades que remontavam ao Patriarca Henoch, o pré-diluviano sábio das coisas de Deus. Debalde afirmariam ser a nata dos Essênios, os elementos escolhidos da Escola Profética Hebréia, restaurada pelo vidente Samuel e preciosamente tutelada pelo Grande Rei. Todos sabiam dizer não, fosse pelo quer que fosse, acima de tudo pela desmoralização reinante. Roma tangia, as autoridades locais roubavam, a miséria campeava. Estando em sua terra natal e de posse, o povo de Israel vivia em condições quase piores do que durante o cativeiro no Egito e na Babilônia. Só lhes restava trabalhar de sol a sol, principalmente aos sitiantes e camponeses, a fim de que as autoridades lhes pudessem subtrair tudo ou quase tudo. E por isso pagavam, aqueles que falavam como os Nazireus, os fazedores de prodígios, os homens que vestiam túnicas cujas cores significavam graus, que traziam os cabelos compridos, repartidos ao meio, e igualmente a barba. Alguns rombudos agricultores, nem mais queriam ouvir falar de seus Patriarcas, sendo que outros já haviam admitido o culto dos ídolos. Por tudo isso, pode-se dizer, o Cristo chegou na hora exata; mas, como atender a outro Nazireu, se tantos havia, se alguns haviam falhado tristemente, se outros apenas haviam sido exploradores do povo inculto e incauto? E não diziam os mais velhos, e conseqüentemente os mais experimentados, que bem podiam os elementos da família de Davi, ter preparado tudo aquilo, armado, arquitetado tamanha encenação, apenas para readquirirem os respeitos perdidos? Quando Jesus passou, pela última vez, pelas montanhas da Judéia, eu já havia morto um homem. Não o matara de uma vez, mas lhe causara uma morte lenta. Fora preso em virtude de certo espancamento, e multado, mas a minha vítima viera a falecer pela lesão sofrida. Minha alma estava em pena, acabrunhada. E outro não havia sido, sem ser o mesmo homem que na vida anterior forçara a matar-me... Retornando ao plano carnal, trouxemos as nossas diferenças; e elas fizeram o que fizeram. Tudo racional, tudo conseqüente. É comum ouvir-se, pelo mundo em fora, nos ambientes espiritistas, de ter sido Jesus um médium completo, um intermediário completo, perfeito. Verdadeiramente, poderia ser alguém o que Ele foi, e fazer o que fez, sem ter o Espírito Santo Sem Medida? E se muitos não diziam que sim, outros muitos diziam que não? De maneira tal os pontos de vista eram controversos, que muitos calavam suas mesmas opiniões, sendo que outros se traíam, dizendo em contrário ao que pensavam. Foi nesse pé de ânimos que Jesus passou pela última vez em terras da Galiléia; e como fosse pernoitar na casa de certo ancião, homem calado, tão bom o quanto macambúzio, de quem era difícil arrancar uma palavra, um tal Alimelech, formando nós, os sitiantes, um grupo, fomos ver a Jesus. Fomos ver e inquirir, o quanto possível, para dar-Lhe crédito ou de uma vez por todas desacreditá-Lo. Eu levava, em meu íntimo, a minha dolorosa carga espiritual. Não tinha muito o que indagar, caso Ele se revelasse como diziam, que era capaz de sondar os recônditos alheios e de proclamá-los aos circunstantes. Eu primeiro escutá-Lo-ia falar aos outros, depois, conforme as coisas parassem, faria minhas perguntas ao crivo de Suas respostas. Para nós, aqueles rústicos camponeses, Jesus iria ser submetido a um rigoroso teste; iria topar, nas montanhas da Judéia, e no meio de gente desletrada, com o que não topara em Jerusalém. Essa era a nossa presunção. Fomos topar Jesus em ação de cura; primeiro colocou as Suas mãos sobre a jovem, cujo pai havia dito sofrer ela de ataques. Jesus orou, a seguir falou com a jovem, tendo esta respondido: – Não me chamo Sarah! Meu nome é Nafchi! Nafchi! O pai intervira: – Vês, Mestre, que fala algum espírito imundo? Jesus observara: – Tende piedade dos errados, porque todos estais em possibilidade de erro. Jesus dirigiu-se ao espírito, dizendo-lhe da necessidade de voltar ao regaço da Lei. Falou-lhe da escalada para o Céu, à custa de esforços, de trabalhos, escalada a que ninguém se pode furtar, pois a Lei é uma para todos. Jesus o tratava com toda a piedade, motivo pelo qual Lhe dissera o espírito, pela boca da jovem: – Se todos fossem como Tu és! Tão santo e tão meigo! -Vai-te, filho de Deus... Acompanha esses luminosos seres, trata de te fazeres bom, pois um israelita, um filho espiritual da Tora não pode errar tanto assim. Vai-te. Acordou a seguir a jovem e com muito carinho disse-lhe palavras de encorajamento, fazendo-a ver que não era uma doente, mas sim uma intermediária, uma profetiza do Senhor. Volvendo-se para os circunstantes, indagou: – Quem sabe aqui, dentre vós, o que é um profeta? Um certo Jacó, filho de um dos sitiantes presentes, respondeu: – É aquele que tem o Espírito de Deus, é aquele que anuncia de ordem superior, é o que agora falta em Israel! Tivéssemos um verdadeiro profeta e teríamos a libertação. Respondeu-lhe o Mestre: – Pois está próximo o dia em que todo o Israel profetizará. Esse é o Batismo que vos trago, essa a herança que vos deixarei. Tende fé, filhos de Israel, e levareis a herança do Espírito a todos os recantos da Terra. Não vos convém repudiar o que é vindo de Deus! Compreendei bem, não repudiai ao que vem de Deus! O jovem, que havia respondido, fez a seguinte pergunta: – Acaso temos todos que praticar segundo os desejos de nossos mortos? Nafchi foi um grande assassino! Jesus explicou-lhe: – A Lei e os Profetas serão as diretrizes. O meu Evangelho desenvolve-se sobre as suas verdades inamovíveis. E o Batismo de Espírito anunciar-vos-á o que está por vir, constituindo-se em vosso Consolador, pois a morte não existe e podereis tê-los junto de vós, aconselhando, dirigindo, proclamando as veredas de nosso Pai. Importa que compreendais uma verdade: a morte não existe e ninguém morre para Deus! Todo espírito é responsável, nenhum espírito é mortal! A entonação de Sua voz revelava cansaço, demonstrava que já havia repetido a mesma lição milhares de vezes. O rapaz concordou: – Sim. Nós sabemos que os anjos falaram a nossos Pais. Jesus emendou: – E não disse o Grande Rei, que Deus faz dos anjos espíritos e dos espíritos anjos? Nunca leste os Salmos? Todavia, mesmo que ele não houvesse dito, di-lo-ia eu mesmo, que vim em nome do Pai, para Lhe fazer a Vontade. Um ancião Lhe perguntara: – Tu és contra a Lei? Jesus respondeu-lhe: – Se falas da Lei de Deus, não o sou; se falas da lei social, digo que ela será superada pelos novos tempos. A Lei de Deus nunca passará, nem os verdadeiros ensinos contidos nos Profetas. Como poderia ser eu contra a Lei, se eu mesmo enviei anjos a Moisés, a fim de que a transmitisse? Ou julgais que não sou de antes de Moisés? Em verdade vos digo, que sou de antes que a Terra fosse. Uma mulher, bem idosa, gritou: – Bem se vê que não és deste mundo! Mas, tem cuidado! Quererão tirar-te a vida! Jesus repetiu, complementando: – Já vô-lo disse, a morte não existe. Irei, sem dúvida, pela mão dos homens; mas a seguir voltarei, para vos Batizar no Espírito. Não vos deixarei órfãos; o Evangelho e o Batismo de Espírito ficarão convosco. Um outro disse-Lhe: – Os grandes de Israel estão contra Ti. Como poderás triunfar? Condoído, visivelmente condoído, sentenciou Jesus: – Já venci, graças ao Pai. Porque o Pai não está contra mim, antes está comigo, para que vos legue a medida salvadora. Ou dais mais crédito aos que tendes como grandes de Israel, do que ao Pai? Não