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Capítulo 8 de 23

Emmanuel — parte 6 de 21

Nos Domínios da Mediunidade · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

córtex sofrem o bombardeio de emissões magnéticas de natureza tóxica. Os centros motores estão desorganizados. Todo o cerebelo está empastado de fluidos deletérios. As vias do equilíbrio aparecem completamente perturbadas. Pedro temporariamente não dispõe de controle para governar-se, nem de memória comum para marcar a inquietante ocorrência de que é protagonista. Isso, porém, acontece no setor da forma de matéria densa, porque, em espírito, está arquivando todas as particularidades da situação em que se encontra, de modo a enriquecer o patrimônio das próprias experiências. Fitei, sensibilizado, o quadro triste e perguntei, com objetivo de estudo: – De vez que nos achamos defrontados por um encarnado e por um desencarnado, jungidos um ao outro, não obstante a dolorosa condição de sofrimento em que se caracterizam, será lícito considerar o fato sob nosso exame como sendo um transe mediúnico?

Embora ativo na tarefa assistencial, o instrutor respondeu: – Sim, presenciamos um ataque epiléptico, segundo a definição da medicina terrestre, entretanto, somos constrangidos a identificá-lo como sendo um transe mediúnico de baixo teor, porquanto verificamos aqui a associação de duas mentes desequilibradas, que se prendem às teias do ódio recíproco. E, fixando o par de infelizes em contorções, acrescentou: – Nessa aflitiva situação achava-se Pedro nas regiões inferiores, antes da presente reencarnação que lhe constitui uma bênção. Por muitos anos, ele e o adversário rolaram nas zonas purgatoriais, em franco duelo. Presentemente, melhorou. Qual ocorre em muitos processos semelhantes, os reencontros de ambos são agora mais espaçados, dando azo ao fenômeno que observamos, em Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 75

razão de o rapaz ainda trazer o corpo perispirítico provisoriamente lesado em centros importantes. Nesse ínterim, percebendo a dificuldade para atingir o obsessor com a palavra falada, Dona Celina, com o auxílio de nosso orientador, formulou vibrante prece, implorando a Compaixão Divina para os infortunados companheiros que ali se digladiavam inutilmente. As frases da venerável amiga libertavam jactos de força luminescente a lhe saltarem das mãos e a envolverem em sensações de alívio os participantes do conflito. Vimos que o perseguidor, qual se houvesse aspirado alguma substância anestesiante, se desprendeu automaticamente da vítima, que repousou enfim, num sono profundo e reparador. Guardas e socorristas conduziram o obsessor semiadormecido a um local de emergência.

E enquanto Dona Celina ministrava um pouco d’água fluidificada à genitora do enfermo, chorosa e assustadiça, retornamos à conversação cordial. – Apesar da carga doentia que suporta na atualidade, devemos aceitar o nosso Pedro na categoria de um médium? – perguntou Hilário, atencioso. – Pela passividade com que reflete o inimigo desencarnado, será justo tê-lo nessa conta, contudo, precisamos considerar que, antes de ser um médium na acepção comum do termo, é um Espírito endividado a redimir-se. – Mas não poderá cogitar do próprio desenvolvimento psíquico? O Assistente sorriu e observou: – Desenvolver, em boa sinonímia, quer dizer “retirar do invólucro”, “fazer progredir” ou produzir. Assim compreendendo, é Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 76

razoável que Pedro, antes de tudo, desenvolva recursos pessoais no próprio reajuste. Não se constroem paredes sólidas em bases inseguras. Necessitará, portanto, curar-se. Depois disso, então... – Se é assim – objetou meu colega –, não resultará infrutífera a sua freqüência a esta casa? – De modo algum. Aqui recolherá forças para refazer-se, assim como a planta raquítica encontra estímulo para a sua restauração no adubo que lhe oferecem. Dia a dia, ao contacto de amigos orientados pelo Evangelho, ele e o desafeto incorporarão abençoados valores em matéria de compreensão e serviço, modificando gradativamente o campo de elaboração das forças mentais. Sobrevirá, então. um aperfeiçoamento de individualidades, a fim de que a fonte mediúnica surja, mais tarde, tão cristalina quanto desejamos. Salutares e renovadores pensamentos assimilados pela dupla de sofredores em foco expressam melhoria e recuperação para ambos, porque, na imantação recíproca em que se vêem, as idéias de um reagem sobre o outro, determinando alterações radicais.

