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Capítulo 15 de 19

Imortais — parte 10 de 11

Verdades Imortais · Osvaldo Polidoro

Com o concurso dos santos espíritos, Ele ensinava a Verdade e o Bem; quanto aos espíritos imundos ou trevosos, Ele lhes ensinava o caminho do arrependimento; e aos doentes encarnados, dizia que a cura deve começar do espírito. Tudo, pois, na órbita doutrinária ideal. Observando-o em trabalhos, durante as reuniões do seu grupo, tinha-se pela dianteira o profeta em sua missão, bem assim o grande matador de séculos antes, submisso ao trabalho reparador. O trabalho redentor, a oportunidade que a Lei de Equilíbrio lhe conferia, estava sendo bem aplicada. Ele sentia que devia o máximo de bons trabalhos, embora ignorando os motivos pretéritos. Era a lei da reencarnação, tapando os olhos do devedor, para que ele trabalhasse com afinco em benefício próprio, sem as contrições que as culpas expostas lhe poderiam acarretar. Esquecido de seu passado delituoso, sentia-se honrado com a função mediúnica, transformando as culpas de ontem nas luzes do porvir, à custa dos esforços do momento, das luzes que espargia e das graças que prodigalizava, como intermediário das entidades socorristas que o dirigiam. — Aí temos, — falou-me o instrutor do grupo, — um verdadeiro pecador penitente. Porque, afinal de contas, o pecador penitente não é aquele que se arrepende através de altas expressões teóricas; muito pelo contrário, é aquele que se compenetra de seus deveres de reparação, reclamando oportunidades de trabalho fraterno, serviço de alcance ilustrativo e consolador. Alma que sofreu terrivelmente os efeitos da sangueira que produziu, sente brotar do imo a necessidade de esforços a bem dos semelhantes, sem atinar com os tremendos motivos que a reclamam. E nós o auxiliamos, de vários modos, coroando-lhe a benfeitoria com as graças da satisfação. Um dos novatos, constituintes do grupo, admirou-se: — Depois de tantos séculos, ainda está assim comprometido?! Ao que respondeu o instrutor, com acentuada ponderação nas expressões: — Há de reconhecer, ainda, quão grande é o número de almas gravemente comprometidas, que transita pelos séculos e milênios, sem conseguir reparar as faltas, quando não calha de aumentá-las, pela falta de elementos instrutivos, pelo desconhecimento das leis regentes. Quem desconhece as leis, como pode guiar-se bem? — É doloroso! Exclamou o tal novato. E o instrutor comentou, bondoso e conselheiro: — Não quero afirmar que os cultores da Revelação triunfem sempre, pois é sabido que o fracasso ronda a todos aqueles que mergulham na carne, seja em trabalhos de caráter expiatório, missionário ou de prova; quero dizer, no entanto, que graves culpas cabem aos que traíram no mundo a obra de Jesus, transformando a Revelação em Graça posta ao alcance de todos. A única arma de combate aos materialismos em geral é a comunicabilidade dos espíritos, porque ela tem por função advertir, ilustrar e consolar, consoante as palavras de Jesus, registradas por João no capítulo dezesseis do seu relato; isto é, consoante as palavras de Jesus e segundo as necessidades das almas em geral. Por que, afinal, foi o Cristo encarregado de batizar em Espírito, transformando a Revelação em veículo de ordens e em instrumento de ensinos e consolações? Teria alguém o direto de por em dúvida os mandamentos de Deus e o trabalho missionário de Jesus? De minha parte, recordando minhas atividades, como corruptor da Excelsa Doutrina, senti o remorso invadir-me todo; depois de séculos transcorridos, ali estava o testemunho fiel da minha obra criminosa, produto catastrófico do trabalho infiel e traiçoeiro. Apreciando o quanto a comunicabilidade dos espíritos se fazia portadora de ensinos e de consolações, podia avaliar o montante de erros e de cegueiras que a corrupção lavrara! E tudo isso para que? Simplesmente para acudir a um Império que se desmantelava, podre e virulento, criado e sustentado pelo sangue derramado, erigido à custa de traições à Lei de