Voltar ao livro Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 3

Capítulo 2 de 14

Os Grandes Iniciados — parte 2 de 14

Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 3

raça branca, povoavam o antigo Irã e a Pérsia. Poucos conhe­ ciam o arado e a arte da agricultura, a sagrada espiga que cresce ereta como uma lança as colheitas douradas, ondulantes como , seios femininos, atos de Deus, puro troféu do lavrador. Outras viviam do trabalho pastoril, junto a seus rebanhos, mas todos adoravam o sol e ofereciam seu sacrifício ao fogo, o céspede como altar, distribuíam-se em pequenas tribos e to­ dos os seus reis pontifícios haviam desaparecido. Logo, porém, passados os séculos, os turânios vindos das planícies do norte e dos montes da Mongólia invadiram a velha Ariana Vaeya, a terra dos puros e dos fortes. Inesgotável vi­ veiro humano, surgiram os turânios da mais resistente raça atlântica, indivíduos roliços, de tez amarela e pequenos olhos semicerrados. Robustos forjadores de armas, cavaleiros astutos e saqueadores, adoravam também o fogo; não a chama que ilumina as almas e unificam as tribos, mas o fogo terrestre. manchado de. ... e,lementos. impuros gerador de tenebrosos encan­ , tamentos, o fogo que outorga riquezas e poderios, que estimula cruéis desejos. Acreditava-se serem eles consagrados às entida­ des das trevas. Toda a história dos árias primitivos se reduz a suas lutas contra os turânios. Sob o choque. das primeiras invasões, as tribos árias se dispersaram. Fugiram ante os homens amarelos, cavaleiros montados em bestas negras, como se· estivessem sen­ do atacados por um exército de demônios. Os mais recalcitran-· tes refugiaram-se nas montanhas; os demais submeteram-se, sofrendo o jugo do vencedor e adotando o seu corrompido culto. Naquela época nasceu, nas tribos montanhesas de Elburz, então. chamado Albordj, um menino que recebeu o nome de Ardjasp, descendente de uma antiga família real. Ardjasp passou a sua juventude entre sua tribo, caçando búfalos e lutando contra os turânios. Durante a noite, debaixo da tenda, o .filho. do ,.rei destronado ·Sonhava,· às vezes, em res­

taurar o antigo reino de Yima, ( ) o poderoso. Porém, não era mais que um sonho indefinido, pois não ·dispunha, para tal empresa, de cavalos, homens, armas ou força. ( 4) o Rama hindu, ao qual se faz referência no princípio do Zend-Avesta, com o nome de Yima, e que reaparece na lenda persa na figura de Djemchyd.

Certo dia, um v1s1onário louco, um santo andrajoso, da· queles que sempre abundaram na Ásia, um pyr, lhe predisse que chegaria. a reinar sem cetro nem coroa, com mais poder que todos os reis da terra, coroado pelo sol. Isso foi tudo. Em uma clara manhã, em um de seus passeios solitários, chegou Ardjasp a um vale verde e fecundo. Vários picos ergui­ dos formavam um amplo círculo. Aqui e acolá, fumegavam campos de lavoura. Ao longe, um pórtico construído com tron­ cos de árvores dominava um grupo de choças, no interior de um círculo de paliçada. Um rio deslizava entre um tapete de relva crescida salpicado de flores silvestres. Subiu o leito do , rio e descobriu um bosque de pinheiros perfumados. Mais para o interior, ao pé de um penhascal, dormia uma fonte límpida, de incomparável azul. Uma mulher, vestida de linho branco, ajoelhada perto da água, enchia um vasilhame de cobre. Levantou-se logo e colo­ cou a ânfora sobre a cabeça. Possuía ela o soberbo aspecto das montanhesas tribos árias. Um aro de ouro prendia-lhe os cabe­ los negros. Sob o arco das sobrancelhas, unidas no ponto onde nascia, grave, o nariz curvo, brilhavam dois olhos de opaco negror. Transluziam aqueles olhos uma tristeza impenetrável e deles emergiam, de vez em quando, penetrantes cintilações se­ melhantes a· um relâmpago azul brotado de uma nuvem som­ bria. -A quem pertence este vale? - perguntou o caçador forasteiro. -Aqui reina o patriarca Vahumano, guardião do puro Fogo e servidor do Altíssimo. - respondeu a jovem. - Como te chamas, nobre mulher? -Deram a mim o mesmo nome deste rio, Arduizur (Fonte de luz). Mas toma cuidado, estrangeiro. O mestre falou: aquele que bebe de suas· águas, queimará em sede insaciável. r Somente um Deus poderá aplacá-la ... Mais uma vez os olhos opacos da jovem pousaram sobre o desconhecido. E ele vibrou desta vez como uma flecha de ouro. Incontine a nti mulher voltou-se , e desapareceu ao longe sob os perfumados pinheiros. Centenas de flores brancas e vermelhas, amarelas e azuis inclinav am suas pétalas e seus cálices sobre a fonte azul: 'Ardjasp se inclinou também. A sede o devorava e ele bebeu em longos goles, na concha da mão, da água cristalina.

