[user_registration_my_account]
Capítulo 3 de 19
Imortais — parte 1 de 11
Verdades Imortais · Osvaldo Polidoro
É muito fácil, depois de o espírito elevar-se a certa altura evolutiva, conceber a importância das leis fundamentais, dos fatores que ordenam e nunca poderão ser ordenados; das medidas que se impõem e que não se curvam a imposições. A partir daí, compreende que a vantagem não está em pretender ensinar a Deus, mas sim em aprender com Ele. Até chegar a esse ponto, muito há que viver, lutar e assimilar experiências! E ninguém chega, sem curtir o ridículo das ações antanho levadas a termo, ações que aparentavam conter toda a sabedoria e validade em face de Deus. A rota evolutiva é o programa das comoções, dos abalos, dos fracassos confessos em matéria de convicções. A caminhada no rumo do Céu interno é a lapidação dolorosa das convenções humanas, dos interesses de grupos, dos conchavos religiosistas, de tudo aquilo que ostentou o brilho das falsas jóias, o esplendor fátuo das labaredas repentinas. Ninguém evolui sem se desmantelar nas tradições arraigadas. Aqueles que se aferram a elas, encontram na dor o instrumento ideal de renovação. Infelizmente, poucos são os que primam pelo AMOR e pela SABEDORIA, dispensando-se de escravizações ao vício nefando das ingerências ronceiras da tradição idolatra, supersticiosa e de todo retrógrada. Infelizmente, o grande número prefere cevar o ranço das teorias engarrafadas, das pílulas convencionais, dos arranjos através dos quais os mais espertos vivem à custa dos menos racionais. O bom lema será o que ordene assim — “Sábio da Terra, desconfia da tua Sabedoria! Santo da Terra, desconfia da tua Santidade! Lembra-te de que o Cristo, chamado de bom, respondeu que só um é bom, Deus!” Onde estão, no entanto, os simples e os humildes, para que assim procedam? Se eles existem, certamente é em número limitado, não bastando para fazer regra e impor-se à Humanidade inteira. E por isso a caravana marcha lentamente, cheia de erros e de falhas multimilenares, esperando sempre que os esbarrões tormentosos a façam mudar alguns centímetros na direção da libertação final. Todos ouviram, através dos tempos, a Voz que clamara — “Procurai a Verdade e a Verdade torná-los-á livres”. Nas obras, porém, todos se agradam com a mentira e com os animalismos que degradam. A Verdade tem servido para acobertar os feitos tenebrosos da corrupção. Pelo menos, de homem para homem, as aparências são de respeito à Verdade, enquanto que as realidades são de inteira disposição aos enganos e mistifórios. É quase total o número dos que batem com as mãos no peito e clamam Senhor! Senhor! Variam os continentes, as raças, os povos, as facções religiosistas e a palavra que domina o nome de Deus; mas o processo de cultivar a mazela em nome da Virtude é o mesmo por todas as partes! Eu também acompanhei a caravana de sofistas da Verdade; eu também cheguei a pensar que havia esperteza na malícia e na honra na facção sectária esposada. E não foi apenas em uma passagem pelo vale carnal, pois andei cantando e somando centenas de peregrinações. Centenas de imersões carnais, bem propositadas e muito mal usadas! Isto é, tão bem programadas antes de encarnar, o quanto mal aplicadas depois de estar no uso das relativas liberdades humanas. E o resultado? Ora, irmãos, o resultado fora sempre aquele mesmo, pois aquele fenômeno que devera ser de libertação dos grilhões temporais, e imersão na lindes clarinosas dos planos superiores, resultava sempre na entrega antípoda, ia deixar-me noutro endereço, no seio das piores condições, onde além de ter tudo a fazer, cumpria ainda pagar em forma de angústia ao desprezo tributado à Soberana Causa. Penosa coisa é pretender focalizar o Céu pelo prisma das tradicionais convenções sectárias da Terra! Sim, posso garanti-lo, custa muito caro imaginar que a Verdade possa ser adquirida pelo preço que os agrupamentos sectários do mundo determinam. Quando a hora chega de ir ao guichê, a fim de receber os dividendos, nem mesmo se encontra o caminho que a ele conduz! Fica-se no ambiente humano e defrontam-se todas as