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Capítulo 9 de 17

Parte 9 de 16

Magnetismo Curativo – Volume 1 · Alphonse Bouvier

Apesar dos meios empregados em casos tais, o Dr. Thiriat, professor de partos e médico nas águas de Plombières, não conseguindo chamá-la à vida, decidiu-se a agir mais diretamente sobre o coração e diafragma: aplicou sobre a região desses dois órgãos um pano seco e limpo, começou a soprar a quente sobre o coração, depois sobre toda a superfície do tórax, e deste modo chegou a estabelecer o funcionamento regular da respiração, determinando na criança uma primeira inspiração profunda. “Esta espécie de ressurreição, que eu desesperava de obter pelos meios ordinários, diz o Dr. Thiriat, realizou-se depois de cerca de uma hora de influxo magnético.” (Extraído da Biblioteca do magnetismo, tom. IV, p. 149) Eu mesmo tive, muitas vezes, ocasião de observar a virtude curadora das insuflações, e pessoalmente devo-lhes um verdadeiro tributo de gratidão, porque em dois casos muito graves permitiram-me restituir a saúde a meus filhos.

Eis o primeiro caso: Meu filho tinha então cinco ou seis anos. Uma noite fomos despertados em sobressalto pelos seus gritos: à primeira vista julguei da gravidade de seu estado: sua voz era surda e sibilante, seus olhos cavos se enchiam de lágrimas. O nariz estava afilado, os músculos do pescoço enrijecidos, violentos espasmos partiam do diafragma, a cabeça voltada para trás, a boca aberta, as narinas trêmulas e procurando debalde o ar que lhe faltava, tudo indicava que não havia um momento a perder. Concentrando toda a minha energia vital na idéia de disputar meu filho ao perigo que parecia ameaçá-lo, principiei a magnetizá-lo. Comecei desembaraçando-lhe a garganta, passando de leve os meus dedos em ponta desde a parte posterior das orelhas até aos ombros, seguindo os trajetos das jugulares, depois multipliquei as insuflações quentes por diante do pescoço, por detrás das orelhas e sobre a nuca.

Quando vinha a sufocação, de modo que a criança se erguia ansiosa por sobre o travesseiro, e depois dobrava violentamente a cabeça para trás, prestes a perder a respiração, eu punha de lado as insuflações e impunha fortemente as mãos, uma sobre os rins, a outra sobre o umbigo, de modo a atuar sobre o diafragma, e logo depois as contrações cessavam. Recomeçava então vigorosamente a ação do sopro, que era também aplicado à base do coração e ao epigástrio. Pelas 9 horas da manhã, após cinco horas angustiosas, durante as quais minha mulher e eu havíamos passado por todas as alternativas da dúvida e da esperança, não somente a criança estava salva, como ainda não restava da moléstia nenhum traço; e ao vermos o sorriso do nosso filho inteiramente curado, interrogamos a nós mesmos se não tínhamos sido o joguete de um terrível pesadelo. Em outra circunstância, na época em que a influenza assolava Paris, tinha então meu filho quinze anos. Num domingo ele preparava-se para sair depois do almoço, quando, de repente, sem que nada pudesse fazer prever o que ia acontecer, o menino atirou-se sobre uma poltrona queixando-se de um incômodo súbito; o seu rosto decompunha-se, invadia-o um frio glacial e ele queixava-se de dores vivas na nuca.

Essas dores tornaram-se em alguns momentos muito intensas, a ponto de se tornar impossível despi-lo e transportá-lo para a cama: qualquer movimento era-lhe doloroso, e toda a mudança do lugar era-lhe impossível. Ignorávamos por completo a que atribuir esse mal fulminante que nos enchia de inquietação; debalde procurava-se levar o calor às extremidades geladas, e meio algum dava bom resultado. Tomei a deliberação de me postar diante da poltrona em que jazia meu filho quase inanimado, tomei-o pelo corpo, e fiz-lhe demoradas e ardentes insuflações sobre o coração; bastou isto para reanimá-lo. Em poucos instantes o calor voltou aos pés, às mãos, ao rosto: e o sangue, afluindo ao cérebro, que parecia até então inanimado, provocou fortes comichões na testa e no couro cabeludo. Aproveitei-me deste momento para despi-lo e deitá-lo, e instalei-me à sua cabeceira, recomeçando as insuflações sobre a nuca e sobre o coração, alternando-as com passes e imposições.

