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Capítulo 18 de 23
Emmanuel — parte 16 de 21
Nos Domínios da Mediunidade · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
palavra de um homem, sem as características femininas da lamentação que registramos... Em verdade, não notamos aqui qualquer laço magnético que nos induza a assinalar fluidos teledinâmicos sobre a mente da médium... Áulus afagou a fronte da doente em lágrimas, como se lhe auscultasse o pensamento, e explicou: – Estamos diante do passado de nossa companheira. A mágoa e o azedume, tanto quanto a personalidade supostamente exótica de que dá testemunho, tudo procede dela mesma... Ante a aproximação de antigo desafeto, que ainda a persegue de nosso plano, revive a experiência dolorosa que lhe ocorreu, em cidade do Velho Mundo, no século passado, e entra em seguida a padecer insopitável melancolia. Recomeçou a luta na carne, na presente reencarnação, possuída de novas esperanças, contudo, tão logo experimenta a visitação espiritual do antigo verdugo, que a ela se enleia, através de vigorosos laços de amor e ódio, perturba-se-lhe a vida mental, necessitada de mais ampla reeducação. É um caso no qual se faz possível a colheita de valiosos ensinamentos. – Isso quer dizer, então...
A frase de Hilário ficou, porém, no ar, porque o instrutor lhe, definiu o pensamento, acrescentando: – Isso quer dizer que nossa irmã imobilizou grande coeficiente de forças do seu mundo emotivo, em torno da experiência a que nos referimos, a ponto de semelhante cristalização mental haver superado o choque biológico do renascimento no corpo físico, prosseguindo quase que intacta. Fixando-se nessa lembrança, quando instada de mais perto pelo companheiro que lhe foi irrefletido algoz, passa a comportar-se qual se estivesse ainda no passado que teima em ressuscitar. E’ então que se dá a conhecer como personalidade diferente, a referir-se à vida anterior. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 199
Sorrindo, paternal, considerou: – Sem dúvida, em tais momentos, é alguém que volta do pretérito a comunicar-se com o presente, porque ao influxo das recordações penosas de que se vê assaltada, centraliza todos os seus recursos mnemônicos tão-somente no ponto nevrálgico em que viciou o pensamento. Para o psiquiatra comum é apenas uma candidata à insulinoterapia ou ao electrochoque, entretanto, para nós, é uma enferma espiritual, uma consciência torturada, exigindo amparo moral e cultural para a renovação Intima, única base sólida que lhe assegurará o reajustamento definitivo. Analisei-a, com atenção, e concluí: – Mediunicamente falando, vemos aqui um processo de autêntico animismo. Nossa amiga supõe encarnar uma personalidade diferente, quando apenas exterioriza o mundo de si mesma... – Poderíamos, então, classificar o fato no quadro da mistificação inconsciente? – interferiu Hilário, indagador.
Áulus meditou um minuto e ponderou: – Muitos companheiros matriculados no serviço de implantação da Nova Era, sob a égide do Espiritismo, vêm convertendo a teoria animista num travão injustificável a lhes congelarem preciosas oportunidades de realização do bem; portanto, não nos cabe adotar como justas as palavras “mistificação inconsciente ou subconsciente, para batizar o fenômeno. Na realidade, a manifestação decorre dos próprios sentimentos de nossa amiga, arrojados ao pretérito, de onde recolhe as impressões deprimentes de que se vê possuída, externando-as no meio em que se encontra. E a pobrezinha efetua isso quase na posição de perfeita sonâmbula, porquanto se concentra totalmente nas recordações que já assinalamos, como se reunisse todas as energias da memória numa simples ferida, com inteira despreocupação das responsabilidades que a reencarnação atual lhe confere. Achamo-nos, por esse moti- Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 200
vo, perante uma doente mental, requisitando-nos o maior carinho para que se recupere. Para sanar-lhe a inquietação, todavia, não nos bastam diagnósticos complicados ou meras definições técnicas no campo verbalista, se não houver o calor da assistência amiga. Nosso orientador fez ligeira pausa, acariciando a enferma, e, enquanto Raul Silva continuava a doutriná-la e a consolá-la, notificou-nos, bondoso: – Deve ser tratada com a mesma atenção que ministramos aos sofredores que se comunicam. É também um Espírito imortal, solicitando-nos concurso e entendimento para que se lhe restabeleça a harmonia. A idéia de mistificação talvez nos impelisse a desrespeitosa atitude, diante do seu padecimento moral. Por isso, nessas circunstâncias, é preciso armar o coração de amor, a fim de que possamos auxiliar e compreender. Um doutrinador sem tato fraterno apenas lhe agravaria o problema, porque, a pretexto de servir à verdade, talvez lhe impusesse corretivo inoportuno ao invés de socorro providencial. Primeiro, é preciso remover o mal, para depois fortificar a vítima na sua própria defesa.