dificuldades que jamais foram imaginadas. E quando se fazem raciocínios a respeito de todo aquele arsenal de certezas e de validades com que o sectarismo esposado pretendia ser o exato salvador, nada se encontra, a dor e a treva a tudo respondem com a mais absoluta indiferença! Escoados os dias, os decênios de dor, volta-se a ouvir a fala singela da Verdade, que vem através de um simples irmão, alguém que já tinha a certeza de tudo, porque também fizera, muitas vezes, o trabalho do falso profeta de si mesmo. Tem na palavra a rigidez que a experiência lhe outorga: — Gregório, vem comigo... Trago ordem para recolhê-lo a um hospital, para que logo mais se prepare e retorne ao plantel da carne... — Da carne?!... Mas se dela vim!... — Que tem isso, Gregório? O que importa não é quantas vezes se vá e venha; o que importa é como se aproveita o tempo pelo emprego das oportunidades conferidas. Quem usa mal ao tempo que lhe dão e às liberdades de que dispõe certamente responderá pelo crime de lesa-deveres. E como aquilo que cumpre desenvolver no íntimo é devido a cada um, porque o Reino de Deus é de ereção individual e obrigatória, eis aí que é preciso tentar tantas vezes quantas sejam necessárias, até que acerte a conduta e resolva o desiderato. — E a influência da religião? A isto, o servidor encolheu os ombros e argumentou, enigmático: — Para falar com franqueza, Gregório, eu não sei se a Verdade é religiosa... Nunca me ocorreu perguntar semelhante coisa!... E mesmo que ocorresse, não sei como poderia fazer a pergunta, uma vez que a Verdade se expressa por tudo e jamais usa linguagem particular. — Então, com quem falar? — Com quem falar, há muito... Não lhe estou ouvindo, acaso? — Sim, está... Porém, onde estão os juizes e conselheiros? O servidor sorriu, meneou a cabeça e afirmou: — Muita gente fala, muita gente ajuíza e aconselha, irmão Gregório; porém, em matéria de realização, ninguém poderá fazer aquilo que cumpre a cada um. Não te esqueças de que jamais passou pela Terra quem desse passes de mágica e fizesse santos ou perfeitos. O Cristo, que foi o maior dos emissários e o mais completo curador de chagas, nunca se prontificou a fazer santos à custa de Seus poderes. O Reino de Deus está dentro de cada um, não virá com mostras exteriores e da Lei nada escapará. A Lei contém tudo em matéria de observações, ofertas e recursos; se pretendes conhecer, pergunta-o ao próprio Cristo. — Pergunta ao próprio Cristo?! Como?!... — Pergunta ao Cristo obras, ao Cristo exemplo, irmão Gregório. — Não sei o que dizes... Não te entendo... E o servidor respondeu-me, bondoso: — A Lei de Deus, Gregório, contém três realidades fundamentais — a primeira ordena que não se pratique idolatrias; a segunda ordena a que se viva em pleno regime de decência social; e a terceira ordena a que se respeite a Revelação, a fonte de água viva, o instrumento de ilustração e de consolo. Creio que você não entendeu o Cristo em Sua feição obreira, o Cristo trabalho e exemplo. Atônito, respondi: — Por Deus! Passei a vida com o Evangelho entre as mãos! E o servidor respondeu-me: — O que você teve entre as mãos, a vida inteira, foram as letras... Bem sei que teve o papel e as letras entre as mãos a vida inteira. Talvez que, por isso mesmo, não teve tempo de pensar na idolatria da forma, na falta de respeito aos direitos do próximo e no dever de procurar os ensinos da Revelação. Ora, como é fácil entender, irmão Gregório, Jesus não perdeu tempo... Isto é, Jesus, como Divino Modelo, não andou dando trelas ao papel e às letras da Lei, tendo apelado às obras. Abismado, murmurei: — O Evangelho!... Que vale então o Evangelho?!... Sem perder tempo adiantou-me: — Eu não sei o que valem o papel e as letras... Sei, porém, que Jesus deixou no mundo a Divina Herança. E esta Divina Herança é a Doutrina que se fundamenta na Lei, no Amor e na Revelação. Quem passa a vida vivendo a Lei, cultivando o Amor e praticando a Revelação, por certo não dará com os costados nas trevas. — Quanta gente vive errada no mundo!... — exclamei apavorado. E o servidor afirmou com bonomia: — Todavia, Gregório, o