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Capítulo 18 de 20

34 – Cristianismo em Espiritismo

Cristianismo e Espiritismo · Léon Denis

A Religião Espírita

Aos mais ortodoxos, que não aceitam em hipótese alguma o caráter religioso do Espiritismo, favor ler o capítulo presente como “A prática espírita”. Porém, considerando então a possibilidade de uma neorreligião, ou seja, uma religião pura, que nos religue intimamente a Deus e à espiritualidade, temos de discorrer sobre a maneira prática de vivenciá-la. E para isto temos toda a coerência da codificação kardequiana, especialmente o monumental livro “O EVANGELHOS SEGUNDO O ESPIRITISMO” — o melhor compêndio moral de que temos conhecimento. A questão é: caminhamos para dois séculos de Espiritismo — a Terceira Revelação — e quanto ainda há de misticismo e controvérsias no meio espírita, por culpa exclusiva do Movimento Espírita, não pelos fundamentos da própria Doutrina — que é de uma incrível consistência e clareza. E por quê? Pelo fato de ainda estarmos mais ou menos envolvidos com os costumes seculares das demais práticas religiosas que temos abraço ao longo de uma série de reencarnações.

Também pela tentação do sincretismo cultural brasileiro, até como forma de angaria a simpatia dos que venham de outra corrente religiosa, até como pretexto de melhor “acomodá-los”, num processo de transição. Assim é que vemos um forte igrejismo na prática espírita. Os Centros Espíritas, que deveriam lembrar mais uma escola, parecem-se mais com igrejas — são os templos espíritas, como se fossem um lugar sagrado, uma tenda mística de oráculos. Como se não bastasse a confusão que se faz com os cerimoniais primitivos, sobram ainda a mescla com outras filosofias ditas similares, provindas do orientalismo e culto africano. É assim que vez ou outra nos deparamos com clichês do tipo indumentárias e paramentos — como a exigência de roupa branca —, bem como recomendações do tipo “tirar o chapéu

35 – Louis Neilmoris e descruzar as mãos e os pés para receber o passe”, ou ainda “abrir o recipiente para fluidificar a água”... Ora, o procedimento espírita deve ser pautado numa explicação positiva, lógica, justa e produtiva. Se os fluidos atravessam paredes, logo, não há por que destampar uma garrafinha para magnetizar a água nela contida. Se alguém conhecer uma teoria plausível que justifique tal ato, que nos apresente. Quando nas orações coletivas se aconselha para que todos fechem os olhos é para evitar distrações, para uma melhor concentração. Logo, há algo concreto nesse procedimento. No entanto, é algo a ser aconselhado e não ditado, como ordem. Não pode haver censura. Além do que, a ninguém cabe subestimar a capacidade do outro mergulhar profundamente na oração, esteja ele com os olhos abertos ou fechados, esteja sentado ou em pé, etc. Tem também o rigor da disciplina, disciplina e disciplina... Igualmente, circunda o meio espírita um fenômeno típico humano que é o da polaridade, de se saltar de um extremo a outro, substituindo um extremo por outro.

É o que se testemunha em comportamentos como o de imergir para o campo social e desprezar a necessidade do conhecimento sob o pretexto de uma certa “humanização”, em detrimento do cientificismo frio. Isto equivale a trocar o pão espiritual pelo pão material. Neste cenário, o intelectual é quase sempre imputado como uma biblioteca ambulante, elitista e empoeirada. Vemos comumente um tanto de preconceito contra aqueles que primam pelo conhecimento. Ah...! Há muito o que ser reformado! Mas devemos lembrar que também o Movimento Espírita caminha na senda evolutiva; que mesmo com tantas imperfeições, já tem dado grande contribuição para a neorreligião; que tem despertado muitas consciências e acendido a esperança de um porvir promissor.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.