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Capítulo 13 de 14
Os Grandes Iniciados — parte 13 de 14
Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 3
hunumo corpo e aceitando o martírio, significou para o mesmo Cristo uma superação. E surgem os novos mistérios, com caráter (mico como ja mais se viram e como indubitavelmente não se verão jamais no transcurso das futuras evoluções terrestres, sujeitas a metamor foses múltiplas. Porque se iniciou nestes Mistérios a um Deus, Arcanjo Solar, atuando como hierofante o Pai, Espírito puro. Do Cristo ressuscitado sai o Salvador da humanidade. Do que resulta, para o homem, uma considerável expansão de sua zona de percepção espiritual e, por conseqüência, uma incal cu!ávcl amplitude de seus destinos físico e ceicste. * * * r�1ais de um ano fazia que os fariseus espreitavam Jesus. Mus este não quis entregar-se enquanto não chegasse a sua hora. Quantas vezes discutira com eles no umbral das sinago _gns e sob os grandes pórticos do templo de Jerusalém, onde passeavam, com suntuosos trajes, os mais altos dignatários do poder religioso! Quantas vezes reduziu-os ao ·silêncio com sua inapeiável dia1ética, opondo a seus ardis as mais sutis arma.di lhas! E quantas vezes também ntemorizou-os com suas palavras que pareciam vindas do céu, como o raio: "Em três dias démo lirei o templo e em três dias o reconstruirei!" Não raras vezes desafiava-os frontalmente e alguns de seus epítetos cravavam-se em suas carnes como arpões: ''Hipócritas! Ruça de víboras! Sepulcros caiados!" E quando, furiosos, qui seram prendê-lo no mesmo templo, Jesus apelou para o mesmo 1neio que empregaria mais tarde Apolônio de Tyana, diante do tribunal do imperador Domiciano. Envolveu-se em invisível véu ·e desapareceu aos olhos de todos. "E passou entre eles sem ser visto", dizem c,s Evangelhos. Sem embaraço, tudo achava-se preparado na grande sina ,goga para julgar o perigoso profeta que ameaçara destruir o 1emp!o e que se dizia o l\,1essias. Sob o ponto de vista da lei judia, ambas as ofensas eram suficientes para condená-lo à · n1orte. Caifás disse em pleno sanedrim: "Basta que um único homem pereça para todo o povo de Israel." E quando o céu -fala pela boca do inferno, a catástrofe é iminente. Enfim, a conjunção dos astros sob o signo da Virgem assi . nalou a fatídica hora no quadrante do céu como no quadrante ó:: história e projetou seu negro dardo na alma solar de. Cristo.
Reúne Jesus seus apóstolos no retirado local de costume, uma gruta no Monte das Oliveiras, e anuncia-lhes sua morte próxima. Consternados, não o compreendem e nem o compreen deram até mais tarde. É o dia de Páscoa. Jesus marca a ceia de despedida em uma residência de Jerusalém. E eis aqui os doze apóstolos sentados em uma sala aboba dada, já quase noite. Sobre a mesa, fumega o cordeiro pascoal, que para os judeus comemora a fuga do Egito que será o símbolo da suprema vítima. Através das janelas arcadas desenha-se a escura silhueta da cidadela de Davi, a cintilante cúpula dourada do templo de Herodes, sinistra fortaleza Antonia, de onde impera a lança romana, sob a pálida claridade do crepúsculo. Há um depressivo silêncio no ambiente, uma atmosfera esmagadora e avermelhada. João, que vê e pressente mais do que os outros, pergunta-se por que, na penumbra crescente, aparece em torno da cabeça de Cristo um halo suave de onde emergem raios furtivos que logo se apagam, como se o fundo da alma de Jesus temesse e estremecesse ante sua resolução derradeira. E silenciosamente o discípulo amado inclina sua cabeça sobre o coração de Jesus. Por fim, este rompe o silêncio: "Em verdade vos digo que, esta noite, um de vós me atraiçoará." Um grave murmúrio per corre entre os doze, como se tivessem ouvido o alarme de um naufrágio em uma nave em perigo. "Quem? Quem?" E Jesus, apontando para Judas que aper ta a sua bolsa, convulsivamente acrescenta sem rancor: "Vai e faze o que tens a fazer." E vendo-se descoberto, sai o traidor com dissimulada ira. Então Jesus, partindo o pão e erguendo a taça, pronuncia solenemente as palavras que consagram sua missão e ecoam através dos séculos: "Comei. .. este é o meu corpo. Bebei. .. este é o meu sangue." Os apóstolos, surpresos, compreendem menos ainda. Somente Cristo sabe que naquele momento exe cuta o supremo ato de sua vida. Por meio de suas palavras, inscritas no Invisível, oferece se à humanidade, sacrifica-se com antecipação. Momentos antes, o Filho de Deus, o Verbo, mais livre que todos os Eloim, po deria ter retrocedido, recusando o sangrento holocausto.