Amor e a Ciência conduzirão as almas à pureza e a Sabedoria. Assim sendo, lembra-te, as palavras Deus, Cristo, Verdade, Evangelho, Lei, Amor, Revelação e Sabedoria jamais devem ser olvidadas nas obras de todos os minutos da vida. Nas obras, fica repetido, pois de aparências o mundo humano está mais do que repleto, desde quando não sei. — Ainda bem que me avisas... Mas quem avisará os homens, lá no mundo? O servidor abanou a cabeça e sentenciou: — Em primeiro lugar, a Lei contém a Moral, o Amor e a Revelação em si mesma; em segundo lugar, Jesus Cristo foi ao mundo para derramar do Espírito sobre a carne, sendo a Revelação a base do Cristianismo; em terceiro lugar, depois de haverem medrado na Terra as corrupções, retorna a Doutrina do Cristo ao seu posto, no seio da Humanidade, com o nome de Espiritismo. Será fácil, portanto, a quem desejar conhecer a Doutrina da Verdade, ter onde aprender. Considerando as tremendas falhas humanas, que motivam as contradições e os erros de observação e análise, de opinião e conceituações em geral, obtemperei: — Mas quem fará com que os humanos tenham, como dizia Jesus, ouvidos de ouvir? As divergências religiosas aumentam a cada dia!... — Quem faz questão de ter o melhor conhecimento da Verdade; porque, afinal de contas, as religiões não passam de instituições inventadas por homens, para em nome de Deus, do Cristo e da Verdade, fazerem o seu comércio ou terem como facilitar a expansão de seus instintos divisionistas e sectários. Todavia, cumpre saber, Deus, o Cristo e a Verdade, esta como Doutrina, não são sectários, não são escravos de conceitos e de preconceitos humanos; não criam dogmas, rituais, paramentos, simulacros, fingimentos e maquinações político-econômicas. Portanto, sabendo-se que a Verdade não tem pressa, sabemos também que outras eras virão e forçarão os homens ao encontro das leis do Senhor. Elas são leis que jamais foram e nunca serão escravas dos engenhos idólatras dos homens. Leis que são, mais ou menos tarde, demonstrarão o que é de Deus e aquilo que é apenas de fabricação humana, visando interesses subalternos, criando condições para a manifestação dos mais desenfreados assanhamentos temporais, porque facilita vazão à mediocridade e aos erros de toda ordem. Admirado exclamei: — Sim, Senhor! Vejo que é absolutamente avesso aos cultos exteriores, ao que tem caráter religioso-formal! O servidor entristeceu, meditou e comentou: — Tenho palmilhado a via crucis das vidas mal empregadas... Minhas últimas encarnações passei-as entre cultos religiosos e erros inomináveis, pois andei tomando parte, na Europa, em acontecimentos inquisitoriais tremendos. Fui um dos animadores da fatídica noite de São Bartolomeu... Estive me afogando em sangue e uivos lancinantes por mais de oitenta anos, depois do que fui recolhido, para vir aos poucos obtendo um pouco de melhores conhecimentos e algumas oportunidades de trabalho... Lá para trás, também andei fazendo horrores... Sou alguém que não tem muita luz, que é pobre em raio de ação, mas é rico em fartíssimas provas, de somas elevadas de experiências dolorosas. Por isso mesmo, Gregório, repito com Jesus, que o conhecimento das leis e suas práticas salvam, enquanto que as religiões apenas fomentam vícios idólatras, fabricam simulações e produzem fanáticos e criminosos. Aqueles mesmos que se acreditam acima de idolatrias, porque vivem de Evangelho nas mãos, como você andou fazendo, nada mais fazem do que cometer a idolatria da letra que mata, pois interpretam a letra com vício e empregam as lições com malícia. Afinal, Gregório, fora da Lei, do Amor e da Revelação não pode haver Cristianismo. E Cristianismo é, por isso mesmo, a Doutrina da Verdade, a Doutrina que, conforme a palavra de Jesus, irá, aos poucos, ilustrando e consolando a Humanidade, já que as Verdades não podem ser assimiladas de um golpe por todas as criaturas. — Reconheço, bondoso servidor, que Jesus não falou tudo, tendo dito que ao Consolador caberia informar de tudo, no curso dos tempos; e que, infelizmente, o Consolador não estava na minha seita protestante, o que criava uma