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Capítulo 1 de 17
Deus — parte 1 de 17
Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro
Eu Sou a Essência Absoluta, Sou Arquinatural, Onisciente e Onipresente, Sou a Mente Universal Sou a Causa Originária, Sou o Pai Onipotente, Sou Distinto e Sou o Todo, Eu Sou Ambivalente.
Estou Fora e Dentro, Estou em Cima e em Baixo, Eu Sou o Todo e a Parte, Eu é que a tudo enfaixo, Sendo a Divina Essência, Me Revelo também Criação, E Respiro na Minha Obra, sendo o Todo e a Fração.
Estou em vossas profundezas, sempre a vos Manter, Pois Sou a vossa Existência, a vossa Razão de Ser, E Falo no vosso íntimo, e também no vosso exterior, Estou no cérebro e no coração, porque Sou o Senhor.
Vinde pois a Meu Templo, retornai portanto a Mim, Estou em vós e no Infinito, Sou Princípio e Sou Fim, De Minha Mente sois filhos, vós sereis sempre deuses, E, marchando para a Verdade, ruireis as vossas cruzes.
Não vos entregueis a mistérios, enigmas e rituais, Eu quero Verdade e Virtude, nada de “ismos” que tais, Que de Mim partem as Leis, e, quando nelas crescerdes, Em Meus Fatos crescereis, para Minhas Glórias terdes.
Eu não Venho e não Vou, Eu sou o Eterno e o Presente, Sempre Fui e Serei, em vós, a Essência Divina Patente, A vossa presença é em Mim, e Quero-a plena e crescida, Acima de simulacros, glorificando em Mim a Eterna Vida.
Abandonando os atrasados e mórbidos encaminhamentos, Que lembram tempos idólatras e paganismos poeirentos, Buscai a Mim no Templo Interior, em Virtude e Verdade, E unidos a Mim tereis, em Mim, a Glória e a Liberdade.
Sempre Fui, Sou e Serei em vós a Fonte de Clemência, Aguardando a vossa Santidade, na Integral Consciência, Pois não quero formas e babugens, mas filhos conscientes, Filhos colaboradores Meus, pela União de Nossas Mentes. RESTAURANDO A VERDADE No estado evolutivo atual da Humanidade, o conceito mais aproximado que se pode fazer da Divindade, é que se resume em Amor, Ciência e Poder no sentido Absoluto. O espírito, que é uma centelha do Espírito Total e anima o ser, necessita, para a sua evolução, empreender longo trajeto através da substância nas suas diversas modalidades – movimento, energia, matéria – a fim de ganhar cada vez mais amor, consciência e personalidade – objeto da vida – tendo por meta a felicidade. Esse dinamismo constante dos seres em busca da perfeição e do bem-estar é manifestado através da fenomenologia universal e constitui o que chamamos – a Revelação. Um elemento básico, fundamental capacita-os à execução desse exercício revelacionista – é a mediunidade ou Espírito Santo ou Paracleto. As entidades emanadas seguem, assim, no ritmo dialético, o curso palingenético das sucessivas existências dentro e fora da matéria. Por um simples exame do que ficou exposto nessa base filosófica substancial e singela, fácil nos é compreender o seguinte: que a religião, do latim religio de religere ou religare, isto é, tornar a ligar, nada mais vem a ser do que um conjunto de preceitos pelos quais o homem se credencia a compreender, com exatidão e inteligência, a sua verdadeira posição na espiral evolutiva que abrange todo o Universo e a relação que o conexa ao Espírito Absoluto do Emanador. Capacita-o igualmente a saber fazer uso conveniente do referido elemento mediúnico em seu próprio benefício e no de seus semelhantes. Logo, religião quer dizer ciência, nada tendo a ver com as instituições apócrifas geradas pelo capricho dos homens ou erigidas como escudo dos seus interesses imediatos e desonestos, conforme as conhecemos hoje. É o verdadeiro estudo da Lei desvencilhado dos preconceitos que geram o dogma. É filosofia por excelência. Conhecer o espírito da Lei e seguir o seu ritmo construtivo – eis o seu objetivo primacial. Por tudo isso e em boa lógica, verifica-se que não pode haver senão uma única religião, porque uma é a Verdade que promana de um só Deus e não há outro caminho que nos possa conduzir