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Capítulo 3 de 19

Iii. Milagres — parte 1 de 7

A Vida nos Mundos Invisíveis – Volume 6

Tem sido bem observado que um homem ca à mercê do seu biógrafo, ao que poderia ser acrescentado, como corolário natural, que também ca à mercê de seus leitores e qualquer biógrafo subsequente. O dever estrito de tal função é registrar fatos que sejam completamente autenticados, e tudo que seja somente opinião deveria ser claramente declarada como tais. É quando o escritor começar a usar a sua própria imaginação e designar motivos para os quais não há nenhuma conrmação que a diculdade começa. Eu posso falar de experiência própria sobre isto porque meus próprios biógrafos erraram neste respeito. Eles às vezes professam conhecer muito bem o meu caráter, e sua apreciação foi baseada mais por suposição e conclusão que por referência direta ao conhecimento absoluto. Atenuando, entretanto, tem-se que dizer que é quase impossível conhecer realmente bem uma pessoa enquanto esteja ainda encarnada, de forma que em tais exemplos há muito para ser perdoado aos escritores. Se estas inexatidões podem acontecer ao se escrever uma biograa de uma pessoa sem importância terra, como a vida de Jesus estaria afetada, a mais famosa de todas as biograas, se em parte pode ter sido oreada? Agora sei o que alguns de meus amigos dirão imediatamente: Por que tal livro não pode ser comparado, nem mesmo remotamente, com qualquer outro na terra. O Novo Testamento é um trabalho inspirado, além disso, inspirado por ninguém mais que o próprio Deus. Tudo aquilo que aparece nele, portanto, deve ser a verdade. Se fosse realmente assim, então não haveria nada mais para eu dizer, mas não é assim. O Novo Testamento não foi inspirado por Deus. Uma avaliação primária com algumas das leis do mundo espiritual demonstrará isso facilmente e depressa. Entre as primeiras revelações que acontecem aos ministros da Igreja de qualquer denominação quando chegam para morar nestas terras estão as revelações de que podem, por toda a sua vida aqui, estudar o Novo Testamento em sua verdadeira avaliação. Estudantes deste livro sempre acham um amplo campo para investigação, comparação, e até mesmo para comentário pungente. Nunca foi feito o trabalho de uma biograa sob um impedimento tão terrível como a que contém a vida de Jesus, e este impedimento pode ser descrito como uma concepção errônea trágica e lamentável. É errônea, tão desastrosa na realidade, que chega a jogar todo o caráter do livro em um reino onde nenhuma outra pessoa penetrou, ou jamais penetrará. Faz tanto para que pareça possível, onde, de fato, tantas coisas são impossíveis — o 'levantar' os mortos, para se dar um exemplo dentre muitos. Para vir ao ponto, esta gigantesca concepção errônea não é nada diferente da divinização de Jesus. Tudo que normalmente é inexplicável se torna nominalmente explicável pela declaração simples de que Jesus era Deus feito homem. Com esta capacitação, ele podia fazer 'milagres', e é a opinião geral dos homens encarnados que ele deve ter executado muitos mais do que foi registrado. Desde bem no início, as circunstâncias que acompanham o nascimento de Jesus na terra não foram normais. A Teologia reivindica a ele uma natividade que é o resultado de um processo natural. A Ortodoxia está dividida nesta questão. Alguns dizem que o nascimento dele não foi nada diferente do de qualquer pessoa comum, enquanto outros declaram que sua mãe lhe deu vida pelo poder do Espírito Santo. Esta última opinião foi a que eu acreditei enquanto estava na terra. Até mesmo a mãe de Jesus foi feita para ser uma exceção à doutrina do pecado original. Ela, pelo que parece, nasceu sem a mancha que foi lançada a todo o gênero humano pelo pecado de nossos supostos primeiros pais, Adão e Eva. Isto, claro, não tem nenhuma conrmação na Bíblia. É apenas uma invenção piedosa dos tempos posteriores. A história do primeiro Natal na terra é bem pitoresca conforme se lê nos Evangelhos, na condição de que não se lançam muitos pensamentos sobre a narrativa devido à natureza primitiva dos tempos e das circunstâncias. Desde esse primeiro evento, a terra viu o surgimento de um imenso número de costumes agradáveis e lendas ligadas à sua celebração anual. Como festa, foi sempre simples, já que tratava grande parte de um processo comum a toda a humanidade, e sem o qual não haveria nenhum ser humano na terra. Os aniversários são considerados agradáveis, e o nascimento de Jesus foi um evento do qual toda a Cristandade poderia compartilhar. Quando se aproxima o tempo do Natal na terra, nós camos muito conscientes disto no mundo espiritual, pois muitos pensamentos nos localizam aqui numa antecipação