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Capítulo 16 de 20
30 – Cristianismo em Espiritismo
Cristianismo e Espiritismo · Léon Denis
“Ame o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito; este o maior e o primeiro mandamento. e aqui está o segundo, semelhante a esse: ame o teu próximo, como a ti mesmo. Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos”. (MATEUS, 22: 34 a 40) Amor incondicional à Divindade e aos demais semelhantes: esse o Mandamento do Cristo, parâmetro para todas as medidas, salientando que não há como se religar a Deus e ao mesmo tempo se distanciar dos irmãos. E como saberemos se estamos agindo bem para com nossos semelhantes? Também Jesus nos elucida: “Façam aos homens tudo o que querem que eles façam a vocês, pois é nisto que consistem a lei e os profetas”. Jesus (Idem, 7:12)
Ao dizer que toda a lei e os profetas estão contidos nesses ensinos Jesus minimiza as fórmulas e preceitos judaicos de seu tempo, tal como a circuncisão, os holocaustos (veja-se o ritual bode expiatório), a lei do talião, a abstinência do trabalho aos sábados, o dízimo ao templo, etc. Caridade com todos — com todos mesmo! —, trabalho e oração são os exemplos deixados pelo Rabi da Galileia; a oração íntima, sem intermediários, sem exterioridade, é a religação direta do indivíduo para com a espiritualidade. Esse modelo religioso não nos cobra formalidades como certidão de batismo, nem filiação a uma igreja, sinagoga ou centro espírita, nem deve seguir qualquer cerimonial. A prece do Pai Nosso não é uma fórmula a ser reproduzida fielmente como fosse palavras mágicas, mas é sim somente uma sugestão de como devemos orar. A religião cristã não precisa ser instituída, regulamentada como é próprio de um departamento público ou empresa privada: nem mesmo é uma peça coletiva, ao contrário, é única e exclusivamente individual.
Sou eu e somente eu quem faz a minha religação com o plano superior — conquanto ela possa compartilhar semelhanças com o modo como este ou aquele efetua a sua ligação pessoal. Ninguém além de eu mesmo pode me levar ao encontro de Deus. — Nem Jesus? Nem Jesus! Quando ele disse “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, quis dizer que o modelo ensinado por ele deveria ser copiado individualmente. Mas ninguém pode fazer aquilo que me compete fazer para minha sublimação. A perfeição a que somos convidados a atingir é uma conquista particular de cada um. Se Deus privilegiasse a um só, estaria sendo injusto com os demais. E não supomos menos da Divindade que a plena sabedoria, bondade e justiça. Então, a verdadeira religião não é institucional como é a Igreja Católica, que tem hierarquia, código canônico, tribunal e registro formal. Nem
31 – Louis Neilmoris como as congregações evangélicas que ditam o que é e o que não é pecado. A religião do Cristo não é algo físico, nem regulamentado pelos contratos típicos das organizações humanas, mas algo sim sensorial, afetivo, totalmente diferente das religiões tradicionais, que são convenientemente usadas para satisfazer outros intentos de ordem material. Com semelhantes formatações o Espiritismo não compactua e por isso não podemos considerar a religião espírita nos moldes clássicos. Entretanto, é evidente que há religiosidade na Doutrina Espírita, uma vez que ela também nos serve como ponte em direção a Deus — aliás, a mais curta e mais segura —, inspirando-nos ao que nos sublima. Toda a ciência e filosofia espírita nos apontam para os fundamentos divinos: sabedoria, justiça e bondade. Seus conceitos nos incitam a uma moral em conformidade com a ética proposta por Jesus Cristo, e, por que a prática espírita é dessa ordem, configurase também como uma doutrina de efeitos religiosos.
“O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o titulo de sacerdotes ou de sumo sacerdote”. OBRAS PÓSTUMAS, Allan Kardec – “Ligeira resposta aos detratores do Espiritismo”. Poderíamos discorrer sobre muitas premissas usadas contra e favorável à ideia de o Espiritismo ser religião, mas para concluir, vamos simplificar assim, conceituando o Espiritismo, valendo-nos da própria codificação kardequiana: “O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.” “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que vêm dessas mesmas relações”.
O QUE É O ESPIRITISMO, Allan Kardec – “Preâmbulo” Ora, o Espiritismo nasceu como uma ciência comum, cuja função é estudar as causas, efeitos e consequências da matéria de seu estudo. Entretanto, pelo fato de o objeto estudado ter vida própria, com manifestação intelectiva, ser de ordem transcendental — os Espíritos, o mundo espiritual e as suas relações com a nossa dimensão terrena — e por conter uma mensagem moral, configurou-se também como uma filosofia; por essa filosofia ser de ordem moral, assentada em elementos religiosos que dão características à prática e vinculação doutrinária (fé, prece e sintonia mental), deu forma ao terceiro aspecto: religião. “O Espiritismo é forte porque assenta sobre as próprias bases da religião: Deus, a alma, as penas e as recompensas futuras; sobretudo, porque mostra que essas penas e recompensas são corolários naturais da vida terrestre e, ainda, porque, no quadro que apresenta
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.