situação de mágoa, de incertezas cruéis. — Gregório, Jesus deixou a Herança do Céu na Terra; basta que se leiam os capítulos um e dois dos Atos e doze, treze e quatorze da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, para se saber que Jesus não prometeu nada em vão. A comunicabilidade dos anjos era ânimo, era o selo da função missionária de Jesus, sendo a fonte consoladora e ilustrativa dos primitivos cristãos. Foram os interesses subalternos de Roma que fizeram desaparecer a Doutrina do Cristo, sendo então criada a religião do Império, sobre clerezias, idolatrias e comércios pagãos em geral, além de ser criada a Inquisição, a fim de proteger a corrupção e consolidá-la. Aproveitando o lapso havido, inclui: — Não padece dúvidas, o fato de estar a religião do Império em contradição com os ensinos e as práticas do Cristo; e muito mais diferença notamos, quando fazemos questão de confrontar os atos dos Apóstolos, depois do fenômeno do Pentecostes, com o que faz e impõe a igreja romana. O Livro dos Atos contém lições de extraordinária grandeza, todas elas fundamentadas na comunicabilidade dos espíritos. Naqueles dias, pelo menos, o Consolador não era uma ilusão, nada continha de vago e inútil, mas era sim o fato consumado, a consolação e a ilustração provinda dos anjos ou espíritos, com caracteres práticos. Isso é que muito me fez pensar, durante a vida toda, pois notava o contraste entre o que sucedia entre os cristãos primitivos e o moderno Cristianismo, onde só existiam letras, palavras, discursos, formalismos e outras tantas invenções humanas. Quantas vezes, bondoso servidor, perguntei a mim mesmo sobre o paradeiro do Consolador, daquela fonte viva de suma espiritualidade, com que se alegravam e sublimavam os cristãos daqueles dias. O servidor sorriu, com bastante significação, perguntando: — Então, Gregório, você confessa que reconheceu as falhas de sua seita e não fez coisa alguma para repará-las? Primeiro fiquei em suspenso, meditando no que havia de dizer, pois reconheci que ele estava usando de técnica perital na discussão em jogo; logo após falei, um tanto submisso, confessando a falta: — Bem... Bem, eu sei que andei à procura do Consolador e não o encontrei no seio do protestantismo... Li com atenção o capítulo quatorze da famosa Carta de Paulo aos Coríntios, mais de centenas de vezes, creio, e sempre fiquei no vácuo, sem saber o que dizer sobre o terrível lapso. Onde foi parar a Revelação? Quem diria o suficiente sobre a sua desaparição? — Falou com o Pastor, alguma vez, sobre isso? — perguntou-me o servidor? Respondi com franqueza absoluta: — Nunca! Tinha receio de passar por ignorante... Os Pastores todos diziam, que o Consolador agia como inspirativo e não como espírito comunicante. E quando se liam os textos referentes à comunicação dos anjos ou espíritos, então diziam que os anjos eram seres especiais, sendo o contrário dos mortos, que deviam ficar na tumba, até o dia do Juízo Final, quando acordariam para serem julgados. — Eu sei disso tudo, porque também andei trilhando o mesmo erro. Meditei muitas vezes sobre os anjos comunicantes do Velho Testamento. _Considerei fartas vezes sobre o fenômeno do Tabor, onde compareceram Moisés e Elias, falando com o Divino Modelo e os três Apóstolos. Tive muitos tratos com o Livro dos Atos, onde a comunicabilidade dos espíritos é notório e indiscutível. Todavia, como era clérigo e tinha parte saliente no Santo Ofício, vivi a luta tremenda por dentro, fervilhei em minhas angústias, sem deixar transparecer por fora a menor evidência de minhas cruciantes dúvidas. — E deixou a carne, bondoso servidor, nesse terrível estado? — Mais do que terrível, porque deixei a carne sem saber, mergulhando na lameira de sangues apodrecidos e fedores!... Sei o que é sofrer!... Gregório, podemos iludir os homens, podemos falhar perante a nossa consciência, mas jamais poderemos derrogar as leis fundamentais e regentes da Criação. Podemos querer e forçar determinadas concepções e obras, porém a Verdade chega, através das leis básicas, fazendo tudo retroceder, colocando as coisas no devido lugar, e