aprazível das festividades que se aproximam. Realmente, é a única estação do ano terrestre em que uma onda de bondade sai da terra, ou seja, para subir ao mundo espiritual. Nós, nestes planos, não temos nenhum interesse em um Natal que seja um banquete eclesiástico, mas camos profundamente jubilosos por causa das muitas mentes que nos trazem alguma recordação naquele momento, embora possam nos esquecer pelo resto do ano! A história do nascimento de Jesus na terra, narrada como está no Novo Testamento, nos traz imediatamente a um reino de mistérios e maravilhas, como também a 'eventos sobrenaturais'. A profecia angelical dada aos pastores, com seu cumprimento rápido, e depois a visita de certos homens sábios que foram conduzidos pelo 'movimento sobrenatural' de uma estrela até aquela parte da terra onde o Jesus nasceu, e o resto, pensado em conjunto, constitui uma história encantadora, uma história que atingiu a fantasia do homem na terra e fez do nome e do movimento do Natal um sinônimo de tudo aquilo que é bondade e idealmente agradável; um tempo jovial, feliz. Como tal, que seja para sempre recomendado pelo seu elevado valor como meios de ressurreição espiritual do homem na terra. Mas a mesma história, tomada em conjunto com a narrativa inteira da vida de Jesus, é onde a verdade foi obscurecida. Que Jesus nasceu no mundo terreno é uma verdade além de sutilezas ou dúvidas, mas que não houve nenhum 'milagre' em seu nascimento nem nos demais eventos também é uma verdade. A palavra milagre, claro, é frequentemente agregada a numerosos eventos espalhados ao longo dos quatro Evangelhos. Esses milagres são declarados como tendo sido executados por Jesus, e são aclamados pela igreja, ou algumas seções dela, como provas da divindade de Jesus. O assim denominado milagre do seu nascimento, claro, permanece por si só. O que é precisamente um milagre, ou ainda, como se dene o termo? De acordo com o idioma terrestre, um milagre é a ocorrência ou a atuação de algum evento maravilhoso ou ato através de meios ou agentes sobrenaturais. Isso introduz outra palavra que requer elucidação. Sobrenatural seria denido, penso, como estando acima das forças de natureza, ou além do reino das leis naturais. Isso é uma impossibilidade absoluta.

As leis de natureza são preeminentes. O que parece ser um 'milagre' não é bem assim. É somente o emprego de forças naturais de acordo com leis naturais. Todo o funcionamento do mundo espiritual é baseado em leis naturais. Ninguém, nestes reinos nos quais vivo ou em qualquer reino mais elevado ou mais baixo em estado espiritual, pode mover uma fração de uma polegada além de qualquer lei espiritual. Os aparentes milagres que reputam ter Jesus executado não são, na realidade, milagres de fato, no sentido geralmente aceito do termo, mas a utilização de forças naturais. Se esses atos de Jesus em particular, que são denominados milagres, são encarados como atos executados por Jesus sendo Deus feito homem, então tais atos podem ter pouco ou nenhum signicado para a humanidade neste ano presente de seu tempo terrestre. Eles são locais e contemporâneos; locais à região onde o próprio Jesus viveu, e contemporâneos com seu tempo. Foram de serviço inestimável aos interessados, já que curou os doentes, curou os cegos, 'ressuscitou o morto' — sobre o que terei algo lhe dizer mais tarde — e as muitas outras ações de serviço nobre para a sofredora humanidade. São registros, apesar de escassos, de realizações excelentes. Muitas almas atormentadas devem ter desejado ansiosamente que Jesus vivesse na terra nestes tempos de agora para trazer ajuda da mesma forma. Considerados assim, tais atos são somente incidentes a serem lidos no Novo Testamento. Em uma palavra, não têm nenhuma aplicação prática à vida como ela é vivida na terra neste momento presente. Mas para o estudioso de mediunismo, estes atos de Jesus apresentam um quadro muito diferente. Eles deixam de ser locais e contemporâneos, e se tornam um registro, apesar de faltar alguma coisa como mais detalhes, é verdade, mas um valioso registro, entretanto, do 'poder do espírito', do uso das forças naturais por um instrumento humano treinado à perfeição absoluta no exercício das habilidades mediúnicas. Estas habilidades estão residentes em todos os seres humanos. Em alguns, estão sem cultivo e assim permanecem; em outros estão dormentes, mas são desenvolvidas eventualmente e empregadas a serviço dos irmãos da raça humana. O número de tais pessoas é lamentavelmente pequeno, comparando-se com os milhões da terra. Mas eles existem, como existiram na terra nos primeiros tempos. Nunca fez parte do esquema das coisas que nossos dois mundos, o seu e o nosso, devessem ser separados, ou seja, dois