O menino caiu numa meia sonolência que, pelas seis da tarde, terminou pelo repouso, tirando-nos por último, de nossa cruel ansiedade. Tudo tinha acabado, e não existia mais traço algum desse mal misterioso e súbito, que durante toda a tarde nos tinha sobressaltado; o doente recuperava o seu apetite e alegria, teimando em levantar-se, imediatamente, para compartilhar do jantar, como de costume. Evidentemente, às insuflações devemos esta transformação visível de um estado crítico que nos tinha alarmado tão intensamente. Um de nossos amigos presentes, que se associara às nossas angústias e à nossa alegria conforme as peripécias do tratamento, pôde dificilmente acreditar naquilo que presenciaram os seus olhos! 138. As insuflações não atuam somente no começo das moléstias agudas de marcha rápida, como a que acabamos de citar; das longas síncopes, imagens da morte, em que a alma parece ter abandonado para sempre o seu invólucro, o sopro quente retém a vida prestes a escapar-se e induze-a às funções que deve desempenhar.

Os anais magnéticos fornecem-nos numerosos exemplos de ressurreições deste gênero. Eis dois fatos dignos de nota: O primeiro é relatado por Puységur em seu livro Recherches physiologiques. “A Sra Princesa de Ligne, da família Pozzo di Borgo, que com certeza jamais ouvira falar em Mesmer nem de sua doutrina, tinha doente um de seus filhos de berço. Obrigada a sair para negócio importante, aproveitou-se do momento em que seu filho adormecera; mas qual não fora a sua surpresa quando, ao entrar em casa, viu todos os seus em pranto: a criança jazia inanimada em seu berço. O médico, que, a toda pressa, se chamara, não havia ainda chegado!

Sem ouvir mais, sem dar um gemido, obedecendo apenas ao sentimento maternal que a dominava, a Sra de Ligne precipitou-se para seu filho, arrancando-o do berço e, no transporte de seu delírio, atirou-se ao chão sobre o tapete, envolveuse, juntamente com o corpinho da criança, em tudo o que pode encontrar para reanimá-lo, apertou-o de encontro ao coração, e cobriu-o com o seu hálito. Assim conservou-se numa espécie de êxtase doloroso, e como que aniquilada em sua profunda dor. Ninguém ousou aproximar-se, nenhuma força humana seria capaz de arrancá-la a essa atração onde o sentimento materno prendeu-a magneticamente, quando finalmente os gritos da criancinha chamaram-na à realidade tirando-a da sua imobilidade. Ergueu-se, descobriu-a, e a criança estava salva!... Não está aí patente – diz Puységur – um admirável exemplo de magnetismo instintivo?” O segundo fato é referido pelo Dr.

Foissac: “Entre as curas operadas pelo Dr. Desprez, há uma, diz ele, que é importante notar: a de sua mulher. Em conseqüência do parto, ela experimentou acidentes muito graves, contra os quais todos os socorros foram inúteis. A doente perdeu forças, e sentindo-se aproximar-se da morte, dirigiu a seu marido um último adeus e caiu sem sentidos. Seus irmãos e suas amigas, acreditando-a morta, quiseram tirar o Dr.

Desprez do quarto, mas, retido não sei por que esperança, ele recusou-se e pediu que o deixassem a sós com ela. Logo que saíram, apressa-se em fechar a porta, despe-se, deita-se junto de sua mulher, toma-a em seus braços, e procura reaquecer o seu corpo gelado com o seu hálito e contato. Ao cabo de vinte minutos, ela dá um profundo suspiro, abre os olhos, reconhece-o e recupera a palavra!... Poucos dias depois, estava restituída à saúde.” (Foissac, Rapports sur le magnétisme, p. 272) Esses dois fatos notáveis, que li na obra de Aubin Gauthier, traziam-me ainda pensativo, quando sobreveio, no 11o regimento de couraceiros de que eu fazia parte, um terrível acidente: um dos nossos camaradas, o capitão B... ao montar um cavalo, foi violentamente atirado ao chão, sobre a calçada por uma repulsa inesperada do seu animal, e nesta queda, tendo ofendido a cabeça, ficou sete ou oito dias sem sentidos. Todos os dias íamos ao hospital, para onde ele fora transportado, receber notícias do nosso infeliz camarada.

Ainda o vejo estendido como um cadáver naquele leito do hospital, com o rosto macilento, imóvel, os braços nus pendentes para fora do leito, por sobre vasos colocados no chão, a fim de receberem o filete de sangue que lentamente escoava-se gota a gota, da veia aberta pelo bisturi. Faziam-se tentativas para tirá-lo do seu estado de letargia sangrando-o ligeiramente. Esta singular maneira de chamar à vida a esse corpo inerte, que parecia exangue, revoltava-me a lógica e o bom senso, e várias vezes nestas visitas quotidianas tive a idéia de aconchegar o pobre moribundo aos meus braços e fazer-lhe insuflações no coração, convicto de que eu lhe restituiria assim a vida mais rapidamente do que poderiam fazê-lo aquelas sangrias mortíferas; porém, nessa época, eu não possuía ainda o fervor, nem a experiência que a prática me deu mais tarde, e confesso, para minha vergonha, que não tive a coragem de minha opinião.