Diante da nossa atitude cismarenta, no exame das questões complexas de que nos sentíamos nodeados, o Assistente ponderou: – Aparelhos mediúnicos valiosos naturalmente não se improvisam. Como todas as edificações preciosas, reclamam esforço, sacrifício, coragem, tempo... E sem amor e devotamento, não será possível a criação de grupos e instrumentos louváveis, nas tarefas de intercâmbio. Voltando, porém, a atenção para o doente adormecido, Áulus continuou: – Nosso amigo está preso a significativo montante de débitos com o passado e ninguém pode avançar livremente para o amanhã sem solver os compromissos de ontem. Por esse motivo, Pedro traz consigo aflitiva mediunidade de provação. É da Lei que nin- Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 77

guém se emancipe sem pagar o que deve. A rigor, por isso, deve ser encarado como enfermo, requisitando carinho e tratamento. Em seguida, como se quisesse recolher dados informativos para completar a lição, tocou a fronte de Pedro, auscultando-a demoradamente. Decorridos alguns instantes de silêncio, informou: – A luta vem de muito longe. Não dispomos de tempo para incursões no passado, mas, de imediato, podemos reconhecer o verdugo de hoje como vítima de ontem. Na derradeira metade do século findo, Pedro era um médico que abusava da missão de curar. Uma análise mental particularizada identificá-lo-ia em numerosas aventuras menos dignas. O perseguidor que presentemente lhe domina as energias era-lhe irmão consangüíneo, cuja esposa nosso amigo doente de agora procurou seduzir. Para isso, insinuou-se de formas diversas, além de prejudicar o irmão em todos os seus interesses econômicos e sociais, até incliná-lo à internação num hospício, onde estacionou, por muitos anos, aparvalhado e inútil, à espera da morte. Desencarnando e encontrando-o na posse da mulher, desvairou-se no ódio de que passou a nutrir-se.

Martelou-lhes, então, a existência e aguardou-o, alémtúmulo, onde os três se reuniram em angustioso processo de regeneração. A companheira, menos culpada, foi a primeira a retornar ao mundo, onde mais tarde recebeu o médico delinqüente nos braços maternais, como seu próprio filho, purificando o amor de sua alma. O irmão atraiçoado de outro tempo, todavia, ainda não encontrou forças para modificar-se e continua vampirizando-o, obstinado no ódio a que se rendeu impensadamente. Respondendo com um olhar amigo à nossa expressão de assombro, acrescentou: – Penetramos forçosamente no inferno que criamos para os outros, a fim de experimentarmos, por nossa vez, o fogo com que Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 78

afligimos o próximo. Ninguém ilude a justiça. As reparações podem ser transferidas no tempo, mas são sempre fatais. O ensinamento era simples, contudo, a terrível situação do enfermo fatigado e triste infundia-nos justificável espanto. Estudando sempre, Hilário considerou: – Se Pedro, no entanto, é ainda um médium torturado, que poderá fazer num agrupamento como este? O instrutor sorriu e obtemperou: O acaso não consta dos desígnios superiores. Não nos aproximamos uns dos outros sem razão. Decerto, nosso amigo possui aqui ligações afetivas do pretérito com o dever de auxiliá-lo. Se não pode, desse modo, ser um elemento valioso ao conjunto, de imediato, pode e precisa receber o concurso fraterno, imprescindível ao seu justo soerguimento. – Curar-se-á, contudo, em tempo breve? – indaguei por minha vez. – Quem sabe? – retrucou Áulus, sereno. E, com o grave entono de quem pesa a substância das próprias palavras, prosseguiu: – Isso dependerá muito dele e da vítima com quem se encontra endividado. A assimilação de princípios mentais renovadores determina mais altas visões da vida.