Felizmente, o nosso Raul assimila as correntes espirituais que prevalecem aqui, tornando-se o enfermeiro ideal para as situações dessa ordem. Hilário, tanto quanto eu, edificado com os ensinamentos ouvidos, perguntou respeitoso: – E podemos considerá-la médium, mesmo assim? – Como não? Um vaso defeituoso pode ser consertado e restituído ao serviço. Naturalmente, agora a paciência e a caridade necessitam agir para salvá-la. Nossa irmã deve ser ouvida na posição em que se revela, como sendo em tudo a desventurada mulher de outro tempo, e recebida por nós nessa base, para que use o remédio moral que lhe estendemos, desligando-se enfim do passado... O assunto não comporta desmentido, porque indiscutivelmente essa mulher existe ainda nela mesma. A personalidade Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 201
antiga não foi tão eclipsada pela matéria densa como seria de desejar. Ela renasceu pela carne, sem renovar-se em espírito... O Assistente fixou o gesto de quem mergulhava na própria consciência a sonda de suas reflexões e falou, qual se o fizesse de si para consigo: – Ela representa milhares de criaturas aos nossos olhos... Quantos mendigos arrastam na Terra o esburacado manto da fidalguia efêmera que envergaram outrora! quantos escravos da necessidade e da dor trazem consigo a vaidade e o orgulho dos poderosos senhores que já foram em outras épocas!... quantas almas conduzidas à ligação consangüínea caminham do berço ao túmulo, transportando quistos invisíveis de aversão e ódio aos próprios parentes, que lhes foram duros adversários em existências pregressas!... Todos podemos cair em semelhantes estados se não aprendemos a cultivar o esquecimento do mal, em marcha incessante com o bem... Nessa altura, Raul Silva, na condição de hábil psicólogo, convidou a doente ao benefício da prece. Competia-lhe a ela suplicar ao Céu a graça do olvido.
Cabialhe expungir o passado da imaginação, de maneira a pacificar-se. E, singular-mente comovido, recomendou-lhe repetir em companhia dele as frases sublimes da oração dominical. A pobre senhora acompanhou-o docilmente. Ao término da súplica, mostrava-se mais tranqüila. O prestimoso amigo, traduzindo a colaboração do mentor que o acompanhava, solícito, rogou-lhe considerar, acima de tudo, o impositivo do perdão aos inimigos para a reconquista da paz e, em lágrimas, a enferma desligou-se das impressões que a imobilizavam no pretérito, tornando à posição normal. Enquanto Silva lhe aplicava passes de reconforto, o Assistente comentou: Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 202
– Outra não pode ser, por enquanto, a intervenção assistencial em seu benefício. Pela enfermagem espiritual bem conduzida, reajustar-se-á pouco a pouco, retomando o império sobre si mesma e capacitando-se para o desempenho de valiosas tarefas mediúnicas mais tarde. Estimaríamos a possibilidade de continuar analisando o caso sob nossa vista, contudo, a outra senhora doente passou de improviso ao transe agitado e era preciso estudar, fazendo o melhor. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 203
Fascinação Levantara-se a dama, de esquisita maneira, e, rodopiando sobre os calcanhares, qual se um motor lhe acionasse os nervos, caiu em convulsões, inspirando piedade. Jazia sob o império de impassíveis entidades da sombra, sofrendo, contudo, mais fortemente, a atuação de uma delas que, ao enlaçá-la, parecia interessada em aniquilar-lhe a existência. A infortunada senhora, quase que uivando, à semelhança de loba ferida, gritava a debater-se no piso da sala, sob o olhar consternado de Raul que exorava a Bondade Divina em silêncio. Coleando pelo chão, adquiria animalesco aspecto, não obstante sob a guarda generosa de sentinelas da casa. Áulus e o irmão Clementino, usando avançados recursos magnéticos, interferiram no deplorável duelo, constrangendo o obsessor a desvencilhar-se, de certo modo, da enferma que continuou, ainda assim, dominada por ele, a estreita distância. Após reerguer a doente, auxiliando-a a sentar-se, rente ao marido, nosso instrutor deu-se pressa em explicar-nos: – É um problema complexo de fascinação. Nossa irmã permanece controlada por terrível hipnotizador desencarnado, assistido por vários companheiros que se deixaram vencer pelas teias da vingança.