com precisão ao seu conhecimento senão a Ciência conjugada ao Amor. Portanto, seja qual for a crença do indivíduo na Entidade Suprema, esta será sempre idêntica a si mesma, de Natureza Invariável e Absoluta para todos os crentes. Da diversidade de compreensão sobre essa Natureza é que surgem as seitas que se dizem religiosas, todas elas eivadas de erros fundamentais, todas incrustadas de ritualismo inoperante, apoiando-se absurdamente no dogma, assim como o parasita, para viver, agarra-se à sua presa, conduzindo-a à regressão e degradando-a, de onde surge o mais deprimente ignorantismo. No entretanto, com essa atitude criminosa, apenas entorpece a marcha da evolução, atirando o homem cada vez mais ao látego da dor. Deus não se define porque é Absoluto e o que é Absoluto é Infinito, não se constringe a formas. Ao intentar fazê-lo, o crente apenas acaba por definir o seu próprio grau evolutivo, o seu tipo de consciência, pois nem todos podem ter a mesma concepção de Deus. Dizia Max de Nordau, que se o macaco tivesse noção de Deus, provavelmente o figuraria na compleição de um gigantesco macaco; há fundamentos de Verdade nessa afirmação. Um homem civilizado não concebe o Ente Emanador pela mesma forma com que o faz o selvagem. São graus evolutivos distintos. Do fetichismo, o homem transitou para o politeísmo, para o monoteísmo e agora marcha para o monismo, aproximando cada vez mais da Verdade o conceito a formar do Ente Supremo. Não mais o deus antropomorfo, eivado de vícios e paixões humanas, deus encolerizado que se vinga e castiga por despeito e ira. Deus – Espírito e Verdade, a Vida que estua no Universo inteiro, que fala no íntimo de todas as coisas, Deus Onipresente, Onisciente, Onipotente, Foco de Eterno Amor. A religião verdadeira religa o espírito do homem à fonte de onde promanou; se ele se transvia, há o recurso da conversão do transviado ao caminho certo através da Revelação, que mais dia, menos dia, tocará o seu tipo de consciência. Quantos, até hoje, não se converteram à Verdade? Quantos não foram, antes disso, recalcitrantes pedras de tropeço à marcha ascensional? Desde Balaão, que se prosternou ante a voz censora da Verdade, desde Saulo, tenaz perseguidor do cristianismo, convertendo-se no caminho de Damasco, até aos sábios de nossos dias, um Lombroso, um William Crookes, um Richet, um Aksakoff, um Ernesto Bozzano, etc., todos finalmente se renderam à evidência dos fatos que a natureza prodigamente nos oferece quotidianamente ao julgamento sereno da razão e do bom senso, e fizeram-no com a máxima honestidade mental. "Duro te será recalcitrares contra o aguilhão" – disse o Mestre e nós, cônscios da Verdade, o repetimos aqui à ciência incrédula e contumaz. Einstein – o gênio do nosso século, sentenciou: "O materialismo está morrendo asfixiado por falta de matéria". Edward Appleton, o líder das ondas hertzianas e especialista nas aplicações do radar, ao estudar os sinais captados pelo radiotelescópio – uma de suas adaptações – oriundos das profundezas siderais, parecendo vir das constelações do Cisne (fora da nossa galáxia), da Cassiopéia e de Puppis, acabou por concluir que deve existir, lado a lado, contíguo ao nosso Universo visível e identificável para nós por meios mecânicos, outro Universo transparente aos referidos instrumentos, não perceptíveis por esses meios, mas assinaláveis por meio de outros recursos, ou sejam os das ondas eletrônicas, não menos real do que o nosso. Essa arrojada, mas verdadeira afirmativa foi proferida, não em um simples diálogo entre amigos, mas em um conclave de mais de 4000 pessoas, onde se encontravam presentes inúmeros cientistas de fama mundial, promovido em Londres pela Associação Britânica para o Progresso das Ciências. Não há dúvida nenhuma: o homem caminha e agora em ritmo acelerado, para o esclarecimento da Verdade sublime, que o salvará desse entorpecimento somático causador da descrença e do desespero, da dor e da tribulação.
