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Capítulo 9 de 18

Parte 9 de 17

Comunicações Mediúnicas Entre Vivos · Ernesto Bozzano

De um longo artigo que William Stead publicou na edição de janeiro de 1909, de sua revista The Review of Reviews, extraio o seguinte episódio: “Uma senhora amiga minha (tratava-se da Srta. Summers) que escreve de longe por minha mão com mais facilidade do que com a sua própria, passara o fim de semana em Halsmere, aldeia que fica a trinta milhas de Londres. Tinha ela de vir almoçar em minha casa na quarta-feira se já houvesse regressado à cidade. Segunda-feira à tarde quis informar-me a respeito e, colocando a pena sobre o papel, perguntei-lhe mentalmente se já se achava em casa e minha mão escreveu o seguinte: “Sinto muito ter de informar-lhe que fui vítima de um incidente bem deplorável e de que tenho vergonha de lhe contar. Parti de Halsmere às 2:27 da tarde num carro de segunda classe, no qual vinham outras duas senhoras e um homem. Na estação de Godalming desembarcaram as senhoras e eu continuei a viagem com o tal homem, o qual se levantou e veio sentar-se ao meu lado. Espantei-me e o repeli, porém ele não quis afastar-se e, em dado momento, tentou beijar-me.

Fiquei furiosa e atracamonos em luta corporal. Na luta, tomei-lhe o guarda-chuva e dei-lhe repetidas pancadas, mas ele o quebrou e comecei a ter medo de ser vencida, quando o trem parou a alguma distância da estação de Cuildford. O homem ficou atemorizado e deixou-me livre, fugindo do carro antes que o trem chegasse à estação. Fiquei muito cansada mas não larguei o guarda-chuva.” Mandei imediatamente meu secretário à casa dessa minha amiga, com um bilhete em que expressava o meu pesar pela agressão que ela sofrera, acrescentando por mim: “Acalmese e na quarta-feira me traga o guarda-chuva pertencente ao homem.” Respondeu-me ela: “Sinto muito saber que o senhor está informado do que me aconteceu, porque estava decidida a não contá-lo a pessoa alguma, porém o guardachuva era meu e não dele.” Quando na quarta-feira ela veio ao almoço, confirmou a absoluta exatidão de todos os detalhes escritos pela minha

mão sobre a aventura a ela sucedida e me mostrou o guardachuva, que era dela e não do agressor. Como se pôde dar aquele erro de transmissão? Eu o ignoro, mas talvez o erro tivesse sido retificado se eu houvesse pensado em pedir a revisão de todos os pormenores por mim escritos. É quase supérfluo advertir que eu não tinha a menor idéia da hora e do dia em que a minha amiga partira e nem sombra de suspeita sobre o deplorável incidente de que ela fora vítima.” O fato exposto não cede, em valor teórico, ao precedente, porque na aventura sucedida à “correspondente espiritual” de William Stead, fica mais claro do que nunca que em semelhante circunstância não podia tratar-se de informações colhidas por Stead na subconsciência da Srta. Summers e depois reorganizadas de modo a representarem uma falsa personificação da mesma, dando-lhe as informações mediunicamente, mas que, ao contrário, tratava-se de uma conversa verdadeira e própria entre duas personalidades espirituais subconscientes.

O erro de transmissão, interpolado curiosamente no meio de tantas particularidades verídicas, não diminui, de modo algum, a importância teórica do fato. Tal erro, provavelmente, é conseqüência de um instante fugaz de interferência subconsciente. Não nos devemos esquecer de que o estado de recepção mediúnica é uma condição passiva e instável do espírito humano, a qual tem afinidade, por natureza, com outra condição passiva e instável do próprio espírito, que é o estado onírico, isto é, o reino dos sonhos. Daí a extrema facilidade com que nas comunicações mediúnicas, sejam de vivos ou de mortos, tais elementos de sonho se interpolam nas comunicações verídicas e constituam sempre o grande obstáculo a que numerosos pesquisadores decidam aderir à hipótese espírita. Para muitos desses investigadores, uma autêntica personalidade de morto nunca deveria enganar-se ao transmitir o nome de um seu parente próximo ou no fato de referir-se a alguma particularidade saliente de sua própria existência terrena. Tal afirmação, aparentemente racional e incontestável, na realidade é completamente errada porque não se levam em conta as

imperfeições inerentes ao instrumento onírico subconsciente de que se servem os mortos para se comunicarem com os vivos, instrumento que requer uma passividade absoluta da mente do médium, passividade em perpétua condição de equilíbrio instável, com freqüentes infrações e irrupções ora oníricas, ora sonambúlicas, ora auto-sugestivas, às quais devem ser imputados os erros, as contradições e as imperfeições que são encontradas em muitas comunicações de mortos. De tal ponto de vista, os erros, em tudo idênticos aos que se encontram nas comunicações de vivos, são preciosíssimos pela sua eloqüência demonstrativa em favor da tese sustentada. De sorte que, com base no caso exposto, devemos inferir que o fato de o erro haver-se interpolado no meio de tantas informações verídicas não impede que fique demonstrado que o complexo orgânico das mesmas informações seja de origem extrínseca, ou mais precisamente, a manifestação mediúnica de um vivo.