No ímpeto de ódio com que se lança sobre a infeliz, propõe-se humilhá-la, utilizando-se da sugestão. Não fosse o concurso fraternal que veio recolher neste santuário de prece, em transes como este seria vítima integral da licantropia deformante. Muitos Espíritos, pervertidos no crime, abusam dos poderes da inteligência, fazendo pesar tigrina crueldade sobre quantos ainda sintonizam com eles pelos débitos do passado. A semelhantes Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 204
vampiros devemos muitos quadros dolorosos da patologia mental nos manicômios, em que numerosos pacientes, sob intensiva ação hipnótica, imitam costumes, posições e atitudes de animais diversos. Ao passo que a doente gemia de estranho modo, amparada pelo esposo e por Raul, que se esmerava no auxílio, Hilário, espantado, indagou: – Tão doloroso fenômeno é comum? – Muito generalizado nos processos expiatórios em que os Espíritos acumpliciados na delinqüência descambam para a esfera vibratória dos brutos – esclareceu nosso orientador, coadjuvando em benefício da enferma, cujo cérebro prosseguia governado pelo insensível perseguidor como brinquedo em mãos de criança. – E por que não separar de vez o algoz da vítima? – Calma, Hilário! – ponderou o Assistente. Ainda não examinamos o assunto em sua estrutura básica. Toda obsessão tem alicerces na reciprocidade. Recordemos o ensinamento de nosso Divino Mestre. Não basta arrancar o joio. É preciso saber até que ponto a raiz dele se entranha no solo com a raiz do trigo, para que não venhamos a esmagar um e outro. Não há dor sem razão.
Atendamos, assim, à lei da cooperação, sem o propósito de nos anteciparmos à Justiça Divina. Raul, sob o controle do mentor da casa, tentava sossegar o agitado comunicante, recordando-lhe as vantagens do perdão e incutindo-lhe a conveniência da humildade e da prece. Aflito, como não querendo perder o fio da lição, meu colega abeirou-se de nosso orientador e alegou: – Todavia, para colaborar em favor desses irmãos em desespero, será suficiente o concurso verbalista? Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 205
– Não lhes estendemos simplesmente palavras, mas acima de tudo o nosso sentimento. Toda frase articulada com amor é uma projeção de nós mesmos. Portanto, se é incontestável a nossa impossibilidade de oferecer-lhes a libertação prematura, estamos doando, em favor deles, a nossa boa-vontade, através do verbo nascido de nossos corações, igualmente necessitados de plena redenção com o Cristo. E, num tom demasiado significativo, Áulus acrescentou: – Analisando o pretérito, ao qual todos nos ligamos, através de lembranças amargas, somos enfermos em assistência recíproca. Não seria lícito guardarmos a pretensão de lavrar sentenças definitivas pró ou contra ninguém, porque, na posição em que ainda nos achamos, todos possuímos contas maiores ou menores por liquidar. Interrompendo a conversação, nosso instrutor lançou-se ao amparo eficiente da dupla em desesperada contenda. Para o cuidado fraterno de que dava testemunho, a doente e o perseguidor mereciam igual carinho. Aplicou passes de desobstrução à garganta da enferma e, em breves instantes, o verdugo começou a falar, através dela, numa algaravia, cujo sentido literal não conseguíamos perceber.
