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Capítulo 2 de 18

Parte 2 de 17

Comunicações Mediúnicas Entre Vivos · Ernesto Bozzano

vivos, se produzem constantemente por intermédio dele e, de certo modo, ele o demonstra preanunciando os referidos episódios. Observo, ainda, que afirmações de tal natureza ocorrem freqüentemente em experiências congêneres, mas claro é que não podem ser levadas em consideração devido à impossibilidade de verificar satisfatoriamente a validade das afirmações. Devemos também considerar que, se o fato em si pode ser teoricamente admitido, e até se deve admitir que assim suceda freqüentemente (sempre em homenagem à tese da identidade entre o Animismo e o Espiritismo), isto não impede que os casos de comunicações mediúnicas entre vivos se realizem com freqüência. De qualquer modo, essas reiterações por parte das personalidades mediúnicas são de tal sorte insistentes que achei oportuno reunir os melhores casos desse gênero em uma categoria especial (subgrupo F). Caso 2 – O seguinte episódio é extraído do vol. III, pág. 295 dos Annali dello Spiritismo in Italia.

O Sr. F. Scifoni, um dos mais notáveis espíritas italianos da primeira hora, escreveu nestes termos ao diretor da citada revista: “Em 17 de junho de 1863, pouco depois da meia-noite, eu me achava no escritório, como de costume, absorvido pelo trabalho. Parando para um breve repouso lembrei-me de ter lido em jornais espíritas ou de magnetismo algo sobre a experiência da evocação do espírito de pessoas imersas no sono. Sabia também que um dos meus amigos havia obtido bons resultados em tais provas, por mais de uma vez, e assim me veio a vontade de tentá-lo. Morava comigo, havia muitos meses, o Sr. Vicenzo Tanni, que dormia no meu próprio quarto, contíguo ao meu gabinete. A porta estava encostada e eu o ouvia roncar ruidosamente, como de hábito. Aqui declaro que nunca o havia visto acordar, nem mesmo incomodar-se com qualquer ruído que eu fizesse, de modo que, durante o dia, muitas vezes ríamos do seu delicioso sono.

Quis então tentar a prova com ele e me esforcei por concentrar intensamente a minha vontade, como quando, pelo magnetismo, se quer promover o êxtase do sonâmbulo. Evocado o seu espírito, comecei logo a escrever, e a minha mão traçou estas palavras: “Eis-me aqui. Que queres comigo?” Feitas algumas perguntas e recebidas respostas de pouco valor, escrevi este pedido: “Ora, meu caro Tanni, queres fazer-me um favor? Quererias dar-me uma bela prova da realidade das comunicações espíritas, despertando-te por alguns instantes e chamando-me pelo nome?” E minha mão escreveu: “Sim”. Repito que me achava em meu gabinete e que ele dormia no quarto anexo. Do lugar em que fica o gabinete até à parede que o divide do dormitório distam quatro metros. Eu me mantinha em profundo silêncio e com o ouvido atento para verificar se ele fazia o menor movimento, porém nada interrompia o seu sono de chumbo. Continuando sem ouvir coisa alguma, evoco os meus espíritos familiares e a minha mão escreve: “Espere mais um pouco”. Espero-o, porém nada ouço...

Desiludido, já pensava em retomar o meu trabalho interrompido, quando de repente vi o Tanni mover-se e chamar-me distintamente pelo meu nome. Surpreso, pergunto: – O que queres? – Ainda estás de pé? – Sim. O que queres? – Nada. – E com uma espécie de incerteza: – Que horas são? – Meia-noite e trinta e cinco minutos. – Ah! Supus que já fosse dia. Em seguida, tornou a dormir profundamente. Pasmo com a belíssima experiência, pergunto aos meus espíritos familiares se a demora da prova não seria talvez devida à falta de firmeza de minha vontade, e a minha mão escreve: “Sim. Vacilas um pouco; contudo, podes ficar contente com o resultado.”

Desejando-se tomar ao pé da letra o desenvolvimento dos fatos no caso exposto, dever-se-ia dizer que o episódio da comunicação mediúnica entre vivos, aí contido, poderia ter ocorrido pela intervenção de uma entidade espiritual, mas como tal circunstância não é demonstrável e como tal hipótese não é necessária para a interpretação dos fatos, não se deve insistir nela, pressupondo, ao contrário, a concentração da vontade do experimentador como tendo sido suficiente, como o é na prática para criar uma condição de “afinidade psíquica” entre o experimentador e o paciente adormecido, condição indispensável em tal espécie de experiências. Caso 3 – Transcrevo-o da Light (1898, pág. 375) e digo que se trata de um caso muito instrutivo de “vontade sugestionante” e de “lucidez” desenvolvida em uma distinta escritora norteamericana. O narrador é o Sr. Harrison D. Barret, diretor de Banner of Light e presidente da National Spiritualist Association dos Estados Unidos da América do Norte. É longo o relatório e, conquanto o incidente que nos interessa esteja em curto parágrafo, decidi-me a relatar um longo trecho, dado o valor teórico que os fatos apresentam.

