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Capítulo 7 de 19
Imortais — parte 2 de 11 — parte 4 de 4
Verdades Imortais · Osvaldo Polidoro
Olhem para as nuvens... Para cima!... E disso não saía o pobre, torcendo-se para todos os lados, cuspindo a mais não ser possível. — Vítima de fanatismo religiosos? — perguntei.
O chefe respondeu-me: — Primeiro foi um dos verdugos de João Huss, um príncipe covarde e sem palavra, por cujas mãos o missionário da Verdade foi entregue à Inquisição; e depois veio a ser um adepto protestante, ficando assim fanático durante o noviciado. Ao desencarnar, como fosse de todo gravoso perante a Lei de Equilíbrio, por peso específico atirou-se nos abismos da subcrosta... Seus documentos vieram, faz algum tempo, ter a este departamento, razão por que o temos mantido sob vigilância, a fim de trazê-lo no tempo certo. Ele tem lá seus muitos erros, nós temos os nossos, mas aqui estamos a serviço da Lei e da Justiça; e, por isso queremos evitar qualquer injunção de caráter pessoal, qualquer ação que refletisse melhores ou piores sentimentos para com os nossos irmãos a socorrer. — Que irá acontecer com ele?
— perguntei. O chefe sorriu, fez um gesto afirmativo de cabeça e explicou: — Um caso de todo igual a centenas de milhares de outros... Por isso, Gregório, nós iremos fazer por ele a cura possível, de fora para dentro, para que ele, dentro de algum tempo, conheça o seu histórico e procure curar-se de dentro para fora. Ele como nós, e nós como ele, em face das Leis de Causa e Efeito. E Jesus, que é o Despenseiro Fiel e Prudente, o Divino Distribuidor de Graças e de Justiças, dar-lhe-á oportunidades de ressarcimento e de vitória.
Porque os Cristos nada mais são do que filtros da Soberana Vontade, jamais pretendendo ser derrogadores de leis fundamentais. Fica bem entendido, os Cristos Planetários não são, de modo algum, responsáveis pelas liberdades individuais de Seus tutelados. Por isso é que convidam a dar dignos frutos pelo exemplo, isto é, pelas obras. Creio, irmão Gregório, que já ouviu falar muito do último capítulo do Apocalipse. — Sim, muito, bondoso chefe.
— Pois não é por acaso, Gregório, que temos feito assim. A Terra toda marcha por uma nova era, e as leis de Causa e Efeito irão pesar um pouco mais na balança dos orçamentos individuais. Cumpre que ninguém se esqueça de que chegou a hora de grandes movimentos renovadores, movimentos que não irão perguntar pelos credos sectários dos indivíduos, pelas suas religiões, mas sim irão aquilatar as pessoas, pelo seu comportamento em face da Lei, do Amor e da Revelação. Lembre-se que Jesus foi o Celeste Transmissor da Doutrina e que, nesta fase histórica, serão prestadas as contas por parte de legiões de criaturas! Vieram os serventes convocados e o chefe de ordens sobre o que fazerem com o irmão alucinado.
Todo o seu tratamento seria feito à base de magnetismo, isso eu compreendi muito bem na ocasião. Eu então não sabia, mas depois vim a saber, que o emprego de fluidos eletromagnetizados virá a ser, um dia, a terapêutica geral, o remédio que começa do começo e vai aos confins da cura, principalmente para aqueles que intimamente fizeram sintonia com a Luz Divina, com Deus, o Pai, onde tudo tem partida, onde tudo é, onde tudo atinge a Sagrada Finalidade! E nem poderia ser de menos, pois sendo a Unidade Divina a Perfeição e a Origem, todos os filhos n’Ela encontrarão, mais tarde ou mais cedo, o equilíbrio total, a perfeição em saúde, paz e movimentos, na carne ou fora dela. Dias depois, fomos encontrar o jovem sentado e pacificado, nem parecendo aquele infeliz de dias antes. Estava a ler um livro, quando lhe perguntamos: — Então, irmão Xisto?
Está gostando destas esferas da vida? Levantando-se, cumprimentou-nos, para depois dizer: — Ainda bem que em Deus tudo está pesado e disposto!... Parece que comecei a ser alguém um dia destes, pois não tinha noção alguma de mim mesmo. — Como encara o seu caso, do ponto de vista histórico, no quadro das leis de Causa e Efeito? — As leis básicas, segundo estou lendo aqui, são a imortalidade, a evolução, a responsabilidade, a reencarnação, a comunicabilidade, a pluralidade dos mundos.
