Voltar ao livro Guerras e Profecias

Capítulo 5 de 24

Profecias de Guerras — parte 3 de 12

Guerras e Profecias · Ernesto Bozzano

CASO VII – Desejando ser o mais completo possível na exposição das verdadeiras profecias em torno da grande guerra, não posso deixar de me referir aos três outros episódios que não têm grande valor teórico, mas que por outro lado tiveram como protagonistas indivíduos que sob outros pontos de vista, são personalidades eminentes; sem falar que se os próprios episódios forem analisados com a devida sagacidade, e se considerados em conjunto com os demais, adquirem o necessário valor probatório, no sentido de que não pode haver motivo para não considerá-los por sua vez de natureza genuinamente sobrenatural. O protagonista deste primeiro episódio é o célebre “curato d’Ars”: Jean Baptiste Vianney, canonizado recentemente pela Igreja. Maurizio Maeterlinck o cita em seu livro “Les Débris de la Guerre” - “Os escombros da guerra”. Ele escreve:

«... A profecia em questão foi conhecida em 1872, três anos após a morte do taumaturgo, e confirmada por uma carta de Monsenhor Perriot, endereçada em 24 de fevereiro de 1872 ao padre Don Grès. Ela foi publicada em 1872 em uma coleção de previsões intitulada: Voix prophetiques ou Signes; Apparitions et predictions modernes. (Vozes ou sinais proféticos; Aparicões e predições modernas)». A data da profecia em questão era certa. Ignoro os detalhes relativos à guerra de 1870, visto que não ofereceriam garantias semelhantes, e passo ao que se refere à guerra atual. Cito o texto de 1872. “Os inimigos não irão embora para sempre. Eles ainda voltarão, destruindo tudo em seu caminho. Eles não sofrerão resistência, e lhes será permitido avançar. Porém seus mantimentos serão cortados, e lhes serão impostas enormes perdas. Se retirarão gradualmente para seus distritos, sempre seguidos de perto pelos nossos; e serão poucos os que tornarão as suas casas. Então tomaremos de volta do inimigo tudo aquilo do qual ele se apossou, e aliás ainda mais».

Quanto a data do acontecimento, foi designada pelo vidente de uma forma verdadeiramente impressionante, com estas palavras: “Eles vão querer canonizar-me, mas não terão tempo”. Aconteceu que os preliminares para a canonização do curato d’Ars, foram iniciadas em julho de 1914, e foram abandonados forçosamente à causa da guerra”. Como eu já havia advertido antes, a profecia relatada resultaria em si mesma muito vaga, muito genérica para ser levada em consideração; mas, em compensação, contém nela uma segunda profecia, complementar à primeira, referindo a um tempo e a data na qual deveria ter estourado a guerra, e a data em que a Igreja teria iniciado o processo de canonização do próprio vidente; e esta segunda profecia por si só é suficiente para conferir valor teórico às frases muito gerais da primeira entre eles. Isso porque a segunda profecia certamente não poderia ser inferida das causas existentes no presente. Em outras palavras: dado que a segunda profecia é, sem dúvida, da ordem sobrenatural, então também a primeira, que está em relação direta com a segunda, deve ser da ordem sobrenatural. * * *

CASO VIII – Este segundo dentre os episódios em questão, teve como protagonista um grande psicólogo: o professor Theodore Flournoy, de Genebra.

Ele, escrevendo ao professor Hyslop (que publicou sua carta no "Journal of the American SPR" (1915, p. 238-240), solicitou não ser mencionado, unicamente por razões políticas e administrativas de índole local, razões que já não existem. Deste modo, considerando que a visão que estou prestes a relatar adquire uma grande parte do seu valor dado o nome do eminente psicólogo que foi o protagonista, não hesito em publicá-la. Ele, em 15 dezembro de 1914, escreveu nestes termos ao Prof. Hyslop: “Tenho o prazer de relatar a experiência pela qual passei antes da guerra, embora, no momento, preferirei não ser mencionado... “Quando tive a experiência em questão, estava na companhia do doutor Roberto Assagioli, diretor da Revista Psiche, que dividia a mesma sala comigo...

Lhes transmito aqui junto, o seu testemunho: “Cerca de três semanas antes do início da guerra, e antes que houvesse o menor indício ou suspeita de que algo assim poderia acontecer na Europa; quando todos ainda acreditavam que o esforço persistente da Áustria para subjugar a Sérvia se esgotaria sem consequências, como tantas vezes no passado, eu estava em Zurique, hospedado com um amigo, junto com o doutor Assagioli de Florença. «Uma noite, quando ia para a cama, de repente me vi a olhar, não para o teto do quarto, que tinha desaparecido, mas diretamente para o espaço, onde vi desenrolar-se uma terrível batalha, que rapidamente pareceu estender-se ao mundo inteiro. Acho muito difícil colocar em palavras o que estava acontecendo antes de mim. Eu podia ver fileiras imensas de homens armados avançando uns contra os outros. Foi um espetáculo que tinha em si do Titânico e do Cósmico.

