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Capítulo 7 de 19

Iii. Milagres — parte 5 de 7

A Vida nos Mundos Invisíveis – Volume 6

Orações que incorporam apelos que estão em oposição direta a leis espirituais são semelhantemente inecazes. De que serve clamar contra uma lei natural? Alguém em sã consciência rezaria para que a lei de gravidade pudesse ser revogada, ou qualicada de outro modo, ou dispensada completamente? Em caso semelhante estão todos esses argumentos pedindo clemência pelos que se foram. Recorde-se do que lhe contei sobre o assunto da 'misericórdia' de Deus. Considerado como um todo, o tema principal que traspassa as orações durante os serviços de enterro é o da incerteza, da desesperança. A Igreja está completamente às escuras relativamente às condições da 'vida depois da morte': não sabe nada, literalmente. As orações claramente revelam essa ignorância. Eu lhe pediria que se lembrasse bem do que há pouco mencionei, relativamente a orações para a pessoa que se foi: como devem ser diretas ao ponto, pedindo ajuda em termos claros; em termos, explico-me, que sejam completamente compreendidos por todas as pessoas que as pronunciam. Agora vamos proceder a um exame mais íntimo do assunto. Aqui, como exemplo, está uma parte de uma oração usada nos trabalhos nos enterros: (Salmos, 130, 7) Das profundidades eu clamei ao Senhor, Ó Deus; Deus, ouve a minha voz. Mantém Teus ouvidos atentos à voz de minha súplica. Se Tu, Ó Deus, apagares a marca das iniquidades; quem será contra? Pois no Senhor há perdão misericordioso: e por causa de Tua Lei esperei pelo Senhor, Ó Deus. Desde a alvorada até mesmo até a noite, que Israel creia em Deus. Porque em Deus há clemência: e com Ele, redenção plena. E Ele resgatará Israel de todas suas iniquidades. Descanso eterno dá a ele, Ó Deus. E permite que a luz perpétua brilhe sobre ele. Você, meu amigo, consegue detectar uma palavra que acredita, honesta e verdadeiramente, que seja útil a um companheiro mortal que tenha deixado o plano terreno para ir a uma região qualquer do mundo espiritual? Estou seguro que não. Há uma — apenas uma — que possivelmente poderia ter algum pequeno uso: —'Permite que a luz perpétua brilhe sobre ele'. Esse é o único caso vislumbre de senso nessa recitação perfeitamente inepta. Que uso terreno poderia ter a introdução de referências a Israel em qualquer oração por uma pessoa que necessita de ajuda espiritual? A maioria não tem nem a mais remota noção do que Israel tem a ver com a dissolução do seu amigo ou parente. Aos que lamentam porque perderam um ente querido, a Igreja se destaca magnicentemente e lhes oferece orações sobre Israel. E o que se foi? Ele tem algo, de qualquer forma, a ver com Israel? Meus amigos entenderão que estou abordando este salmo-oração somente sob o ponto de vista prático no assunto em questão, isto é, ajudar uma alma em sua chegada aos planos espirituais. No argumento do descanso eterno, já z em outro lugar várias observações. Toda a concepção que ele engloba é outro exemplo fulgurante do afastamento das Igrejas de realidades e verdades espirituais. Este salmo, que foi tratado como uma oração, é todo ele frigidamente formal. Sua linguagem não tem nenhuma aplicação a qualquer um que seja chamado para dizê-lo, tanto do seu próprio lado quanto do outro. É sombrio e triste, e garantidamente aprofunda a depressão já instalada naqueles que pranteiam. A Morte, declara a Igreja, é assunto atemorizante e terrível. A alma volta a seu Fabricante para ser julgada, e nenhum homem na terra sabe qual será o destino da pessoa passada. Não é então hora de outros pensamentos e expressões que não sejam os mais horrivelmente solenes. Faria um mundo de diferença ter o real conhecimento espiritual nestas recitações lúgubres todas! Outro salmo também é apresentado, o qual foi convertido semelhantemente em uma oração, e é conhecido sob seu nome familiar de Miserere. (NT: Salmos, 51, 10) Começa com estas palavras: Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a magnitude das tuas misericórdias, apaga as minhas iniquidades. Continua ao longo dele na primeira pessoa, e o tema principal segue quase nas mesmas linhas que o indicado nos dois versos que há pouco dispus a você. Agora, isto é apresentado como sendo uma oração por uma alma que se foi, mas a pessoa que recita isto está pleiteando inequivocamente para ele mesmo. Temos que perguntar novamente, de que serve, então, à alma que se foi? Um clamor desesperado, em todo caso, tendo em vista as falsidades com as quais a oração está envolta. A Ortodoxia não pode oferecer nada a seus membros, apenas a clemência de Deus. A que estado lamentável, na