Escreve o Sr. Barret: “Trata-se de uma jovem senhora a quem o relator teve a honra de ser recentemente apresentado. Nela se desenvolvem espontaneamente faculdades de clarividência, sem que conhecesse coisa alguma do que a propósito ensina o Ocultismo. Em grau menor existem as mesmas faculdades em dois outros membros da família, porém como os sentimentos destes últimos são contrários a tal sorte de manifestações, eles as reprimem sistematicamente. É costume da senhora projetar as suas faculdades perceptivas em direção à irmã e ao irmão que residem nos “Midlands” e assim procedendo ela os percebe nas situações em que se acham na ocasião, situações essas que depois lhe são confirmadas em cartas. Uma vez viu seu cunhado subindo numa escada a pregar na parede uma série de pregos nos quais dependurava outros tantos quadros. O fato a surpreendeu porque ela sabia que o seu cunhado não possuía

os quadros que estava vendo, mas quando lhe escreveu veio a saber, pela resposta, que realmente ele estava colocando na parede os mesmos quadros que ela vira, quadros que obtivera em virtude de um legado. Por meio da sugestão mental conseguiu que um membro da família interrompesse uma carta que estava escrevendo, a pusesse de lado e escrevesse outra carta que ela ditou mentalmente. E ele escreveu até o fim a segunda carta, meteu-a no envelope, pôs o endereço e selou, depois voltou a escrever a carta que havia interrompido. Tudo isso ocorreu sem a troca de uma única palavra e só três horas depois é que revelou tudo ao seu parente, o qual ficou um pouco contrariado e pediu que lhe fosse devolvida a carta que ela lhe havia ditado por sugestão, mas era tarde porque já fora posta no correio. Quando projeta as suas faculdades perceptivas a distância ela pode influenciar as pessoas visualizadas, transmitindolhes os próprios pensamentos ou sugerindo-lhes a prática de uma determinada ação. Assim, por exemplo, ela lhe sugere que a venha visitar numa hora preestabelecida, o que nunca se deixa de realizar.

Quando transmite ordens mentais, percebe os pensamentos das pessoas com as quais está em afinidade, como se conversasse de viva voz com elas, mas não fica certa do êxito da experiência enquanto não se verifica a ação sugerida. A projeção das suas próprias faculdades perceptivas em direção ao paciente determina um “circuito” de retorno que reage sobre ela e, dessa forma, é informada do êxito da experiência. Quando deseja comunicar-se com pessoa de longe, começa por suprimir qualquer relação com o ambiente exterior, fechando os olhos e sobrepondo-lhes as mãos. Depois concentra intensamente o pensamento sobre a pessoa que deseja ver, evitando rigorosamente deixar-se colher pela mínima distração. Se pensar no ambiente em que se acha a pessoa que deseje ver ou em coisas que a mesma lhe sugere, falhará a experiência. Algumas vezes atinge o alvo imediatamente, outras vezes tem que sustentar a prova por

uns vinte minutos. Enquanto não vê a pessoa visualizada, abstém-se de transmitir a mensagem e, quando o fato se realiza, sente-se na presença da pessoa. Algumas vezes tem tentado tocá-la e a vê reagir imediatamente. Em geral as pessoas sobre as quais projeta o pensamento tomam conhecimento de sua presença ou pelo menos pensam nela. Ela não distingue o ambiente em que se acha a citada pessoa a menos que se proponha vê-lo como também não percebe a paisagem que tem de atravessar para chegar à pessoa visualizada. Com respeito a esta última circunstância o relator obteve dela a promessa de tentar visualizar os detalhes das paisagens interpostas de caminhos percorridos, pessoas encontradas, etc. O esforço que ela faz nessas circunstâncias a esgota sensivelmente e algumas vezes sente dor de cabeça. Vivendo só, procura a companhia dos parentes, recorrendo às suas faculdades de vidente, as quais desenvolveu tanto que agora funcionam espontaneamente, sem intenção alguma de sua parte.

