[user_registration_my_account]
Capítulo 15 de 23
Emmanuel — parte 13 de 21
Nos Domínios da Mediunidade · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
– E essas respostas – continuou meu colega – traduzem equação definitiva para os problemas que expõem? – Isso não – aclarou o Assistente, convicto –; entre o auxílio e a solução vai sempre alguma distância em qualquer dificuldade, e não podemos esquecer que cada um de nós possui os seus próprios enigmas. – Se é assim, por que motivo o intercâmbio? se os desencarnados não podem oferecer uma conclusão pacífica aos tormentos dos irmãos que ainda se demoram na carne, por que a porta aberta entre eles e nós? – Não te esqueças do impositivo da cooperação na estrada de cada ser – disse Áulus com grave entono. – Na vida eterna, a existência no corpo físico, por mais longa, é sempre curto período de aprendizagem. E não nos cabe olvidar que a Terra é o campo onde ferimos a nossa batalha evolutiva. Dentro dos princípios de causa e efeito, adquirimos os valores da experiência com que estruturamos a nossa individualidade para as Esferas Superiores. A mente, em verdade, é o caminheiro buscando a meta da angelitude, contudo, não avançará sem auxílio. Ninguém vive só.
Os pretensos mortos precisam amparar os companheiros em estágio na matéria densa, porquanto em grande número serão compelidos a novos mergulhos na experiência carnal. É da Lei que a sabedoria socorra a ignorância, que os melhores ajudem aos menos bons. Os homens, cooperando com os Espíritos esclarecidos e benevolentes, atraem simpatias preciosas para a vida espiritual, e as entidades amigas, auxiliando os reencarnados, estarão construindo facilidades para o dia de amanhã, quando de volta à lide terrestre. – Sim, sim, compreendo... – exclamou Hilário, reconhecido. – Entretanto, colocando-me na situação da criatura vulgar, recordome de que no mundo habituamo-nos a esperar do Céu uma solução decisiva e absoluta para inúmeros problemas que se nos deparam... Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 162
– Semelhante atitude, porém – acentuou o orientador –, decorre de antiga viciação mental no Planeta. Para maior clareza do assunto, reme-moremos a exemplificação do Divino Mestre. Jesus, o Governador Espiritual do Mundo, auxiliou a doentes e aflitos, sem retirá-los das questões fundamentais que lhes diziam respeito. Zaqueu, o rico prestigiado pela visita que lhe foi feita, sentiu-se constrangido a modificar a sua conduta. Maria de Magdala, que lhe recebeu carinhosa atenção, não ficou livre do dever de sustentar-se no árduo combate da renovação interior. Lázaro, reerguido das trevas do sepulcro, não foi exonerado da obrigação de aceitar, mais tarde, o desafio da morte. Paulo de Tarso foi por Ele distinguido com um apelo pessoal, às portas de Damasco, entretanto, por isso, o apóstolo não obteve dispensa dos sacrifícios que lhe cabiam no desempenho da nova missão. Segundo reconhecemos, seria ilógico aguardar dos desencarnados a liquidação total das lutas humanas. Isso significaria furtar o trabalho que corresponde ao sustento do servidor, ou subtrair a lição ao aluno necessitado de luz.
