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Capítulo 7 de 17
Deus — parte 7 de 17
Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro
Partindo em busca do segundo caso a atender, penetramos sombrio casarão, velho pardieiro cujas paredes se achavam imantadas maleficamente, saturadas de fluidos venenosos. Prédio abandonado, julgado mal-assombrado, devíamos subtrair dali um espírito, uma senhora, cujo tempo de torturas havia terminado. Tornando-nos invisíveis, visitamos demoradamente os poeirentos compartimentos, e tomamos contato com alguns focos de irradiações altamente perniciosas. Um deles, o pior de todos, era o quarto onde um homem se suicidara, então sala de jogo, e instrumento da infeliz empreitada. O espírito ali estava, com o punhal enterrado no peito, rolando pelo chão, ora apelando aos santos, ora blasfemando, e sempre enviando suas negras ondas mentais saturadas de energetismos imundos. Um outro compartimento, o segundo na classificação hedionda, era uma sala ampla, ainda com vestígios de orgias e desbragamentos de variada ordem, onde algumas criaturas se engalfinhavam, homens por causa de mulheres e estas por causa daqueles, num fragor tremendo, devotados à sanha lasciva. Dantesco espetáculo que aí se deparava, embora menos aterrador do que o primeiro. Trancafiados no compartimento sanitário, assustadiços, temendo o que se passava nos demais lugares da casa, de onde vinham berros, gritos, ameaças, blasfêmias, xingamentos, etc., estava um casal de velhos. As fisionomias provavam o que lhes ia pelo ânimo, bem assim como testificavam o estado de culpabilidade. – Essa é a mulher? – apontou Sabino. – Sim, essa é a mulher de Glicério, é Nina. – Esse homem é o segundo marido? – Sim, Castro lhe foi o segundo marido. Vinham jogar, e tanto se enfronharam nas lides da jogatina, que ao desencarnarem para aqui se deslocaram. Como tudo se foi piorando, até o fechamento por causa do suicídio havido, foram eles temendo os acontecimentos, trancafiando-se neste compartimento. Aqui se encontram há dezenas de anos, temendo e sofrendo, projetando a saída que nunca se concretiza. É, afinal, apenas um estado infernal ou coisa que o valha. Devemos encarar tudo genericamente, só partindo no rumo das especificações para efeito de atividades socorristas. Uma é a Lei e uma é a Justiça, sendo o mais tudo mera questão de ângulo de focalização cominatória. Cada culpado acha-se em situação e condição específicas perante a Lei e a Justiça, devendo o serviço socorrista ser levado a cabo conforme as especificações, assim como se processa a justiça terrícola, que faz o culpado encarar o Código através do mecanismo judiciário-processual. Jesus não ensinou que uma falta, por mínima que seja, afeta a Lei Geral? – Isso é elementar. Simplesmente se entende. – Muito bem; mas não seria melhor evitar os erros e as penas? – Sim, também isso é elementar. Para que forçar a Lei e a Justiça no rumo das punições e no sentido expiatório? Mas... Quem faria a humanidade ser diferente? Ainda bem que a Lei de Deus é perfeita e a Sua Justiça Impoluta. Eu, entretanto, não saberia como resolver o problema... Parece insolúvel! – Você, Sabino, arrasta um passado altamente comprometedor. Mais do que ninguém deve encarar o caso pelo prisma real, isto é, da interioridade de todos os recursos e fatores da vida... Admirado, interrompeu-me: – Eu?!... E daí?... Primeiramente lembrei-lhe um pouco de sua história; a seguir, disse-lhe: – Toda essa gente, bem assim como nós, encerra todos os elementos e fatores fundamentais. Tudo é íntimo, seja a origem, sejam os valores em potencial. Para ser assim, é claro, são íntimas a Lei e a Justiça. Logo, não façamos questão de libertar a humanidade, sem ser pela individualidade. Cada um de nós é independente perante as leis fundamentais da Vida Total, não podendo haver bem geral, sem ser através do bem individual. Lembre-se disto – Jesus não falou em Céu a torto e a direita, mas segundo as obras, individualmente. Essa gente, assim como nós, só tem aquilo que fez por ter, isto é, segundo como