vedes que os grandes de Israel é que vos sufocam com as suas imposições? Quanto a mim, tragarei aquele bocado que está anunciado em Isaías. Mas, ai de quem me fizer dano! Uma menina disse-lhe: – Mestre! Mestre! Nós Te guardaremos, ninguém Te fará mal! Pousou-lhe Jesus a mão direita sobre a cabeça, dizendo-lhe: – Fica com isto... Imediatamente a menina caiu num transe e alguém por ela anunciou maravilhas. O ambiente se encheu de pasmo, arrepios varreram a todos, gente chorava de alegria. Meu vizinho, um aldeão de cara muito feia, mas homem bastante probo, perguntou a Jesus: – É possível que nos diga alguma coisa sobre a Verdade? Depois de fitá-lo bem, falou-lhe Jesus: – Deus encerra toda a Verdade, porque Nele tudo é, assim mesmo como Ele está em tudo. Portanto, filho de Abraão, em ti estão Deus, a Lei, a Justiça, a relativa liberdade, a imortalidade e a responsabilidade. Essas são as verdades principais, que se desdobram ao infinito, mas que se resumem em Deus. Portanto, para que entendas bem, e vivas em paz, convém saber que a Verdade está dentro de cada um de nós. A cada um cumpre, por isso, viver a Verdade interior. A Lei, de que falamos há pouco, diz respeito a essa divina realidade. Quem reconhece a Deus no seu íntimo, por certo faz tudo para viver segundo a Lei; e quem assim vive está livre das trevas exteriores. Como vedes, ninguém é proibido de triunfar, bem assim como ninguém é livre para fazer o que bem entenda. Uma velha apresentou-se com uma criança ao colo, dizendo estar febril. Jesus ordenou que a menina, que fizera profetizar, lhe pusesse as mãos na cabeça, orando a seguir. A menina foi presa de novo transe, invocou a Deus e abençoou a criança. Jesus disse à velha: – Se queres, podes ir. Ela rogou: – Senhor! Eu quisera ouvir-Te... – Por que me tratas de Senhor? – Porque minha filha é profetiza, e um espírito bom fala por ela, havendo dito que és o Messias. Foi esse espírito que aqui me ordenou vir, a fim de curares minha netinha. Jesus, em Sua pobreza, era majestoso. De Suas palavras emanavam tanta graça e tanta ventura, que de fato fascinava, prendia àqueles que conseguiam sintonizar com Ele, e não fora de admirar que aquele grupo de sitiantes, cheio de prevenção, dentro em pouco ali estivesse, apenas para Lhe sugar as doces palavras e os conselhos sublimes. E se digo pobreza, referindo-me à sua indumentária, é porque considero que de fato andava pobremente vestido. Naquela ocasião estava limpo, com a Sua túnica opalina parece que um tanto diáfana, mas descalço. Sua barba, e o Seu cabelo, deviam ter sido untados com alguma essência oleaginosa, pois brilhavam e estavam bem penteados. Todavia, embora de estatura mediana, era muito bem proporcionado, sendo de belas feições e gestos suaves. O que fazia pensar não eram apenas as Suas palavras, mas o Seu todo, principalmente o Seu modo de olhar, pois devassava o íntimo dos interlocutores, afirmando pelo certo e refutando os pensamentos errados, antes que os anunciassem. Eu temia falar-Lhe. Por isso, saí para fora, com o intuito de falar a algum discípulo Seu. Encontrei um homem, ainda jovem, também vestido como os Nazireus, porém mais alto. Pela sua vestimenta, podia-se ter certeza de que era da companhia de Jesus; e pelas suas palavras, percebia-se que já havia saturado suas esperanças, tendo por certo que Jesus era o Messias anunciado desde séculos. – Então – perguntei-lhe – tem por certo que Jesus é o Cristo que deve vir? – Sim, toda a certeza possível a um homem que conhece a ciência dos nossos maiores Profetas. Porque nenhum fez mais do que Jesus está fazendo, sem contar o mais importante fato que há de suceder; que no terceiro dia ressurgirá dos mortos, nos virá