Todos os dramas obscuros da obsessão decorrem da mente enfermiça. Aplicando-se com devotamento às novas obrigações de que será investido, caso persevere no campo de nossa Consoladora Doutrina, sem dúvida abreviará o tempo de expiação a que se acha sujeito, de vez que, em se convertendo ao bem, modificará o tônus mental do adversário, que se verá arrastado à própria renovação pelos seus exemplos de compreensão e renúncia, humildade e fé. Ainda assim, depois de se extinguirem os acessos de possessão, Pedro sofrerá os reflexos do Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 79

desequilíbrio em que se envolveu, a se exprimirem nos fenômenos mais leves da epilepsia secundária, que emergirão, por algum tempo, ante as simples recordações mais fortes da luta que vem atravessando, até o integral reajuste do corpo perispirítico. – E isso é trabalho de longa duração? – inquiriu Hilário, algo aflito. Nosso interlocutor estampou significativa expressão fisionômica e ponderou: – Quem poderá penetrar a consciência alheia? Com o esforço da vontade é possível apressar a solução de muitos enigmas e reduzir muitas dores. O assunto, porém, é de foro íntimo... Estejamos entretanto convencidos de que as sementes da luz jamais se perdem. Os médiuns que hoje se enlaçam a tremendas provas, se persistirem na plantação de melhores destinos, transformar-se-ão em valiosos trabalhadores no futuro que a todos aguarda em abençoadas reencarnações de engrandecimento e progresso... E, ante a nossa admiração, concluiu: – O problema é de aprender sem desanimar e de servir ao bem sem esmorecer. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 80

Sonambulismo torturado Tornamos ao recinto. Dona Eugênia acabava de socorrer pobre companheiro recémdesencarnado, a retirar-se sob o fraterno controle dos vigilantes. Fomos recebidos por Clementino, generoso, que nos aproximou de jovem senhora, concentrada em oração, seguida por distinto cavalheiro, na pequena fila dos enfermos que naquela noite receberiam assistência. Afagando-lhe a cabeça, o supervisor notificou: – Favoreceremos a manifestação de infeliz companheiro que a vampiriza, não somente com o objetivo de socorrê-lo, mas também com o propósito de estudarmos alguma coisa, com respeito ao sonambulismo torturado. Observei a dama, ainda muito moça, inclinada para o homem irrepreensivelmente trajado que a amparava de perto. O mentor do recinto afastou-se em tarefa de governança, mas Áulus tomou-lhe o lugar, passando a esclarecer-nos com a bondade que lhe era característica. Indicando-nos o casal, informou: – São ambos marido e mulher num enlace de provação redentora. A essa altura, porém, os guardas espirituais permitiram o acesso do infortunado amigo: Achamo-nos positivamente frente a frente com um louco desencarnado. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 81

Perispírito denso, trazia todos os estigmas da alienação mental, indiscutível. Olhar turvo, fisionomia congesta, indisfarçável Inquietação... A presença dele inspiraria repugnância e terror aos menos afeitos à enfermagem. Além da cabeça ferida, mostrava extensa úlcera na garganta. Precipitou-se para a jovem doente, à maneira de um grande felino sobre a presa. A simpática senhora começou a gritar, transfigurada. Não se afastara espiritualmente do corpo. Era ela própria a contorcer-se, em pranto convulsivo, envolta, porém, no amplexo fluídico da entidade que lhe empolgava o campo fisiológico, integralmente. Lágrimas quentes lhe corriam dos olhos semicerrados, o organismo relaxara-se como embarcação à matroca e a respiração se tornara sibilante e opressa. Tentava falar, contudo a voz era um assobio desagradável. As cordas vocais revelavam-se incapazes de articular qualquer frase inteligível. Raul, sob o comando de Clementino, abeirou-se da dupla em aflitivo reencontro e aplicou energias magnéticas sobre o tórax da médium, que conseguiu expressar-se em clamores roufenhos: – Filha desnaturada!... Criminosa! criminosa!... nada te salva! Descerás comigo às trevas para que me partilhes a dor... Não quero socorro... quero estar contigo para que estejas comigo! Não te perdoarei, não te perdoarei!... E, do pranto convulso, passava incompreensivelmente a gargalhadas de vingador. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 82