Ocorreu-lhe isso algumas vezes enquanto guiava a sua caleça,4 o que se torna um inconveniente muito sério, porque durante esse estado fica inconsciente do ambiente que a cerca, de modo que por duas vezes o cavalo se desviou, indo esbarrar na cerca da estrada, onde ela caiu, despertando-se bruscamente para a vida normal, de forma bem pouco agradável. Ela é de opinião que em tais condições de clarividência realiza-se a projeção a distância de seu próprio “duplo”, e isto porque vê o seu próprio corpo deitado no divã. Além disso distingue repetidas vezes os “duplos” de outras pessoas vivas, algumas das quais vinham visitá-la em seu quarto, como também distingue e comunica-se mentalmente com pessoas mortas, separando facilmente os fantasmas de vivos e de mortos pelo grau diverso de densidade com que lhe aparecem: os fantasmas dos vivos são muito mais densos do que os dos mortos. Ela conserva lembrança de suas experiências, conquanto se realizem

evidentemente durante uma “segunda condição” de sensitiva.” Este é o mais interessante caso referido pelo diretor da revista Banner of Light, que o comenta brevemente, nas seguintes palavras: “Este caso demonstra, de modo absoluto, que o “controle mediúnico” consiste na transmissão telepática do pensamento e não em uma encarnação temporária do espírito comunicante no organismo do médium. O mesmo se diga dos fenômenos de “obsessão” e “possessão”, que, baseados no caso exposto, deveriam ser considerados como determinados pelo fato de o paciente ser dominado por uma idéia. Quer dizer que a mente do paciente, achando-se temporariamente em condições de ideação negativa, torna-se fácil presa de uma idéia sugestionante de origem extrínseca, idéia essa que pode dominá-lo e obsediá-lo, degenerando numa representação monoideística. Este caso demonstra também que a chamada “presença de um espírito” não implica, de modo algum, a idéia de que ele se ache efetivamente presente.

Antes, a uniformidade das leis naturais tenderia a fazer presumir que as manifestações espíritas sejam conseqüência de uma projeção de força ou de pensamento da entidade comunicante, conforme se verifica no caso exposto.” Estas são as considerações racionais e instrutivas que o relator faz do interessante caso referido, cujo valor técnico é notabilíssimo, não porque encerre modalidades novas de manifestação, mas pelo desenvolvimento completo que nele assumem alguns episódios. E, para começar do incidente que diretamente nos interessa, não se pode negar que o fato de conseguir-se, pela transmissão do pensamento, que uma pessoa interrompa uma carta que estava escrevendo, a fim de começar outra que lhe é ditada por uma vontade extrínseca, sem que a pessoa sugestionada tenha conhecimento de se haver tornado instrumento passivo em mão de outrem, não se pode negar,

repito, que um completo incidente de tal natureza seja um tanto raro nos anais dos fenômenos magnéticos e hipnóticos. Recordo apenas um episódio semelhante ao narrado, o qual se encontra no livro do Prof. Flournoy, Esprits et Mediums, pág. 90. Neste, a Sra. Prell sonha que está fazendo uma visita à sua amiga, a Sra. Zora, dotada de mediunidade escrevente, e que lhe faz certo discurso. Em tal momento, a Sra. Zora, que acabava de levantar-se e estava absorvida no trabalho, é tomada por um impulso de escrever automaticamente e, assim procedendo, manifesta-se-lhe a sua amiga Sra. Prell, que lhe dita longo discurso, idêntico no conteúdo, senão na forma, ao discurso do sonho. Do ponto de vista do paralelismo entre os fenômenos anímicos e espíritas, tais episódios são altamente sugestivos porque valem para tornar mais inteligíveis as modalidades em que se realizam as comunicações com os mortos, pois que, se a vontade de um vivo pode ditar mentalmente uma carta, palavra por palavra, servindo-se do cérebro e mãos de outrem, ou pode transmitir a distância o conteúdo de um longo discurso, nada impede que se acolham, como legítimas e verdadeiras, as explicações dadas em tal sentido pelas personalidades dos mortos, que afirmam transmitir as suas mensagens agindo telepaticamente pela sua vontade sobre o cérebro dos médiuns.

Destaco ainda as seguintes passagens: “Quando transmite ordens mentais, ela percebe os pensamentos das pessoas com as quais está em relação, como se estas conversassem com ela, de viva voz.” E mais adiante: “Geralmente as pessoas sobre as quais projeta o seu pensamento têm consciência de sua presença, ou pelo menos pensam nela.” E por fim: “Ela é de opinião que em tais condições de clarividência realiza-se a projeção, a distância, do seu próprio “duplo”, e

isto porque ela vê o seu próprio corpo deitado, inerte, no divã.” As passagens citadas nos levam a presumir que, na sensitiva em questão, as faculdades de transmissão telepática do pensamento se alternam muitas vezes com os fenômenos de “bilocação” ou projeção a distância do seu corpo fluídico. Em tal caso, porém, não devem ser tomadas ao pé da letra as impressões da vidente, isto é, que as pessoas por ela visualizadas conversem com ela, de viva voz. Tais pessoas, indubitavelmente, não se portariam desse modo, pois que não existem exemplos de tal natureza em toda a casuística do gênero, conquanto seja verdade que as pessoas que recebem um impulso telepático, muitas vezes se tornam conscientes de uma presença ou pensam na pessoa que, naquele momento, se acha em relação psíquica com elas.