encontrar e nos guiará nos serviços de consecução de Sua obra messiânica, até que sejamos batizados em Espírito. – Como te chamas, meu rapaz? – perguntei-lhe, cativado pela sua sinceridade e candura. – João. – Diga-me, então, por favor: que fato mais te prova toda essa certeza? – Milhares de fatos, meu senhor. Jesus tem feito maravilhas incalculáveis! – Quais, porém, as principais, a teu critério? Sem pensar um segundo, respondeu-me: – A transfiguração e o contato com os espíritos rebeldes. – Podes, se quiseres, explicar-me isso? Eu nada sei dessas coisas. João explicou-me: – Fomos convidados pelo Mestre, para irmos ao alto do Tabor. Uma vez lá, começou Ele a clamar por Moisés e Elias. Aos poucos, uma névoa formou-se, e foi-nos envolvendo, até que ficamos por ela cobertos. A seguir, aumentou de brilho, e Jesus foi se tornando radiante, primeiro de um tom róseo, depois de um branco refulgente, a ponto de não se Lhe poder encarar de frente. Ouvimos, então, palavras estranhas, tendo com muito custo conseguido abrir os olhos, para ver de quem seriam. E vimos, então, Moisés e Elias, que falavam com Jesus, e diziam de Sua partida deste mundo, que seria através de um grande sacrifício, como estava anunciado nos Profetas. – Que significação teve, para vós outros, esse contato com os nossos grandes instrutores? – Jesus mesmo nô-lo disse, afirmando que tínhamos tido o testemunho devido, da parte de um mesmo espírito, em duas vidas diferentes. Como Moisés, o transmissor da Lei e orientador em geral; como Elias, o restaurador, aquele que livrou a Israel da grande corrupção encabeçada e sustentada por Jezabel, como está escrito nos Livros dos Reis. Para nós, entretanto, não seria necessária a Sua palavra, pois vivemos, naqueles momentos, glórias que valem pela eternidade no seio de Deus. Jesus é o Cristo que deve vir. – E se não ressurgir dos mortos? Sorrindo, talvez de minha ignorância, respondeu: – Mas ressurgirá! Sim, Ele virá a nós e far-nos-á o prometido. Quem fala e faz, tudo quanto faz, com tamanha autoridade, não pode fracassar. Deus tem estado com muitos homens em Israel, mas jamais esteve com outro, como está com Jesus. Por isso, Ele virá e batizará em Espírito, e ninguém ficará órfão. Fitei-lhe o belo semblante, levemente iluminado, e vi que seus olhos brilhavam, refletindo um estado místico superior. Lá dentro, a voz de Jesus, suave e de um timbre penetrante, dava resposta a quantas perguntas Lhe fossem feitas. – Quando se dará o sacrifício de Jesus? – perguntei-lhe. Com acentuada tristeza na voz, comentou: – Cremos que está para muito breve, por duas razões: uma a morte do Batista, a quem Herodes tirou a vida; e outra, que se depreende das palavras de Jesus, pois avisa-nos sempre, ultimamente, que façamos tudo do melhor modo, porque não mais passaremos pelas cidades e lugares em visita. De fato, estamos a caminho de Jerusalém, e Jesus sublima-se... Há momentos em que não parece estar na Terra, mas sim no mundo luminoso de onde diz ter vindo, e de onde nós sabemos que de fato veio. – Que é feito dos muitos discípulos do Batista? – Alguns vieram a nós. Outros, bem avisados, nos aguardam em Jerusalém. – Que fareis, com a partida do vosso Mestre? – Por que não dizes nosso Mestre? – Sinto-me incapaz de tanta certeza. Bem sabes que muitos já se disseram o Cristo, fizeram prodígios, prometeram muito ou tudo e... Interrompeu-me ele: – Jesus é diferente, meu senhor. – Os que já passaram, João, também convenceram a muitos. Bem pode ser que tenha Jesus alguns poderes a mais, sem entretanto ser o Cristo que deve vir. Acho melhor aguardar os acontecimentos. Convém desconfiar. Mas, dizei, que fareis com a morte de vosso Mestre? Com sua triste serenidade