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Capítulo 15 de 18

Parte 15 de 17

Comunicações Mediúnicas Entre Vivos · Ernesto Bozzano

trecho: “O Capitão Henry L. transportou o Tenente B. debaixo de nutrido fogo do inimigo, ficando por sua vez ferido em um braço e uma perna. Atravessou a nado o canal sob fogo do inimigo, sem nunca abandonar o Tenente B. Em conseqüência, foi-lhe amputado um braço.” Pedi, à noite, explicações sobre o caso a “Carrie”, porque ela havia informado que o capitão fora ferido do lado esquerdo, quando o telegrama dizia de um ferimento no braço que fora amputado. Respondeu-nos ela que não recebera “impressão” alguma de amputação, mas que se tratava de um ferimento no braço esquerdo, o que estava de acordo com a “impressão” que havia então recebido. Poucos dias mais tarde, o New York Sun publicava um telegrama tratando do Capitão Henry L. e informando que ele se achava levemente ferido e dentro de breves dias estaria curado. (Soubemos depois que tal telegrama fora ditado ao correspondente do jornal pelo próprio capitão a fim de tranqüilizar a sua progenitora.) Esse telegrama teve como efeito abalar a minha fé nas comunicações mediúnicas recebidas.

Quando, à noite, referi o conteúdo a “Carrie”, insistiu ela em afirmar que, ao contrário, o Capitão L. se achava em condições de extremo abatimento, mas, ao mesmo tempo, negou que lhe houvessem amputado um dos braços. Observa ela a propósito: “Li na mente dele o seguinte pensamento: “Que figura faria eu se me amputassem um braço?” Ora, penso eu que, se lhe tivessem amputado um braço, deveria sabê-lo. Finalmente, em 29 de julho o Almirante Remey telegrafou à Sra. Willa L. nos seguintes termos: “Capitão Henry L. ferido por bala no braço esquerdo grande perda de sangue ruptura do antebraço amputado no ombro cura duvidosa.” Tratava-se de informações autênticas e definitivas, de sorte que “Carrie” ficou algo decepcionada ao verificar que não havia recebido “impressão” alguma com referência à amputação ocorrida. De qualquer modo, continuou a manternos diariamente informados sobre o estado do enfermo, repetindo-nos que o seu robusto organismo venceria a prova.

Alguns dias depois da data do último telegrama, “Carrie” nos disse que os cirurgiões tinham novamente operado o doente, mas que tudo ia bem. Depois nos informou da transferência do ferido, do hospital de campanha para outro hospital muito estranho e muito original (verificou-se que se tratava do hospital naval de Yokohama.) Em setembro, o Capitão Henry achava-se em condições de escrever à sua progenitora, anunciando-lhe que no dia 27 de outubro partiria de Yokohama para repatriar-se, mas, já na noite de 17 de outubro, “Carrie” nos comunicava que ele estava em viagem e que se avizinhava da pátria. Observamos-lhe que, a julgar pela sua própria carta, ele só partiria no dia 27 do mês, mas ela insistiu em afirmar que o navio em que embarcara já se avizinhava das costas americanas e, de fato, no dia seguinte, 18, a Sra. Willa L. recebia um telegrama do filho anunciando-lhe que havia desembarcado no porto de S. Francisco. Ficara impaciente por regressar à pátria e se aproveitara de outro navio, embarcando logo.

Quando chegou em casa, estávamos, como é natural, ansiosos por verificar o que havia de exato, nas comunicações mediúnicas recebidas e ficamos sabendo que as informações a respeito de suas condições de saúde e da mudança de um hospital para outro eram inteiramente verdadeiras. Verificamos também que, depois de ferido, ele percorrera três milhas para chegar ao hospital de campanha, atravessando a nado um canal cheio de cadáveres em putrefação, e quando foi colocado na mesa de operações, desmaiou por excesso de sangue perdido. Em conseqüência disso só foi operado oito dias depois, de modo que, no momento em que recebemos a primeira comunicação de “Carrie”, o braço do ferido ainda não havia sido amputado. No oitavo dia, manifestou-se a gangrena, e a operação foi feita. Poucos dias depois a gangrena reapareceu nas bordas da ferida e tornou-se necessária a segunda amputação. A perda de sangue foi tal, que determinou um estado profundo de anemia cerebral, de forma que ele não se