Os dois exércitos lutadores pareciam-me tão vastos que pareciam se estender para cercar o mundo inteiro, e um deles parecia representar a potência benéfica da Luz, o outro, a potência maléfica das Trevas. Embora eu não percebesse com o sentido físico da audição, ainda sentia um tremendo estrondo de batalha que parecia invadir o universo, e trovejava com tanta veemência em meus ouvidos que me causava um atordoamento geral. Essa visão assustadora da guerra persistiu no céu por toda a noite, e o barulho que me atingiu teve uma influência poderosa em minha alma. Tentei por todos os meios impedir que os olhos vissem e os ouvidos ouvissem, mas sem sucesso. Levantei-me literalmente exausto, tentando fixar minha atenção sobre qualquer outra coisa, mas era impossível para mim. Por quarenta e oito horas seguidas, vivi vendo e ouvindo essa tremenda conflagração mundial, enquanto as coisas concretas que

me cercavam pareciam efêmeras, como sombras. Paralelamente conversei com amigos e, nas duas tardes do mesmo período, participei em dois almoços para os quais fui convidado; e, no entanto, apesar disso, por quarenta e oito horas seguidas fui um espectador daquela visão terrível, que me deixou tão exausto que em mim parecia apagada toda vitalidade. “Não atribuí significado terreno ao que vira; e muito menos me ocorreu que poderia ser uma premonição de eventos que aconteceriam neste mundo. Em vez disso, presumi que pudesse ser algo simbólico no sentido espiritual, ou as consequências em meu sistema nervoso de uma grande dor pela qual havia passado, causada pela morte de minha esposa. Depois de ter testemunhado aquela visão por 36 horas, fui persuadido de que havia realmente algo anormal nas funções de meu órgão cerebral, e decidi consultar um especialista eminente; mas como depois de 48 horas tudo acabou, não pensei mais no que me acontecera e logo me esqueci. 'Mas quando a guerra estourou na velocidade de um relâmpago, de repente me lembrei; e, lembrando-me, disse a mim mesmo: - Foi isso que eu vi!

E se for assim, então certamente deve ser uma guerra muito mais universal, muito mais longa, muito mais terrível em suas consequências mundiais, do que os governos das nações bélicas estão assumindo neste momento. "Eu relatei minha visão para você porque você me perguntou, mas eu duvido que possa ter valor do ponto de vista metapsíquico. Nada disso é revelado que possa ser considerado teoricamente "probatório", embora eu acredite não ter conseguido descrever efetivamente o que vi; uma vez que essas são impressões literalmente inexprimíveis em palavras. No entanto, acho que para você, pessoalmente, minha visão pode ter algum valor; e, portanto, estou enviando-o junto com o certificado assinado pelo Dr. Assagioli". (Segue o depoimento do médico Roberto Assagioli a respeito da exatidão escrupulosa da narração exposta).

Em relação à última observação do professor Flournoy sobre o baixo valor teórico da visão que ele teve, o prof. Hyslop observa: “É a massa cumulativa de tais experiências que contribui para a criação do elemento probatório, do ponto de vista científico; e o objetivo que buscamos publicando narrativas como a anterior não é precisamente e principalmente demonstrar uma teoria, mas registrar e classificar experiências ocorridas com pessoas inteligentes. Não é nossa tarefa proceder à escolha dos incidentes que resultam boas evidências em apoio a uma teoria, eliminando as deficientes

nesse sentido. Somos colecionadores de eventos metapsíquicos e deixamos ao leitor o dever de que os julgue ...». Assim é, de fato. A visão do prof. Flournoy, se alguém quisesse considerá-la isoladamente, poderia, estritamente falando, ser explicada com a mesma teoria alucinatória após um período de depressão moral no paciente; mas se, em vez disso, fosse considerada cumulativamente a tantas outras análogas que ocorreram durante o período anterior à guerra, então não há razão para separá-la das demais, considerando-a de origem puramente alucinatória, no sentido patológico da palavra. Ainda mais se levarmos em conta que o professor Flournoy declara que não pensou absolutamente na possibilidade de uma guerra; e sendo assim, ele não poderia se autossugestionar quanto ao sentido da visão que teve. Acrescenta-se que nela si revelam detalhes proféticos sobre a extensão mundial que a guerra levaria, os quais que não estavam na mente de ninguém naqueles dias.