Agora já não pode m�is. As potestades recebera1n seu jura mento. E, como uma auréola imensa, sentem os Eloim que ascende até eles a divina contraparte de Jesus Cristo, sua alma solar com todos os seus poderes. E retêm-na em seu círculo cortês, é a fulgurante jóia de divino sacrifício que não devol verão até após. a sua morte. Sobre a terra permanece apenas o Filho do Homem, vítima que caminha para o suplício, Mas somente Ele reconhece também o significado de "o corpo e o sangue de Cristo". Remotamente, ofereceram os Tro nos o seu corpo para a criação da nebulosa. Sopraram os Ar queus e na saturniana noite apareceu o sol. Deram os Arcanjos sua alma de fogo para criar os Anjos, protótipos do Homem. E por último daria Cristo o seu corpo para salvar a huma nidade. Do seu sangue devia surgir a fraternidade humana, a regeneração da espécie, a ressurreição da alma ... E enquanto oferece a seus discípulos o cálice onde aver melha o áspero vinho judeu. . . pensa de novo Jesus na visão celeste, no sonho cósmico anterior à sua reencarnação, quando respirava ainda na zona solar, quando lhe ofereceram os. doze grandes profetas, a Ele, o décimo-terceiro, o amargo cálice ... que aceitou. Mas os apóstolos, exceto João, que percebe o inefável, não podem compreender. Pressentem que algo terrível se aproxima e tremem e empalidecem. A incerteza, a dúvida, mãe do pavor covarde, apossa-se deles. Quando Cristo se levanta e diz: "Vamos rezar a Getse mani", os discípulos seguem-no dois a dois. E o triste cortejo sai pela profunda paterna da porta de ouro, desce pelo sinis tro vale de Hinmon, cemitério judeu e o vale da Sombra Mor tal. Atravessam a ponte de Cedrón e ocultam-se na gruta do Monte das Oliveiras. Os apóstolos permanecem mudos, impotentes, aterrados. Sob as velhas árvores do Monte, retorcidas, de folhagem espes-. sa, o círculo infernal estreita-se em torno do Filho do Homem para esmagá-lo com seu aro mortal. Dormem os apóstolos. Jesus reza e o seu rosto cobre-se de· sangrento suor. Era necessário que sofresse a angústia sufo cante, que bebesse do cálice até o fim, que saboreasse a amar gura do abandono e do desespero humano. Por fim, brilharam armas e archotes sob as árvores. E apa rece Judas com os soldados e, aproximando-se de Jesus, dá-lhe
'O beijo da traição que o identifica para os guerreiros merce nários. Há, na verdade uma doçura infinita nas palavras de Cris , to: '' Amigo meu; a que vieste?" Dilacerante doçura que arrns tará o traidor ao suicídio, apesar do negror àe sua alma. Transcorrido este ato de amor perfeito, Jesus permar.c ccrá impassível até o fim. Havia em torno de1e como que uma espécie de couraça, a protegê-lo contra todas as torturas. Ei-lo agora ante o sumo sacerdote Caifás, tipo de saduccu :empedernido e do orgulho sacerdotal falto de fé. o pontífice ns Jesus · o Messias e dilacera-lhe confe.ssa-se Pilatos, pretor de Roma, vestes, condenando-o assim à morte. �içiser ele um inofensivo vi tenta salvar o Galileu, acreditando • ,,. • H'1 rei aos JU eus , que e. ama a �1 mesnano, p01s esse pretenso 'd " h mo "Filho de Deus", acrescenta que "seu reino não é dcsk mundo". I\1as os sacerdotes judeus, evocando a sombra ciumenta de César, e a turba que uiva "Crucifica-o!", levam o proconsul. npós lavnr as mãos por tal crime, a entregar o Messias aos bru tais legioLários romanos. E vestem-no com um manto púrpura. cingem-lhe a cabeça com uma coroa de espinhos e colocam-lhe nas mãos um talo, como se fora ridículo cetro. Chovem sobrç ele golpe� e insultos. Evidenciando o seu desprezo pelos judeus, exclama Pilatos: "Eis o vosso rei." E acrescenta com amarg8 ironia: "Eccc Homo!", como se toda a abjeção e miséria humn nas sé condensassem no profeta flagelado. A claudicante antigüidade e mesmo os próprios estóicos nã.o comp;·eenderam melhor que Pilatos o Cristo da Paixão. Não virnm senRo o exterior depressivo, sua aparente inércia qut induzia-os à indignação ... Sem embargo, todos os acontecimentos ela vida de Jesus possuem, em lugar de uma transcendência simbólica, uma si� nificnção mística que estimula a humanidade futura. Os pass;s da Cruz, evocados em astrais imagens pelos santos ela Idade Média, converteram-se para eles em instrumentos ele iniciacão e nperfeiçoamento. Os irmãos de São João e os templários,' m, cruzados que conceberam a conquista de Jerusalém para alçá-la à condição de capital do mundo, os mistérios rosacruzes do século XIV, que prepararam a reconciliação ela ciência com a f é c!o Oriente com o Ocidente por meio de magna sabedoria,