verdade, a Ortodoxia se reduz. Então, pedir que Deus apague as iniquidades da pessoa. Se Deus zesse isto, o que haveria de justiça, para depois no salmo o indivíduo que lê esta oração promete que a língua dele 'exaltará Tua justiça'? Onde está a justiça se uma iniquidade é destruída? Mas seguramente temos o ápice absoluto do pleitear insensato quando, mais adiante, estas palavras acontecem: Favorece, Ó Deus, por Tua boa Vontade com Sião, para que as paredes de Jerusalém possam ser construídas (Salmos, 51, 18) Estas são orações, meu caro amigo, por uma alma que se foi do plano terreno, por sua dissolução, ao mundo espiritual, e provavelmente esteve necessitando de ajuda e orientação de natureza seguramente prática. A inecácia de tais orações é dupla: pelo seu conteúdo não ajudam o 'morto', e são recitadas dias depois que aquela pessoa se foi do mundo terreno para o mundo espiritual. Deixe-me contar-lhe minhas próprias experiências nesta ocasião. Minha passagem foi, sob todos os aspectos, monótona e perfeitamente direta. Durante os últimos momentos que quei na terra, e quando cou óbvio que eu estava 'morrendo', os que estavam presentes começaram a fazer orações por mim. Não posso dizer que quei consciente de qualquer reação espiritual em consequência dos seus esforços, mas isso é um pouco surpreendente por mais de uma razão. As orações deles por mim eram do tipo que já citei a você. Verdadeiramente posso dizer que eu não estava nem um pouco interessado em Israel ou Sião, tanto no sentido religioso quanto no poético que essas duas palavras foram empregadas. Quando nalmente tinha deixado meu corpo físico pela 'morte' e me levantei, lá no mesmo quarto em que meus amigos tinham testemunhado minha transição, o que eu precisava – por causa de minha ignorância - eram instruções claras, simples, e indubitáveis sobre o que ia acontecer em seguida. Aquela ajuda era para o futuro imediato, mas ela não veio por causa das orações que estavam sendo feitas. Realmente, pela própria natureza delas, nem poderia.

Um velho amigo e colega, chamado Edwin, veio em minha ajuda, e se apresentou a mim naquele quarto. Ele assegurou-me que não viera em resposta a qualquer oração que estivesse sendo oferecida. Na realidade, armou que não havia nada em qualquer uma delas que o trouxesse, ou que o enviasse, em meu socorro. Veio porque soube de minha transição pendente através da organização perfeita que existe no mundo espiritual. Então, soube que minha dissolução era iminente algum tempo antes que os da terra tivessem a mais leve sugestão disto. Quando o momento preciso veio, foi até lá me cumprimentar e me ajudar, assim que a ajuda foi urgentemente necessária. Depois de um momento ou dois de conversa, segui minha viagem para estes reinos, sob o cuidado hábil de meu velho amigo. Eu já lhe contei a maior parte do que aconteceu em minha chegada aqui. Na realidade, minhas pequenas aventuras com Edwin durante minha viagem de descobertas nestes reinos foram o assunto da minha primeira quebra de silêncio para a terra desde que eu saí de lá. A conselho de Edwin, z um breve descanso antes de começar minhas viagens. Enquanto eu estava nestes passeios realmente encantadores, a Igreja na terra estava executando um réquiem dos mais solenes para o repouso de minha alma! Toda a reputação que eu havia alcançado, tanto como o pastor quanto como escritor, as autoridades eclesiásticas consideraram sucientemente proeminente para que minhas exéquias devessem ser as melhores que pudessem providenciar. Não é de se estranhar que quanto mais alta a posição material – e eclesiástica – que se possa ter na terra, tanto maior será o réquiem ou serviço memorial quando chegar a hora. Igualmente, quanto mais acharem que somos os melhores na terra, quero dizer espiritualmente melhores, com proeminência material suciente, mais elaborado será o serviço do enterro e seus ritos. Presumivelmente, se fosse possível apontar a qualquer um como santo verdadeiro, indisputável, seguramente aquela pessoa teria exéquias como a terra jamais testemunhara! Logicamente, este indivíduo seria uma das pessoas na terra que menos necessitaria da poderosa 'intercessão' que a Igreja se julga capaz de fazer! A pobre alma que mais precisa disto, que está na maior necessidade de ajuda espiritual porque a vida dele na terra não veio dentro de mil ligações ao 'grande' e 'ilustre' personagem para quem zeram tal cerimonial solene e enfeitado, a essa pobre alma normalmente impingem alguns palavras murmuradas de forma supercial, como se a pessoa não fosse de importância — o que, realmente, não é, aos olhos das autoridades. Na realidade, deixam que parta por si mesmo, pelo que