A essa altura, não longe de nós, simpática senhora monologava em pensamento: – Meu filho! meu filho! se você não está morto, visite-me! Venha! venha! Estou morrendo de saudade, de angústia!... faleme alguma palavra pela qual nos entendamos... Se tudo não está acabado, aproxime-se da médium e comunique-se! É impossível que você não tenha piedade... As frases amargas, embora inarticuladas, atingiam-nos a audição, qual se fossem arremessadas ao ambiente em voz abafadiça. Leve rumor à retaguarda feriu-nos a atenção. Um rapaz desencarnado apresentou-se em lastimáveis condições e avançou para a triste mulher, dominado por invencível atração. Da boca Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 163
amarfanhada escorria a amargura em forma de palavras comovedoras. – Mãe! mãe! – gritava de joelhos, qual se fora atormentada criança, conchegando-se-lhe ao regaço – não me abandone!... Estou aqui, ouça-me! não morri... perdoe-me, perdoe-me!... sou um renegado, um náufrago!... Busquei a morte quando eu deveria viver para o seu carinho! Agora sim! Vejo o sofrimento de perto e desejaria aniquilar-me para sempre, tal a vergonha que me aflige o coração!... A matrona não lhe via a figura agoniada, contudo, registravalhe a presença, através de intraduzível ansiedade, a constringir-lhe o peito. Dois vigilantes aproximaram-se, arrebatando o moço ao colo materno, e, ladeando por nossa vez o Assistente, que se deu pressa em socorrer a senhora em lágrimas, ouvimo-la clamar, mentalmente: – “Não será melhor segui-lo? Morrer e descansar!... Meu filho, quero meu filho!...” Áulus aplicou-lhe recursos magnéticos, com o que a desventurada criatura experimentou grande alívio, e, em seguida, informou: – Anotemos o caso desta pobre mãe desarvorada. O filho suicidou-se, há meses, e ainda não consegue forrar-se à flagelação Intima.
Em sua devoção afetiva, reclama-lhe a manifestação pessoal sem saber o que pede, porque a chocante posição do rapaz constituir-lhe-ia pavoroso martírio. Não poderá, desse modo, recolher-lhe a palavra direta, entretanto, ao contacto do trabalho espiritual que aqui se processa, incorporará energias novas para refazer-se gradualmente. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 164
– Decerto – acrescentou Hilário, com inteligência –, não terá resolvido o problema crucial da sensibilidade ferida, no entanto, adquire forças para recuperar-se... – Isso mesmo. – Aliás – considerei a meu modo –, a mediunidade de hoje é, na essência, a profecia das religiões de todos os tempos. – Sim – aprovou Áulus, prestimoso –, com a diferença de que a mediunidade hoje é uma concessão do Senhor à Humanidade em geral, considerando-se a madureza do entendimento humano, à frente da vida, O fenômeno mediúnico não é novo. Nova é tãosomente a forma de mobilização dele, porque o sacerdócio de várias procedências jaz, há muitos séculos, detido nos espetáculos do culto exterior, mumificando indebitamente o corpo das revelações celestiais. Notadamente o Cristianismo, que deveria ser a mais ampla e a mais simples das escolas de fé, há muito tempo como que se enquistou no superficialismo dos templos. Era preciso, pois, libertar-lhe os princípios, a benefício do mundo que, cientificamente, hoje se banha no clarão de nova era.
Por esse motivo, o Governo oculto do Planeta deliberou que a mediunidade fosse trazida do colégio sacerdotal à praça pública, a fim de que a noção da eternidade, através da sobrevivência da alma, desperte a mente anestesiada do povo. É assim que Jesus nos reaparece, agora, não como fundador de ritos e fronteiras dogmáticas, mas sim em sua verdadeira feição de Redentor da Alma Humana. Instrumento de Deus por excelência, Ele se utilizou da mediunidade para acender a luz da sua Doutrina de Amor. Restaurando enfermos e pacificando aflitos, em muitas ocasiões esteve em contacto com os chamados mortos, alguns dos quais não eram senão almas sofredoras a vampirizarem obsidiados de diversos matizes. E, além de surgir em colóquio com Moisés materializado no Tabor, Ele mesmo é o grande ressuscitado, legando aos ho- Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 165
mens o sepulcro vazio e acompanhando os discípulos com acendrado amor, para que lhe continuassem o apostolado de bênçãos. Hilário esboçou o sorriso de um estudante satisfeito com a lição, e exclamou: – Ah! sim, tenho a impressão de começar a compreender... Os trabalhos da reunião tocavam a fase terminal. Nosso orientador percebeu que Gabriel se dispunha a grafar a mensagem do encerramento e, respeitoso, pediu-lhe cunhar alguns conceitos em derredor da mediunidade, ao que o supervisor aquiesceu, gentil. Dona Ambrosina entrara em pausa ligeira para alguns momentos de recuperação. O diretor da reunião rogou silêncio para o remate dos serviços, e, tão logo reverente quietação se fez na assembléia, o condutor da casa controlou o cérebro da medianeira e tomou-lhe o braço, escrevendo aceleradamente. Em minutos rápidos, os apontamentos de Gabriel estavam concluídos. A médium levantou-se e passou a lê-los em voz alta: – “Meus amigos – dizia o mentor –, é indispensável procurar na mediunidade não a chave falsa para certos arranjos inadequados na Terra, mas sim o caminho direito de nosso ajustamento à vida superior.