isto à custa de tremendos sofrimentos. Os homens imaginam e engendram acontecimentos humanos, muitas vezes ultrapassando os limites do próprio ridículo, pela desabrida presunção com que formam seus disparates; mas a Verdade comparece, nos permeios da vida e dos fenômenos, e os artifícios estúpidos são derreados, ruem por terra, fazem a vez da lama e da miséria. Por tudo isso, por tamanhas provas que temos de erros perpetrados, e amontoados nos desfiladeiros da Humanidade, podemos dizer e devemos assinalar, que as religiões foram as verdadeiras forjas produtoras de erros, farsas, crimes e hediondas situações. Traíramse desastradamente! — Dolorosa contingência a nossa!... — murmurei, cheio de pena. — Somos dois errados confessos, somos dois fracos perante nós mesmos, pois é patente que divisamos a Verdade e não a soubemos respeitar, pelo menos um pouco. Longe estivemos dos Wicliff, dos Huss, dos Lutero e dos Giordano Bruno. A nossa moral não deu para olhar a Verdade de frente... Ficamos encolhidos e sujeitos, acovardados diante do monstro do convencionalismo. Vimos a luz e fizemos tudo para garantir a treva! Em nome de Deus e do Cristo, da Verdade e do Bem, tomamos pela mão e conduzimos a mentira e o crime! O pouco de paz que temos é ainda por empréstimo, é obra da Misericórdia Divina, que aguarda no Tempo e no Espaço os devidos resgates. Tenhamos, pelo menos de ora em diante, a coragem de ir à crosta, aos homens, e falar com franqueza e realismo sobre quem fomos e o que nos ocorreu, por causa dos erros doutrinários e das maldades praticadas, por culpa de nossa falta de melhor caráter. Vamos dizer que a Verdade não se curva aos caprichos sectários de quem quer que seja; Digamos que convenções e conchavos de homens nada podem sobre Deus e Suas determinações; aconselhemos a que se aproximem da Lei, do Amor e do Batismo de Espírito, pois que esse foi o Evangelho vivo entregue pelo Cristo à Humanidade, e não o amontoado de letras, mal ajambradas e piormente traduzidas, de modo a facilitar maquinações e conchavos, clerezias e engodos exploradores. Tudo para que políticas e imperialismos pudessem fazer seus cavilosos negócios, suas carreiras tenebrosas por entre os movimentos humanos, custando-lhes atrasos e materialismos, animalidades e situações agravantes. — Falar aos homens desta forma? Por qual meio? — Indaguei, surpreso. Entre sorrindo e meditativo, perguntou-me o servidor: — Em que ano estamos nós, segundo o calendário da Terra, que é o nosso, nestas esferas próximas da crosta? — Creio que por volta do ano de mil e oitocentos e noventa e cinco, pouco mais ou menos. — Estamos no ano de mil e novecentos e onze. Tens estado um pouco mais gemendo as conseqüências de nefastas ações. O que pretendo, entretanto, é dizer-te que as coisas estão mudadas, muito mudadas... O Consolador, tal como Jesus o deixou no mundo e tal como o praticaram os Apóstolos e primitivos cristãos, de novo impera entre os homens mais esclarecidos. As legiões do Cristo de novo falam aos encarnados, ilustrando-os e consolando-os, concitando-os à luta contra as trevas de variada ordem. É a batalha do Senhor, para confundir os orgulhosos e abrir os olhos aos cegos. É o preparo da Humanidade com vistas à Era que virá... — Os mortos instruindo os vivos? — perguntei, duvidoso. — Todos os que desencarnam ressurgem dos mortos ou em espírito. Bem o disse Jesus, que Deus não é de mortos, e sim de vivos, porque os merecedores serão como os anjos do Céu. Lembra-te, Gregório, que as palavras, anjo, espírito e alma se equivalem na linguagem bíblica. Por isso mesmo, vá abandonando as tuas velhas ou criminosas concepções, pois elas já te custaram dezenas de anos de terríveis sofrimentos e atrasos. Ocorreu-me pensar em certa condição e perguntar: — Que situação embaraçosa! Não cometi crime algum, para merecer tamanha punição. Fui luteranista e não andei semeando morte, roubos e outras grandes iniqüidades. Como é que vim a ser tão fortemente punido? — De quantas encarnações te lembras, Gregório? — perguntou-me, olhando-me de maneira enigmática. — Não sei disto coisa alguma, bondoso