Deus, ela que nada tem com as fronteiras do mundo, ela que é acima de cores, raças e credos, políticas e ódios, egoísmos e vaidades. Todavia, ruminando minhas torturas, achatado pelos sentimentos de culpa, escutei a palavra complacente do instrutor, que prosseguia: — Não nos detenhamos, entretanto, o considerar a montante dos débitos alheios ou as penas que tais débitos naturalmente causaram e estão causando; porque todos nós temos errado muito, uns mais e outros menos, nos diferentes ramos de atividade. Façamos, antes, e mormente nesta hora, em que as legiões de Jesus proclamam aos irmãos encarnados a imortalidade da alma e suas contingências, com que os Seus obreiros possam triunfar; desmanchemos as diferenças aqui, nestas plagas da vida, onde tudo se resume em um pouco de boa vontade, pois na carne tudo se passa de modo diferente, estando ela a encobrir verdades, a ocultar conhecimentos, a dificultar realizações. Ademais, irmão, quem somos nós? De onde viemos? Quantas marcas negras ainda temos para dirimir? Não é certo que, acusando aos que praticaram as obras trevosas no pretérito, estejamos a nos acusar, não sendo nós hoje, senão aqueles mesmos corruptores de ontem? Quem virá, afinal de contas, a topar com as falsas doutrinas, com os vícios monstruosos, senão aqueles mesmos que os criaram e acalentaram? Frente ao grupo numeroso que o escutava atento, fez breve estacato e logo mais inquiriu, ponderoso e grave: — Quantos, dentre vós, sabe das vidas e dos feitos pretéritos? Que tendes a dizer em vosso amparo, pelo que nada sabeis dos feitos passados? Fostes vítimas de elementos perversos, que vos usurparam os direitos e vos tiraram a vida, por coisa de vossa fé, do vosso amor à Verdade? Ou fostes vós mesmos os homens perversos, traidores da Causa Divina, homens que nada viram e nada ouviram, sem ser a voz do mundo e o clamor sanguinário dos egoísmos mundanos, que o orgulho tão bem sabe manobrar? Repassando seu olhar experiente pela turma de comandados, murmurando, concentrado e convidativo: — Não estaríamos por aqui, tivéssemos tido, no passado, melhores ações para com os deveres espirituais; nossa posição de hoje, irmãos, define perfeitamente nossas ações de ontem. Portanto, já não devemos ter piedade apenas espontânea pelos erros alheios; devemos, isto sim, descobrir em nós mesmos os erros que imputamos aos outros, visto que somos nós os antigos criminosos. Quis a Bondade Divina, que nossas lembranças ficassem apagadas, a fim de termos alguma paz, a fim de conseguirmos trabalhar com liberdade, pela nossa redenção, sem os embargos terríveis e restritores do remorso. Bendigamos as leis regentes do Cosmos, que nos garantem relativas liberdades de ação; que nos facilitam oportunidades para reparar faltas; e que nos fazem esquecêlas, para que possamos, despreocupados, sorrir e trabalhar pela redenção das mesmas. Sejamos misericordiosos, para que mereçamos as leis do Senhor, que nos prodigalizam oportunidades de trabalho reparador. E como é normal acontecer, pois nunca faltam aqueles que trouxeram do mundo as mais errôneas concepções, eis que surge um velho e pergunta: — Bondoso instrutor, quando iremos conhecer os motivos que nos forçam a estadias nestas esferas inferiores? Quando chegaremos a conhecer nossa história, para planejarmos nossos trabalhos em prol de nossa libertação? Temos ouvido falar, da parte de nossos instrutores, que o espírito é uma centelha de Deus, cuja glória e esplendores estamos longe de conceber, tal a distância que deles ainda nos encontramos, pela evolução que não fizemos e pelos agravos que temos acumulado. Não seria mais acertado, que nos fizessem conhecer todo o nosso roteiro, a fim de nos propormos aos devidos planejamentos futuros? Manso e prestimoso, respondeu o cicerone: — Minha função não é ser juiz da Suprema Vontade, pois eu também fracassei em proveito do materialismo e das brutalidades do mundo; tenho certeza, também, que se pedisse uma oportunidade de conhecimento histórico total, a fim de planejar medidas