Além disso, não haveria razão para separá-la das demais do mesmo gênero, por considerá-la de origem alucinatória, se observarmos as interessantes analogias de manifestação que apresenta como a referida no caso VI, em que o médium Reine havia saltado subitamente, como que invadida pelo terror, exclamando: «Ah! Ah! Mas é horrível! É assustador! Que horror! Como eles lutam! Soldados... Cavaleiros.... Que matança horrível! De fogo, de sangue por toda parte... Mas é assustador! Eles se massacram! Que carnificina! Existem pilhas de cadáveres; feridos, aos milhares... Incêndio por toda parte .... Tudo está arrasado! O campo, as florestas, as cidades inteiras... Morte, ruína, desolação por toda parte! Oh! Espetáculo feio, repulsivo, hediondo!... ».

Quanto às causas que determinaram, ou possibilitaram esta vivíssima e persistente visão premonitória do professor Flournoy, noto como ele observa que durante o período da visão, as coisas concretas que o cercavam lhe pareciam sombras efêmeras; o que demostra que ele se encontrava em condições mais ou menos disfarçadas de sonambulismo vigilante; o que vem a contribuir para provar que se tratava de uma visão verdadeira simbólicamediúnica, e nunca de alucinação patológica. Permanece não resolvido e insolúvel o mistério fundamental implícito a todas visões proféticas: mistério que pode ser formulado na seguinte pergunta: Quem foi o agente transmissor das visões verdadeiras em questão? Eram visões transmitidas telepaticamente por uma personalidade espiritual, a fim de avisar o vidente, e para ele um meio para avisar a humanidade, na iminência de um

cataclisma de sangue; ou foi a personalidade subconsciente integral do próprio vidente, que, tendo aprendido sobre a iminência da grande guerra em virtude das faculdades premonitórias inerentes a todas as personalidades subconscientes, aproveitou a ocasião do estado de depressão moral em que sua própria personalidade consciente se encontrava - estado favorável à transmissão de visões alucinatórias - verídicas - para alertá-la sobre o que estava para acontecer? A este propósito, pode-se afirmar: que pela explicação dos fenômenos das visões proféticas, não pode haver outra alternativa senão as duas citadas, ambas possíveis, ambas legítimas, ambas confirmadas pela análise comparativa dos fatos, assim como ambas necessárias para se ter razão do complexo dos mesmos. Mais do que isso não é licito afirmar em relação ao caso em questão. * * *

CASO IX – Este terceiro e último episódio pertencente ao grupo de que estamos falando, teve como protagonista o famoso romancista inglês Sir Conan Doyle, que também é um profundo amante da pesquisa da Metapsíquica, além de notável vidente muitas vezes favorecido pelas manifestações premonitórias. No livro: Memorie ed avventure, (Memórias e aventuras), ele observa a esse respeito: “Várias vezes na minha vida acordei com a vívida impressão de um conhecimento adquirido por mim durante o sono, e que ainda me sentia persistente no limiar da consciência. Na última dessas circunstâncias, fiquei com a lembrança da palavra "Nalderu", e a vivacidade da impressão foi tanta que resolvi tomar nota do fato e da palavra. Um mês depois, ocorreu-me subitamente que tinha de partir para a Austrália, e o vapor em que embarquei chamava-se "Naldera", um nome cuja existência eu absolutamente desconhecia".

Durante a guerra, e precisamente no mês de abril de 1917, Conan Doyle teve outra dessas manifestações premonitórias em sono, da qual não se lembrava mais quando acordado, exceto por uma vaga ideia geral de vitórias, e uma palavra que se tornou muito vívida em sua memória. Teve o cuidado de enviar uma nota sobre o assunto à "Society for Psychical Research", para que o incidente que considerou premonitório fosse devidamente registrado antes dos acontecimentos que deviam confirmá-lo; e quando os fatos ocorreram, enviou a seguinte carta ao próprio secretário da Sociedade, que a publicou na edição de

janeiro de 1919 (p. 10-12) do Journal of the S.P.R., juntamente com a nota enviada anteriormente por Conan Doyle: "Caro Secretariado do S.P.R., «Na manhã de 4 de abril de 1917, acordei com a impressão muito viva de ter aprendido uma notícia muito importante durante o sono. Também tive a sensação de que eram as informações que traziam grande consolo à minha alma; mas, infelizmente, lembrei-me apenas de uma palavra da mensagem sobrenatural obtida, e a palavra era esta: “Piave! Piave!". Eu tinha certeza de que era uma palavra fundamental da mensagem esquecida; no sentido de que, tomando nota disso, eu teria possuído a "pedra angular" da própria mensagem. “Em minhas leituras devo, sem dúvida, ter conhecimento dessa palavra, e durante minha visita à frente italiana, devo ter cruzado o rio que leva seu nome; mas não retive o nome de nenhum curso de água atravessado, exceto o do rio Isonzo, em que a batalha se travava naqueles dias. Seguiu-se que a palavra "Piave" literalmente nada sugeria em meu pensamento.