Assim, os mesmos erros, quando se verificam nos casos de identificação espírita, não podem impedir que o complexo orgânico das informações verídicas fornecidas demonstrem a origem extrínseca das mesmas informações, ou mais precisamente, a sua natureza de manifestações mediúnicas de mortos. O tema é teoricamente muito importante e merece que se relatem outros erros de transmissão ocorridos nas experiências em exame. Stead as relata em sua revista e Myers as recolhe em seu trabalho publicado nos Proceedings of the S. P. R. (vol. IX, págs. 56-57). Conta Stead: “Contudo, por duas ou três vezes interpolaram-se nas comunicações erros curiosos. Teoricamente, esses erros são tão importantes como as mensagens corretas. O primeiro erro ocorrido com a Srta. Summers foi a sua afirmativa de ter ido fazer um passeio no Regent Park, quando, na realidade, ela não havia saído de casa. Eu não saberia dizer de que modo se teria dado essa transmissão falsa. Penso, porém, que houve de minha parte a suposição de que a Srta. Summers iria ao parque, todavia, mesmo que assim fosse, fica sempre certo de que houve uma transmissão falsa.

Em outra ocasião, deu-se um erro muito mais relevante. Eu me encontrava em Redcar e a minha mão transcreveu o diálogo que a Srta. Summers teria tido com certa pessoa que ela citou. Tratar-se-ia de uma entrevista degenerada em disputa e foi-me transmitida uma parte do vivíssimo diálogo verificado. Quando me encontrei com a Srta. Summers, confrontamos as notas que havíamos tomado e observei, com grande surpresa, que embora ela houvesse visitado naquele dia a pessoa indicada, a entrevista que se transformou em discussão absolutamente não foi com ela, nem com a pessoa que visitara, mas com uma amiga da Srta. Summers e outro interlocutor. Essa amiga da Srta. Summers fora à casa desta e lhe contara, com viva emoção, o doloroso incidente de que fora vítima e a minha mão transcrevera essa narrativa, exagerando-lhe a importância, e isso a uma distância de 350 milhas.

Eu não conhecia pessoalmente a amiga da Srta. Summers, de modo que esta última ficou profundamente surpresa ao ver que a questão com a sua amiga fora transmitida com o seu próprio nome e havia sido interpolada em sua conversa verdadeira com outra pessoa de negócios.” Assim relatou Stead. O primeiro caso de transmissão errada, por ele narrado, não precisa ser discutido, pois muito provavelmente a causa que lhe atribui Stead é a verdadeira. Quanto ao segundo é, indubitavelmente, bem extraordinário, fora do comum e enigmático. De qualquer modo, faz ele lembrar outro erro que já discutimos nos comentários ao Caso 10, em que o príncipe de Wittgenstein, desejando entrar em relação psíquica com a sua “correspondente espiritual”, orientou o seu próprio pensamento para a residência dela. Como, porém, a referida senhora se achava longe da casa, enquanto na mesma dormia a irmã, isto fez com que o príncipe, por efeito de “afinidade psíquica” entre as duas irmãs, entrasse em relação com a que se achava no mesmo ambiente. Seguiu-se daí que esta narrou ao príncipe um incidente de baile com ela própria acontecido; como, porém, ele acreditava achar-se em relação com a pessoa conhecida,

verificou-se uma interferência por auto-sugestão que levou a mão do sensitivo a firmar erradamente a mensagem com o nome da irmã que ele julgava estar presente. Pois bem, tudo concorre para fazer-nos supor que igual interferência se tenha dado no caso de Stead e, do mesmo modo, se poderia inferir que o pensamento deste, achando-se dirigido para a residência de sua “correspondente espiritual” no instante em que esta conversava com a amiga e lhe contava com viva emoção os pormenores de sua questão, tivesse como conseqüência haver o estado emocional da amiga influído nas condições de relação psíquica que naquele momento existiam entre a Srta. Summers e Stead, determinando uma perturbação correspondente na transmissão da mensagem em curso.