Heráclito Carneiro
Nina rondava o quarto, todo imerso em luz mortiça; circulava, amargurada e gemente, curtindo na alma a dor lancinante, o aguilhão pontiagudo a ferir-lhe em cheio a vida. Aquele menino, seu filho, com apenas cinco anos de idade, já lhe fora um sonho de amor, uma esperança vívida, uma realização feliz e muitos cálculos róseos para o futuro. Agora, ali estava, respirando fundo, largado, pálido e prestes a partir. Há momentos em que o Cosmo se reduz a um ínfimo acontecimento de ordem individual; em que toda a imensidão sideral se resume em nonadas; em que a fé se apaga, o pensamento se trai e a vontade se curva e embrutece. O Deus de Verdade, o Senhor Total, a Divina Essência, tudo se perde e some, deixa de ser e ter importância, quando a alma infernada clama e ninguém responde, quando o pensamento se atira e nas brenhas do Infinito o seu eco emudece, faz-se nada. Os últimos lampejos daquela fé estavam sendo gastos, consumidos, liquidados; Nina baqueava em face do filhinho moribundo, que ali estava, no meio do quarto, enterrado em vida entre luz mortiça e prantos de morte. Nina derretia suas lágrimas e queimava seus finais anelos religiosos. Mais do que a morte do filhinho, agonizava a sua crença, empalidecia o lábaro das certezas espirituais em seu coração de mãe aflita e de criatura imortal. Ela representava, uma vez mais, no dorso rugoso da terra e no painel rumoroso da história, a personificação da falibilidade humana, da contradição e do erro. Paulo era a luz que se apagava, deixando-a mergulhada em trevas. Paulo, que tal nome recebera, por injunção de sua fé, largava-a no mundo. Quando entrara para aquela igreja protestante, já moça e recalcada de sonhos os mais respeitáveis, porque francamente impostos pela ordem biológica, dera de frente, pela primeira vez na vida, com a figura imponente do grande convertido de Damasco. Glicério, o jovem pregador, o fogoso orador, considerando a obra culta e corajosa do mais culto e voluntarioso dos Apóstolos, para ela se erguia, no templo de sua afeição, à altura do grande vulto focalizado. Naquela hora, como se lhe falasse fado irrevogável, marcava o destino a sua caminhada, no rumo das mais suspirosas aspirações. De fato, ano e meio mais tarde, ei-los à frente do bispo, unindo-se perante o Senhor da Vida e dos infindos mundos. Para eles, tão jovens e tão esperançosos, uniam-se o Céu e a Terra! E quem poderia dizer que não? Quem lhes poderia negar tão simples ventura e tão ressomada aspiração humana? Nem tudo, porém, se reduz ao ignorantismo dos homens. Quem se encontra embutido no presente, vivendo apenas do momento, fazendo tinir apenas o cordilhame das impressões locais e épicas, não tem o direito de julgar a Sabedoria Divina, não pode se arrogar o privilégio de opinar e decidir sobre as origens e as finalidades. Se Deus soubesse e quisesse, apenas o que sabe e quer a mente dos homens, ainda que de todos os homens sábios, bem pouco saberia e quereria Deus! Não há dúvidas, portanto, de que os cálculos de um casal humano, sendo tão pobres de emolumentos básicos, viessem a combalir em face dos trâmites da Vida, ou defronte aos profundos arcanos da Sabedoria Divina, que traduzem as realidades fundamentais – a Origem, o Plano de Evolução e a Finalidade, fatores que encerram tudo quanto se contém na função de ser, existir e pretender. Nina e Glicério formavam, apenas, um par humano. Eram crentes protestantes; estavam, de certo modo, abraçados ao Cristo, ao Paradigma ou Divino Modelo. Em boa vontade possuíam tudo. E o mal foi esse mesmo, foi terem muito em boa vontade e pouco ou nada em conhecimentos fundamentais. É falso o conceito que afirma, ser possível amar a Deus, com toda a força do coração, mesmo quando não se comporta o recurso dos conhecimentos básicos, das Verdades transcendentes. Se a fé sem as obras