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Capítulo 17 de 20

32 – Cristianismo em Espiritismo

Cristianismo e Espiritismo · Léon Denis

do futuro, nada há que a razão mais exigente possa recusar”. O LIVRO DOS ESPÍRITOS, Allan Kardec – Conclusão, Item V Kardec teve o cuidado de não definir sua tese como uma nova religião, pois os reflexos seriam totalmente negativos. “Porque, então declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública.

Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.” REVISTA ESPÍRITA, Allan Kardec - Ano XI, Dezembro 1868, vol. 12, “Discurso de Abertura pelo Sr. Allan Kardec: o Espiritismo é uma religião?” Também respondeu convicto, na abertura do discurso supracitado: “Se é assim, perguntarão: então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores! No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a Doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza.” Realmente é um tanto confuso, mas porque precisamos concluir — logicamente sem pretender fechar a questão —, simplificaremos nossa posição conjecturando assim: àqueles que não admitem haver uma religião destituída das formatações convencionais (hierarquia, liturgia, cultos exteriorizados e separatismos ideológicos), então o Espiritismo nunca será uma religião.

Para os que admitem que, entre tantas acepções, o vocábulo religião também é enriquecido com a interpretação do formato puro (de religação sensorial e afetiva), conforme a proposta kardecista, então a prática espírita se adéqua como religião. O ideal seria mesmo que houvesse outra palavra que justamente expressasse esse nova forma religiosa. Como não há, opino particularmente que, para fins práticos, estamos mais inclinados a responder sim do que para não, porque a ideia de uma ciência filosófica é muito fria, insensível — e isto o Espiritismo não é. Aliás, o terceiro livro de Kardec é essencialmente religioso — "O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO" — e expressa abertamente esse caráter, desde o primeiro capítulo, traçando até um horizonte futuro de unificação entre todas as concepções humanas, científicas, religiosas e filosóficas. A Ciência e a Religião são as duas alavancas da inteligência humana: uma revela as leis do mundo material e a outra as leis do mundo moral. Tendo, no entanto, essas leis o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se. Se uma fosse a negação da outra, necessariamente uma delas estaria em erro e a outra com a verdade, pois Deus não pode

33 – Louis Neilmoris pretender a destruição de sua própria obra. A incompatibilidade que se julgou existir entre essas duas ordens de ideias vem apenas de uma observação defeituosa e de excesso de exclusivismo, de um lado e de outro. Daí um conflito que deu origem à incredulidade e à intolerância. Chegou o tempo em que os ensinamentos do Cristo precisam ser completados; em que o véu lançado intencionalmente sobre algumas partes desse ensino tem de ser levantado; em que a Ciência, deixando de ser exclusivamente materialista, tem de levar em conta o elemento espiritual e em que a Religião, deixando de ignorar as leis orgânicas e imutáveis da matéria, como duas forças que são, apoiando-se uma na outra e marchando combinadas, se prestarão mútuo auxílio. Então, não mais desmentida pela Ciência, a Religião adquirirá inabalável poder, porque estará de acordo com a razão, já se lhe não podendo mais opor a irresistível lógica dos fatos.

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, Allan Kardec - Cap. I, item 8. O modelo religioso espírita se distancia das religiões tradicionais na mesma proporção em que o modelo científico espírita se distancia da ciência clássica. Com a devida licença dos que discordam, podemos dizer sim que temos uma religião — a religião espírita. Não como os modelos primitivos, mas uma nova configuração religiosa, pura, isenta de exclusivismo. Não somos o único caminho para nos religar a Deus, mas podemos nos vangloriar de esta ponte ser a mais curta e segura, dentro das convenções humanas — temporárias, diga-se de passagem. É o que lemos no filósofo Léon Denis: “A religião passará para os atos, para o desejo ardente do bem; o holocausto será o sacrifício de nossas paixões, o aperfeiçoamento do Espírito humano. Tal é a doutrina superior, definitiva, universal, no seio da qual serão absorvidas, como os rios pelo oceano, todas as religiões passageiras, contraditórias, causas frequentes de dissidência e dilaceração para a Humanidade.”

DEPOIS DA MORTE, Léon Denis – Cap. 1 “As religiões: a doutrina secreta” Desde parágrafo é que surgiu um refrão muito propagado no meio espírita que diz O Espiritismo não é a religião do futuro, mas o futuro das religiões.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.