Seria, afinal, muita ousadia em meu modo de pensar colocar-me de encontro às tradições rotineiras do hospital, e demais eu devia contar com a disciplina militar que mantém todas as iniciativas à distância! Somente no oitavo dia o nosso pobre camarada recuperou os sentidos, porém, devido ao tratamento que sofrera, caiu num tal estado de prostração, que, depois de uma longa convalescença o cérebro anemiado foi atacado de loucura e alguns meses mais tarde sobreveio a morte.

A minha intervenção logo após o incidente teria conseguido salvar o meu camarada? Não o teria afirmado nessa época; mas hoje, depois de tudo quanto tenho visto, estou intimamente convencido, e há vinte anos que esta idéia muitas vezes me enche de pesar. 139. A insuflação é um dos meios de auscultação mais seguro. Quando ela desenvolve um bom e suave calor, e que a corrente calórica repercute profundamente e ao longe ramificandose aos órgãos vizinhos do lugar em que se sopra quente, é um sinal de circulação livre e normal. Se a insuflação não desenvolve nenhum calor ou muito pouco pelo menos, e que o calórico não se irradia em derredor do ponto insuflado, é sinal que as partes estão congestionadas e que se está em presença de um estado congestivo sanguíneo, mais ou menos acentuado.

Enfim, se a insuflação desenvolve uma comichão, um prurido, a sensação penosa de um contato mais ou menos doloroso, uma queimadura, é que no ponto insuflado há obstrução e falta de circulação nervosa. Para auscultar a coluna vertebral, faz-se deitar o paciente sobre o ventre e procede-se a insuflações sucessivas a partir da nuca até abaixo dos rins, e seguindo cada vértebra nos pontos de inserção dos ramos nervosos. Seguindo esse método, pude muitas vezes descobrir pontos doentes em lugares onde os meios comuns de auscultação nada poderiam encontrar. Um indivíduo, Sr. R., de 60 anos de idade, atacado de perturbações graves na bexiga, tinha sido muitas vezes auscultado por diversos especialistas que nada haviam encontrado de anormal na coluna vertebral.

Fiz colocar o Sr. R. sobre a cama, e dispus-me a explorar o trajeto raquidiano pelo sopro. Quando cheguei ao nível das vértebras lombares, o meu doente, que até então não se mexera com as primeiras insuflações, moveu-se bruscamente perguntando-me o que lhe havia eu enterrado no dorso. Dificilmente convenci-o de que a minha ação tinha sido uniforme, e que tão somente o meu sopro havia determinado aquela sensação dolorosa. Tive que recomeçar muitas vezes para convencêlo, e depois de muitas provas ficou demonstrado absolutamente que ao nível das primeiras vértebras lombares havia uma região muito limitada que recebia de meu sopro uma ação diferente daquela que era exercida tanto acima como abaixo.

Esse ponto correspondia ao principal tronco nervoso que vai precisamente levar a enervação à bexiga e a todos os órgãos que lhe são dependentes. No fim de algumas semanas, quando o tratamento magnético regularizou a circulação nervosa, a sensibilidade mórbida desse ponto lombar desapareceu, e a enervação fez-se de então em diante sem parada e sem obstáculo... 140. A insuflação fria, dissemos, possui uma ação essencialmente dispersiva e refrigerante. É um dos mais poderosos processos de dispersão, de que falaremos mais tarde. Para soprar frio, fica-se colocado numa distância de 50 centímetros a um metro, e dirige-se sobre o ponto que se quer atuar um sopro rápido e violento, como se quisesse soprar de longe uma luz e apagá-la.

O sopro frio se emprega e com vantagem nas dores de cabeça, nas agitações febris, convulsões, ataques nervosos. Se ao magnetizar sobrecarregou-se a cabeça ou o epigástrio, pode-se ter certeza de desembaraçá-los soprando frio e de longe. (Deleuze) 141. Quando se quer fazer uma insuflação sobre uma lesão que repugna insuflar diretamente, pode-se empregar um tubo de vidro do comprimento de 20 a 30 centímetros e de diâmetro um tanto avantajado. Coloca-se a extremidade inferior em um pano que se estende sobre a parte doente, apoiam-se os lábios sobre a outra extremidade e o sopro penetra tão perfeitamente como se a boca estivesse em contato. CAPÍTULO X Das dispersões Seu objeto.

– Imposições de dispersão. – Passes de dispersão. – Passes transversais e perpendiculares. – Insuflações de dispersão. – Processo para descontraturar o queixo, o pescoço, os braços, as pernas, o diafragma, todo o corpo.