Agora, não podíamos saber se estávamos à frente de uma vítima que se lastimava ou de um palhaço que escarnecia. – A justiça está em mim! – prosseguia bradando por entre silvos. – Sou o advogado de minha própria causa! e a desforra é o meu único recurso... Raul, sob a inspiração do benfeitor que o acompanhava, passou a falar-lhe dos valores e vantagens da humildade e do perdão, do entendimento e do amor, procurando renovar-lhe a atitude. E, enquanto desenvolvia o trabalho da doutrinação, buscamos contacto com o orientador diligente. Ante as nossas primeiras perguntas, Áulus acentuou: – É um caso doloroso como o de milhares de criaturas. – Vê-se bem – aduziu Hilário, sob forte impressão –, que é a nossa própria irmã quem fala e gesticula... – Sim – aprovou o Assistente –, entretanto, encontra-se imantada ao companheiro espiritual, cérebro a cérebro. – Poderá, todavia, recordar-se com precisão do que lhe sucede agora? – inquiri, por minha vez. – De modo algum. Tem as células do córtex cerebral totalmente destrambelhadas pelo desventurado amigo em sofrimento.

Nos transes, em que se efetua a junção mais direta entre ela e o perseguidor dementado, cai em profunda hipnose, qual acontece à pessoa magnetizada, nas demonstrações comuns de hipnotismo, e passa, de imediato, a retratar-lhe os desequilíbrios. E, designando a garganta da médium, repentinamente avermelhada e intumescida, continuou: – Nesta hora, tem a glote dominada por perturbação momentânea. Não consegue exprimir-se senão em voz rouquenha, quebrando as palavras. Isso porque o nosso irmão torturado, ao qual Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 83

se liga pelos laços mais íntimos, lhe transmite as próprias sensações, compelindo-a a copiar-lhe o modo de ser. – Tão entranhada se revela a associação de ambos – alegou Hilário –, que sou levado a indagar de mim mesmo se na vida comum não serão eles, a bem dizer, duas almas num só corpo, assim como duas plantas distintas uma da outra a se desenvolverem num vaso único... Na experiência diária, vulgar, não será nossa irmã constantemente influenciada, de maneira positiva, embora indireta, pelo companheiro que a obsidia? – Você examina o assunto com acertado critério. Nossa amiga, na equipe doméstica, é um enigma para os familiares. Moça de notável procedência, possui belas aquisições culturais, entretanto, sempre se comporta de modo chocante, evidenciando desequilíbrios ocultos. A princípio, compareciam a insatisfação e a melancolia ocasionando crises de nervos e distúrbios circulatórios. Doente, desde a puberdade, em vão opinaram clínicos de renome sobre o caso, até que um cirurgião, crendo-a prejudicada por desarmonias da tireóide, submeteu-a a delicada intervenção, da qual saiu com seus padecimentos inalterados.