Entretanto, pela onda de pensamento que lhe caracterizava a manifestação, sabíamos que a ira se lhe extravasava do ser. Raul Silva, a seu turno, recolhendo impressões idênticas, pela dura inflexão da voz com que as palavras eram pronunciadas, procurava asserená-lo quase em vão. Observando a enferma completamente transfigurada e assinalando-nos a muda interrogação, Áulus se deteve por alguns minutos a auscultar o cérebro do comunicante e o da médium, como a sondar-lhes o mundo intimo, e, em seguida, voltou para junto de nós. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 206
Diante da profunda apreensão que passou a dominar-lhe o rosto, Hilário tomou-me a dianteira, inquirindo, assombrado: – A que causa atribuir semelhante conflito? – Tentei alguma penetração no passado a fim de algo saber – respondeu o orientador, entristecido. – As raízes da desavença vêm de longa distância no tempo. Não obstante o dever de não relacionar pormenores, para não conferir maior saliência ao mal, posso dizer-lhe que o enigma perdura vai já em pouco mais de um milênio. Nosso infeliz irmão fala um antigo dialeto da velha Toscana, onde, satisfazendo a obsidiada de hoje, se fez cruel estrangulador. Era legionário de Ugo, o poderoso duque da Proveriça, no século X... Pela exteriorização a que se confia, acompanho-lhe as terríveis reminiscências... Reporta-se ao saque de que participou na época a que nos referimos, no qual, para satisfazer à mulher que lhe não correspondeu ao devotamento, teve a infelicidade de aniquilar os próprios pais... Tem o coração como um vaso transbordante de fel..
Porque o Assistente se interrompera, meu colega, naturalmente tão interessado quanto eu em maiores revelações, pediu-lhe mais ampla incursão no passado, ao que Áulus nos recomendou aquietássemos o espírito de consulta. A volta aos quadros terrificantes, largados ao longe por aquelas almas em sofrimento, a ninguém edificaria. Eram dois corações desesperados, no inferno estabelecido por eles mesmos. Não convinha analisar-lhes o sepulcro de fogo e lama, nas sombras da retaguarda. Restaurando a atenção no estudo que nos cabia fazer, lembrei a questão do idioma. Achávamo-nos no Brasil e a obsidiada ensaiava frases num dialeto já morto. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 207
Por que motivo não assimilava o pensamento da entidade, a empolgar-lhe o cérebro em ondas insofreáveis, transformando-o em palavras do português corrente, qual acontecera em numerosos processos de intercâmbio sob nossa observação? – Estamos à frente de um caso de mediunidade poliglota ou de xenoglossia – explicou o Assistente. – O filtro mediúnico e a entidade que se utiliza dele acham-se tão intensamente afinados entre si que a passividade do instrumento é absoluta, sob o império da vontade que o comanda de modo positivo. O obsessor, por mais estranho pareça, jaz ainda enredado nos hábitos por que pautava a sua existência, há séculos, e, em se exprimindo pela médium, usa modos e frases que lhe foram típicos. – Isso, entretanto – objetou Hilário –, e atribuível à mediunidade propriamente dita ou à sintonia mais completa? – O problema é de sintonia – informou o Assistente. – Contudo, se a doente não lhe houvesse partilhado da experiência terrestre, como legítima associada de seu destino, poderia o comunicante externar-se no dialeto com que se caracteriza? – Positivamente não – esclareceu Áulus. – Em todos os casos de xenoglossia, é preciso lembrar que as forças do passado são trazidas ao presente, Os desencarnados, elaborando fenômenos dessa ordem, interferem, quase sempre, através de impulsos automáticos, nas energias subconscienciais, mas exclusivamente por intermédio de personalidades que lhes são afins no tempo.
