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Capítulo 17 de 19
Ix. Uma Pessoa Comum — parte 1 de 2
A Vida nos Mundos Invisíveis – Volume 6
Para mudarmos um pouco, quero falar com vocês, meus amigos, na forma de uma pequena alegoria. Pois isso, penso que poderia chamar assim. Uma apresentação de fatos de outro modo. Não é uma história de ninguém em particular, mas de uma pessoa comum, genérica. Chamarei de Edward este indivíduo, porque é um nome comum. Comecemos então. Edward era um companheiro muito agradável, cordial, e amável. Não prejudicou a ninguém. Pelo contrário, praticava o bem de forma silenciosa e equilibrada e prontamente esquecia tudo logo depois. Ele desfrutou a sua vida sob todos os aspectos de forma acertada e própria, e usou-a proveitosamente em todos os aspectos. Por circunstâncias sobre as quais não teve nenhum controle, foi compelido xar residência permanente em uma terra distante. Além disso, obrigaram-no a que fosse só. Não sabendo nada sobre esta terra nova, Edward, sendo um homem sábio, decidiu recorrer a uma pessoa, ou melhor ainda, a uma instituição que fosse considerada 'autoridade corretamente constituída' no assunto, para aprender tudo aquilo que podia a m de seguir sua jornada adequadamente equipado para tanto, e ainda plenamente sustentado por um bom conhecimento das condições do país e de sua vida, o quanto fosse possível obter. Havia vários Sacerdócios para os quais poderia ter apelado, cada um reivindicando ter recebido ordens para o propósito expresso de ajudar todos como Edward. Porém, ele escolheu aquele Sacerdócio ao qual sua família favoreceu durante toda a vida. Poder-se-ia dizer que fora levado a esta escolha, já que nasceu neste meio, como se diz. Seguindo adiante, então, Edward tinha sua incumbência de descobrir. Ele achou que, embora o escritório do Sacerdócio fosse um edifício imponente, havia um odor de mofo naquele lugar, o que lembrou a Edward o cheiro de cemitérios e jazigos. O ocial de serviço era um homem cortês, contidamente amável; um tanto pomposo e pontical. Era como se sentisse importante por sua posição e estivesse ansioso para que outros pensassem isso também. Estava vestido de preto e usava óculos com lentes muito grossas. Edward notou que a maioria das pessoas usava óculos e pareciam muito míopes; e concluiu que estudar muito em cima de livros e crônicas antigos deve ter tido seu preço. Ali, também, parecia haver um ar de coisa antiga em todo o escritório, como se história tivesse cado parada enquanto o mundo seguiu adiante. O pessoal parecia perfeitamente satisfeito e contente em continuar para sempre como era. Em uma palavra, havia uma animação limitada, mas nenhuma vida. Edward sentiu um pouco de dúvida se deveria pedir ali a informação que precisava tão urgentemente, neste porto tão parado e antigo. Ele tocou no assunto de seu interesse com o ocial em serviço. Poderia ele, indagou Edward, dar-lhe alguma informação sobre a terra em particular à qual fora levado a habitar permanente? ‘Informação, isto é, informação ocial', disse o ocial, 'está em falta. Posso perguntar-lhe o que o fez vir a este Sacerdócio em particular?’ Edward respondeu que foi porque a família dele sempre acorria a ele em suas diculdades, e não estava muito familiarizado com outro qualquer. 'Como vai ver, então', disse o ocial, 'somos, sob todos os aspectos, uma sociedade, mas não temos nenhuma conexão com qualquer outro Sacerdócio'. Realmente, Edward sabia disto. Ele sabia desde há muito tempo que não havia nenhuma cooperação entre os Sacerdócios. Eles pensavam diferentemente; não havia nenhuma grande ligação de um ao outro; cada um considerando que os outros estavam fundamentalmente errados; muitos fazendo declarações contraditórias de algum outro Sacerdócio. A maioria deles reivindicava uma certa exclusividade; e alguns deles, de vez em quando, emitiam panetos condenando as práticas de vários outros. Cada Sacerdócio baseava sua política e sistemas num plano central, mas, por várias razões, a maioria delas era tão obscura que ninguém realmente entende, menos ainda eles mesmos; encarregaram os outros do erro, tornaram-se desunidos e se constituíram várias facções oponentes. Deles todos, dois tiveram um pouco mais importância, na sua própria opinião. Era o menor destes dois que Edward agora consultava. Deveria acrescentar que só era menor na opinião do outro. 