achava em condições de afirmar se, naquele instante, havia refletido sobre a figura que faria com um braço de menos. Em seguida foi transportado para o hospital de Yokohama. O capitão negou que houvesse sido ferido na coxa direita e, em vista disso, a informação mediúnica a respeito parecia totalmente inexata, mas um dia em que eu o ajudava a despir-se, ele me chamou a atenção para a cicatriz existente na parte interna da sua coxa direita. Tinha as proporções de uma palma de mão e a aparência de uma profunda queimadura. Explicou-me que, quando desmaiara na mesa de operações, no mesmo dia em que fora ferido, foram aplicados sobre seu corpo vários recipientes especiais cheios de água quente e que um deles, introduzido entre as pernas, ficara esquecido e por isso a coxa direita resultou literalmente cozida e se formara no local uma chaga dolorosíssima. Compreendi então que a “impressão” de “Carrie” sobre uma ferida recebida pelo capitão, na coxa direita, indubitavelmente se originara do incidente exposto.

Concluindo: estou convencido de que a série de comunicações mediúnicas por nós recebidas eram o que afirmavam ser, isto é, uma série de mensagens provenientes, positivamente, de um espírito desencarnado.” No caso supracitado, em última análise, tudo é verídico, mesmo as inexatidões, como aquela da queimadura interpretada como uma ferida. E até esta última resulta teoricamente mais sugestiva do que as informações precisas, pois que, por ela, fica confirmada a asserção da personalidade mediúnica comunicante, que não via diretamente os fatos, mas que vinha a conhecê-los pela “impressão”. Daí a possibilidade de freqüentes inexatidões nos informes obtidos desse modo, como é o caso na circunstância referida. E, uma vez admitido que a personalidade mediúnica de “Carrie” apreendia positivamente os informes, sob a figura de “impressão”, ficam com isto eliminadas as hipóteses da telepatia e das comunicações entre vivos, pois que, tanto em um como no outro caso, não deveriam ter-se verificado inexatidões da natureza exposta.

Estamos, portanto, obrigados, necessariamente, a admitir que no caso em apreço a personalidade mediúnica de “Carrie” era realmente o que ela dizia ser, isto é, o espírito de uma moça amiga da família do Capitão L. e que, nessa circunstância, fazia o papel de mensageiro entre o filho ferido e a mãe ansiosa por notícias. Em suma, trata-se de outro caso de manifestações positivamente espíritas. Recordo, de fato, que, quando os opositores observam que, se se chegasse a provar que o médium retira das subconsciências alheias os informes verídicos que fornecem em nome de personalidades de vivos, então dever-se-ia presumir que consiga obter, das mesmas fontes, também os informes verídicos que fornecem em nome de personalidades de mortos.

Relembro que, quando os opositores observam tudo isso, formulam uma objeção com certa aparência de verdade e de força, conquanto efetivamente as suas induções em tal sentido sejam fruto de uma análise superficialíssima dos fatos, que demonstram, ao contrário, que nas comunicações mediúnicas entre vivos, longe de tratar-se de “clarividência telepática” ou de “telemnesia” (como presumem os opositores), o caso é de próprias e verdadeiras conversações entre duas personalidades espirituais subconscientes, demonstração esta que basta para subverter completamente os termos da questão, transformando as comunicações mediúnicas entre vivos em ótimas provas em favor da autenticidade das comunicações mediúnicas com os mortos. De qualquer modo, a solução da tese em tal sentido reclama ainda ser ela submetida a uma prova ulterior de análise comparada que lhe confira a necessária solidez e, para fazê-lo, deve-se deslocar um tanto os termos do debate, produzindo os fenômenos afins da “leitura do pensamento” e da “clarividência telepática” sobre os quais se fundam as induções dos opositores.

Procedendo assim, chegaremos a alcançar o escopo de circunscrever os limites das faculdades subconscientes, provando incontestavelmente que não existem faculdades supranormais capazes de selecionar, a distância, tais informes nas subconsciências alheias e, ainda menos, de selecioná-las sem

limite de tempo, de espaço e de condições, fazendo ainda observar que, nas comunicações entre vivos, as personalidades fornecem elementos destinados a identificá-las. Os fenômenos da “leitura do pensamento” e da “clarividência telepática” são constituídos de um complexo variado de manifestações, mas não ocorre considerá-los aqui nos seus múltiplos aspectos, e sim nas suas fases máximas de manifestação. Recorramos, portanto, a exemplos extremos de cada uma das categorias em exame. Eis dois exemplos, entre os mais extraordinários, de leitura do pensamento nas subconsciências alheias. A Srta. Goodrich Freer, a conhecida sensitiva, a quem se deve um estudo magistral sobre as suas próprias experiências de “visão no cristal”, expõe nos Proceedings of the S. P. R. (vol. XI, págs. 114/44) numerosos incidentes de “leitura do pensamento em consciências alheias”, entre os quais o seguinte: “Eu devia visitar certa amiga que se casara recentemente. Não conhecia o marido dela, mas, pelo que havia ouvido dizer, esperava encontrar um perfeito cavalheiro de alma nobre e elevada posição social.