Quando um médium analfabeto se põe a escrever sob o controle de um amigo domiciliado em nosso plano, isso não quer dizer que o mensageiro espiritual haja removido milagrosamente as pedras da ignorância. Mostra simplesmente que o psicógrafo traz consigo, de outras encarnações, a arte da escrita já conquistada e retida no arquivo da memória, cujos centros o companheiro desencarnado consegue manobrar. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 208
Hilário fez o gesto indagador do aprendiz e insistiu: – Podemos concluir, então, que se a enferma fosse apenas médium, sem o pretérito de que dá testemunho, a entidade não se exprimiria por ela numa expressão cultural diferente da que lhe é própria... – Sim, sem dúvida alguma – aprovou o instrutor –; em mediunidade há também o problema da sintonia no tempo... E, de olhar vago, acentuou: – O fato sob nossas vistas pode ser, de certo modo, comparado às correntes d’água. Cada qual tem o seu nível. As águas à flor da terra guardam a serventia e o encanto que lhes são peculiares, contudo, somente as águas profundas encerram o tesouro educado ou inculto das enormes forças latentes, que podem ser convenientemente utilizadas quando aquelas são trazidas à superfície. A lição era de subido valor, no entanto, fazia-se necessário agir no trabalho assistencial. Conjugando nosso esforço, separamos, de alguma sorte, o algoz da vitima, conquanto, segundo apontamento de nosso orientador, continuassem unidos pela fusão magnética, mesmo a distância. Companheiros de nossa esfera retiraram o Espírito obsidente, encaminhando-o a certa organização socorrista.
Ainda assim, a doente gritava, afirmando estar à frente de medonho estrangulador em vias de sufocá-la. Aplicando-lhe passes de reconforto, Áulus esclareceu: – Agora é apenas o fenômeno alucinatório, natural em processos de fascinação como este. Perseguidor e perseguida jazem na mais estreita ligação telepática, agindo e reagindo mentalmente um sobre o outro. Gradativamente, a enferma acalmou-se. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 209
Finda a crise, perguntei ao nosso orientador sobre o remédio definitivo à dolorosa situação, ao que respondeu com grave entono: – A doente está sendo preparada, tendo-se em vista uma solução justa para o caso. Ela e o verdugo, em breve, serão mãe e filho. Não há outra alternativa na obtenção do trabalho redentor. Energias divinas do amor puro serão mais profundamente tocadas em sua sensibilidade de mulher e nossa irmã praticará o santo heroísmo de acolhê-lo no próprio seio... Em seguida, deixando-nos pensativos, caminhou no rumo de outro necessitado, enquanto exclamava: – Louvado seja Deus pela glória do lar! Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 210
Luta expiatória Junto de nós, o cavalheiro que se mantinha entre os enfermos caiu em estremeções coreiformes. Não fosse a poltrona em que se apoiava e ter-se-ia arrojado ao chão. Desferia gemidos angustiados e roucos, como se um guante invisível lhe constringisse a garganta. Não longe, duas entidades de presença desagradável reparavam-lhe os movimentos, sem contudo interferir magneticamente, de maneira visível, na agitação nervosa de que ele se fazia portador. O doente aparentava madureza física, mas Áulus, esclarecendo-nos com mais segurança, informou, comovido: – É um pobre irmão em luta expiatória e na realidade mal atravessou a casa dos trinta anos, na presente romagem terrestre. Desde a infância, sofre o contacto indireto de companhias inferiores que aliciou no passado, pelo seu comportamento infeliz. E quando experimenta a vizinhança desses amigos transviados, ainda em nosso plano, com os quais conviveu largamente, antes do regresso à carne, reflete-lhes a influência nociva, entregandose a perturbações histéricas, que lhe sufocam a alegria de viver. Tem sido aflitivo problema para o templo doméstico em que renasceu. Desde a meninice, vive de médico a médico.
Ultimamente, a malarioterapia, a insulina e o electrochoque hão sido empregados em seu benefício, sem resultado prático. Os tratamentos dolorosos e difíceis, de certo modo, lhe castigaram profundamente a vida física. Parece um velho, quando poderia mostrar-se em pleno vigor juvenil. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 211
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.