porvindouras, de caráter reparador, iria apenas ao encontro de muitas e muitas promessas feitas, do mesmo teor, promessas que feneceram na origem, pois o mundo envolveu-as com o seu manto ilusório e a minha imprudência não soube como lhes frustar a insidiosa, enganosa e devorante maldade. Não tenho eu, amigos, o que dizer em meu proveito, com mais acerto do que aqueles que zelam por mim, das esferas superiores, onde nosso documentário é completo. E se, ordenado a fazer o meu trabalho, como estais a fazer os vossos aprendizados e algumas pontinhas de cooperação mental, quisesse abandonar a graça do trabalho redentor, para me projetar no rumo de outras responsabilidades, das quais não sei como me desincumbiria, que espécie de prova disciplinar estaria dando? Talvez que, em lugar de melhores postos e oportunidades, estaria apenas dando provas de não merecer estas migalhas de atenção e de benção recuperadoras. Porque eu sei, de minha parte, que vim de trevas exteriores, onde penei dezenas de anos os desmandos que andei praticando, forjando para meus semelhantes medidas de perdição, de angústia e morte. — Quem sabe — volveu o velho — Deus lembrar-se-ia de nossas misérias e farnos-ia a graça de trilhar outros caminhos... Antes que o velhote terminasse, o instrutor observou: — Jamais ponha em dúvida aquilo que por Deus deriva de Lei e de Justiça! De Deus tudo vem pelos canais competentes, tudo é dado fundamentalmente. Reconheça cada qual que é filho de Deus. Saiba que a origem é universal. Compreenda e obedeça ao Processo Evolutivo. E tenha em conta a Sagrada Finalidade. Tudo, portanto, segundo leis regentes, tudo de caráter geral, nada de particularidades. Quem transgride leis deve o trabalho reparador e quem se harmoniza não encontra percalços pela frente. Quanto ao Cristo Planetário, não é responsável pelas nossas liberdades individuais. É Mestre, é Modelo a ser imitado, mas não é cesto de roupas sujas e nem muro de lamentações... À base de Lei e de Justiça, através de Seus Imediatos, distribui tarefas e auxilia conforme os merecimentos de cada um... É hora de irmos conhecendo as leis, através das quais iremos caminhando no rumo de Deus, que é a Glória, que é o Poder que reside em nós mesmos. Cheio de unção, paternalmente balbucio: — Tratemos de assumir as nossas responsabilidades, que é muito mais interessante, que é a medida justa. Reconheçamos que o Pai, no imo de cada um de nós, espera pelo nosso despertar através do trabalho redentor. Não percamos tempo olhando para fora, para o Deus que está longe; tratemos de medir as nossas obras, pois é por elas que havemos de subir ou descer na escala hierárquica. Em todo e qualquer tempo e local, cada filho de Deus é um repositório de Poderes Divinos, é alguém que tem obrigações realizadoras a levar a termo; é alguém, irmãos, que terá sempre em conformidade com as suas realizações íntimas. — Sempre o mesmo Evangelho! — exclamou o velhote, impressionado. E o instrutor anexou, sem perda de tempo: — A primeira grande mensagem, depois do Pentecostes, foi o Apocalipse. Seu capítulo final é irretorquível, é simples e imediato. E como já estais familiarizados com as nossas atividades, para com os nossos irmãos encarnados, consoante as nossas possibilidades, a palavra de ordem é chamar a atenção de cada um para os seus deveres. Quem olvida seus deveres se afasta do reino de Deus, que é íntimo. Aqueles que têm pretendido adquirir o Reino de Deus, que é íntimo. Aqueles que têm pretendido adquirir o Reino de Deus, comprando simulacros aos vendilhões dos templos, ou pretendendo que Deus se agrade com ladainhas e bajulações, engodos e aparências de culto espiritual, esses terão que recomeçar de novo, depois de resgatar o crime de se desviar da Excelsa Doutrina. Eu e muitos outros, da esfera em que ora habitamos, não somos mais do que velhos e renitentes idólatras. Se não temos mais luzes e melhores oportunidades, é porque nada fizemos pela adoração de Deus em Espírito e Verdade. Aqueles que a pretexto de culto religioso, colocam