Voltar ao livro Verdades Imortais

Capítulo 9 de 19

Imortais — parte 4 de 11

Verdades Imortais · Osvaldo Polidoro

E diante da mudez do infeliz, que revela nada saber de tais Verdades Fundamentais, o servidor murmurou: — Logo estarás curado e em estado de aprender as lições necessárias. Não te preocupes, que os ensinos virão e com eles os novos encargos, para que te libertes das culpas adquiridas e te faças um digno irmão de Jesus Cristo. Pensa, todavia, em termos de eternidade, para que te proponhas a andar devagarinho e com o máximo de segurança. A Verdade não tem pressa e nós devemos ser prudentes, para não cairmos em tentações, em abismos, por causa das precipitações que a vaidade, o orgulho e o egoísmo soem provocar e impingir. Saímos dali e fomos à chefia de nosso departamento; horas depois, estávamos na crosta, para entregar a mensagem a que já me referi. Como fosse a minha primeira viagem à crosta, senti bastante a diferença de contato, o choque entre as condições vibratórias, pois a Terra e sua atmosfera irradiam de modo grosseiro, de modo grosseiro e bastante inferior do ponto de vista psíquico, em vista dos pensa-mentos, sentimentos e práticas de sua Humanidade. A mensagem vinha de encontro a um pedido feito; um grupo de estudiosos queria fundar um Centro, em determinada região da França, escolhendo o patronato de alguém que fora canonizado pela igreja romana, pelo fato de se comunicar entre eles através de uma senhora, portadora de ótimas faculdades mediúnicas. A consulta fora feita pelo chefe do grupo, em lugar diferente e através de outro médium. E continha bastante prudência, pois ele achava que o tal patrono, embora dócil aos ideais cristãos, tivera em vida procedimento contrário à Lei de Deus, pois fora um dos grandes chefes inquisitores. Consentia, como disse, em que fosse indicado como patrono do Centro, não porém com o título de santo, assim como a igreja romana o impusera aos seus profitentes. A resposta do Plano Superior, onde fora parar a consulta, veio em desabono do patrono sugerido, pelo fato dos trabalhos que teria o Centro de levar a termo, onde teriam de intervir grandes vultos da erraticidade. O patrono deveria ser escolhido entre os virtuosos de fato, não os santos feitos segundo as conveniências do mundo. Porque o tal espírito indicado, ali presente, não passava de um grande infeliz, tomando ares de importante, de autoridade, sujeito ainda ao guante de seus orgulhos despóticos. Não estava sofrendo, pois já havia feito severos resgates, mas estava planando em esfera mental e vibratória fartamente inferiores. Como resultado, a senhora médium afastou-se, magoada com a preterição de seu querido santo. Mais tarde, não muito mais tarde, depois de organizado o Centro, fomos visitá-lo, tendo encontrado ali severo ambiente, de todo disposto aos melhores feitos. E ficou combinado, entre as partes, da crosta e do mundo espiritual, que alguns médiuns viriam, encaminhados pelo nosso plano, a fim de que eles pudessem trabalhar pelo bem da Humanidade, à altura de seus recursos. Com o tempo, ficou sendo um dos bons Centros em chão francês, produzindo maravilhosas curas e levando o conhecimento da Verdade a muitas inteligências. Para serviços tais, importa que o AMOR se imponha, o que não aconteceria, caso fosse oficializado o patronato daquele vulto, falho de virtudes e farto de vício, entre os quais se salientavam a idolatria e o imenso orgulho, que lhe minavam o íntimo, prejudicando-o tremendamente em suas necessidades evolutivas. Não tanto a idolatria, pois são muitos os espíritos que, por infantilidade, a ela se entregam, por seu intermédio adorando a Deus, embora sacrificando suas necessidades íntimas de aprimoramento psíquico. Realmente, a idolatria não faz tamanho prejuízo, quando o espírito é simplesmente infantil, sujeito a superstições e a simulacros, pela sua própria falta de noção da Verdade e de suas