Voltar ao livro Confissões de Um Corruptor

Capítulo 9 de 20

Primeira Parte — parte 6 de 7

Confissões de Um Corruptor · Osvaldo Polidoro

roubou, gozou com a desgraça alheia e fez coisas que não se pode imaginar agora sem terríveis remorsos, tudo isto são as graças de Deus! Naquela hora, chegou o médico, indagando-me: – Dói-lhe alguma parte, Proclo? – Eu todo sou uma só e perfeita tormenta, doutor... É minha alma quem se aflige e põe o meu corpo em dolorosa situação. Creio que foi isso, que foi pensar em minhas ações que me fez recair daquele modo terrível... Tomou-me a dianteira, observando: – Não senhor. É que a Inquisição funciona normalmente e vive assassinando os filhos de Deus, sob vários pretextos. E como aqueles que sofrem, pensam e clamam por justiça, os inventores do instituto criminoso são atingidos, uma vez que ainda se encontram em condições de inferioridade vibratória. Tenha cuidado com os seus pensares, procure viver cada vez mais para o trabalho edificante, pois do contrário ficará sujeito a muitos achaques tormentosos, quando alguma vítima do instituto criminoso lembrar com ódio e rancor dos seus inventores e algozes. – Devo defender-me, então? – Use do recurso exato com todo o rigor. Trabalhe e seja assíduo leitor do Evangelho. Eu pelo menos, não conheço terapêutica melhor. Para falar certo, digo que não existe outra, no seu caso. – Muito bem, doutor; agradeço pelo aviso. Nem sequer imaginava tal coisa. Tomou ares de rigorosa observação, advertindo: – Proclo, você não valoriza o seu trabalho; não tem confiança nas lições que passa à frente, julgando ser apenas um modo de empatar o tempo, enquanto não for transferido para outra esfera e para outro serviço. Tenha em mente, porém, que o seu trabalho deve ser levado a termo com todo o rigor. Seus passos estão sendo vigiados e suas palavras estão sendo medidas. Elementos de fiscalização rondam ocultamente as nossas atividades, registrando as nossas reações emotivomentais. E você, lembre-se, já foi colhido em falta várias vezes. Decresceu, portanto, o seu poder defensivo; sua aura de revestimento está furada, está lesada, possibilitando a entrada de cargas mentais e de projeções energéticas perigosas. Aturdido, fitei-o com atenção, desejando que falasse mais, que me informasse de outras verdades ou leis de mim desconhecidas; mas o médico afirmou, tendo a seguir todo o rumo de seus deveres: – Algum dia, Proclo, você fará o seu devido resgate... Por ora, meta isto na cabeça: vá tomando pé na arte de ensinar as veredas do Senhor! Porque você sofreu pelas mortes e malvadezas, mas está com os deveres de reparação doutrinária em débito. Algum dia, não sei quando, o Caminho do Senhor será, em sua essência, reposto no lugar, cumprindo que seus antigos corruptores venham a produzir o que devem, trabalhando pelo resgate direto e objetivo. Repito, Proclo, que pagar pelas mortes e pelas trapaças é uma coisa, sendo outra a reparação devida aos erros doutrinários fabricados e impostos. Não se esqueça do que ora lhe digo. Ali fiquei pensativo, até que apanhei o Evangelho entre as mãos, encarando-o como se fosse o único programa redentor; verdadeiramente, falando agora de fatos que ocorrem há mil e trezentos anos, repito a minha impressão, pois o Evangelho contém tudo para ser absoluto programa redentor. O livro que exemplifica a Lei, o Amor e a Revelação, de maneira como Jesus Cristo o fez, encerra o conteúdo geral. A questão é viver o Evangelho, não apenas comentá-lo ou dar-lhe feição exterior, em atos ou programações rituais. Jesus, em verdade, não quis jamais ser festejado como figurão ilustre, colocado em cima dos santuários de pau, de pedra, de ouro ou de matéria alguma, para aí receber elogios rasgados e festejos maquinais; quer o Divino Modelo, ser imitado, senão de um salto pelo menos de um pouquinho por vez, na razão direta das possibilidades de cada um.