– A resolução duma contração pode obter-se por processos opostos. Exemplos. – Opinião errônea dos partidários da teoria dos fluidos acerca das dispersões. 142. Se todos são magnetizáveis (38), nem todos experimentam no mesmo grau os efeitos magnéticos: há pacientes mais ou menos sensíveis. Pode, portanto, acontecer que um se ache momentaneamente incomodado por uma ação irradiante muito viva; neste caso a cabeça se torna pesada, o peito se oprime, e em tal emergência faz-se necessário moderar a ação, mas é preciso dispersar.

Por outro lado, como os efeitos à distância – imposições fixas (97) e passes lentos (101) – atraem mais especialmente a ação das correntes sobre as partes visadas, e as forças nervosas se acumulam nessas partes (57), acontece muitas vezes que uma ação parcial muito prolongada sobre tal ou tal ponto do organismo produz nesse ponto uma contratura ou um espasmo que é necessário destruir. Faz-se cessar a contratura ou o espasmo, dispersando parcialmente. Existem, pois, processos chamados de dispersão, os quais se deve procurar conhecer. Esses processos se compõem de imposições, passes e insuflações. Imposições de dispersão 143.

As imposições de dispersão se fazem do mesmo modo que as imposições comuns (59, 60 e seguintes), com a diferença de que só a palma da mão deve pousar sobre o ponto que se quer dispersar, e que os dedos, em vez de se estenderem sobre as partes circunvizinhas, devem ser encurvados, postados de pé e afastados no ar, a fim de facilitarem o escoamento das correntes pelas suas cinco pontas. Passes de dispersão 144. Os passes de dispersão se compõem de passes transversais e de passes perpendiculares. 145. O passe transversal faz-se da maneira seguinte: deve-se colocar de pé em frente ao paciente, estender os dois braços para diante, as mãos abertas com as costas voltadas, os polegares para baixo, e a ponta dos dedos a alguma distância do corpo do paciente (30 a 50 centímetros). Nesta posição, abrir bruscamente e num golpe seco os dois braços sempre estendidos horizontalmente, e voltar com certa vivacidade à posição primitiva, para recomeçar do mesmo modo.

É este movimento vivo e alternado dos dois braços no sentido horizontal, em que cada mão faz, tanto à direita como à esquerda, o papel de leque, que constitui o passe transversal. Dispersa-se parcialmente um ponto do organismo fazendo três ou quatro desses movimentos alternados em frente ao ponto que se quer dispersar. Se se quer operar uma dispersão geral, deve-se executar uma série ininterrupta desses movimentos alternados, começando na altura da testa e baixando sucessivamente a linha de dispersão da testa ao peito e do peito aos pés. O passe transversal se executa também com uma só mão, com a mão direita por exemplo, batendo o ar vivamente com essa mão por sobre a parte que se quer dispersar, como quando se atiça o fogo de um braseiro com um papelão. 146. Os passes perpendiculares só se empregam no fim das sessões, depois dos passes transversais.

Executam-se da maneira seguinte: o paciente fica de pé, coloca-se em um de seus lados, e, pondo-se as mãos estendidas com as faces por sobre a cabeça, desce-as rapidamente, uma por diante e a outra por detrás do corpo até ao soalho. Faz-se assim cinco ou seis passes seguidos, tomando-se a precaução de afastar as mãos ao subi-las para recomeçar. Em vez de colocar-se de lado, pode-se também colocar-se diante ou por detrás do paciente e fazer, seguindo com as mãos os dois lados do corpo, uma série de passes semelhantes. 147. Todo o passe de dispersão, quer seja transversal ou perpendicular, deve ser feito com certa presteza; isto constitui principalmente o seu caráter especial, pois quanto mais lesto e mais rápido, tanto mais ele dispersa. Insuflações de dispersão 148.

A dispersão pelo sopro se faz soprando frio à distância e com muita vivacidade, como já acima foi dito (140). 149. Toda a ação à distância, imposições fixas (97) ou passes lentos (101), podem produzir contraturas, como já foi acima referido (142). A resolução das contraturas assim produzidas obtém-se pelo toque e os processos de dispersão seguintes: 150. Contratura do queixo – Tocar levemente os dois maxilares com a ponta dos dedos, com as duas mãos desde a orelha até o mento, e terminar esse duplo contato nesse lugar por uma ação viva de retirada para si, como se quisesse arrancar alguma coisa. Se dois ou três passes desse gênero, feitos um após outro, não bastarem para produzir a resolução da contratura, deve-se soprar frio à distância sobre os maxilares, e fazer passes transversais diante da boca. 151.

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