Depois se foi, sem preocupar.,se mais com aquela aventu­ ra. Apenas lhe vinha à memória, de vez em quando, o verde­ cente vale circundado por picos inacessíveis, a fopte azul sob os perfumados pinheiros e a profunda noite dos olhos de Ardui­ zur, brilhantes de claridade azuis e de fulgores dourados. Passaram-se os anos. O rei dos turânios, Zohak, venceu os árias. Para subjugar as tribos nômades, ergueu-se no Irã, sobre

as bases do indo-Krusch, em Baktra, ( ), uma fortaleza, uma cidade de pedra. Para lá, o rei Zohak convocou todas as tribos árias, a fim de reconhecerem o seu imenso poder. Ardjasp rendeu.,se com os de sua tribo, não para submeter­ se, mas para olhar o inimigo cara a cara. O rei Zohak, envolvo em uma pele de lince, ocupava um trono de ouro colocado sobre uma colina coberta de peles en­ sangüentadas de búfalos. Em torno dele, formando um amplo círculo, permaneciam os caudilhos, armados com ponteagudas lanças. A um· lado, um pequeno grupo de árias. Em outro, cen­ tenas de turânios. Atrás do rei abria-se um templo rústico ta­ lhado na montanha como uma espécie de gruta. Dois enormes dragões de pedra, toscamente esculpidos sobre enormes blocos de pórfiro, guardavam a entrada e serviam como ornamento. No centro, sobre um altar de basalto, ardia um charco escar­ late onde atiravam esqueletos humanos, sangue de escorpiões · e de touros. Por trás da pira ardente viam-se, de quando em quando,

duas enormes serpentes aquecendo-se na chama. ( ) Possuíam patas de dragão e carnudos capuchos de cristas móveis. Eram as últimas sobreviventes dos pterodáctilos antediluvianos. Estes monstros obedeciam aos bastões de dois sacerdotes. Era o templo de Angra-Mayniú (Arimã), senhor das potes­ tades das trevas, deus dos turânios. Tão logo Ardjasp chegou com os homens de sua tribo, os soldados conduziram uma cativa para diante do rei. Era uma mulher magnífica, quase nua. Um debrum de tecido cobria a sua cintura. Os aros de ouro que envolviam-lhe os tornozelos indicavam sua nobre estirpe. Tinha os braços amarrados às cos- (5) A moderna Balk, em Bactriana. (6) Dai advém que, nas tradiç·ões persas do Zerditscht-Naméh e do Schah-Naméh, se represente o rei Zohak com emas serpentes saindo-lhe das costas.