Por falar nas possibilidades de cada um, relativamente ao Evangelho, que é o programa de trabalhos de Jesus, e não compêndio pomposo de reservas falazes e retóricas, e nem tratado de organização ritual ou idólatra, para usos clericais, devemos repetir o seguinte: se fosse possível à centelha, uma vez emanada do CENTRO GERADOR ou Deus palmilhar a estrada reta, o caminho justo, a via perfeita, sem se deter em superstições, em práticas idólatras, em adorações exteriores por meio de simulacros, seria isso o ideal. Entretanto, como a marcha de retorno ou de religação é lenta, laboriosa e cheia de percalços e de contradições, convém que cada qual se alerte contra as concepções ultra-sectárias, aquelas que sendo úteis e cabíveis até certo ponto, a seguir tornam-se vícios prejudiciais. A evolução é por lances, bem o sabemos; mas se alguém fizer finca-pé em determinados conceitos, encravando-se neles, será como aquele viajor que, estacando em determinado local, nunca mais pode atingir o fim da jornada. Assim mesmo se passa com as verdades fundamentais, ( com a Síntese da Verdade ) que devem ser estudadas, analisadas, vasculhadas, pois se desdobram em verdades infinitas, em matizes incontáveis de expressão. As religiões clericais ou formais tem sido pródigas em trancar portas e truncar o conhecimento. Converteram-se em fabricantes de misoneísmos e catadupas de molambismos interpretativos, a ponto de se converterem em assassinas de Profetas e em fautrizes de guerras e de inquisições. Em um antiquíssimo documento nosso, lemos o seguinte, atribuído a um dos vinte e tantos Budas que ornamentaram o rol das Grandes Revelações orientais:

“Desde todos os tempos, ó discípulos, foi ensinado que tudo deriva de UM SÓ; que todos temos em nós mesmos as virtudes desse UM SÓ; que através da evolução devemos respeitar as virtudes do UM SÓ, que se encontram em nós; que melhor seria, portanto, que ninguém descuidasse das virtudes do UM SÓ, que se encontram em nós, e que esperam pela sua libertação. Sabeis, portanto, que a libertação das virtudes do UM SÓ, significam a nossa mesma libertação? É do vosso conhecimento, ó discípulos, que à Doutrina cumpre ensinar essa Verdade, ensinando, a seguir, todas aquelas verdades que lhe formam a coroa das complementações? Dizei pois aos idólatras, àqueles que se valem de ídolos e de formas exteriores de culto, que o tempo passa, os conhecimentos crescem, as responsabilidades aumentam e o Senhor pedirá contas pelo uso de tais recursos viciosos. Dizei aos idólatras, que as idolatrias que até certo ponto são úteis e confortam, assim que exceda o tempo que lhes é permitido, pela simples e sincera aceitação do crente, passam a ser de grande prejuízo, porque dificultam na intimidade do espírito o serviço de ligação com aquele que é UM SÓ, de onde tudo sai, onde tudo permanece e para onde tudo converge em plenitude de harmonia, por causa das virtudes do UM SÓ que foram Desabrochadas”.

Feitas umas tantas leituras, enquanto cumpria minhas obrigações, chegou o dia de topar com a leitura do texto supracitado, entrando eu a meditar nos meus trabalhos, nas minhas pregações, tudo à base de conversa, de falatório, de comentações apenas teóricas. Dei-me a perguntar a mim mesmo: Isto é tudo quanto eu posso e devo fazer? Em que mais poderia aplicar-me, para evangelizar conforme os exemplos do Cristo?