'Antes de darmos um passo adiante', disse o ocial a Edward, 'tenho que lhe falar que, uma vez que tenha partido para esta nova terra, será impossível comunicar-se com seus parentes e amigos daqui. 'Não há nenhuma diculdade em entrar neste país, mas uma vez nele, lá terá de permanecer. Não haverá volta para visitar seus amigos e parentes pessoalmente. Na realidade, toda a comunicação com o mundo externo não é só impossível, como também estritamente proibida'. Naturalmente, isto confundiu demais Edward, porque a sua mente lógica desejava entender como poderia ser proibido algo impossível de se realizar. Começou a ter dúvidas sobre as qualicações deste Sacerdócio, e conjeturou se a autoridade que estava consultando, embora fosse 'corretamente constituída', era autoridade de fato. Porém perseverou, deixou as dúvidas não ditas e escutou atentamente o que o cavalheiro bastante pontical tinha a dizer a mais. 'As opiniões', continuou o cavalheiro pontical, 'diferem bastante nos assuntos sobre esta terra na qual vai viver. Alguns Sacerdócios vão lhe dizer que é bem fácil entrar, mas que precisa um passaporte especial, muito especial, para poder entrar nas boas partes ou, diremos, nas melhores.' Pode-se entrar nos locais ruins e nos piores com a maior facilidade. E aqui está um ponto que lhe poderia mencionar. O Sacerdócio em frente a nós...'’ ‘Você quer dizer o Sacerdócio —' 'Ssh! Não mencionaremos nomes. Nossos amigos do outro lado armam que se escolher residir nas partes desagradáveis do país, e, claro, seria muito estúpido nesta escolha, então descobrirá que é possível, assim dizem, voltar e visitar seus parentes e amigos e até mesmo entrar em comunicação com eles'.
'Se você se decidir por esta forma de agir, todo aquele Sacerdócio, de alto a baixo, vai considerá-lo muito censurável, na realidade um indesejável, e será excomungado — isto é, se puderem chegar a você — como o diabo que acreditam que seja. Preste atenção, nosso Sacerdócio não adota esta posição bastante inequívoca, e, claro, não temos nenhuma jurisdição sobre as opiniões individuais de cada membro. Não como nossos amigos neste caminho, que agem no pensamento dos seus membros, estando a equipe de trabalho incluída. Ocialmente, permitimos aos nossos membros que pensem como gostam, pela simples e suciente razão que fariam isso de qualquer forma. Essa é a razão pela qual há tantas opiniões discrepantes no assunto'. 'Por que o assunto não pode ser investigado corretamente por sua gente, a respeito de ser possível se comunicar com este país, e resolver nalmente a questão? Edward perguntou. 'Deveria ser fácil fazer isso'. ‘Ah, foi. Não soube?’ Edward respondeu que não. 'Realmente, foi sim. Uma investigação completa foi ordenada por ninguém mais que o próprio Ministro. Os vários chefes de pessoal entraram em toda a questão com o objetivo de prover uma resposta satisfatória, de um modo ou outro'. Edward se sentiu de certa forma encorajado com esta notícia. Pelo menos, pensou, qualquer que fosse o resultado da investigação, a situação seria esclarecida até certo ponto. ‘Quais foram os resultados do comitê?', perguntou. 'Provaram que a comunicabilidade entre aquela terra e o resto do mundo existe?’ 'Ah, sim; até onde entendemos, o relatório estabeleceu o fato que comunicação inquestionavelmente existe'. ‘Por que não foi apresentado, então?’ 'Bem, não foi totalmente tão simples e fácil assim. Veja, toda a hierarquia caria um tanto envolvida. Haveria algo do tipo conito de autoridades. Edward mal podia ver o quanto isso importava, enquanto considerava os conitos que já aconteceram entre os Sacerdócios. Um a mais não faria muita diferença. ‘Por razões bem conhecidas por ele mesmo', continuou o cavalheiro pontical, 'o Estado declarou, há muitos anos atrás, que a comunicabilidade não existia. Em que se baseou em sua declaração ninguém sabe, já que não há nenhum registro de que a questão tenha sido investigada corretamente. ‘ ‘Imagino que seguiram seu caminho por alguns documentos extremamente antigos que têm algo a ver no caso, de forma que se alguém reivindicasse que havia recebido qualquer tipo de comunicações ou mensagens destes planos, não seria nada mais que um ngido, ele ou ela, conforme o caso, apenas ngindo que manteve a comunicação. Eu uso a palavra ngindo, claro, em sua aplicação legal, não no sentido infantil. ‘ Edward pensou que a coisa inteira soava infantil. 