Quando me foi apresentado, notei que ele estudava os meios de ser agradável e de demonstrar delicada hospitalidade às pessoas reunidas em sua casa; contudo, desde o primeiro momento em que tive ocasião de observá-lo com alguma atenção, fui perturbada por uma curiosa forma de alucinação que me pôs perplexa a respeito dele. Em qualquer situação que ele se achasse, fosse à mesa, na sala ou ao piano, no fundo do ambiente que o circundava, a sua pessoa desaparecia para ser substituída por uma visão na qual eu divisava o mesmo senhor na infância, olhando-me com a expressão do mais abjeto terror, com a cabeça baixa, as costas altas, os braços estendidos, como que para se defender de uma tempestade de murros que lhe caíssem sobre as costas. Como era natural, eu me dispus a fazer indagações a seu respeito, conseguindo saber que a cena por mim vista lhe havia realmente ocorrido em sua infância, em uma escola

civil, em conseqüência de uma baixa ação de fraude devido à qual fora vergonhosamente expulso e se empenhara em violenta discussão com os seus colegas. Como explicar semelhante forma de visão verídica? Penso que seria simbólica e que representaria uma espécie de aviso prévio a respeito da atmosfera moral que circundava o homem que se achava defronte de mim, como amostra de suas qualidades de cavalheiro, e tal impressão minha foi justificada, porque as desconfianças que geraram em mim a tal visão foram amplamente confirmadas por fatos desagradáveis que se seguiram. As visões desse gênero me parecem análogas às que são evocadas por meio da “psicometria”, as quais não são visões telepáticas e sim “impressões” psíquicas. E parece-me absurdo pretender-se que a cena por mim vista, ocorrida dez anos antes, naquele momento se achasse presente na memória do seu protagonista.”

Assim diz a relatora, que tem plena razão em não admitir que a sua visão tivesse origem no pensamento consciente do protagonista, que se houvesse recordado, naquele momento, do episódio vergonhoso sucedido em sua meninice. Eliminada tal hipótese, eis-nos frente a um exemplo de conformidade com aquele a que se referem os opositores da hipótese espírita, exemplos em que o sensitivo colhe informações existentes, em estado latente, na subconsciência de um terceiro. Para as conclusões teóricas que teremos, a seu tempo, de extrair do episódio em exame, convém notar nele estas duas circunstâncias essenciais: em primeiro lugar, que o incidente em questão era relativo à experiência pessoal do protagonista e não se tratava de coisas de um terceiro qualquer por ele conhecido; em segundo lugar, que o incidente visto pela sensitiva, embora afastado no tempo, era de natureza tal a imprimir-se indelevelmente na alma de quem o havia suportado. Não era insignificante, como quase sempre são os informes fornecidos pelos mortos com o fim único de provarem a sua identidade pessoal. As duas circunstâncias indicadas são de importância decisiva na interpretação teórica dos fatos, como dentro em breve demonstraremos.

Eis um segundo exemplo do mesmo gênero. O célebre estadista suíço Zshokke possuía qualidades excepcionais de sensitivo clarividente e a sua notoriedade é, acima de tudo, devida às suas qualidades de sensitivo e não de político. Escreve ele: “Sucede-me freqüentemente que, ao esbarrar pela primeira vez com uma pessoa desconhecida e enquanto, em silêncio, eu escuto as suas palavras, vejo passar diante de meus olhos, sem procurar, e perfeitamente distinta, uma visão da sua vida passada, enquadrada no ambiente em que se desenrolou, porém quase sempre vejo uma cena principal de sua vida e nada mais. Quando isso acontece, sinto-me de tal modo absorvido na contemplação da visão que se desenvolve na minha frente, que quase não percebo mais o vulto da pessoa que me fala, embora continue contemplando o seu rosto, bem como não ouço mais a sua voz.