compartimentos sempre isolados, impedindo um ao outro a visão e o som. Os meios sempre existiram pelos quais as pessoas do mundo no qual moro pudessem se comunicar com as pessoas do mundo no qual você mora. Mas a Ortodoxia, de uma forma ou outra, tentou eliminar o relacionamento entre espíritos, ou impedi-lo, suprimindo os instrumentos por meio dos quais tal comunicação é efetuada. A Ortodoxia nunca foi bem sucedida — e não será jamais. O mundo espiritual é imensamente mais forte que a Ortodoxia, e sempre será. Deveria ser logo enfatizado que estas habilidades mediúnicas são coisas perfeitamente naturais. Elas são inerentes em todo ser humano nascido na terra. Não se atroaram pelos longos anos de desuso; ainda estão lá, mas estão dormentes e então precisam 'desabrochar' por desenvolvimento apropriado. Atualmente, a posse de tais habilidades pode ser considerada decididamente uma coisa 'esquisita', e os seus possuidores são realmente tidos como pessoas que não são totalmente 'certas' — 'pessoas peculiares', na realidade! Tanto as faculdades mediúnicas quanto seus e seus portadores são apenas normais. Uma apreciação como essa é totalmente errada. Com que frequência se ouve na terra a pergunta: por que é necessário que eu vá a um médium — pois é assim que os dotados destas faculdades são designados — para falar com meus amigos que já se foram? Não haveria nenhuma necessidade de se ir a outro lugar pelo que tais pessoas buscam, se zessem apenas o que é palpavelmente óbvio, isto é, desenvolver os seus próprios poderes psíquicos e exercitá-los da maneira que deveriam ser exercitados. Certos sentimentos de desgosto talvez surjam nas mentes de alguns que podem estar 'apalpando' forças que seria decididamente melhor deixarem de lado; alguns dirão que a indulgência com práticas como a de falar os 'mortos' é sicamente antinatural e doentio, doentio sicamente, e decididamente doentio espiritualmente. Para todos eles eu diria peremptoriamente: Tolice! O homem na terra não tem percepção nenhuma dos próprios poderes inerentes a ele. A sua vida terrestre é limitada somente pelos seus cinco sentidos. Ele não dá nenhuma atenção nem tem nenhum conhecimento sobre seus sentidos mediúnicos que, sob desenvolvimento apropriado, é capaz de trazer à superfície, e usá-los tão facilmente quanto os sentidos físicos. Há, claro, pessoas que, com a sensibilidade religiosa aguçada, objetam que não é certo nem apropriado que se 'perturbe os mortos', e que, de qualquer forma, às pessoas não é dado saber qualquer coisa sobre tudo isto porque Deus não deseja que isto seja assim. Em tempos passados, as mesmas objeções insensatas surgiram quando apareciam entre os povos da terra quaisquer invenções novas e revolucionárias. Havia frequentemente fortes brados dizendo que tais inovações eram contra as Escrituras Sagradas, como se as Escrituras Sagradas contivessem tudo aquilo é espiritualmente necessário para o gênero humano na terra. As Escrituras Sagradas são apenas uma minúscula e bastante mal-formada gota num oceano colossal de conhecimento espiritual. É perigoso se supor que as Escrituras Sagradas sejam a última palavra em assuntos que estejam voltados à conduta de homem na terra. Mas a Igreja, ou pelo menos uma parte dela, ensina exatamente isso. Quando eu estive na terra, acreditei que toda a revelação entre Deus e o homem tinha cessado, e que com a passagem do último dos Apóstolos nenhuma palavra adicional de Deus seria enviada para a terra. Se puder, eu gostaria de divagar por um momento — hábito ao qual meus amigos já estão cando acostumados, seguramente! Desde que moro no mundo espiritual, muitas vezes tenho meditado sobre as convicções extraordinárias que aprendi e propaguei quando fui padre da Igreja. Claro, não cou só nisto; a experiência com meus muitos amigos mostrou-me que quase não há ministro da Igreja, excluindo esses homens afortunados que foram espiritualmente iluminados antes de virem ao mundo espiritual, que em algum instante deixe de repensar profundamente as convicções que sustentou quando encarnado, a conança que depositou naquilo que desde então se revelou ser trivialidade completa, juntamente com as coisas estranhas que professou de seu púlpito como sendo verdades espirituais. Que mundo pequeno e estreito em que trabalhamos! Tentamos limitar, veja, este gigantesco, soberbamente organizado e transcendentemente belo mundo espiritual dentro de algumas palavras tiradas de um livro antigo. Tentamos dar entrada neste mundo maravilhoso dependendo de algumas regras infantis baseadas num texto extraído daquele mesmo livro antigo; ou condicioná-la à obediência a algumas regras fabricadas da Igreja.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.