'Se, então,' continuou o funcionário, 'nosso Sacerdócio francamente proclamasse que a comunicação podia ser inquestionavelmente estabelecida, o Estado poderia rebater todos os membros do comitê de investigação imediatamente, inclusive o próprio Ministro, como trapaceiros malvados para com a verdade, até mesmo velhacos e vagabundos, somente devido a seus próprios pronunciamentos e representações e, por conseguinte, encarceraria todos eles na prisão. 'Alternativamente, o Estado poderia ter a aparência de extremamente tolo. Em resumo, o Ministro e o comitê dele não poderiam declarar como verdadeiro o que o Estado já tinha pronunciado como falso. Uma situação impossível, você até concordará, para uma Autoridade participar dela. ' 'O que aconteceu, então?', Edward indagou. ‘Bem, o relatório foi silenciosamente colocado em um nicho na escrivaninha de alguém e, por tudo que sei, permanece lá ainda. ' Esta inteligência — usando a palavra para signicar apenas informação — foi decepcionante a Edward. Mas ainda havia outras questões sobre as quais desejou saber. ' Você pode me contar algo — qualquer coisa — sobre o próprio país?', perguntou ao cavalheiro pontical. ‘O que, precisamente, quer saber sobre ele?’ 'Bem, por exemplo, eu tenho familiares e amigos lá. Poderei vê-los novamente?' ‘Realmente não posso dizer. ‘ 'Então, o que farei quando chegar lá? Terei algum tipo de ocupação, suponho?' ‘Não temos nenhuma informação sobre esse ponto. ‘ 'Você pode me contar como é o país?' ‘Não tenho a menor ideia. ‘ 'O clima, então?' ‘Temo não poder esclarecê-lo. ‘ Edward estava cando bastante desesperado, não com a desesperança do desespero, mas com um pouco de raiva, Estava a ponto de falar ao funcionário em palavras mais exatamente claras sobre o que tinha em mente, quando o cavalheiro se virou para alcançar um livro grosso que colocou na escrivaninha diante dele. Edward notou que era sobriamente encadernado em couro preto. Pensou que a negrura da capa estava combinando bem com todo o escritório sombrio, o próprio cavalheiro pontical e todo seu pessoal. O porquê de haver tal preponderância do preto estava acima do que podia sondar. ‘Este livro', disse o ocial em serviço, 'contém toda a informação ocial que há sobre a terra para a qual você vai. Qualquer outra literatura que puder ter ou ler sobre o assunto ou é pura conjetura, mal entendido ou mentira deliberada.’ Anal, pensou Edward, ia obter um pouco de informações. Indagou se era o livro mais recente sobre o assunto. 'Mais recente,' disse o ocial, 'não é bem a palavra para se aplicar a este volume. Mais antigo, talvez, seria melhor. Bem, sei o que quer dizer. Oh, sim, é o mais recente. Não posso lhe dar a data exata; opiniões variam. Deixeme ver agora, não pode fazer mais de mil e setecentos anos, se tanto, desde que foi escrito pela primeira vez.'
‘E nada foi escrito ocialmente desde então?’ 'Não, não, claro que não. Tudo o que você deve saber está aqui. Se há qualquer coisa em particular que deseje saber e a resposta não for encontrada neste livro, então você não tem nada a ver com isto. 'Não estou totalmente seguro nem que você devesse até mesmo perguntar. No Sacerdócio mais adiante, eles não permitirão perguntas de qualquer tipo para as quais não tenham as respostas já claramente colocadas nos manuais e nos livros-texto, e com o suporte do imprimatur da Autoridade e da Tradição. Nós neste Sacerdócio não somos tão dogmáticos nesses assuntos, preferimos permitir uma pequena latitude, que seria obtida de qualquer forma. É regra geral do Sacerdócio: se qualquer assunto especíco não é tratado neste livro, é porque o público não deve saber sobre ele. Indubitavelmente, descobrirão no tempo devido ao chegar no país em questão, experimentando as coisas em primeira mão. 'Enquanto isso, não é para nosso Sacerdócio especular sobre coisas que não são mencionadas no livro ocial. Porém, há uma coisa que posso lhe contar. Quando chegar eventualmente a esta terra, sofrerá um exame rigoroso sobre suas qualicações residenciais. Quando esse exame acontecerá precisamente, isto é, se será imediatamente após a sua chegada ou em alguma data posterior, isso eu não posso informar. 'Sobre os resultados daquele Julgamento pousará a situação geográca de sua residência permanente. Você tem que entender que, uma vez concluído seu exame e os resultados promulgados, seu domicílio será assentado para todo o porvir. Você será enviado às melhores localidades, ou às ruins, ou até mesmo às piores regiões. ' 'Embora não façamos nenhum pronunciamento em qualquer caso, pelo menos um outro Sacerdócio professa predeterminar a localidade para a qual todas as pessoas ligadas a ele irão. Este mesmo Sacerdócio declara que há uma localidade ou região mediana para a qual a maioria das pessoas irá, quando chegarem lá. 