Durante muito tempo eu tive menos confiança do que qualquer outro na veracidade de tais visões e, quando me decidia a revelar ao meu interlocutor o que estava vendo a seu respeito, esperava naturalmente ouvi-lo responder-me: “Nada disso é verdade”, e muitas vezes sentia um calafrio de horror percorrer-me os ossos quando o interlocutor respondia confirmando a minha descrição, mas, outras vezes, o espanto que lhe aparecia no rosto punha-me informado da exatidão da minha visão antes que ele a confirmasse. O incidente que passo a relatar foi um dos que mais me pasmaram: Cheguei certo dia à pequena cidade de Waldshut e fui hospedar-me no hotel Vine Inn, em companhia de dois jovens estudantes. Jantamos na Table d’Hôte, juntamente com numerosos outros viajantes que davam grandes gargalhadas quando se falava no Magnetismo de Mesmer e na Fisiognomia de Laváter (estudo do caráter de uma pessoa pelos traços fisionômicos). Um dos meus companheiros, que se sentia ofendido no seu orgulho nacional por aquelas

risadas estúpidas, pediu-me que os contestasse e especialmente que fizesse calar um jovem que estava sentado na minha frente e que, mais do que qualquer outro, se permitia debochar e proferir ditos espirituosos contra os nomes desses dois grandes homens. No mesmo instante tive uma visão da vida do jovem e por isso lhe dirigi a palavra, perguntando-lhe se podia estar certo de que ele me responderia sinceramente se eu lhe revelasse coisas notáveis do seu passado, embora me fosse desconhecido, fazendo-lhe notar que, se eu obtivesse bom resultado, seria ir muito mais longe do que Laváter com os seus estudos. Ele me prometeu que se as minhas revelações estivessem corretas, ele o confirmaria sem restrições.

Então lhe descrevi tudo o que me havia aparecido na visão e todos os presentes ficaram, desse modo, informados da vida passada de um jovem viajante comercial a começar dos seus anos de escola para passar pelos seus muitos erros juvenis e terminar com uma falta muito mais grave com relação ao cofre de seu chefe e lhe descrevi ainda um quarto sem móveis, com as paredes caiadas de branco, onde à direita de quem entrava, em cima da mesa, se achava um pequeno cofre preto, etc., etc. Durante a minha narração, um silêncio mortal reinava no ambiente, silêncio esse que só era por mim interrompido de vez em quando para interrogar o meu interlocutor se estava correta a minha descrição. O jovem, cheio do maior espanto, não fazia outra coisa senão confirmar as minhas palavras, todas as vezes que eu o interrogava, com freqüentes movimentos da cabeça, o que fez também – e isso eu não esperava – quando lhe descrevi o último quadro. Surpreendido e comovido pela sua sinceridade, levantei-me e fui apertar-lhe a mão, do outro lado da mesa.

Dir-se-ia que cada homem traz consigo a história completa de sua vida como se ficasse escrita, em caracteres espirituais, em sua mente, onde outra pessoa, em “relação psíquica” com ele, pode lê-la.” (William Howitt – History of the Supernatural, Vol. I, págs. 99/100).

Também quanto a este segundo episódio, deve-se observar o que foi dito com relação ao primeiro, isto é, que os informes sobre a existência passada da pessoa submetida à indagação do sensitivo representam as coisas mais salientes do seu passado e, acima de tudo, dizem respeito exclusivamente à pessoa em questão e nunca a terceira pessoa que ele tenha conhecido quando viva. Passo a narrar um exemplo igualmente notável de leitura a distância em subconsciências alheias (clarividência telepática). O célebre mitólogo Andrew Lang em sua obra intitulada The Making of Religion (págs. 83/104) relata experiências de “visão no cristal” por ele feitas com a distinta senhorita inglesa Angus, que possuía delicados dotes dessa categoria de visões supranormais. Entre outras coisas, narra ele o seguinte episódio: “A última visão que apareceu no cristal interessava muito à sensitiva, mas desapareceu para dar lugar à aparição de uma senhora vestida com um penteador e deitada em um sofá, com os pés descalços.

A Srta. Angus não conseguia distinguir o rosto dela, porque a imagem lhe aparecia voltada de costas, de modo que anunciou a nova visão com manifesta contrariedade, uma vez que estava interessada na imagem anterior. A Sra. Cockburn, entretanto, para quem nenhuma visão havia aparecido, mostrou-se contrariada com isso e particularmente me manifestou o seu cepticismo sobre a veracidade das imagens aparecidas no cristal. Em um sábado, dia 5 de fevereiro de 1897, porém, tive novamente ocasião de fazer experiências com a Srta. Angus, juntamente com a Sra. Bissott, e quando esta anunciou que havia pensado em certa coisa para aparecer no cristal, a Srta. Angus divisou no mesmo uma alameda de bosque ou de jardim perto de um rio, em um céu perfeitamente sereno e completamente azul. Na referida alameda achava-se uma senhora elegantemente vestida que, passeando, fazia girar sobre o seu ombro uma sombrinha belíssima, tendo os seus passos um encadeamento rítmico algo curioso. Ao lado dela

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