Esta mensagem, depois de ter sido começada normalmente com uma informação da Srta. Summers sobre o resultado de uma entrevista comercial que tivera com um senhor que ela então nomeava, inesperadamente se modificara, enquanto que as “ondas hertzianas da telegrafia sem fio”, pelas quais as suas personalidades espirituais estavam conversando, foram dominadas por outras “ondas hertzianas” mais poderosas que haviam chegado a sintonizar-se com as primeiras, por efeito da coexistência, no mesmo ambiente, das amigas em conversa, de sorte que esse segundo sistema de “ondas hertzianas”, com as notícias da disputa, se sobrepôs ao primeiro sistema com o qual se amoldou e confundiu. Relato, finalmente, um episódio muito complexo, narrado pela Srta. Goodrich-Freer, que foi editora, com Stead, da revista The Borderland. Como se sabe, ela era sensitiva, dotada, de modo excepcional, da faculdade de “visão no cristal” e as suas narrações sobre o assunto, publicadas nos Proceedings of the S. P. R., podem ser consideradas como clássicas na literatura do gênero, tanto pelo valor intrínseco dos episódios narrados quanto pelo vigor científico com que são expostos e detalhados. Em sua conferência na The London Spiritualist Alliance, publicada na Light (1895, 13 e 30 de abril), conta ela:

“O Sr. Stead mostrava-me, algumas vezes, longas mensagens que pareciam provindas de mim e que se referiam a incidentes particulares, verídicos, de que porém eu não tinha consciência de lhe haver transmitido mediunicamente coisa alguma, mensagens que talvez emanassem do eu subconsciente, de cujas ações não sou propriamente responsável... Pensei, portanto, que se o meu eu subconsciente possuía a faculdade de transmitir aos outros mensagens particulares, deveria poder referir o conteúdo de tais mensagens à minha consciência por meio da “visão no cristal”. Combinei, pois, com o Sr. Stead, que ele me avisasse quando houvesse recebido qualquer comunicação minha, a fim de que eu olhasse no cristal e pudesse verificar se o meu eu subconsciente teria alguma coisa a dizer também a mim. Algum tempo depois, o Sr. Stead me disse que havia recebido o relatório de uma viagem que o meu eu subconsciente dizia ter feito para visitar certa pessoa.

Apressei-me, portanto, a controlar a verdade do fato por meio da “visão no cristal”, onde vi a imagem da Sra. Piper sentada numa poltrona, vestida com um penteador leve e aparentando um aspecto de cansada e doente. Deve-se notar, a propósito, que durante a sua permanência na Inglaterra, A Sra. Piper usava habitualmente vestidos pretos e mostrava-se de excelente saúde. Voltei-me para o Sr. Stead, dizendo: “Supondo que a minha visita seria à Sra. Piper.” – “Justamente isto”, respondeu ele. Fixei de novo a bola de cristal e vi imensa extensão de água, na qual flutuavam enormes massas de gelo, visão que também coincidia com a mensagem mediúnica recebida pelo Sr. Stead, que, afinal, ele me entregou para que a lesse. Contava-se nela que o meu “corpo psíquico” atravessara o oceano, encontrando enormes massas de gelo, que havia ido a Boston visitar a Sra. Piper; que a tinha visto com prazer; que a encontrara sozinha ou, mais precisamente, em companhia de um grande gato preto.

Observo que a visão no cristal não me havia mostrado traço algum do gato. Achando o caso muito interessante, escrevi ao Dr. Hodgson, nos Estados Unidos, perguntando-lhe se a Sra. Piper teria consciência de me haver visto recentemente. O Dr. Hodgson me respondeu que a Sra. Piper me havia visto recentemente em uma visão e justamente no momento em que eu ia tomar um carro, tendo nas mãos uma bolsa verde, bordada de flores. Depois, num quadro sucessivo, me havia visto descer em frente de um grande edifício. Além disso, o Dr. Hodgson confirmava que naquele dia a Sra. Piper estava vestida com um leve penteador e que tinha o aspecto de doente e cansada. Acrescentava, finalmente, que nos últimos dias ela pensara muito na mísera sorte de um grande gato preto que morrera em condições bem penosas. Ora, é verdade que eu freqüentemente saía de carro e também é verdade que a maior parte das vezes saltava defronte de um grande edifício. Estas coincidências são muito probantes, mas a melhor prova é fornecida pela bolsa verde bordada de flores que eu levava.

No começo do inverno, acontecia muitas vezes que eu tinha de sair com muitos cartões, por isso recorria ao uso de uma bolsa, que era justamente verde e bordada de flores. Parece-me que este acervo de circunstâncias, considerado no total, se torna interessante e digno de reflexão. Temos aqui um conjunto de fatos que não pretendo explicar. O que acabo de narrar passou pela mente de três pessoas e abriu caminho em três cérebros. É um enredo emaranhado e difícil. Também é verdade que naquela época o porto de Boston estava bloqueado pelos gelos e a temperatura era extremamente fria. Tudo isso exemplifica o modo pelo qual os fatos podem ser transmitidos.” Esta é a narração da Srta. Goodrich, na qual a alternância dos incidentes parece realmente complexa e intrincada. Convirá, portanto, esclarecê-los, alinhando-os em ordem sucessiva.