acionou intimamente a Lei e a Justiça. Por isso mesmo, Sabino, é que vimos pregando contra os velhos e obsoletos conceitos a respeito da dor. Uma vez que somos, em parte, juizes em causa própria, façamos um pouco mais de obras decentes e um pouco menos de ladainhas nauseantes e mentirosas, bem assim como devemos procurar conhecer o mecanismo da Vida Total, a fim de conduzirmos a vida individual pelo prisma da melhor conduta. É tão absurda a conduta de quem se revolta contra Deus, ou a Deus nega, como é absurda a atitude daquele que pretende ser racional ao tecer ladainhas à dor. Deus quer caridade e não sacrifício; quer ser amado de todo o coração, e com toda a força da inteligência. Quem quiser fazer em contrário, lembre-se de que está caindo em falta, porque negar a Deus nada resolve e lambetear a dor é ato de hipocrisia. Quando muito, cumpre-nos respeitar a dor missionária, porque ela simboliza a própria renúncia! – Bem... Tudo continua como dantes, não é? Porque nada lhe respondi, volveu, com interesse: – Que sabe a meu respeito? Disse que sou muito culpado... – Nina e você devem faltas praticadas em comum. Espere pelo seu esclarecimento. Não tenha pressa agora, que de nada adiantaria. – Eu e Nina? Em outros tempos, talvez. – Isso mesmo, em outros tempos, mas no decurso do Cristianismo em marcha. Abanou a cabeça negativamente, lastimando-se: – Que pena! Mas, saiba Jesus, qualquer que tenha sido a minha conduta, nalgum tempo, disso me arrependo e desejo tudo fazer a bem de Sua Causa. Sinto que um vulcão me estoura no íntimo... Há um ardume em minha alma... – Sabe o por quê? – Não. Mas sei que há motivo. Peço que me ensinem, que me amparem. – Não tenha receio algum, Sabino. É que, independente de nossa consciência, ou de nosso alcance intelectual, a Lei e a Justiça se movimentam, através de períodos, de ciclos, afetando nossa organização em geral, forçando no rumo devido, sempre indicando a Finalidade Sagrada. Cumpre não esquecer também este princípio, que é apenas conseqüente – sentir a Lei e a Justiça como fatores íntimos é a mais perfeita maneira de se confiar em Deus. Todos aqueles que, por evolução, atingiram a vivência desse estado, recomendam-no como sendo a regra perfeita. É o estado intelecto-moral que significa a sintonia monística levada a termo, conforme o ensino de Crisna, ensino que o Cristo endossou totalmente, aumentou e recomendou acima de tudo, como regra de conduta básica. Quem sente no íntimo a vigência perene da Lei e da Justiça, não dormita em seus deveres e não se exalta nos seus merecimentos; é harmônico, é cheio de temperança! – Quem te ensinou isso? – Abel. É enorme a sua biblioteca... Mas, parece maior ainda a sua bagagem evolutiva... – Você já me disse, de ter ele hospedado a Jesus durante a Sua romagem pela carne. Isso, penso eu, deve ter-lhe valido muito. – Espere, espere um pouco – interrompi-o – pois isso não é tudo. Hospedar o Cristo terá sido bastante, mas ser da mesma Escola já é muito mais. Naqueles dias, como vi e revivi, Abel era da Seita dos Nazireus, da nata essênica. Pelo que me é dado supor, Abel vem de muito longe na trilha do verdadeiro culto espiritual. Eu não tenho alcance para falar, mas sei que é muito mais evolvido nas Verdades Básicas do que parece. – Vou pedir-lhe auxílio... – Não é necessário. Deseje o bem, e de tudo ele saberá, fazendo o possível, no âmbito da Lei, a fim de auxiliá-lo. Todavia, lembre-se, faz-se necessário merecer. E, agora, vamos conversar com estes dois? Pensativo, murmurou: – Vamos, façamos o bem. Pelo menos teremos feito o bem ... Observei-o, pelo tom em que se pronunciara: – Por que, esse modo de falar? Sente-se desencorajado? Num meneio de cabeça, balbuciou: – Há momentos em que todos os recursos se resumem no bem. Sentimos que tudo pode falhar, menos o amor... Então, sentimos o peso das faltas pretéritas, todas aquelas faltas cometidas, conhecidas e desconhecidas, considerando o quanto se perdeu. Bem... Como a vida não tem fim, e é obrigatório atingir a plenitude da evolução, façamos o possível... Gostaria muito