No entanto, a nítida impressão que me ficou na memória levou-me a ir ao estúdio consultar o índice de um Atlas europeu; e então descobri que essa palavra era o nome de um rio italiano, a mais de cinquenta milhas atrás da frente de batalha, no qual o exército italiano avançava vitoriosamente por toda parte. Nada mais absurdo para mim do que pensar na possibilidade de uma transferência da guerra para o Piave. No entanto, fiquei tão impressionado com o sonho que fiz uma nota imediata do incidente que me ocorreu, na presença de duas testemunhas, colocando nela a data de 4 de abril de 1917, e relevando nela que eu tinha sido avisado por meios sobrenaturais, que um grande acontecimento de guerra se desenrolaria no rio Piave; acrescentando que, com base na sensação de conforto que ficou em mim, deduzia que deveria tratar-se um grande acontecimento favorável aos Aliados; embora eu não pudesse entender como um grande evento de guerra, favorável a nós, ocorreria cinquenta milhas na retaguarda.

“Agora, no entanto, é uma questão de história que seis meses depois o exército italiano foi desalojado de suas posições. No momento em que aconteceu a grande retirada, enviei um envelope lacrado a S.P.R., no qual continha o relato do sonho que tive. O exército italiano cruzou vários cursos de água, incluindo o rio Tagliamento, onde parecia provável uma parada para descansar, e finalmente parou bem no Piave, embora os técnicos tivessem

declarado que aquele rio não poderia se defender, porquanto era exposto aos ataques da ala esquerda inimiga. “Quando terminei de escrever meu livro The New Revelation, o exército italiano havia se posicionado sobre o Piave, e ao relatar o incidente de meu sonho, me expressei assim: “Se nada mais acontecer de notável importância, a alusão a um tal nome já se justificaria plenamente na hipótese de que uma entidade espiritual tinha pretendido transmitir-me notícias sobre os acontecimentos que estavam amadurecendo; no entanto, creio que com a alusão ao Piave se intentava ainda mais, e que uma vitória decisiva naquele rio justificará mais e admiravelmente a modalidade paranormal pela qual veio ao meu conhecimento." Este parágrafo foi publicado em abril de 1918. «Pois bem: todos recordam que no dia 17 de junho de 1918, travou-se a primeira grande batalha sobre o Piave; que embora não tenha sido uma grande vitória, foi uma vitória importante; e é muito notável o fato de que a mesma data marcou o ponto de reversão no destino da guerra.

Até aquele dia, e apenas naquele ano, os Aliados tinham sofrido três derrotas severas: a segunda batalha do Somme, a batalha de Lys e a segunda batalha do Aisne. Em 17 de junho, a perspectiva sobre o destino da guerra parecia muito obscura; mas desde o dia da batalha do Piave os exércitos aliados não mais recuaram em nenhuma das frentes, e em todas as frentes começou uma sucessão de vitórias, que culminou na italiana, a segunda no Piave; vitória que foi a mais completa e decisiva de toda a guerra. Segue-se que, ao transmitir-me a palavra "Piave", a entidade espiritual comunicante transmitiu-me a "pedra angular" de toda a situação. “Certamente ninguém pensará em explicar os fatos a partir da hipótese de 'coincidências fortuitas'; especialmente porque mesmo que meu subconsciente soubesse da existência de um rio chamado "Piave", isso certamente não foi suficiente para fazer o exército italiano recuar para suas margens. Poderia ter sido telepatia então? Menos do que nunca, já que ninguém no mundo poderia telepatizar tal sucessão de eventos futuros. Sendo esse o caso, como resolver a questão?

De minha parte, defendo que a única explicação possível consiste em supor que uma entidade espiritual que é minha amiga, sabendo que eu estava muito desmoralizado naquele momento pelo destino constantemente adverso que tocava nossas armas, se apressou a me trazer o conforto moral de que precisava, informando-me sobre os próximos eventos decisivos que estavam madurando em favor dos aliados. É verdade que, com base em minha própria experiência, fui informado de que os espíritos dos mortos mais próximos de

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.