responsabilidades. Assim como não se pode querer que o espírito infantil proceda com superioridade. Entretanto tal não se passa com o orgulho, pois este fere frontalmente as virtudes latentes da centelha espiritual, que carece de evolver, que necessita de luz e de trabalho. O orgulho engendra vaidades e comanda toda e legião de outros defeitos; o orgulho cega a criatura em face de suas prementes necessidades, chafurdando-o nos abismos trevosos, enquanto lhe faz parecer que é mais do que os outros! Quem quiser ver até onde pode o orgulho, observe que os senhores das religiões, em todos os tempos se entregaram a nefandas obras, traindo as disposições da Lei, para forjarem seus dogmas e rituais, suas maquinações infernais. E quando se chega a saber que o orgulho faz um simples errado e pecador pensar que pode ensinar a Deus, o que mais é necessário dizer? Se ele faz o pecador se acreditar suficiente para alterar a Ordem Divina, que mais é preciso dizer, para que se saiba o quanto é nocivo e degradante? Não há necessidade de dizer outras facetas do orgulho, quando exercido nos quadros de outras atividades humanas, onde fomenta divergências de todo jaez, erguendo barreiras entre os homens e criando dificuldades intransponíveis à evolução dos espíritos. Quando nos domínios da fé ele opõe a criatura ao Criador, fazendo-a crer que é autoridade para alterar as Verdades Fundamentais, o mais tudo é de fácil compreensão. E se quisermos saber quando se torna formidando em sua capacidade de corrosão em geral, basta aliá-lo ao egoísmo; deste conúbio, dessa infusão tétrica surgem as infernais engendrações que mancham de sangue e que atam as almas a tremendos lastros cármicos. Egoísmo e orgulho, quando articulados, cavam abismos e descidas aos hediondos países do pranto e ranger dos dentes, na palavra de Jesus Cristo. E a terra é um mundo assaz inferior, onde os perigos armam laços e tocaias a seus habitantes, pelo fato de serem tardos de coração e fartos de malícia, fracos de reais conhecimentos e fortes de presunção. Um fato que dias depois teve como cenário aquele mesmo departamento de análise psíquica foi a vinda de um irmão, de alguém que triunfara sobre suas mesmas inferioridades. Defrontara seus erros com severa bravura, armado de fé, esperança e trabalhos mediúnicos superiores. Digo superiores pelo fato de ter sido um bom médium passista, um grande benfeitor de seus semelhantes. A ferramenta que lhe serviu, saibamos, vive a enferrujar nas mãos de muitos outros, que nada ou muito pouco fazem. Ele a usou como devia, produziu o que pôde e veio com a sua bagagem em estado de fartura. Ao falar-me o servidor sobre ele, fê-lo com elevação de sentimentos: — Alexandre foi um bom, foi amoroso; de todas as oportunidades, amar aos que sofrem e necessitam é a que mais rende. E Alexandre foi inteligente, porque se agarrou ao trabalho de servir aos doentes, aos sofridos do mundo, com todo o ardor de que fora capaz. Ontem, ao ser retirado do corpo, tudo presenciou, tudo se lhe tornou consciente, como paga do Céu pelas suas prendas de capacidade renovadora. — Era um grande errado? — Basta dizer que era um dos habitantes desta região. — E para onde irá, agora, que a si próprio se superou? — Não sei, pois ele poderá optar pelo trabalho entre nós, como alguns já o fizeram. Temos necessidade, em nossos hospitais e postos de socorro imediato, de criaturas amorosas. Já sabemos como as coisas se passam, pois não? — Sei que onde tudo o mais pode falhar, o Amor sempre tem o que fazer, avançando alguma ou até mesmo muita coisa; sei que, ao merecer alguém, ficam para o lado as práticas terapêuticas normais, intervindo o Amor, através de quem tenha como vazá-lo, para que tudo se realize, depressa e melhor! Tenho notado, também, a unção com que os mais capazes encaram as intervenções do Amor; diante de quem mais ama, todos se inclinam, todos se tornam reverentes. Discutem