a Matéria entre si e Deus, adorando-a de qualquer modo, embora possam vir a ser espíritos de paz, jamais serão dignos das altas expressões espirituais, jamais alcançarão os altos planos da erraticidade. O velhote comentou: — Agora é fácil compreender a função da Matéria e saber como se deve adorar a Deus, que é acima de todos os formalismos. O instrutor revidou: — Vamos ver os futuros testemunhos, quando reencarnados, na hora de cumprir na crosta com os deveres assumidos; muita gente que aqui prometeu mundos e fundos, vive por aí a praticar encenações deprimentes, a dar mostras de que confunde as coisas do espírito com os pagodes do paganismo. Ademais, ninguém trabalhará bem pela ereção do Reino de Deus no íntimo de seus irmãos. Jesus falou muito em dar dignos frutos pelo exemplo, em ter cada qual a justa medida dos deveres para com Deus, para com o próximo e para consigo mesmo. Todavia, na vida social, uma vez metido o espírito nos aranzéis da carne, as dificuldades fazem-no desviar com muita facilidade do reto caminho. E surgem, então, as medidas idólatras, supersticiosas, tomando o lugar da reta conduta e do trabalho bom. Acontece aquilo que sempre aconteceu — na ausência do verdadeiro conhecimento e culto, aparecem os engodos e as medidas enganosas. Erguem-se os templos de pau e de pedra, e todos os artifícios contingentes, porque o templo interior ficou vazio, sem função! E, assim, enquanto a Lei, o Amor e a Revelação ficam à margem, a pagodeira idólatra faz o seu curso de perdição no caráter das pessoas. Ao desencarnar, as criaturas estão cheias de entulhos, de rótulos, de mil e uma aparências de espiritualidade, enquanto que a centelha, o espírito, está submerso nas profundezas do materialismo, está achatado debaixo de um mundo de animalismos e brutalidades. E quando calha de merecer paz, ainda assim é mediocremente, porque aos viciados e idólatras não se fazem acessíveis os altos planos de erraticidade. Findo o tempo na presença do fiel supervisor encarnado, fomos pelo cicerone convidados a ir observar um outro, alguém que estava em situação oposta. — Vamos, — disse ele, — aprender a lição da vida simples; porque o Bom Deus não é cheio de mistérios, ensinando a cada um de Seus filhos através dos fatos imediatos. Aqui ou na crosta, quem quiser aprender, basta olhar ao derredor e observar as condições e situações em que se encontram as criaturas. Levando em conta que cada um arrasta consigo a obrigação de expor o Reino do Céu, que é íntimo, não será difícil considerar a situação de cada um, em face da tremenda complexidade que a sociedade apresenta. Encontraremos irmãos nas mais diversas condições e situações, conjeturando de maneiras as mais contraditórias, cometendo os maiores absurdos, descambando para os mais profundos abismos, ou vencendo as grandes batalhas, ou triunfando sobre a ignorância e sobre as trevas. Todavia, lembremos, em todos estão a mesma Origem, o mesmo Plano Evolutivo e a mesma Sagrada Finalidade. A grande questão, portanto, é cada um encontrar o seu devido lugar no seio do movimento incomensurável. Não basta existir. Não basta viver. Não basta que se trabalhe. É necessário saber para que existe, para viver decentemente e trabalhar com justeza, a fim de produzir o crescimento do Céu interior, a exposição da Luz, da Glória e do Poder. Quando ele cessou de falar, estávamos diante de um homem todo sujo, barbudo e embriagado, que se achava recostado a um portão, dizendo coisas sem nexo, rodeado de algumas dezenas de infelizes irmãos, todos mais ou menos como ele. — Que desgraça! — exclamou alguém, vendo aquilo. O instrutor acrescentou: — As graças e as desgraças variam ao infinito na conjuntura humana. Para melhor e para pior, temos gradações a valer. Todavia a ordem que tenho é mostrar o que pode ocorrer a quem encarna, segundo como venha a proceder, conforme o grau de conhecimento de causa e a boa-vontade posta em função. Não estamos aqui para criticar, isso não nos compete; aqui estamos, irmão, diante de um caso como