tas e gotas de sangue salpicavam-lhe a pele alva. Ia presa pelo pescoço por uma corda trançada com crina de cavalo, quase tão negra quanto os cabelos soltos que cobriam suas costas e seus seios palpitantes. Ardjasp, horrorizado, reconheceu a mulher da fonte, Ar­ duizur, mas aí!, como parecia diferente! Pálida .. de angústia, já não fulguravam os opacos olhos. Ele baixou a cabeça, com a morte na alma. O rei Zohak falou: -Esta mulher é a mais nobre dos árias rebeldes do mon­ te Albordj. Ofereço-a àquele de vocês que saiba merecê-la. Antes, porém, é necessário que esse homem se consagre ao deus Angra-Mayniú derramando seu sangue sobre o fogo e bebendo , sangue de touro. Exijo que me preste imediatamente juramento em vida e na morte colocando a cabeça sob os meus pés. O que assim agir, que tome Arduizur por escrava. Se ninguém a quiser, vamos oferecê-la como pasto às duas serpentes de Arimã. Ardjasp viu um longo calafrio estremecer o belo corpo de Arduizur dos pés à cabeça. Um caudilho turânio, de tez alaranjada e olhos semicerra­ dos, adiantou-se. Ofereceu o sacrifício de sangue diante do fogo e das serpentes e baixou a cabeça até colocá-la sob os pés de Zohak. Assim, cumpriu o juramento. A cativa parecia uma águia ferida. Quando o brutal turâ­ nio passou a mão sobre a bela Arduizur, esta olhou na direção de Ardjasp. Um dardo azul saiu de suas pupilas e um grito fugiu-lhe da garganta: -Salva-me! Ardjasp atirou-se, espada em punho, contra o caudilho, mas os guardiões da prisioneira detiveram-no com o intento de atravessá-lo com suas lanças, quando o rei Zohak gritou: -Detenham-nos! Não toquem nesse caudilho! E, dirigindo-se ao jovem ária: -Ardjasp, - disse - te darei a vida, oferecendo-te esta mulher, se me prestares juramento e te submeteres ao nosso Deus. Diante de tais palavras, Ardjasp comprimiu as têmporas, inclinou a cabeça e dirigiu-se aos seus. O · turânio reteve sua presa, Arduizur lançou outro grito e, desta feita, Ardjasp se

teria deixado matar caso seus companheiros não o tivessem de­ tido, apertando-lhe a garganta até quase estrangulá-lo. Morria a tarde, desaparecia o sol e Ardjasp não viu mais que um imenso rio de sangue vermelho, o sangue de toda a raça turânia que ele ardia de desejo de verter pela vítima, a di­ vina Arduizur, ferida e arrastada no lodo. Ardjasp caiu no <;hão, inconsciente. Quando o jovem chefe recobrou os sentidos, na tenda para onde o conduziram seus companheiros, distinguiu ao longe­ uma mulher amarrada sobre a sela de tim · cavalo. Um cavaleiro . montou o animal, apertou a mulher com os. braços e um séquito de turânios, armados de ponteagudas lanç�s e em cima de cava­ los negros, seguiu em seu encalço .. E imediatamente cavalos, garupas, cascos ao vento, desapareceram com a horda selva­ vem em meio a uma nuvem de poeira. Então, Ardjasp recordou as palavras de Arduizur pronun· ciadas junto à fonte· luminosa, sob os perfumados pinheiros: "Aquele que beber desta água, queimará em sede insaciável. e Somente um Deus poderá aplacá-la." Sentia sede no sangue d suas veias, na medula dos seus ossos, sede de vingança e de jus­ tiça, sede de luz e de verdade, sede de poder para libertar Arduizur e a alma de sua raça.

IV - A voz na montanha Corria o cavalo a todo galope pelas colinas e planícies, até · que Ardjasp chegou aos montes de Albordj. Entre rochas íngre­ mes viu outra vez a senda que conduzia ao vale de relva flo­ rida entre picos nevados. Ao aproximar-se das cabanas de madeira, encontrou lavradores abrindo sulcos com o arado puxado por suarentos cava- · los. E a terra removida ao longo dos sulcos suava também de prazer sob 9s dentes do arado e as patas dos animais. . Sobre um altar de pedra, em pleno campo, o venerável patriarca, administrando justiça à sua tribo. Seus olhos pare­ ciam um sol de prata saído de níveos cimos. Sua barba, de esverdeada brancura, podia comparar-se aos líquens que reco­ briam os velhos cedros, nos flancos do Albordj. -O que desejas de mim? - perguntou o patriarca ao estrangeiro - Tu sabes do rapto de Arduizur pelo rei Zohak, Ardjasp? - Presenciei seu suplício em Baktra, convertida em pri­ sioneira dos turânios. Tens fama de nobre e de sábio. És o último descendente dos sacerdotes do sol. És sábio e poderoso pela graça dos altos Deuses. A ti venho, em busca de luz e de verdade para mim; de liberdade e de justiça para o meu povo. -Possuis a paciência que desafia o tempo? Estás disposto a renunciar a tudo em favor da tua obra? Pois estás apenas no começo de tuas provas e sofrerás durante toda a tua vida. -Toma o meu corpo, toma a minha alma - disse , Ardjasp - ·se com eles podes oferecer-me a luz que sacia e a espada que liberta. Sim, estou disposto a tudo se posso con­ seguir, por meio dessa luz e dessa espada, salvar os árias e res­ gatar Arduizur do seu carrasco. -Então, posso ajudar-te. - disse Vahun1ano - :tvlora conosco durante algum tempo. Vais desaparecer da frente dos olhos da tua gente. Quando te virem novamente serás outro. A partir deste momento teu nome não será mais Ardjasp e sim '12