concerne ao interesse da Igreja. De que forma podemos ter, então, frases como 'dar ao homem um enterro cristão'? Há certas circunstâncias onde este chamado enterro cristão será negado a alguém. O seu corpo físico, em tais casos, cairá enterrado sem cerimônias, enquanto a Igreja manterá um severo silêncio espiritual. Porém, o mundo espiritual pensa diferentemente sobre isso, muito diferentemente, e em nenhum caso a alma será deixada aos próprios cuidados. A ajuda vem sempre, abundante. Dependerá, naturalmente, da pessoa interessada: se a ajuda será aceita, deliberadamente rejeitada, ou somente ignorada. Depende completamente dele. Nós não forçamos, não podemos forçar nossos serviços a gente que não esteja disposta a recebê-los. É aos grandes da terra que são destinados os ritos de enterro mais imponentes; quanto maior o personagem, melhores os ritos. Mas fora de todo o esplendor religioso, este grande homem pode facilmente se descobrir numa posição no mundo espiritual bem fora do alcance do cerimonial ritualista que o acompanhou em sua sepultura. Pensase bem frequentemente que grandeza material conota também grandeza espiritual. Claro, podem argumentar que se o grande não for ao nal das contas tão grande na verdade, então as exéquias elaboradas e impressionantes, o réquiem solene, são bem necessárias no caso dele. Sobre isso, em decorrência, poder-se-ia discutir mais adiante que, como o estado espiritual de alguém não é determinável no lado terrestre da vida, então todas as pessoas deveriam ter tratamento igual ao pedirem seus serviços de enterro, e que o serviço deveria ser, em todos os casos, o mais solene, devoto e inclusivo que seja possível às mentes eclesiásticas inventarem. Apenas isso. Mas o que se quer, em todos os casos, é uma reconstrução completa de todo o serviço de enterro da forma como são executados por quaisquer denominações. As observâncias ritualistas que acompanham alguns deles são mera exibição exterior. São imensamente impressionantes aos observadores. Se não zerem nada demais, aparecem como um acréscimo de prestígio da Igreja. O povo sincero é enganado por tal exibição; outros têm sua aição aumentada pela solenidade horrorosa dos vestuários pretos, e das luzes, e da música lúgubre. 'Morte' e 'Julgamento' são vigorosamente relembrados por todos os presentes. Mesmo enquanto tal esplendor religioso estava sendo destinado a mim, executado com todo o peso do poder da Igreja por ninguém menos que um príncipe da Igreja e com apoio de um coral completo, até mesmo enquanto isto ia acontecendo, eu já estava nos reinos espirituais. Eu estava experimentando a emoção de minha vida. Na companhia cordial de meu velho amigo, Edwin, estavam se revelando a mim as glórias destes reinos. Em linguagem simples, clara, eu estava desfrutando de todo o coração, como nunca tinha desfrutado antes! E o que estava fazendo a Igreja, literalmente, por mim na terra? A Igreja, através de um de seus príncipes, estava rezando: Do portão de inferno, despache a alma dele, ó Deus! — A porta inferi, erue Domine animam ejus. Devido a minha reputação como pastor e escritor, e o título eclesiástico ao qual eu tinha sido elevado, sugerir-se que eu poderia precisar ser despachado do portão do inferno não foi uma moção muito cortês, para se dizer o menos. A resposta a isso, quando se sentissem maldosamente incentivados a fazerem qualquer questionamento ao assunto, seria que é impossível se saber a posição espiritual de qualquer indivíduo, e que é então melhor estar no lado seguro presumindo o pior, rezando contra o pior, e esperando pelo melhor. Em todo caso, as palavras fazem parte da ordem do serviço; não pode haver nenhuma divergência quanto a isto; não pode haver nenhuma discriminação individual ou favoritismo. Sobre o efeito que tudo isso fez sobre mim, só posso dizer que não percebi efeito qualquer, nada! Enquanto meu corpo físico estava sendo enterrado com solenidade — sob o julgamento que se faz na terra — eu estava em algum lugar nestes reinos, não posso declarar precisamente onde, completamente inconsciente do que estava acontecendo na terra a meu lado. Na companhia de Edwin, que estava agindo como meu cicerone, eu podia estar contemplando encantado alguma paisagem magníca, admirando as ores divinas pela centésima vez, ou conversando com alguns amigos recém-conhecidos, ou sendo apresentado a um ou outro dos maravilhosos setores de aprendizado. Eu poderia estar fazendo qualquer uma destas coisas agradáveis e tão encantadoras, enquanto o alto dignitário da Igreja estava rezando pedindo que minha alma pudesse ser despachada do portão do inferno.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.