centenas de milhares de outros idênticos, bem assim como diferente de outros tantos. Estamos, em face dos que encarnaram prometendo executar programas pré-estabelecidos, e que, entretanto, em muitos casos nada fizeram, de tudo olvidaram. — Se continuar assim, bondoso instrutor, como virá a desencarnar este irmão? A esta pergunta, vinda de um dos do grupo, o cicerone respondeu com nova pergunta: — Como foi que nós desencarnamos? E foi então que vi, diante daquele homem encarnado, bêbado e recostado a um portão, rodeado de infelizes espíritos viciados e transviados do bom caminho, um grupo de servidores e aprendizes de serviço, quedarem-se mudos, perplexos e comovidos em extremo. Porque cada um viu, naquele infeliz irmão que trilhava as vielas do erro, apenas um igual, apenas ninguém que vinha da mesma Origem, que pertencia ao mesmo Plano Evolutivo e que demandava à mesma Sagrada Finalidade. Depois de silêncio mortal, o instrutor esclareceu: — Em natureza, direitos e deveres, todos somos iguais; a questão é não desviar da linha de conduta, é não descambar pelos desfiladeiros da inconsciência e do crime. E depois de olhar para quantos transitavam pela rua, sem fazer caso do infeliz que ali estava, sujeito aos impactos de algumas dezenas de ignorantes do mundo espiritual, amarguradamente comentou: — Essa gente que passa, esses que parecem estar bem com a Lei de Deus, acaso serão mais felizes? Não serão, em verdade, apenas errados de outro modo, outra espécie de vítimas da mesma ignorância? Porque, razoavelmente, uma sociedade que funciona desse modo, virando as costas para um irmão menos consciente de seus deveres, não pode ser uma sociedade compenetrada de seus deveres para com a Suprema Lei. Por isso lhes digo, irmãos, nesta aula prática, que muitos daqueles que parecem estar vencendo, realmente estão fracassando muito mais. Ao lado deste e de outros infelizes, encontrareis os grandes da sociedade, refertos de dinheiro, saturados de títulos, equipados de galardões do mundo e viciados em tudo quanto amesquinha o espírito. O grupo estava atento, porque a realidade estava patente, os perigos do mundo expressavam-se nuamente! Aquele que estava situado tão baixo, bem poderia ser o menos baixo, o menos devedor perante a Lei. E a voz do cicerone fez-se de novo ouvir: — Não vos iludais com os aspectos exteriores, com as aparências; tomai tento com a intimidade, com os valores que o mundo não sabe ver e compreender. É necessário conhecer, a fim de poder discernir. É necessário discernir, a fim de poder conceituar com justeza. Como vô-lo tenho dito, ninguém vai ao Pai sem ser através de Suas leis; e as leis do Pai, irmãos, não podem ser derrogadas ou modificadas ao nosso gosto. Não adianta, portanto, procurar a Verdade pelos caminhos da mentira ou dos pieguismos supersticiosos e idólatras. Porque Deus tudo fornece em elementos e Jesus Cristo apenas guia o Planeta segundo as leis fundamentais. Não existem favores, milagres e nem mistérios! Ninguém é especial perante as leis de Deus! Jamais haverá casos particulares! — Até onde, bondoso instrutor, pode a oração representar verdadeira impetração de recurso, perante a Lei e a Justiça? — Perguntou o homem, em cujo dedo pontificava o símbolo da advocacia. O instrutor colocou-o defronte ao Cristo: — No Horto da Oliveiras, em face da prisão que se converteria em crucificação, Jesus pediu a transferência do cálice, não é verdade? Pois bem! Embora o Pai Lhe enviasse um espírito consolador, alguém que O fortaleceria na duríssima prova, nem por isso Lhe subtraiu o cálice terrível. Ora, levando-se em conta que a função de Jesus era missionária e não de prova ou expiatória, podemos considerar o quanto a Lei e a Justiça exigem o total, o fiel cumprimento do dever. Nada existe, sem que haja motivo justo, sem que culmine em objetivo certo. Em Deus tudo é Lei e Justiça, para que a Glória, o Amor e o Poder, não venham a ser por acaso ou sem merecimento. O velhote chegou-se, encostou-se ao encarnado beberrão e murmurou: — Gostaria de fazer por ele alguma coisa... O instrutor perguntou-lhe: — Durante a nossa peregrinação pela carne, teremos pensado assim? Acudiu-nos à mente, alguma vez, defronte aos irmãos caídos nas sarjetas, que a sorte deles estava articulada com o nosso bem-estar porvindouro? O velhote resmungou, revoltado: — Terra infernal!... Mundo miserável!... Gente perversa!... O cicerone foi a ele, observando: — A Terra em si, não é mais do que cadinho depurador. As encarnações valem apenas como provas ou testes de eficiência. Quem triunfa, recebe o prêmio correspondente, nada mais. E quem fracassa, pena o seu fracasso e fica creditado para outros testes. A sala de aulas não é a lição e o professor não responde pelos alunos, em suas liberdades individuais. O grande mal, irmão, é que todos temos aprendido a cair em distrações... Tudo serve, tudo é motivo para cair em distração. Enquanto isso, os dias passam e a desencarnação acontece... Logo mais, quando o espírito desperta, tem apenas o resultado de suas distrações, está vazio de valores acumulados. Só é rico de aparências, de rótulos, de galardões do mundo. E no caso deste nosso concidadão, pois ele procede de nossa região, quando muito, o que chega a ter é lágrimas de arrependimento, é pranto sobre o tempo perdido, em virtude de não ter sido ruim para com os outros, apesar de ter sido imprudente para consigo mesmo. Este, irmão, está a se portar como o menino que cabula a aula e atira fora os apetrechos escolares... Não faz mal propositalmente, mas não faz o bem que lhe seria possível, se se preparasse como seria de seu dever. — Senhor!... Piedade para com ele!... — exclamou alguém, aflitíssimo. O instrutor olhou para a turma toda, lembrando: — Da parte do Senhor tudo está feito e bem disposto... É melhor considerar a obrigação de todos nós, irmãos em tudo, em direito e deveres. Estamos nós a trabalhar nos círculos do batismo de Espírito, vamos dizer aos irmãos encarnados o que importa fazer, modificando a sociologia da Terra segundo os preceitos do Evangelho. Vamos dizer que a Terra é o mundo das tremendas contradições; vamos proclamar a necessidade de fraternidade entre as criaturas; vamos dizer que a Lei de Deus é completa; vamos recordar que a desencarnação é certa e que a Justiça Divina jamais admitiu discussões a respeito de seus desideratos infalíveis. Havia, por essa altura, lágrimas em muitas faces. Nós, os homens falhos de outros dias, estávamos defronte à Humanidade distraída. Naturalmente, simplesmente, aquele irmão era um retrato fiel da Humanidade distraída, marchando para morte sem levar em conta a tremenda significação da imortalidade do espírito; da imortalidade e de suas inelutáveis conseqüências! Olhar sereno, compenetrado e paternal, o instrutor perguntou: — Quem, dentre nós todos, não foi cristão? Cinco irmãos ergueram-se, significando outras crenças. — Quantos, dentre nós, fomos católicos? Vinte e duas mãos elevaram-se acima das cabeças. — Quantos, dentre nós, fomos crentes protestantes? Dezenove mãos apontaram para cima. — Quantos, dentre nós, fomos materialistas ou ateus? Quatro mãos apontaram para o alto. Então o instrutor, com a voz quase embargas, proclamou: — Não olvidemos, irmãos, que a libertação vem do Conhecimento e do Amor transformados em obras de fraternidade! Já vô-lo disse que a Excelsa Doutrina tem base na Lei, no Amor e na Revelação. Tendes conhecimento de que os caminhos da glorificação e do poder são feito de Ciência e Amor. E reconheceis que a finalidade evolutiva representa Pureza e Sabedoria. Como Divino Modelo, ou Síntese da Verdade, aí temos o Cristo Planetário, o Irmão Maior. Sua vida e Sua obra é que resumem o Seu Evangelho. E o batismo de Espírito ficou sendo o instrumento de advertência, ilustração e consolo. Aquela jornada instrutiva estava finda. Voltamos ao nosso rincão espiritual, a fim de saber de outras obrigações, de outros deveres de fraternidade, porém sempre no âmbito das leis de Causa e Efeito.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.