Zaratustra, ( ) que significa Dourada Estrela ou Esplendor do Sol. Haverás te convertido em apóstolo de Ahura-Mazda, auréola do Onisciente, Vivente Espírito do Universo. do Vahuma­ Assim se converteu Zoroastro em discípulo

no. ( ) O patriarca, sacerdote do sol, conservador de uma tradi­ ção que remontava à Atlântida, con1unicou a seu discípulo tudo o que sabia da ciência divina e do estágio atual do mundo. -A eleita raça dos árias - disse Vahumano - caiu sob o jugo dos turânios, exceto algumas tribos montanhesas. Estas, porém, conseguiram salvar a raça inteira. Os turânios adoram Arimã e vivem sujeitos à sua influência. -Quem é, na verdade, Arimã? -Existem inúmeros espíritos entre o céu e a terra. - respondeu o ancião - Infinitas são as suas formas e, assim como o céu é ilimitado, o insondável inferno possui os seus graus. Este ao qual te referes é um poderoso arcanjo chamado

Adar-Assur, ( ) o Lúcifer que se precipitou no abismo para queimar a todas as criaturas com o fogo devorador do seu ar­ chote. É o maior sacrificado pelo orgulho e pelo desejo, o que busca Deus em si próprio, mesmo no fundo do precipício. Caído, conserva todavia a lembrança divina e algum dia encon­ trará novamente sua coroa, sua estrela perdida. Lúcifer é o 1° arcanjo da luz. Porém, Arimã ( ) não é Lúcifer, mas apenas seu reverso e sua sombra, príncipe das potestades das trevas. Freneticamente preso à terra, nega o céu e não se dedica a outra coisa que não seja a destruição. Profanou os altares do fogo e suscitou o culto à serpente, propagador da inveja e (7) Zaratustra é o nome zenda do qual os gregos tom.aram a forma posterior de Zoroastro. Os parsis dão ao grande profeta ária o nome de Zerduscht. , alguns agnósticos (8) C cabalistas judeus e os rosacruzes ertos da Idade Méàia confundem Vahumano,, o grande iniciador de zo­ roastro, com Melquisedec, iniciador de Abraão. (9) Encontramo-lo sob tal denominação na tradição assíria de .Ninive e na tradição caldéia da Babilônia. 10 yniú. O Autor adotou ( ) Em zenda, Angra-Ma neste relato a maior parte dos nomes da trad!ição grego-latina, porque soam mei.hor aos nossos ouvidos e evocam mais lembranças. O conceito de Mefis­ tófeles, :no Fausto, de Goethe, corresponde exatamente ao de Arimã, com o acréscimo do cepticismo e da ironia modernos. -