'Ali, de acordo com as teorias deles, as pessoas sofrem um processo de desinfecção por um meio incendiário estranho que os torna eleitos para as regiões mais seletas. Isso é o que clamam. Nosso Sacerdócio não endossa essas reivindicações purgatórias, mas fará tudo que pode por você, se você for aceito como membro. 'Tudo aquilo que nós podemos lhe oferecer aqui e agora é esperança, senhor; esperança pelo melhor. E veremos que sua partida seja cuidada adequadamente. ' Edward então deixou o ocial-encarregado e seguiu seu caminho nem um pouco mais sábio que quando veio, e certamente sem qualquer equipamento para a sua viagem, a não ser uma seleta coleção de opiniões contraditórias. A sua viagem e seu destino, então, seriam uma completa e absoluta caminhada na escuridão. Finalmente o dia chegou, e Edward partiu para o local aparentemente desconhecido e distante. O Sacerdócio ofereceu-lhe uma esplêndida despedida... depois que ele partiu. Uma miscelânea de mensagens lhe foi enviada, mas não alcançou o seu destino. Mesmo que alcançassem, o problema é se teriam sido compreendidas. A viagem de Edward foi completamente monótona. O que mais nos estamos preocupa é se ele chegou bem e sem problemas. Ele lhe contaria que da própria viagem tem mesmo pouca lembrança, mas o que mais ele se recorda realmente, o que nunca pôde esquecer, é o espetáculo glorioso do novo lugar que se apresentou diante de seu olhar atônito. De acordo com suas primeiras lembranças nítidas, levantou-se em um lindo jardim de onde podia ver uma magníca paisagem se descortinando diante dele. Podia ver muitas casas encantadoras, construções pitorescas e também edifícios grandiosos de todo tipo. Árvores e ores eram abundantes em todos os lugares numa explosão de cores. Podia perceber a cintilação de cores de uma área grande de água, se era de mar ou lago, no momento não soube dizer. O sol brilhava soberbo, a atmosfera era cálida, fragrante e refrescante. Em todos os cantos parecia estar o coração e alma da paz. Podia ver as pessoas caminhando para cá e para lá, irradiando muita alegria, prazer e afazeres agradáveis. Sentiu que a felicidade 'reinava suprema'. Edward levantou-se perplexo por um momento até que um homem que estava ao seu lado quebrou o silêncio. 'Bem, meu amigo, você chegou em casa. ‘ 'Casa? ' 'Sim, é verdade. A casa construída neste jardim é a sua nova casa, e este país é seu lar também. Você é livre para ir e vir como quiser, onde quiser e sempre que quiser. Você é livre para falar com quem desejar. ' 'Perceberá que todo mundo cará muito contente em falar com você. Não está tão bem de corpo e mente como nunca esteve antes? ' Edward com certeza sentia-se extraordinariamente bem, entretanto estava muito confuso. Seu novo amigo apressou-se em esclarecê-lo. 'Você é mais afortunado que a maioria, ' disse. 'A grande maioria chega aqui em estado de terror; apavorados até a morte, como você diriam, pelo julgamento terrível que lhes contaram que aconteceria em algum momento de sua chegada. ' 'Devo lhe dizer imediatamente que nenhum julgamento terrível – nem qualquer outro tipo de julgamento — aconteceu, nem mesmo acontecerá a qualquer pessoa daqui ou de outro lugar nestas terras. ' 'Então...' 'Apenas isso. O que o cavalheiro do Sacerdócio, e o que todos os outros cavalheiros de todos os outros Sacerdócios, falam às pessoas é uma perversa cção. Não há nenhuma centelha de verdade nisto. 'Essa não é a única obra de cção que os Sacerdócios são culpados por disseminarem, ' continuou o companheiro de Edward. 'Alguém poderia perguntar, o que dizem eles de verdade? A resposta: quase nada. O que sabem eles sobre esta terra a qual acaba de chegar para viver? A resposta é, novamente, nada. ' Edward estava completamente de acordo. Contou as suas experiências no Sacerdócio relativas ao assunto de comunicabilidade. ‘A importância relativa da verdade sobre a comunicabilidade não pode ser exagerada, ' disse seu amigo,' já que muita coisa depende disto. Sem o meio de comunicação, este plano ca fechado e apartado de todos os outros planos.'
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.