As leis de Causa e Efeito são aquelas que nos fazem registrar os feitos individuais, para efeito de merecimentos ou agravos, em face da Lei Geral de Equilíbrio. A Lei de Deus, segundo leio aqui, é a advertência intelectual, em forma de mensagem espiritual. Quem reconhece que está traindo a Lei de Deus, os Dez Mandamentos, reconhece que está registrando em si faltas e agravos, aquilo que no Espaço e no Tempo terá que reparar, através das vidas sucessivas. As leis de Causa e Efeito, portanto, abrangem a evolução normal do espírito e os reajustamentos que devam ser feitos, em todo curso histórico, depois de ingressar na espécie hominal e ir tendo noção do que seja Bem e Mal, de modo espontâneo. E quando vier a ter consciência da Lei de Deus, terá aumentado a sua dose de responsabilidades.
— Justamente — concordei. Ele prosseguiu: — Dizem que dentro de alguns dias terei de ler o meu relatório dos últimos dois mil e poucos anos... Todavia, como estou chocado com estes ensinamentos, ou com as leis que este livro ensina, creio que devo pensar muito antes de responder a uma pergunta de tamanha monta e responsabilidade. Como vê, nem sei de meus dias anteriores, das vidas passadas, isso que eu jamais na vida carnal seria capaz de admitir... Isso e outras mais...
Estava me preparando para ser pastor... — Qual o seu modo de pensar sobre religião, assim como no mundo carnal é ela organizada e se propõe a ensinar as criaturas? O rapaz olhou-nos, a mim e ao servidor, com grande espanto no semblante; e, ao falar, com receio expressou-me: — Não sei se os desagrado, mas creio que seria bom irmos aos nossos irmãos encarnados, e dizer-lhes a realidade; informá-los de que têm sido ludibriados, mistificados, transformados em objeto de nefando comércio! Pode ser que a vossa opinião seja outra, mas eu penso assim, depois do que comigo aconteceu. Fui enganado, fui traído!...
Em nome de Deus e do Cristo, fizeram-me negar as Verdades para me fazerem afirmar as mentiras convenientes aos sectarismos humanos. Se me tivessem ensinado a Verdade, creio que teria admitido... — Quando começou a se interessar pela religião? —perguntei-lhe. — Aos oito anos e meio, na escola dominical para crianças, que alguns profitentes acharam por bem organizar, sob o controle do bispo e dos pastores.
Ali comecei a ler de um modo e a ser convidado a entender de outro... Ao ser enviado ao seminário, mais tarde, estava fanatizado pelos conceitos que por tantos anos me fizeram repetir e aceitar. Creio que foi melhor ter enlouquecido, pois não ensinei falsas doutrinas a ninguém!... Sofri eu mesmo!... — Tenha paciência...
Não se exaspere... — falou-lhe o servidor, afagando-o. — A mentira, — replicou ele, — não se justifica pelo fato de ser imposta em nome da Verdade!... Os senhores podem pensar como quiserem, mas eu fui enganado, fui traído de maneira cruel!... — Apesar de tudo, Xisto, a sua loucura, como diz, não foi imposta pela religião.
Outros se fazem bispos até, sem se tornarem mentecaptos. Quem sabe se em seu passado há algum outro agravo? Quem sabe? Xisto encarou o servidor com ar interrogativo, inquirindo-o: — O senhor sabe?... Por que não me conta tudo?...
O servidor respondeu-lhe: — Eu sei um pouco... Ao chegar a hora, saiba, tudo ficará esclarecido. Tenha paciência e espere, ouviu? Não se altere, que nada adianta e muito prejudica. Impaciente, o rapaz revidou: — Neste livro está escrito, que os filhos de Deus possuem a Verdade em si mesmos, sendo a função da Revelação ensiná-los em tudo, no curso das vidas.
E que a Doutrina da Verdade, transmitida pelo Cristo, teve por fundamento o batismo de Espírito, a Revelação tornada de conhecimento geral. Quem tinha direito de corromper a Doutrina deixada pelo Cristo? Se tiraram a Verdade do seu lugar, para que foi, senão para colocar no seu lugar a mentira? E se todos os homens têm o direito de ganhar a vida, por que alguns querem ganhar a vida ensinando a corrupção e o erro?!... Em vista do seu estado, o servidor recomendou-lhe paciência e retiramo-nos.
O rapaz tinha tendência à idéia fixa, e, por certo, tendo que falar, nada o faria mudar de tema e rumo. Estando distante, disse-me o servidor: — Poucos concordam em que cometem faltas, mas todos acham que podem acusar ao infinito. — O egoísmo sempre se revela insaciável e o orgulho não quer perder vaza; o rapaz está muito cheio de si, porque desconhece seus erros anteriores, porque é incapaz, em tal estado, de se considerar grande culpado. Ninguém, em tais condições, deixa de acusar a tudo e a todos, por suas dores e sujeições. — De qualquer modo, é uma vítima dos erros religiosos cometidos por muitos homens, inclusive nós mesmos...