-do ódio, da opressão e do vício, do furor sanguinário. Reina sobre os turânios, atraindo seu gênio maléfico. f: preciso com­ batê-lo e· derrubá-lo para salvar a raça dos puros e dos fortes. -Mas como combater o Invisível, se ele tece a sua tra­ ma nas trevas? -Voltando o teu rosto para o sol que se levanta por de­ trás da montanha de Hara-Berezaiti. Sobe pelo bosque de cedro até chegar à gruta da águia, suspensa sobre o abismo. Ali, con­ templarás, todas as manhãs o sol nascente emergindo dos ico� , p -eretos. Durante o dia, roga ao Senhor do Sol que se mamfeste em ti. No transcorrer da noite, aguarda-o e eleva a tua alma até os astros, como uma lira imensa. Esperarás durante. muito tempo por Deus, pois Arimã tratará de intrometer-se em teu caminho. Uma noite, porém, ria paz de tua alma, surgirá. outro . sol; · ainda mais brilhante · que aqllele que aquece o topo do monte Berezaiti: o sol de Ahura-Mazda. Ouvirás sua voz e ele ditará a ti a lei dos árias . Ao chegar a hora do seu retiro. Zoroastro disse ao seu . mestre: -Mas onde encontrarei a cativa amarrada em Baktra, arrastada na tenda do turânio, ensangüentada sob o seu chi­ -cote? Como arrancá-la de suas garras? Como apagar dos meus olhos aquele belo corpo atado, salpicado de sangue, que grita .e chama por mim incessantemente? Ai!, não tornarei mais a ver a filha dos árias, a que apanha a água luminosa sob os perfumados pinheiros e cujos olhos deixaram em meu coração suas flechas de ouro e seus dardos azuis? Quando verei Ardui­ zur outra vez? Vahumano quedou-se um instante em silêncio. Seu olhar firme tornou-se baço, embotado como os galhos congelados dos pinheiros hibernais. Uma tristeza imensa parecia pesar sobre o ancião semelhante à que se projeta sobre os cumes do Albordj , depois que o sol se põe. Por fim, solenemente, estendeu o braço direito, murmu­ rando: -Ignoro-o, meu filho. Ahura-Mazda to dirá. Vai para a montanha! * * * Tendo a pele de carneiro como abrigo, Zoroastro passou dez anos nos confins do grande bosque de cedro, na gruta junto ao abismo.

Alimentava-se de leite de búfalo e do pão que os pastores de Vahumano levavam para ele de vez em quando. A águia que fazia seu ninho entre as rochas, acima da sua gruta, anun­ ciava a aurora com os seus guinchos. Quando o astro dourado dissipava as névoas do vale, che­ gava a águia com grande rumor de asas à entrada da caverna, como que para ver se o solitário dormia. Logo, descrevia vá­ rios círculos sobre o precipício e pitrtia, rápida, em direção às planícies. Passaram-se os anos, segundo os livros persas, antes que Zoroastro ouvisse a voz de Ormuz e contemplasse a sua glória. A princípio, atacava-o Arimã com suas tropas enfurecidas. Os dias transcorriam tristes e desolados para o discípulo de Vahumano. Terminadas as suas meditações, os exercícios espirituais e as preces diurnas pensava no destino dos árias , oprimidos e corrompidos pelo inimigo. Amiúde vinha-lhe , também ao pensamento a sorte de Arduizur. O que seria da mais formosa das filhas dos árias nas mãos dos turânios odio­ sos? Teria afogado a sua angústia nas águas de algum rio ou teria suportado o seu ultrajante destino? Suicídio ou degrada­ ção, não cabia outra alternativa. Uma era tão horrível quanto a outra. E Zoroastro via, a todo momento, o belo corpo ensan­ güentado de Arduizur esmagado pelas cordas. Tal imagem ris­ cava as meditações do incipiente profeta como um relâmpago ou um farol. As noites eram piores do que os dias. Os sonhos noturnos superavam em horror os pensamentos que lhe vinham quando em vigília. Porque todos os demônios de Arimã, terrores e ten­ tações, assaltavam-no sob formas animalescas, aterrorizantes e ameaçadores. Um exército de chacais, morcegos e serpentes ala­ das invadia a caverna. Seus grunhidos, assobios e zumbidos provocavam-lhe dúvidas sobre si mesmo, fazendo-o temer pelo resultado de sua missão. Porém, durante o dia, Zoroastro recordava os milhares e milhares de árias nômades, oprimidos pelos turânios, em se­ creta revolta contra o seu jugo; os altares profanados, as blas­ fêmias e as invocações maléficas; as mulheres raptadas e redu­ zidas à condição de escravas, como Ar<luizur. E a indignação devolvia-lhe o arrebatamento perdido. Antes do raiar da aurora, subia às vezes ao alto de sua montanha coberta pelos cedros e ouvia o vento gemer entre os

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.