todos esses homens consagrados à atividade espiritual no mais
amplo sentido da palavra, encontrnriam na Paixão de Cristo inesgotável fonte de poder. Ao contemplar a Flagelação, a ima-· gem moribunda de Cristo lhes dizia: "Aprende comigo a per manecer impassível sob os açoites do destino, resistindo a todas as dores, e adquirirás um novo sentido: a compreensão da dor,· sentimento da unidade com todos os seres, porque se consenti e111 sacrificar-me por todos os homens foi para apossar-me do mais profundo de sua alma." A Coroa de Espinhos inclinou-os a desafiar moral e inte lectualmente o mundo, suportando o desprezo e o ataque con tra o mais caro e querido, dizendo-lhes: "Suporta valentemente os golpes quando todos se voltam para ti. Aprende n afirmar contra a negação do mundo. Só assim te converterás em ti mesmo." A cena da Cruz às costas sugeria-lhes uma nova virtude, dizendo: "Esforça-te em carregar o mundo sobre tua consciên cia como Cristo consentiu em levar a Cruz para identificar-se com a terra. Aprende a carregar o corpo como uma coisa exten sa. Necessário é que o espírito domine o corpo com a sua von tade como a mão domina o martelo." Portanto, o Mistério <la Paixão não significou de maneira nenhuma para o Ocidente e os povos do norte um motivo de passividade, mas uma renovação da energia por intermédio. do Amor e do Sacrifício. A cena do Gólgota é o limite final da vida de Cristo, a marca impressa sobre a sua missão e, por isso, o mais profundo Mistério do Cristianismo. Goethe disse, a propósito: "O supre mo Mistério da dor é algo tão sagrado que mostrar a sua ima gem aos olhos da multidão pode parecer sacrílega profanação.'' "A que vem a lúgubre cena , pergunta da crucificação?" vam-se os pagãos dos primeiros séculos. "Desse martírio cruel há de surgir a salvação do mundo?". E muitos pensadores mo dernos repetiram: "A morte de um justo tem que salvar neces sariamente a humanidade? Em sendo assim, Deus é um ver dugo e o universo um instrumento de tortura!" Rodolfo Steiner deu a tão agudo problema a mais filosó fica resposta: "Há que evidenciar aos olhos do mundo que sem é pre o espiritual venceu o material. A cena do Gólgota não outra coisa senão uma Iniciação transportada ao plano da his tória universal. Das gotas de sangue vertidas sobre a cruz emana uma torrente de vida para o espírito. O sangue é a subs-
tância do eu. Com o sangue derramado no Gólgota penetrari& o amor de Cristo no humano esgoismo como vivificante fluído.'' Lentamente, a cruz levanta-se sobre a sinistra colina que domina Sion. Na vítima ensangüentada que estremece e palpita sob o infame suplício respira uma alma sobre-humana. Mas Cristo entrega os seus poderes aos Eloim, e sente-se como que desprendido de sua aura solar, na solidão horrível no mais , fundo de um abismo de trevas onde gritam os soldados e voci feram os inimigos. Escura nuvem pesa sobre Jerusalém. A atmosfera terrena é apenas um prisma da vida universal. Seus fluidos, ventos, elementares espíritos, alimentam-se às vezes com as paixões humanas enquanto respondem aos estímulos cósmicos por meio de suas tempestades e convulsões. E chegaram para Jesus as horas de agonia, dolorosas como as eternidades. Apesar do dilaceramento do suplício, c01_1tinua sendo o Messias. Perdoa os seus carrascos, consola o ladrão que mantém a fé. Próxima a morte, sente Jesus a sede abrasa dora dos injustiçados, presságio da libertação. Porém, antes de esvaziar o seu cálice, devia ainda experimentar esse