“Compreendendo assim a verdade, é necessário renovar a nossa conceituação de médium, para que não venhamos a transformar companheiros de ideal e de luta em oráculos e adivinhos, com esquecimento de nossos deveres na elevação própria. “O Espiritismo, simbolicamente, é Jesus que retorna ao mundo, convidando-nos ao aperfeiçoamento individual, por intermédio do trabalho construtivo e incessante. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 166
“Dentro das leis da cooperação, será justo aceitar o braço amigo que se nos oferece para a jornada salvadora, entretanto é imprescindível não esquecer que cada qual de nós transporta consigo questões essenciais e necessidades intransferíveis. “Desencarnados e encarnados, todos palmilhamos extenso campo de experimentações e de provas, condizentes com os impositivos de nosso crescimento para a imortalidade. “Não atribuamos, assim, ao médium obrigações que nos competem, em caráter exclusivo, e nem aguardemos da mediunidade funções milagreiras, porquanto só a nós cabe o serviço árduo da própria ascensão, na pauta das responsabilidades que o conhecimento superior nos impõe. “Diante de nossas assertivas, podereis talvez indagar, segundo os velhos hábitos que nos caracterizam a preguiça mental na Terra: – Se o Espiritismo e a Mediunidade não nos solucionam os enigmas de maneira absoluta, que estarão ambos fazendo no santuário religioso da Humanidade? “Responder-vos-emos, todavia, que neles reencontramos o pensamento puro do Cristo, auxiliando-nos a compreensão para mais amplo discernimento da realidade.
Neles recolhemos exatos informes, quanto à lei das compensações, equacionando aflitivos problemas do ser, do destino e da dor e deixando-nos perceber, de alguma sorte, as infinitas dimensões para as quais evolvemos. E a eles deveremos, acima de tudo, a luz para vencer os tenebrosos labirintos da morte, a fim de que nos consorciemos, afinal, com as legítimas noções da consciência cósmica. “Alcançadas semelhantes fórmulas de raciocínio, perguntaremos a vós outros por nossa vez: “Acreditais seja pouco revelar a excelsitude da Justiça? Admitis seja desprezível descortinar a vida em suas ilimitadas facetas de evolução e eternidade? Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 167
“Reverenciemos, pois, o Espiritismo e a Mediunidade como dois altares vivos no templo da fé, através dos quais contemplaremos, de mais alto, a esfera das cogitações propriamente terrestres, compreendendo, por fim, que a glória reservada ao espírito humano é sublime e infinita, no Reino Divino do Universo.” A comunicação psicográfica tratou de outros assuntos e, finda a sua leitura, breve oração de reconhecimento foi pronunciada. E, enquanto os assistentes tornavam à conversação livre, Hilário e eu, ante os conceitos ouvidos, passamos a profunda introversão para melhor aprender e meditar. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 168
Dominação telepática Dispúnhamo-nos à despedida, quando simpática senhora desencarnada abeirou-se de nós, cumprimentando o Assistente com respeitosa afetividade. Áulus incumbiu-se da apresentação. – É a irmã Teonília, uma de nossas diligentes companheiras no trabalho assistencial. A nova amiga correspondeu-nos às saudações com gentileza e explicou ao nosso orientador o objetivo que a trazia. Contou, então, que Anésia, devotada companheira da instituição em que nos achávamos, sorvia o fel de dura prova. Além das preocupações naturais com a educação das três filhinhas e com a assistência imprescindível à mãezinha doente, em vésperas de desencarnação, sofria tremenda luta íntima, de vez que Jovino, o esposo, vivia agora sob a estranha fascinação de outra mulher. Esquecera-se, invigilante, das obrigações no santuário doméstico. Parecia, de todo, desinteressado da companheira e das filhas. Como que voltara às estroinices da primeira juventude, qual se nunca houvesse abraçado a missão de pai. Dia e noite, deixava-se dominar pelos pensamentos da nova mulher que o enlaçara na armadilha de mentirosos encantos.