Todavia, não gosto de ser acusado assim violentamente, mormente por quem tantos crimes ainda arrasta na alma. Afinal de contas, cada qual prova o que é naquilo que tem, nestas plagas da vida. Aqui não se passam os enganos, erros e esbulhos da crosta, onde o mais justo pode ser crucificado pelo mais canalha; como pode observar, embora as verdadeiras provas estejam ocultas aos próprios culpados, jamais deixam de ser os motivos determinantes do estado de inferioridade e de sofrimento. Resta, apenas, que cada um se compenetre disso, para se acautelar contra certas precipitações, mormente aquelas que encerram acusações contra o próximo, contra os indivíduos. — Acusando as instituições?
E não dá tudo na mesma? Por acaso, bondoso servidor, atrás das religiões que primam pelo formalismo e agravam as Verdades, não estão aqueles irmãos que se locupletam com isso? — Gregório, os irmãos culposos mudam de posição e de situação, enquanto que as instituições ficam produzindo errados... Nós, que fabricamos a igreja romana, para lhe garantir obediência e dinheiro, temos compreendido nossos erros e temos pago nossas dívidas. E a instituição, não fica sempre na mesma, fabricando erros, produzindo trevas, atirando as criaturas no regaço da negação, do materialismo e da animalidade?
Depois de fazerem o pior, que é criar a fonte de erro, que é a instituição errada, o restante dos males caminha por si mesmo. Agora a coisa não é com os homens, é com as instituições erradas, as fábricas de erros e de sofrimento. Ele, o Xisto, que se compenetre de suas culpas e que engrosse as fileiras do Consolador reposto no lugar. Gente muitas vezes melhor do que ele, não está fazendo apenas isso? E para tirar a mentira do lugar da Verdade, que é preciso fazer, senão alijar a mentira e implantar a Verdade?
— No curso dos muitos séculos, não é isso? — Exatamente, Gregório; cada um em si mesmo terá o gozo de tê-lo feito, já que as realizações, todas elas, refletem-se no íntimo das criaturas. Antes de vencer fora, cumpre saber que é preciso vencer dentro. Jesus, parecendo perder, foi quem de fato ganhou. Aqueles que pensaram ganhar a partida, crucificando-O, nada mais fizeram do que descerem às vielas das trevas e das vidas expiatórias.
E assim o será, saiba, em todos os tempos, na Terra ou onde haja quem ainda necessite evoluir. Querer consertar os outros é muito comum, Gregório; mas a vantagem é fazer o possível pela melhora íntima. — Xisto, em breve, estará falando como nós; estará sabendo que as dores de fora são o produto das falhas de dentro. — Esse é o retrato desta região... Aqui se agrupam elementos, que trazem nas entranhas históricas tremendos erros de caráter religioso, tristes lastros a serem desfeitos.
E sem contar com redentores e nem lavagem pelo sangue inocente de suas próprias vítimas. A questão é cada qual se capacitar de que o reequilíbrio cumpre a quem se desequilibrou. Como tudo é registrado no imo, pelo próprio autor das obras, cumpre que o seu desfazer também seja no imo, pelo mesmo autor das obras criminosas. Deus tudo oferece em potencial; os Cristos Planetários administram imparcial-mente, nada tendo com as liberdades de Seus tutelados; e os indivíduos devem aprender com as lições provindas da Revelação, a fim de se compenetrarem de suas responsabilidades e direitos em face das leis regentes do Universo. — Muito bem, tenho aprendido perfeitamente.
Aqui sempre se pode aprender bem e com presteza. — Assim é, irmão Gregório. Mas lá na crosta a Humanidade se faz arredia aos nossos ensinamentos... A idolatria é um vício, apenas um vício pior do que os outros tantos vícios, como o fumo, o álcool, os entorpecentes, etc., etc. Por vício, saibamos, as práticas erradas e repugnantes parecem virtudes!
É assim que os encarnados vão sabendo de certas verdades, sem se poderem livrar das mentiras e dos erros de quem se fizeram escravos. Poucos acreditam na luz interior, nos valores do coração sublimado e da lucidez mental, de onde surtem as obras dignas entre irmãos, em virtude das observâncias da Lei de Deus; no entretanto, quase todos confiam nas idolatrias, nas oferendas pagãs, nos rituais supersticiosos e no comercialismo dos cleros, que são coisas altamente comprometedoras. Boa estava a prosa, mas ao chegarmos ao posto de serviço, lá estavam indicados dois serviços para nós. Um era retirar alguém de lugar trevoso, outro era entregar mensagens na crosta.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.