Procurei o médico, expondo-lhe minhas preocupações: – Doutor, eu tenho estado a meditar seriamente em assunto grave; gostaria de uma palavra sua, sobre tão magna questão. – Naquilo que me estiver ao alcance, serei todo ouvidos, Proclo. Bem sabe o quanto faço questão de ser útil aos meus semelhantes. – Eis aí – disse-lhe eu – o grande problema! O senhor faz questão de ser útil ao próximo. Eu, porém, o que faço? Não vivo a falar, a comentar, a ler os textos, apenas? O senhor acha que Jesus fez apenas isso, na sua função de Divino Exemplo? Deu-se a falar comodamente ou escreveu refestelado em alguma poltrona? O médico encarou-me com viva simpatia, sorriu e perguntou-me: – Que mais desejaria fazer, Proclo? Estando cheio de cogitações recalcadas, saturado de meditações, expus os meus pensamentos: – Em matéria de Lei, Jesus saiu pelo mundo e procurou vivê-la, torná-la programa social intensamente aplicado: em matéria de Amor, equipou-se de renúncia, a fim de enfrentar a lágrima, a chaga, o aleijume, o frio, a chuva, a calúnia, a mentira, o ódio, a prisão, a condenação e a crucificação; e em matéria de Revelação, além de ter tido Seus contatos com os espíritos, além de ter batizado em espírito, sabemos que teve o auxílio das legiões de Deus, para operar aquelas curas maravilhosas. Seria demais, doutor, que eu pedisse para tentar semelhantes atividades? Eu não poderia tomar parte no serviço de aplicações energéticas, de evangelização mais eficiente? Pensou o médico por alguns segundos, para dar-me a seguinte resposta: – Muito me alegra a sua disposição. Pode estar certo, Proclo, que apresentarei o seu pedido ao conselho terapêutico, que faz suas reuniões semanais, para tratar de vários assuntos clínicos, principalmente das questões atinentes ao uso das forças psico-energéticas. Como sabe estamos em região bastante inferior, cujos organismos densos oferecem resistência às melhores imposições vibratórias, pelo fato de não contarmos com elementos capazes. Nós, os que fazemos o serviço de cura e de doutrinação, somos apenas criminosos um pouco mais arrependidos e prepostos ao bem. Sucede, também, que quase ninguém pára neste posto de socorro, indo para a frente assim que vão ficando melhores. Talvez que, penso eu, para fazer a sua vontade, se for aceita, tenha que ser transferido. Por isso mesmo, vá orando com fervor, até que lhe dê a devida resposta. Estive aguardando a reposta por alguns vinte e tantos dias, durante os quais trabalhei e orei intensamente, a fim de que a resposta me fosse concorde; e quando ela veio, foi-me transmitida assim: – Foram consultados os seus documentos anteriores, informando eles que não comporta o seu Carma o direito de semelhante aquiescença. Como porém a sua vontade concorda perfeitamente com o serviço em exercício, constituindo complementação ideal e de efeitos práticos interessantes, concorda-se com a formação de um novo departamento local, cujo objetivo fica sendo a aplicação das forças psico-energéticas, em combinação com as lições evangélicas. O conselho terapêutico destinará para o novo departamento, todos aqueles casos oriundos da Inquisição, tantos quantos sejam passíveis de tratamento, a fim de que os trabalhos dos elementos componentes do mesmo se articulem com o padrão das faltas cometidas, e dos resgates a que se acham obrigados no porvir, quando soar a hora da restauração do Caminho do Senhor. Foi encaminhado o pedido de alguns elementos competentes, devendo comparecer, em breve, ao departamento terapêutico, aqueles instrutores iniciais, cuja permanência no departamento será apenas a estritamente necessária. Ouvido isso do médico, senti em mim eclodir impetuoso anseio de render graças a Deus. Retirei-me e fui ao santuário do local, um templo que sustinha numa parede apenas uma cruz, simbolizando a necessidade de compenetração dos deveres e de renúncia ao máximo. Quando estava orando, senti que me colocaram as mãos sobre a cabeça, ouvindo a seguir que alguém dissera: – Acha que Deus está aqui, mais do que junto aos irmãos que lhe carecem das palavras esclarecedoras e da piedade consoladora? Por que para merecer o acordo trabalhou e orou durante o serviço, e agora, para agradecer a Deus, vem debruçar-se diante do que é simplesmente matéria? Não leu tantas vezes, que a matéria deve ser apenas bem usada e nunca transformada em objeto de culto? Caso contrário, quando saberemos adorar a Deus em Espírito e Verdade?