os nossos maiores sobre princípios, processos e técnicas; falam sobre dietéticas e terapêuticas, simpatizando ou não, assim como o fazem os irmãos da crosta; mas, tenho observado, que ninguém diz palavra, e todos se curvam, quando o Amor vem e faz das suas, através de alguém que o veicula! — Nem poderia ser de menos, Gregório, pois o Amor é das manifestações de Deus, a que mais nos prende e eleva, diviniza e glorifica. Disse um Apóstolo, elevado nas asas do sublime, que Deus é Amor! Para mim, Deus é Absoluto ao Infinito, é sem limitações. Porém, o Amor é a Sua manifestação que mais me convém no estado em que me encontro. E depois de breve pausa, convidou-me: — Estás convidado para fazer parte da comissão observadora. — Que comissão? — Aquela que estará presente durante a análise psíquica de Alexandre. Sempre que há um caso raro, nossos maiores escolhem alguns elementos e oferecem-lhes a oportunidade. Como sabe, há muito que aprender nas revelações históricas das almas, em seus feitos, favoráveis ou agravantes. Afinal de contas, assim quer Deus que a vida contenha todo o cabedal de instruções necessárias. Ninguém atingirá o Reino do Céu interior, a iluminação crística, sem ser através dos eventos da vida. Eis porque, realmente, as grandes almas são as grandes observadoras de todos os fenômenos da vida. Em tudo quanto existe há finalidade, e, por isso mesmo, os eventos da vida são as marcas da movimentação e do progresso. Observe que, tendo o espírito a obrigação de evoluir intimamente, já que de fora não virá o Reino do Céu, se dele tirassem a vida contínua e seus acontecimentos, seria a mesma coisa que lhe tirarem o direito de evoluir, os meios de realizar a sua cristificação. E, por isso, não existe uma grande alma que não seja uma grande observadora dos eventos históricos individuais e coletivos. — Compreendo, compreendo; e com isso voltamos ao mesmo pé, que é concordar com a autodeificação, com o desabrochar dos poderes latentes, à custa dos próprios esforços. A grandeza de uma alma, portanto, está na razão direta de sua feitura íntima, em concordância com a Lei de Equilíbrio. — Justamente, Gregório. E você irá observar, mais uma vez, a história de um grande errado e grande lutador pela sua libertação. Irá compreender que andou jogando mal com as suas liberdades individuais, armando-se de trevas e dores, para depois ter que enfrentar severo programa ressarcitivo. E como resumo, concordará em que o fiel da balança está dentro de cada um de nós, sendo sempre mais feliz aquele que melhor souber agir harmonicamente, prestando-lhe atenção. — E de novo teremos a Lei pela frente, não é isso? — Normalmente, teremos sempre a Lei pela frente; o Modelo Divino, precisamente por ser Divino Modelo, atendeu aos proclamos da Lei, deixando aos homens Seus irmãos o exemplo total. E se alguém achar que pode derrogar a Lei, que faça a experiência. Bem cedo compreenderá que agiu como tolo, sobrecarregando-se de faltas e de duras conseqüências porvindouras. — Tenho, bondoso servidor, feito umas perguntas a muitos irmãos; tenho desejado saber sobre as causas de meus pequenos ou grandes sofrimentos. E em todos os casos, tenho descoberto atos transgressores, desvios da Lei. Até cheguei a pensar, aqui com os meus botões, como se dizia muito na crosta, para recomendar exclusivamente o culto da Lei... Antes que eu terminasse, o servidor interrompeu-me: — Mas o Cristo não fez isso mesmo?!... — Pelo menos, — repliquei, — não dizem que Ele redime os pecados e salva por medidas de graça? Com vigoroso acento na voz, observou: — Fiquemos naquilo que o Cristo fez, ensinou e deixou como Doutrina. Ele não Se disse redentor e nem prometeu salvações de favor ou graça. Em tudo viveu a Lei e transmitiu a toda a carne a Graça da Revelação generalizada, ela que é a fonte de advertências, o instrumento de ilustração e portadora de consolações. O restante pertence aos