e confiança, afirmou: – Aguardaremos a Sua volta como espírito. Ele, que nasceu para tornar público o culto da Revelação, não há de ser o primeiro a se revelar? Demais, temos visto e ouvido, Ele fala com os invisíveis a todo instante. Verdadeiramente, senhor, para compreender a Jesus é necessário partilhar de Sua vida íntima, do Seu mundo real, que não é este. Confia em mim, que te digo toda a verdade possível. – Deus queira que Ele volte! Israel precisa de um novo alento!... Mas, como dizes que teremos a Revelação à vontade, que dizes de João Batista? Ele já vos falou alguma coisa? Já se revelou? Admirado, João perguntou-me: – E por que não o faria? – Então, se podes, conta-me algumas coisas. Que disse ele? – Assim que Jesus soube de sua morte, convidou-nos a sair da cidade. Fomos a um lugar solitário e fizemos orações, tendo Jesus, dentro em pouco, entabulado com ele conversação. Já te disse, Jesus fala abertamente com os Seres Invisíveis. João triunfou, e o Cristo triunfará, para todo o sempre, isso é que nos importa, a nós os Nazireus, o que resta do profetismo hebreu, da multimilenar escola de sábios espiritualistas. – Sois muito misteriosos. Tendes lá os vossos segredos, embora se vos reconheçam os valores de caráter e os remédios que sabeis indicar. – Devias querer os ensinos de Jesus... – murmurou João. – Por quê? – O que muitas gerações cultivaram às ocultas, Jesus veio tornar público. Realmente, meu senhor, todos ficarão sabendo, com o Batismo de Espírito, aquilo de que se tem tratado nos Cenáculos Nazireus. Jesus rasgará o véu dos tempos e fará toda a carne herdeira da Revelação. Ele nos tem avisado sobre isso, e nós sabemos que o fará. Senti em mim uns repelões, aparecendo a seguir noutro lugar, tomado de febre mortal. De fato, deixei o mundo carnal, dias depois daquele contato com Jesus e os Seus discípulos. Chamava-me alguém, ao longe, bem ao longe. Tendo feito algum esforço, procurei atender, acordando. Estava ao lado daquele poderoso mentor, que me sorria, todo benevolência. – Muito grato... Muito grato por tudo. Vi a Jesus! Eu O vi!... Disse-me ele: – Vamos embora, que agora podes tratar do teu amigo Glicério. – Sim. Mas deixa-me olhar para estas terras, estas montanhas, estes vales, ao menos uma vez mais. Sempre que possa aqui vir, terei em mente as imagens daquilo que revivi. Tenho a impressão de que ouço ainda a voz de Jesus... Não parece que Ele está por aqui?... – É um fenômeno comum, Lira. Além do relacionamento pela imagem, que favorece a memória e revivesce os feitos, há que contar com a lei psicométrica, com a faculdade que permite captar as ondas imanentes. Nesta casa Jesus pernoitou várias vezes, curou enfermos, fez discursos, respondeu a muitas perguntas. Centenas, milhares de pessoas aqui estiveram, vibraram, riram e choraram... E tudo isso está lavrado, está escrito em forma de gravação vibratória, e gravação que podemos sondar, e captar, pelos sentidos psíquicos devidamente despertos ou preparados. Nada há de misterioso nem de milagroso; tudo comum, tudo segundo leis. Se as impressões ficaram, de algum modo podem ser captadas. Demais, em certos dias, ou determinadas épocas, alguns vultos visitam estes lugares, meditam, rememoram, e com isso recalcam ainda mais as imagens sublimes. – Também viveste por aqui? – Eu era o sitiante, dono deste sítio... Não me reconheces? Minha vontade fora dobrar os joelhos diante dele, o sisudo Alimelech, que eu nunca poderia reconhecer, revestido de tamanha autoridade e poder, como se achava agora. Ele, entretanto, abraçou-me com fervor, levantou-me o rosto e ordenou-me enxugar as lágrimas que me escorriam pelas faces.
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