de dormir um sono profundo, esquecer o passado, acordar um outro homem... – Simples fenômeno de ordem psicológica, qualificado simples apelo da esfera conservadora, vindo à tona até inconscientemente. Entretanto, deixemos tais devaneios, compreendamos a Lei como ela é. Afinal, não está ela ao nosso dispor, quando agimos bem? Não é vigente para todos os efeitos? Erga-se, pois! – Bem, vamos conversar com essa gente. A vida continua, tudo continua... Fazendo vigorar a vontade, tornamo-nos visíveis. Aqueles dois tomaram-se de pavor, querendo escapar, dando-se a gritos desesperados. – Parem! – gritei-lhes – Nós somos trabalhadores do bem! Estacaram, sorriram, vieram ao nosso encontro, junto à porta. Mudaram fundo num lapso de tempo. – Aqui estamos, senhores! Aqui estamos! – disse Nina, fremente. Sem tirar os olhos do chão, Castro repetiu: – Sim, aqui estamos... Faz muito tempo, muito tempo!... Disse-lhe da ordem superior: – E você, por um pouco, ainda ficará aqui. Não tenha receio, porque em tempo o viremos buscar. É questão de Justiça. Castro fez mil e um apelos, disse tudo quanto sabia em benefício de sua causa e de sua profunda ligação com a esposa; desejou, prometendo tudo quanto lhe era possível, a fim de acompanhá-la, fosse para onde fosse. – Não – tal foi a resposta que lhe dei, cumprindo ordens superiores. Fazendo esgares, reclamou: – Não saberá Deus o quanto me arrependo? Como pode ser assim? Nina disse-lhe o que pode, compenetrada de que sujeitar-se faria melhor; mas o esposo não conseguia, ainda, entender assim, pelo que desandou a dizer palavras que valiam por blasfêmias. Foi então que lhe disse: – É por isso mesmo que não pode acompanhá-la; não vê que se rebela contra a Justiça Divina? Ou julga ser mais e melhor? Inconsciente da Lei, exclamou: – Deus bem que me poderia perdoar! Perdoa a uns e não a outros! Sabino observou-lhe: – Não diz um ditado, caro amigo, que melhor fala aquele que em tempo certo cala? A ninguém assiste o direito de dizer tantas asneiras, impunemente. Enquanto ele olhava cismático para Sabino, esclareci-o: – Perdão não existe, amigo Castro. Prevalece a Justiça acima de tudo, Justiça que garante integral acervo de obras ressarcitivas. Em outros tempos, em virtude da falta de melhor compreensão, da parte dos homens, foi o perdão proclamado, por constituir um modo de recorrer à renovação de conduta. Quem deseja o perdão deve construir o perdão... E isso quer dizer ato de reparação, o que não é propriamente perdão. Como ficasse estático a me investigar, com os olhos arregalados e os ouvidos atentos, emendei: – Não é certo que esposou, durante a vida carnal, teorias e conceitos contra Deus e contra o sentido de responsabilidade espiritual? Por que, não cuidou antes do maior de todos os bens? Atravessou o túmulo em condições de perfeita brutalidade espiritual, não foi? O dinheiro, os gozos mundanos, a falta de caridade, a exploração dos semelhantes, e tantas outras atividades menos corretas, isso é que teve como religião, não é? Se não foi decente para com os semelhantes, como quer obter a tolerância da Lei? Baixando a cabeça, num amuo disse: – E ela?... – Teve outras vidas e outros méritos, que ora lhe valem ponderosamente. Encarando-me numa surda indagação, mereceu a resposta: – Sim, também teve muitas outras vidas. Todos nós temos tido muitas vidas e muitas atuações... Mas, entenda, a Lei é Absoluta e a Justiça Impoluta! Se a sua condição é tal, perante a Lei, a situação jamais poderia ser outra. Quando aprender a ser fiel, tudo há de melhorar. E agora nos iremos... Avançou e prendeu Nina em seus braços, berrando: – Nunca! Não deixo! Não a largarei!... Havia ordem e fizemos o devido; projetamos-lhe descarga energética, que o fez atirar-se a um canto, espavorido e torvo. Enquanto ele dizia coisas sem nexo, Nina obedecia nossas ordens, preparando-se para sair. E, tudo segundo as disposições indicadas, demos com ela entrada num departamento educacional, pois sofria muito mais do espírito, do que do corpo astral.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.