invencionismos de homens, mormente daqueles homens que para terem na fé um bom comércio mundano, de tudo lançaram mãos, inclusive das maiores aberrações, criando conceitos e formalismos que, uma vez impostos como artigos de fé, foram produzindo seus terríveis efeitos, porque desviando da Verdade libertadora. Como dizem os nossos livros de instrução, Jesus tomou a Lei de Deus por base e deu-lhe a maior demonstração de severa observância. Por isso mesmo, vamos repetir, o Cristianismo é, como Doutrina, a essência e o mecanismo da Lei. E por ser assim, embora possam negar, ninguém destruirá esta realidade — fora da Lei, do Amor e da Revelação, não poderá haver Cristianismo, porque ele é a Lei viva, onde esplendem a moral que dignifica e a Revelação que ilustra e consola. — Estive ontem a ler o capítulo sete do Livro dos Atos; e, meditando nas palavras proferidas por Estevão, concebi a idéia de que, para haver uma grande reforma religiosa na Terra, bastaria que os homens se prontificassem a executar totalmente a Lei de Deus. Ela contém, de fato, os três artigos fundamentais, tudo quanto o Cristianismo do Cristo realmente contém — concita ao amor de Deus em Espírito e Verdade, por ser antiidólatra; ordena a que se viva decentemente, em sociedade, para que se mereça de Deus as boas recompensas; e faz reconhecer a Revelação como fonte instrutiva e consoladora. Que mais é o Cristianismo, em sua essência e mecanismo, em sua feição Moral e em seu batismo de Espírito? — Nesse caso, para que um novo Cristo? Não basta o Espiritismo, que é a reposição das coisas no lugar? — E quanta gente lhe dá crédito, bondoso servidor? Fez ver a tristeza em seu belo semblante, indagando-me: — Por que pregaram Jesus na cruz, irmão Gregório? Foi por terem-NO admitido como Cristo? E hoje, se Ele voltasse ao mundo, para cultivar a Lei, o Amor e a Revelação, como o fez naqueles dias, não é certo que os cristãos, em seu maior número, fariam tudo para lançá-LO nalgum manicômio? — Não tenho nenhuma dúvida de que assim fariam, visto como professam um culto, em nome do Cristo, que nada tem de Lei, de Amor e de Revelação! — Saiba então, Gregório, que o trabalho dos espíritas é o trabalho da reforma em todos os sentidos, começando pela restauração do Caminho do Senhor. Não é com pressa que irão a bom fim, tenha certeza disso; é, saibamos, com bastante trabalho e imenso critério discernitivo. A Verdade, que não tem pressa, exige no entanto, de seus arautos, o máximo rigor acional; e, como é de ver, não poderá haver rigor acional sem que haja senso discernitivo. Pauseou, sorriu e aconselhou-me: — Não tenha pressa, irmão Gregório... Percebendo aqui o Reto Caminho, pensa você numa reforma de base, de ordem geral e imediata. Ninguém fará semelhante coisa, pois os homens, nossos irmãos, assim como nós, têm lá suas muitas contas a serem ajustadas. E para isso, terão que se defrontar no Espaço, no Tempo e através das vidas sucessivas. — O fermento celestial, que carece de tempo para levedar a massa; não é isso, bondoso servidor, ao que importa conhecer e respeitar? — Simplesmente, irmão Gregório. Quanto à Doutrina, ao Cristianismo do Cristo, que o Espiritismo revive totalmente, ficará no mundo e irá fazendo a sua parte. E a Verdade, de quem ela dá fiel testemunho, também permanecerá em seu posto de honra, em seu eterno posto de honra, aguardando a chegada de seus realizadores. Em realidade, Gregório, quem não realiza a Verdade em si mesmo, nunca estará unido a Ela e jamais será brilhante e glorioso. E para realizar a Verdade interna, como fazer sem ser através do Espaço, do Tempo e das vidas? — Tendes razão, bondoso servidor; a reencarnação é a válvula redentora e evolutiva das almas. E sem Tempo, Espaço e Leis Básicas, como poderia dar cumprimento ao seu dever? Apanhou-me pelo braço e volitamos na direção de nossa morada astral.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.