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Capítulo 23 de 23
Emmanuel — parte 21 de 21
Nos Domínios da Mediunidade · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
mente, com devoção ardente e profunda ao bem, para atingir mais amplo discernimento das realidades fragmentárias ou provisórias que o cercam na vida física e, considerada a questão nesse aspecto, estejamos convictos de que a ausência de escolas do espírito ou a supressão dos instrutores constituíram a multiplicação dos hospícios e o rebaixamento do nível moral, porque sem o apelo à dignificação da individualidade, em processo de crescimento mental e de sublimação no tempo, não poderíamos contar senão com a estagnação nas linhas inferiores da experiência. Havíamos, contudo, atingido o fim da viagem. O lar-santuário em que o Assistente residia levantava-se, agora, ao nosso olhar. – Trabalhemos com bom ânimo – disse-nos ainda o orientador –; o tempo conjugado com o serviço no bem é o alicerce de nossa vitória. No dia imediato, Áulus deveria partir no rumo de elevada missão a distância. Por isso, prometeu-nos o abraço de adeus para a manhã seguinte. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 260
Últimas páginas Acompanhávamos o Assistente, refletindo agora em nossa separação... Achávamo-nos, Hilário e eu, preocupados e comovidos. Ante o Sol renascente, o campo terrestre brilhava em plena manhã clara. Mudos e expectantes, renteamos com um homem do campo manobrando a enxada na defesa do solo. Áulus apontou-o com a destra e rompeu o silêncio, murmurando: – Vejam! A mediunidade como instrumentação da vida surge em toda a parte. O lavrador é o médium da colheita, a planta é o médium da frutificação e a flor é o médium do perfume. Em todos os lugares, damos e recebemos, filtrando os recursos que nos cercam e moldando-lhes a manifestação, segundo as nossas possibilidades. Avançávamos e, em breves momentos, víamo-nos defrontados por singela oficina de carpinteiro. Nosso orientador indicou o operário que aplainava enorme peça e observou: – Possuímos no artífice o médium de preciosas utilidades. Da devoção com que se consagra ao trabalho, nasce elevada percentagem de reconforto à Civilização. Não longe, surpreendemos pequena marmoraria, à porta da qual um jovem envergava o escopro, ferindo a pedra. – Eis o escultor – disse Áulus –, o médium da obra-prima. A Arte é a mediunidade do Belo, em cujas realizações encontramos as sublimes visões do futuro que nos é reservado. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 261
O Assistente prosseguiu enunciando importantes considerações sobre o assunto, quando passamos por alguns empregados da higiene pública, removendo o lixo de extensa praça. – Aqui temos os varredores – disse com respeitoso acento –, valiosos médiuns da limpeza. Logo após, contornamos um edifício em que funcionava um tribunal de justiça e nosso instrutor adiantou: – Vemos aqui o fórum onde o juiz é o médium das leis. Todos os homens em suas atividades, profissões e associações são instrumentos das forças a que se devotam. Produzem, de conformidade com os ideais superiores ou inferiores em que se inspiram, atraindo os elementos invisíveis que os rodeiam, conforme a natureza dos sentimentos e idéias de que se nutrem. Atingíramos, no entanto, o lar em que Hilário e eu nos dedicaríamos ao socorro de uma criança doente. Nesse ponto da excursão, o orientador, esperado a distância, separar-se-ia de nós, por fim. Áulus seguiu-nos, paternal. Na intimidade doméstica, um cavalheiro maduro e a esposa tomavam café em companhia de três petizes.
Ladeando a mesa limpa e sóbria, descansava em larga poltrona o menino abatido e pálido que nos recolheria o esforço assistencial. O instrutor fixou os olhos no quadro expressivo que nos tomava a atenção e exclamou: – A família consangüínea é uma reunião de almas em processo de evolução, reajuste, aperfeiçoamento ou santificação. O homem e a mulher, abraçando o matrimônio por escola de amor e trabalho, honrando o vínculo dos compromissos que assumem perante a Harmonia Universal, nele se transformam em médiuns Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 262
da própria vida, responsabilizando-se pela materialização, a longo prazo, dos amigos e dos adversários de ontem, convertidos no santuário doméstico em filhos e irmãos. A paternidade e a maternidade, dignamente vividas no mundo, constituem sacerdócio dos mais altos para o Espírito reencarnado na Terra, pois, através delas, a regeneração e o progresso se efetuam com segurança e clareza. Além do lar, será difícil identificar uma região onde a mediunidade seja mais espontânea e mais pura, de vez que, na posição de pai e de mãe, o homem e a mulher, realmente credores desses títulos, aprendem a buscar a sublimação de si mesmos na renúncia em favor das almas que, por intermédio deles, se manifestam na condição de filhos. E, num sopro de bela inspiração, concluiu: – A família física pode ser comparada a uma reunião de serviço espiritual no espaço e no tempo, cinzelando corações para a imortalidade. Em seguida, o Assistente leu o mostrador de um relógio e observou: – Quem caminha com a responsabilidade não deve esquecer as horas.
Retirou-se, precipite, e seguimo-lo até a praça próxima. Áulus fixou o céu azul em que o Sol como que se desfazia em chuva de ouro quintessenciado, e dispunha-se a enlaçar-nos, quando me percebeu o propósito mais intimo, falando com humildade: – Faça a prece por nós, André! Reverente, pedi em voz alta:
– “Senhor Jesus! “Faze-nos dignos daqueles que espalham a verdade e o amor! Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 263
“Acrescenta os tesouros da sabedoria nas almas que se engrandecem no amparo aos semelhantes. “Ajuda aos que se despreocupam de si mesmos, distribuindo em Teu Nome a esperança e a paz... “Ensina-nos a honrar-te os discípulos fiéis com o respeito e o carinho que lhes devemos “Extirpa do campo de nossas almas a erva daninha da indisciplina e do orgulho, para que a simplicidade nos favoreça a renovação. “Não nos deixes confiados à própria cegueira e guia-nos o passo, no rumo daqueles companheiros que se elevam, humilhando-se, e que por serem nobres e grandes, diante de Ti, não se sentem diminuídos, em se fazendo pequeninos, a fim de auxiliarnos... “Glorifica-os, Senhor, coroando-lhes a fronte com os teus lauréis de luz!...”
O orientador devia saber que ele próprio personificava para nós os benfeitores a cuja grandeza nos reportávamos; entretanto, não ousei pronunciar-lhe o nome, tal a veneração que nos merecia. Terminada a oração, fitei-o de olhos úmidos. Áulus não disse uma palavra. Revestido de radiações luminescentes, dando-nos a entender que se despedia de nós igualmente em prece, recolheu-nos num só abraço e partiu... À maneira de crianças, Hilário e eu, em pranto mudo de reconhecimento, contemplamo-lo, até que se lhe apagou o vulto ao longe. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 264
Lembramo-nos, então, do trabalho que nos aguardava e, louvando o serviço que em toda a parte é a nossa bênção, passamos a socorrer a criança enferma, como quem se incorporava ao grande futuro...
--- Fim --- Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 265
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