sentimento de solidão que o levaria a exclamar: "Pai, por que me abando naste?", seguindo-se a palavra suprema: "Tudo está consuma do", que imprime a marca do Eterno sobre a fronte dos séculos perplexos. Uma derradeira exclamação brota do peito do crucificado com a estridência de um clarim ou ·semelhante ao simultâneo rompimento das cordas de uma harpa. Tão terrível e poderoso foi aquele grito que os legionários romanos retrocederam, bal buciando: "Seria realmente o Filho de Deus?". Morreu Cristo e, no entanto, Cristo está vivo mais vivo , do que nunca! Aos olhos do homem não resta dele senão um cadáver suspenso sob um céu mais escuro que o inferno. Po rém, nos mundos astral e espiritual, refulge um jorro de luz seguido o retumbar de um trovão de mil ecos. d Em um único ímpeto, a alma de Cristo funde-se em sua alma solar, seguida por oceanos de almas e saudada pelo hosana das regiões celestes. Desde então até agora, os videntes de além-túmulo e os Eloim sabem que conquistou-se a vitória, que desvaneceu-se o espectro da morte, que partiram-se as lápides que cobrem os sepulcros, vindo as almas a flutuar acima dos seus ossos descarnados.
Cristo reintegrou o seu reino com seus poderes centuplica dos pelo sacrifício. E agora com renovado impulso acha-se prestes a penetrai no coração do Infinito, no jactante centro de luz, de amor e de beleza ao qual chama seu Pai. Porém, sua compaixão o atrai à terra, da qual, pelo martírio, tornou-se dono. Uma bruma sinistra, um melancólico silêncio continua envolvendo Jerusalém. As santas mulheres choram sobre o ca dáver do Mestre, José de Arimatéia dá-lhe a sepultura. Os após tolos ocultam-se nas cavernas do vale de Hinnom, perdida toda a esperança, já que desapareceu o Mestre. Nada mudou, aparentemente, no opaco mundo da matéria. No entanto, um singular acontecimento ocorreu no templo de Herodes. No preciso momento em que Jesus expirava, o esplên dido véu de linho, de jacinto e púrpura tingido, que cobria o tabernáculo, rasgou-se de alto a baixo. E um levita que passava · viu no interior do santuário a arca de ouro contornada por querubins e ouro maciço com suas asas estendidas até a abó· d bada. E sucedeu algo inaudito, porque os olhos profanos pude ram contemplar o mistério do santo dos santos onde o próprio pontífice máximo não podia penetrar mais que uma vez por ano. Os responsáveis pelos sacrifícios expulsaram a multidão temendo que alguém houvesse presenciado o sacrilégio. Eis . o significado do fato: a imagem do Querubim, que tem corpo de leão, asas de águia e cabeça de anjo, assemelha-se à da esfinge e simboliza a evolução completa da alma humana, sua descida à carne e seu retorno ao Espírito. Cristo fez com que se rasgasse o véu do santuário, resolvendo o enigma da Esfinge. Daí por diante, o Mistério da vida e da evolução se faz exeqüível para todos aqueles que ousam e querem. E agora, para explicar a missão realizada pelo espírito de Cristo enquanto os seus velavam as suas exéquias, devemos , apelar mais uma vez para o ato capital da Iniciação egípcia. Permanecia o iniciado três dias e três noites imerso em letárgico sono no interior de um sarcófago, sob a viligância do hierofante. Durante este tempo, e de acordo com seu grau de adiantamento, efetuava a sua viagem pelo outro mundo. Segundo a linguagem da época, era como que ressuscitado e duas vezes nascido, porque lembrava, ao despertar, sua ante rior permanência no império dos mortos. Também realizou
-Cristo sua viagem cósmica .enquanto. esta.va no sepulcro, antes da ressurreição espiritual ante os olhos de seus seguidores. Existe af l!m parnlelismo entre a Iniciação antiga e os modernos IVlistérios que Cristo trouxe ao mundo. Paralc!ismo, porém, com maior amplitu·de. Porque a viagem aslral de um Deus que havia pnssado pela prova da morte · física devia, necessaria rne'ntc, pertencer a uma índole diferente, <le maior alcance que o tímiàc navegar de um simp1es mortal no reino dos mortos,
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