Olhei para trás e vi, que um homem muito alto ali estava, observando-me. Levantei-me e encarei-o com respeito, porque ele evidenciava elevação que ultrapassava de muito aos habitantes do local, pelo menos aqueles que eu conhecia. – É verdade... – foi o que disse eu, anuindo, quase que sem querer. Antes que eu dissesse mais, ele acrescentou: – O templo e a cruz aí estão, para quem, lendo, entende menos, compreendeu? O seu caso entretanto, obriga-o a mudar o rumo das aplicações religiosas. Tendo você cometido falta contra o batismo de espírito, que implica em cometer falta contra a Lei e contra o Amor, deve procurar com todo o rigor possível, para efeito de reparação doutrinária, ir lutando contra toda e qualquer forma de idolatria e de cultos exteriores, compreendeu? – Já havia lido muito sobre isso meu senhor; mas não me ocorreu, no momento, que Deus não é escravo de templos e de formalismos inventados por homens. Creio que é o vício da idolatria, que faz a gente não saber respeitar pelo que é mais esplendoroso e infinito, para sujeitar-se ao que é mesquinho e rampeiro, com isso pretendendo também sujeitar o próprio Deus! – Exatamente! – afirmou ele – Vamos então ao conselho terapêutico, pois vim mandado para iniciar neste local o departamento de aplicações psico-energéticas. Procurei-o em primeiro lugar, porque foi o reclamante, porque manifestou o desejo de assim proceder, para melhor servir ao próximo e mais se aproximar do Evangelho Vivo de Jesus Cristo. Ouvindo aquilo, meu coração parecia querer arrebentar, saltar fora do peito. A voz ficou sufocada, nada pude proferir. O enviado superior, interpelou-me então: – Que tal o corpo que continuamos a ter? Que tal os nossos órgãos? Logo refeito, falei-lhe como de fato sabia e sentia: – Depois de reconhecer como é o mundo espiritual, onde tudo continua a ser, onde nenhum salto se observa, nada mais estranhei. Compreendo que continuarão a existir novas Terras e novos corpos, sempre em conformidade com o merecimento de cada um, sempre no plano de gradação evolutiva lenta e laboriosa. Assim é que temos aprendido e assim é que reconhecemos que é. Com doçura fraternal, observou-me: – Muito temos lido, muito temos adquirido em teorias; devemos todavia, não esquecer as práticas, transformando as lições em atos vivos e comuns. – Realmente, meu senhor; confesso que temos as grandes lições dos Grandes Reveladores, sobre as verdades fundamentais, que nos concitam aos atos, às práticas mais puras e simples, isentas de todo e qualquer artificialismo religioso. Entretanto, tenho notado, o vício da idolatria e dos cultos exteriores nos fazem esquecer os nossos mesmos fundamentos, e as nossas herdades em virtudes várias, que deveriam ser o objeto de nossas melhores diretrizes, pois temos certeza que as glórias do espírito derivarão do despertar interno, e nunca das práticas idolatradas e dos cultos supersticiosos e simulados. Satisfeito, murmurou: – Não se moleste aquele que, praticando a idolatria, cultua com o seu máximo alcance de entendimento; no entanto, não se faça acordo com aquele que, podendo cultuar melhor, faz questão de continuar idólatra. A cada um será exigido, segundo o seu conhecimento de causa; e a Lei não dormitará, para cobrar pelos feitos, em concordância com o grau de responsabilidade. Ai daqueles, porém, que fazem comércio idólatra, pretextando que todas as religiões conduzem a Deus, em igualdade de condições. Afirmamos que a evolução é gradativa e que ninguém tem o direito de truncar o progresso de seus irmãos, porque se julgue no direito de sustentar as suas tendências sectárias ou os seus interesses subalternos. Chegados ao médico, dali fomos ao chefe geral ou disciplinar, a fim de providenciar o recinto, o local onde funcionar o novo departamento. Para não me estender nos preparativos preliminares, digo que tudo foi instalado, sendo formado o seu corpo de serviços por uma vintena de elementos, principalmente os médicos e enfermeiros, sem deixar de merecer especial acatamento os pregadores religiosos, aqueles que, por

função, estariam sempre ligados ao Plano Superior, ao Mundo Divino que está nos fundamentos de tudo. Começaram a ser postas em prática, naqueles dias, as forças psico-energéticas, havendo a utilização de águas, sucos e alimentos. Tudo se resumia no emprego dos poderes mentais, que carream energias e fluidos. Quanto melhor o pensar e o sentir dos agentes servidores, e quanto mais acessíveis os pacientes, tanto mais os resultados seriam satisfatórios. Tudo em plano de ambivalência. E os agentes de outras esferas e regiões fariam o mais tudo, consoante a Lei permitisse. Os pecadores que se fizessem penitentes, que se tornassem dignos; caso contrário, nada feito. O Santo Ofício da Inquisição foi produzindo seus assassinatos, foi oferecendo fartos elementos de trabalho. É que deixavam o mundo os inquisidores e as suas vítimas, havendo muito o que fazer, pois eram para ali conduzidos, uns e outros, quando chegasse a hora ou quando as necessidades determinavam. E assim foi que se passaram séculos, muitos séculos, sem que eu deixasse aquele local de trabalho, aquela fonte de ressarcimentos. Quando deixei o departamento, por volta dos albores do século quatorze, foi para tomar parte nas premissas reformistas encetadas por Wicliff, na Inglaterra. Desde então, como as etapas restauradoras obedeceram a fatores cíclicohistóricos, tivemos a oportunidade de retorno à carne, tomando parte nos movimentos de Lutero e de Kardec, aquele conseguindo a liberdade de culto, a tradução da Escritura para o alemão e a sua disseminação, e este arrastando consigo a grande eclosão mediúnica, a renovação do Pentecostes em grande escala, transmitindo os livros básicos da doutrinária; isto é, tendo por base a Moral, o Amor e a Revelação, cujos reflexos práticos são a Ciência, a Filosofia e a Religião. Desde então, conforme as ordens emanadas do Plano Crístico, o mundo espiritual entrou a comungar com os homens em escala cada vez mais ascendente, a fim de lhes ir ministrando o conhecimento das verdades fundamentais. A sociedade astral, complexa em seus valores hierárquicos, infiltra-se nos meandros humanos e oferece lições consoladoras, conclamando seus irmãos a que se devotem ao serviço da Sabedoria e do Amor, a fim de que a terra se torne um mundo de Paz e de Harmonia.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.