é morta, porque não adianta mesmo clamar “Senhor! Senhor!” em vanidade, não é menos verossímil que, sem os apanágios do melhor conhecimento, também a fé bruxuleia e morre! Eles eram, de fato, um casal feliz, amoroso e compreensível até certa monta. A tragédia começou, entretanto, quando os acontecimentos atravessaram os limites extremos da fé cega que os alimentava e conduzia. No verdor da idade, e agrilhoados por absorvente paixão, não podiam admitir a tangência intransferível da Lei de causa e efeito. Ao se defrontarem com a Justiça Divina, que lhes cobrava, de dentro para fora, os compromissos do passado delituoso, perderam as estribeiras e lançaram-se no torvelinho das incertezas e das quedas. Glicério, seis meses depois de casados, vira surtir em si incurável mal. E começaram, então, os rogos ao Senhor. Deus e o Cristo fervilhavam em sua mente, enquanto escondia à delicada esposa o monstro que o ameaçava devorar por inteiro, e que não dava mostras de pretender recuar, nem mesmo ante suas invocações fervorosas. Definhavam, nele, aos poucos, o vigor físico e o poder da fé... A luta que sustentava, havia meses, em surdina, estava prestes a baquear. Os recursos da medicina e os arroubos da fé cega de nada valiam. E como não possuía aquela fé que se origina do conhecimento das leis transcendentes, fé que não se aloja apenas no arcabouço da vida terrenal e dos interesses que lhe são correlatos, eis que, de grau em grau, foi se entregando à desilusão em geral. Muitos haviam orado, rogado, e foram sarados. Por que não devia sarar ele? O Senhor não reconhecia nele o bom filho e o marido ideal? Não estivera sempre a postos, auxiliando a igreja e os irmãos? E como, então, na hora para si mais dolorosa, mais aflitiva, quando o seu corpo e o seu espírito tudo desejavam da Vida, não o escutava o Senhor? Nina acordara, certa noite, e ouvira soluços. Bem que vinha ela percebendo alguma variação na conduta psico-emotiva de seu amado esposo. Mas, sabedora de que crises há, passageiras, na vida de todo mortal, quietara qualquer indagação. Sem esforço, redobrara atenções e carinhos, na esperança de ver triunfar aquele que um dia, visto pela primeira vez, fizera morada em seu coração de moça. – Que tens?! Que se passa contigo?!... – indagou, sobressaltada. E ouviu, do jovem esposo, a história dolorosa: – Nina, meu bem, sou um caso perdido... Nem mesmo Deus quer me valer... – Não te oprimas tanto, meu querido. Pediremos preces a todos os irmãos. O Senhor não nos olvidará, tenho certeza. Tens pedido, muitas vezes, por quantos irmãos recorrem ao Senhor. Como não farão por ti? E novas elucidações do marido: – Já pedi a muitos... Dois meses há que centenas oram por mim... – Eu nunca vi nem ouvi que orassem por ti! – replicou ela, admirada. – Roguei sigilo, meu bem. Pensava triunfar sobre o mal, sem que viesses a saber e a sofrer. Entretanto, não me ouve o Senhor!... Em que não lhe sou fiel adorador?... Compreensível, interveio Nina: – Não te dês à descrença. Lembra-te de Jó, a quem valeu o Senhor na hora justa. Que sabes tu das graças de Deus? Não percas a fé, não esmoreças... Se me falhas, querido, como ficarei no mundo? Estou para ser mãe, bem sabes... Vamos dizer a Deus, em nossas orações... – Antigamente... – gemeu o esposo, silenciando a seguir. – Antigamente o quê? – volveu a esposa, enxugando as lágrimas no rosto de seu marido. – Lepra era praga... Antigamente era praga... Nina emudeceu, fez-se grave; pouco depois, num amuo, pronunciou-se: – Deus não pode amar menos do que eu! Ou não há Deus!... Daquela hora em diante, não se ouviram mais palavras. As lágrimas, vertidas em surdina, passaram a falar tudo e a considerar o pior dos credos, porque o credo negativo, porque a falência do espírito perante as leis de causa e efeito.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.