Em primeiro lugar, nota-se que a Srta. Goodrich, dotada de faculdades mediúnicas pouco comuns, teve certa noite de submeter-se a um fenômeno de “clarividência no espaço”, ou de “bilocação”, em que a sua personalidade espiritual subconsciente entrou em relação, da Inglaterra à América do Norte, com a personalidade subconsciente da médium Sra. Piper, que lhe era desconhecida. Nota-se, em segundo lugar, que numa experiência mediúnica entre vivos, tentada por William Stead com a Srta. Goodrich, esta transmitiu sumariamente ao primeiro a narrativa do episódio exposto, cujos pormenores correspondiam à verdade, salvo um único em que afirmava a presença de um grande gato em companhia da Sra. Piper, quando na realidade não se tratava de um gato vivo, e sim, de uma “projeção do pensamento” da Sra. Piper, que naquele momento pensava na infeliz sorte de um grande gato preto, morto pouco antes.

Em terceiro lugar, que a médium, Sra. Piper, interrogada pelo Dr. Hodgson, contou que tivera a visão da Srta. Goodrich, dando provas de minúcias que demonstravam a veracidade da visão da mesma, conquanto demonstrasse também que as circunstâncias de lugar e tempo não coincidiam com a visão da outra sensitiva. E, finalmente, que a Srta. Goodrich-Freer, desejando saber se a sua própria personalidade subconsciente seria capaz de informá-la acerca do conteúdo das mensagens por ela transmitidas a William Stead, pensou em empregar, para esse fim, as suas faculdades de “visão no cristal”, tentando a experiência antes de conhecer o conteúdo da comunicação recebida em seu nome pelo Sr. Stead. Dita experiência foi coroada de pleno êxito, porque apareceram no cristal as imagens verídicas do oceano obstruído por massas de gelo e da Sra. Piper vestida com um penteador, sentada em uma poltrona, com aspecto de cansada e doente, mas não apareceu a imagem do gato preto.

Como se vê, o caso é teoricamente de grande interesse, pois que se trata de um fenômeno tríplice de comunicações mediúnicas entre vivos: a primeira comunicação em forma de “visão clarividente” ou de “bilocação” entre a Srta. Goodrich-

Freer e a Sra. Piper; a segunda, ainda em forma de “visão clarividente” entre a Sra. Piper e a Srta. Goodrich-Freer e a terceira vez, por meio da psicografia, entre a Sra. Goodrich-Freer e William Stead. Pela experiência da “visão no cristal”, a Srta. Goodrich-Freer propunha-se a entrar em relação com a sua própria subconsciência e, assim, certificar-se se os conhecimentos obtidos mediunicamente por William Stead a seu respeito eram efetivamente devidos à ação voluntária de sua personalidade subconsciente ou se, ao contrário, eram conseqüência de um momento de “clarividência telepática” por parte de Stead. No primeiro caso, a subconsciência dela deveria mostrar-se informada a respeito da mensagem transmitida e, no segundo, deveria ignorá-la. Como se viu, a experiência demonstrou que a subconsciência da sensitiva estava perfeitamente informada sobre o conteúdo da mensagem recebida por Stead, o que lhe dá muita força em favor da tese aqui sustentada. É, portanto, lamentável que Stead houvesse assistido à experiência, porque a sua presença enfraqueceu o valor da prova, tornando legítima a objeção de uma possível transmissão do seu pensamento à sensitiva.

Contudo, noto que se se tratasse de transmissão de pensamento, a visão que apareceu no cristal representando a Sra. Piper sentada em uma poltrona, vestida com um penteador e com ar de cansada e doente, deveria completar-se com o aparecimento do gato citado na mensagem de Stead, mas o gato não apareceu no quadro visto nele. Teoricamente, isto é importante, porque, na hipótese da origem genuinamente subconsciente das imagens vistas no cristal, o gato não deveria ter aparecido porque, na realidade, tratava-se de um erro de transmissão, em que a imagem-pensamento que naquele instante afligia a alma da Sra. Piper fora traduzida erroneamente pela imagem concreta de um gato vivo. E, ao contrário, a mesma imagem deveria ter aparecido no cristal se se tratasse de um fenômeno de transmissão do pensamento de Stead, visto que na mensagem por ele recebida o gato era citado como realmente existindo. Baseando-se neste pormenor, deve-se concluir que o

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