Portanto, deve-se presumir que as conversações de que se trata ocorrem entre as personalidades integrais subconscientes dos protagonistas e, como isso não faz diferença para os videntes, os quais desenvolvem os seus diálogos com as pessoas visualizadas, é natural que neles se produza a ilusão de uma conversa de viva voz, ilusão ou alucinação tão viva e infalível que constitui a regra em tais experiências, e o próprio William Stainton Moses a ela se sujeitava. Este, certo dia, resolveu pedir explicação a tal respeito ao seu guia “Imperator” e isto por ocasião de um incidente desse gênero, em que ele estava convencido de ter conversado de viva voz com pessoas distantes, que vira num cortejo fúnebre. Perguntou ele: “Em tais circunstâncias (do desdobramento fluídico) poderia tornar-me visível aos presentes? “Imperator” respondeu: “Não estarias visível a olhos humanos, se bem que a presença de teu espírito pudesse impressionar a mente de alguns dos presentes que pensassem em ti, como dizeis vós outros.

Muitas vezes isto se verifica por efeito da vontade dos espíritos que atraem o pensamento das pessoas com as quais se acham em relação. Referindo-me ao teu caso, observo que, como no cortejo não havia pessoas com

as quais estivesses vinculado espiritualmente pela lei de afinidade, não terias podido tornar-te visível, mesmo que nós o houvéssemos desejado. Afirmas ter dirigido a palavra a alguém no cortejo, recebendo resposta, mas em verdade exercitaste as faculdades espirituais de transmissão e leitura do pensamento, faculdades de que se servem os espíritos para conversar entre si. Estavas em condições transitórias de desencarnado e por isso exercitaste as faculdades espirituais que em raras circunstâncias são exercitadas também pelos vivos em forma de clarividência. Em conclusão, não conversaste realmente com pessoa alguma, porém não deixa por isso de ser verdade o que afirmas.” (William Stainton Moses, Spirit Teachings, 2ª série, pág. 85). Tal foi a resposta de “Imperator” e parece-me que com isso se chega a explicar satisfatoriamente em que consiste a ilusão dos clarividentes em tais circunstâncias: eles conversam telepaticamente com a personalidade integral da pessoa visualizada, e a sua condição de “espírito encarnado” faz com que caiam na ilusão de conversar humanamente, isto é, de viva voz.

Termino, notando que a vidente em questão, além de ver à distância as pessoas com as quais estava vinculada por relações afetivas, e além de perceber o pensamento de tais pessoas e lhes transmitir seus próprios pensamentos e a sua vontade, distinguia também os seus fantasmas “desdobrados”; como, por outro lado, percebia os fantasmas dos mortos, separando uns dos outros pela densidade diversa dos seus “corpos etéreos”. Ora, tal visualização simultânea de espíritos de vivos e de mortos demonstra ainda uma vez que Animismo e Espiritismo não são mais que dois aspectos complementares do mesmo fenômeno, graças aos quais se contempla o espírito humano nas suas duas fases, de encarnação e desencarnação. E, portanto, fica mais que claro que o primeiro de tais aspectos é a melhor confirmação do segundo ou, em outros termos, que o Espiritismo não teria base sem o Animismo. O caso em apreço demonstra também que as faculdades supranormais, graças às quais os sensitivos percebem à distância,

distinguem e conversam com entidades espirituais de vivos e de mortos, são as mesmas faculdades espirituais que os mesmos sensitivos exercerão normalmente depois de passarem pela crise da morte: faculdades existentes e pré-formadas, em estado latente, nos recessos da consciência, à espera de emergirem e se exercitarem num ambiente espiritual, assim como as faculdades de sentido terreno existem pré-formadas, em estado latente, no embrião humano, à espera de emergirem e se exercitarem no ambiente terreno. O paralelismo é perfeito e como a Natureza procede, em cada caso, de modo idêntico, isto é, pré-formando em cada ser e preservando, em estado latente, as faculdades e sentidos a serem exercitados em uma futura fase da existência (como, por exemplo, a transformação da lagarta em borboleta), daí resulta a confirmação da interpretação exposta, que é baseada nos processos científicos da análise comparada. Jamais me cansarei de repetir tão claras e incontestáveis verdades, na esperança de que a sua freqüente repetição sirva para fazê-la triunfar mais rapidamente do misoneísmo humano, tornando-se assimiláveis a algumas mentalidades eminentes que se tornam inacessíveis por preconceitos de escola.5

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.