servidor. — respondi. — Isso derroga as leis das encarnações sucessivas? — tornou a perguntar. Depois de meditar, respondi: — Se as leis derivam de Deus, nada poderá eliminá-las. O servidor assentiu com o movimento de cabeça murmurando com gravidade: — As concepções humanas jamais poderiam alienar as leis regentes do Cosmo. A Verdade não tem religião, seja esta ou aquela. Não se curva a nada. Os homens é que se metem a legislar por conta de Deus, pensando que podem ensiná-LO. Inventam conceitos e preconceitos, fórmulas e rituais, decretando sua adoção pelos mais fracos e menos capazes de reação. Iludem-se a si mesmos e pensam que estão sendo preciosos causídicos da Ordem Divina! Pretendem ser ministros de Deus, à custa de se fantasiarem e de se tornarem propagandistas de farsas e de maquinações idólatras. A morte colhe-os de improviso, como o ladrão da parábola... — Isso mesmo!... — Anexei num ímpeto estranho. — Espere, advertiu-me ele, desejo dizer-te mais... Os teus muitos sofrimentos não derivaram da vida que vens de viver na carne. Eles são, na maior parte, frutos de antigas encarnações e obras. Quanto a esta última passagem carnal, devias ter cooperado nas preliminares da obra restauradora do Caminho do Senhor, da Doutrina que tem fundamento na Lei, no Amor e na Revelação. Todavia, como rico e fanático que foste, não tiveste tempo de atender aos reclamos da Verdade. A promessa feita está sem cumprimento... — Promessa feita?!... — Sim, o programa elaborado em conformidade com as tuas necessidades e aprovações. Vindo na trilha de grandes erros, pois fomos daqueles que traímos os sacrifícios de Jesus, eliminando a Excelsa Doutrina, já temos fracassado algumas vezes... Embora sem matar, sem roubar e sem co-meter falhas graves, nada fizeste em benefício da reposição das coisas no lugar. Em nada colaboraste para com aqueles que deveriam ter feito a grande obra de renovação. Ficaste com o teu dinheiro e com o teu sectarismo, sem avançar um passo no caminho da recuperação íntima, do resgate de algumas faltas pretéritas. Foste à carne como um devedor, decidido aos melhores esforços ressarcitivos. Devias cooperar na obra restauradora, amparando o grande surto revelacionista que se impunha aos homens de boa-vontade. Porém, em virtude do mundo, de seus gozos e de suas falácias, nada fizeste. — Ouvi falar muito na comunicabilidade dos espíritos, por vários meios. Nunca dei atenção a tais fenômenos, pois sempre foram catalogados como diabólicos. Se a reparação devia vir por esse meio, bem difícil me seria consegui-lo, dadas as minhas convicções religiosas. — Sei disso e muito bem. Aqueles que não souberam ouvir e entender ao Cristo, também estavam cheios de convicções religiosas. Por isso, tendo as suas razões para ensinar a Deus, como poderiam aprender com o Divino Emissário? E nós, Gregório, que no século quatro decretamos o desaparecimento da Excelsa Doutrina, a bem dos egoísmos do império romano? Por causa do mais sanguinário e despó-tico imperialismo do tempo, de sua sanha de dinheiro e de obediência, não fizemos derrear a Doutrina que custou a Jesus o imenso sacrifício? Em que conta tivemos a Lei, o Amor e a Revelação? Minha cabeça estava, parece que inchada; e por isso roguei: — Peço que me permita descansar um pouco; sinto-me quebrantado! O servidor deu-me a mão e concordou. — Eleva teu pensamento a Jesus, vez que trago ordem para retirar-te deste lugar de trevas e de dores. Vamos daqui, Gregório, esperando jamais aqui retornar por nossas culpas. Suspenso em suas forças, penetramos os ares e fomos dar em uma Terra que era e ainda é o retrato da Terra melhorada, um pouco melhorada, nada mais. E ao chegarmos a um grande casarão, com feição de hospital, fui entregue a um guarda, com as seguintes palavras de observação: — Gregório, vais ter aqui limpeza, bons tratos e dormida... Espera-me, que a minha visita será oportuna. — De fato, ali passei por apreciável reforma exterior... Exterior, sim, que as reformas interiores custam vidas e provas, expiações e trabalhos porfiados.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.