Em casa, nas atividades da profissão ou na via pública, era ela, sempre ela a senhorear-lhe a mente desprevenida. Transformara-se o mísero num obsidiado autêntico, sob a constante atuação da criatura que lhe anestesiava o senso de responsabilidade para consigo mesmo. Não poderia Áulus interferir? Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 169
Não seria justo afastar semelhante influência, como se extirpa uma chaga com o socorro operatório? O Assistente ouviu-a com calma e falou, conciso: – Conheço Anésia e nela estimo admirável irmã. Há meses, não disponho de oportunidade para visitá-la como venho desejando. Decerto, não me negarei ao concurso fraterno, entretanto, não será conveniente estabelecer medidas drásticas sem uma auscultação do caso em si. Sabemos que a obsessão entre desencarnados ou encarnados, sob qualquer prisma em que se mostre, é uma enfermidade mental, reclamando por vezes tratamento de longo curso. Quem sabe se o pobre Jovino não estará na condição de um pássaro hipnotizado, não obstante o corpanzil que lhe confere aparências de robustez no plano físico? – Do que posso perceber – anotou a interlocutora –, vejo tãosomente um homem comprometido em trabalho digno, ameaçado por perversa mulher... – Oh! não! – atalhou o nosso instrutor condescendente –, não a classifique com semelhante adjetivação. Acima de tudo, é imperioso aceitá-la por infeliz irmã. – Sim, sim... concordo – exclamou Teonília, reajustando-se. – De qualquer modo, rogo-lhe a caridosa intercessão.
Anésia tem sido uma colaboradora providencial em nossa tarefa. Não me sentiria satisfeita, cruzando os braços... – Faremos quanto se nos afigure viável no círculo de nossas possibilidades, contudo, é imprescindível analisar o passado para concluir sobre as raízes da ligação indébita a que nos reportamos. E, imprimindo grave tonalidade à voz, o Assistente enunciou: – Estará descendo Jovino a impressões do pretérito? não será uma provação que o nosso amigo terá traçado à própria consciência, com finalidade redentora, e à qual não sabe agora como resistir? Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 170
Teonília esboçou um gesto de humildade silenciosa, enquanto Áulus rematava, afagando-lhe os ombros: – Guardemos otimismo e confiança. Amanhã, à noitinha, conte conosco no lar de Anésia. Sondaremos, de perto, quanto nos caiba fazer. Nossa amiga, expressou reconhecimento e despediu-se sorrindo. A sós conosco, durante o regresso ao nosso templo de trabalho e de estudo, Áulus salientou a nossa oportunidade de prosseguir observando. O assunto prendia-se naturalmente a problema de influenciação e teríamos ensejo de examinar fenômenos mediúnicos importantes, na esfera vulgar da experiência de muitos. Com efeito, em momento preestabelecido, reunimo-nos no dia seguinte para a excursão programada. Atingimos a estação de destino ao anoitecer. Teonília aguardava-nos no pórtico de domicilio confortável, sem ser luxuoso. Pequeno roseiral à entrada dizia sem palavras dos belos sentimentos dos moradores. Guiados por nossa amiga, alcançamos o interior doméstico. A família entregava-se à refeição. Uma senhora jovem servia atenciosamente a um cavalheiro maduro e bem-posto, ladeado por três meninas, das quais a mais moça revelava a graça primaveril dos catorze a quinze anos. Claro que o entendimento da véspera dispensava novas informações. Áulus, no entanto, esclareceu, minucioso: – Anésia e Jovino acham-se aqui com as filhinhas Marcina, Marta e Márcia. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 171