Logo após, conheceu o cavalheiro sob nossa observação, que a desposou convencido de que o matrimônio lhe constituiria renovação salutar. Ao invés disso, porém, a situação se lhe agravou. A gravidez cedo se verificou, consoante a planificação de serviço, traçada na Vida Superior. Nossa irmã doente deveria receber o perseguidor nos braços maternos, afagando-lhe a transformação e auxiliando-lhe a aquisição de novo destino, mas, sentindo-lhe a aproximação, recolheu-se a insopitável temor, adiando o trabalho que lhe compete. Impermeável às sugestões da própria alma, provocou o aborto com rebeldia e violência. Essa frustração foi a brecha que favoreceu mais ampla influência do adversário invisível no círculo conjugal. A pobre criatura passou a sofrer multiplicadas crises histéricas, com súbita aversão pelo marido. Principalmente à Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 84

noite, é colhida, de assalto, por fenômenos de sufocação e de angústia, amargurando o consorte desolado. Médicos foram trazidos, no entanto os hipnóticos foram empregados em vão... Em franca demência, a enferma foi conduzida à casa de saúde, todavia, a insulina e o electrochoque não lhe solucionaram o problema. Presentemente, atravessa um período de repouso em família, deliberando o esposo experimentar o concurso do Espiritismo. Enquanto Silva e Clementino procuravam sossegar a médium e o comunicante, reunidos numa simbiose de extremo desespero, Hilário e eu continuávamos famintos de esclarecimento maior. – E se ela conseguisse nova maternidade? – inquiriu meu colega, estudioso. – Sim – concordou Áulus, convicto –, semelhante reconquista ser-lhe-á uma bênção, contudo, pela trama de sentimentos contraditórios em que se emaranhou, na fuga das obrigações que lhe cabem, não pode receber, de pronto, esse privilégio.

Lembrei-me de mulheres que se fazem mães nos hospícios, mas, analisando-me os pensamentos, o orientador explicou: – A posição de alienada mental não lhe retira os favores da Natureza, mas a crueldade meditada com que se afastou dos compromissos assumidos, imprimiu certo desequilíbrio ao centro genésico. Nossas defecções mais íntimas, embora desconhecidas dos outros, prejudicam-nos o veículo sutil e não podemos trair o tempo nas reparações necessárias, ainda mesmo quando o remorso nos ajude a restaurar as boas intenções. A perfeita entrosagem dos elementos psicofísicos filia-se à mente. A vida corpórea é a síntese das irradiações da alma. Não há órgãos em harmonia sem pensamentos equilibrados, como não há ordem sem inteligência. O serviço de socorro espiritual, porém, continuava inquietante. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 85

A entidade vingadora, jungida à médium, demorava-se contida pelos assessores de Clementino, ao passo que a moça, refletindo-lhe as emoções e os impulsos, tinha o peito arfante e gemia em soluços: – Para mim não há recurso!... Sou um renegado!... – Perdoa, meu irmão, e o caminho ser-te-á renovado – dizia Raul, com inflexão de amor. – Desculpando, somos desculpados. Todos temos dívidas... Não se inclinará, porventura, ao auxílio para que seja igualmente ajudado? – Não posso, não posso... – chorava o infeliz. E, à frente daquele par de Espíritos sofredores num só corpo, Áulus prosseguiu esclarecendo: – A fim de examinar com serenidade as agruras da obsessão na mediunidade torturada, não podemos esquecer as causas do suplício de hoje a se enraizarem nas sombras de ontem. Os templos espíritas vivem repletos de dramas comoventes, que se prendem ao passado remoto e próximo. Apontando o casal com a destra, continuou: – O esposo de agora foi no pretérito um companheiro nocivo para a nossa irmã obsidiada, induzindo-a a envenenar o pai adotivo, hoje metamorfoseado no verdugo que a persegue.

Herdeira de considerável fortuna, com testamento garantido, em sua condição de filha adotiva e única, viu que o velho tutor pretendia alterar decisões. Isso aconteceu em aristocrática mansão do século que passou. O viúvo abastado, que a criara com desvelado carinho, não concordou com a escolha feita. O moço não lhe agradava. Parecia mais interessado em pilhar-lhe as finanças que em fazer a felicidade da jovem desprevenida e insensata. Procurou, então, subtrai-la à influência do noivo, verificando que debalde lhes buscava a separação. Indignado, mobilizava medidas legais para deserdá-la, quando o rapaz, explorando a paixão de que a moça se Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 86

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.