A palestra familiar desdobrava-se afetuosa, mas o dono da casa parecia contrafeito. Doces apontamentos das meninas não lhe arrancavam o mais leve sorriso. Contudo, enquanto o genitor timbrava em mostrar-se aborrecido, a mãezinha se fazia mais terna e mais contente, incentivando a conversação das duas filhas mais velhas que comentavam episódios humorísticos do bazar de quinquilharias em que trabalhavam juntas. Findo o jantar, a senhora dirigiu-se à mais moça e recomendou com carinho: – Márcia, minha filha, volte à vovó e espere por mim. Nossa doente não deve estar a sós. A pequena obedeceu de bom grado e, transcorridos alguns instantes, Marcina e Marta demandaram sala próxima, em palestra mais Intima. Dona Anésia reajustou a copa e a cozinha, operando em silêncio, enquanto o marido se esparramava numa poltrona, devorando os jornais vespertinos. Reparando, todavia, que o esposo se levantara para sair, endereçou-lhe olhar inquieto e indagou, delicadamente: – Poderemos, acaso, esperar hoje por você? – Hoje? hoje?... – redargüiu o interlocutor, sem fixá-la.
E o diálogo prosseguiu, animadamente. – Sim, um pouco mais tarde; faremos nossas preces em conjunto... – Preces? para que isso? – Sinceramente, Jovino, creio no poder da oração e suponho que nunca precisamos tanto como agora de usá-la em favor de nossa tranqüilidade doméstica. – Não concordo com a sua opinião. E, sarcástico, a exibir estranho sorriso, continuou: Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 172
– Não disponho de tempo para lidar com os seus tabus. Tenho compromissos inadiáveis. Estudarei, junto de amigos, excelente negócio. Nesse instante, contudo, surpreendente imagem de mulher surgiu-lhe à frente dos olhos, qual se fora projetada sobre ele a distância, aparecendo e desaparecendo com intermitências. Jovino fez-se mais distraído, mais enfadado. Fitava agora a esposa com indiferença irônica, demonstrando inexcedível dureza espiritual. Intrigados com o fenômeno sob nossa vista, ouvimos Anésia que, enlaçada por Teonília, dizia quase suplicante: – Jovino, você não concorda que temos estado mais ausentes um do outro, quando precisamos estar mais juntos? – Ora, ora! deixe de pieguices! Sua preocupação seria própria, há vinte anos, quando não éramos senão tolos colegiais! – Não, não é bem isso... Inquietam-me nosso lar e nossas filhas... – De minha parte, não vejo como torturar-me. Creio que a casa está bem provida e não estou dormindo sobre nossos interesses familiares. Meus negócios estão em movimento.
Preciso de dinheiro e, por essa razão, não posso perder tempo com beatices e petitórios, endereçados a um Deus que, sem dúvida, deve estar muito satisfeito em morar no Céu, sem lembrar-se deste mundo... Anésia dispunha-se a revidar, no entanto, a atitude do marido era tão flagrantemente escarnecedora que, decerto, julgou mais oportuno silenciar. O chefe da família, depois de apurar o nó da gravata vivamente colorida, bateu a porta estrepitosamente sobre os próprios passos e retirou-se. Francisco C. Xavier - Nos Domínios da Mediunidade - pelo Espírito André Luiz 173
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.