[user_registration_my_account]
Capítulo 6 de 20
Primeira Parte — parte 3 de 7
Confissões de Um Corruptor · Osvaldo Polidoro
doutrinária, reforma que teria por base a eliminação das comunicações e a ereção do clero a ser criado, com base na mais irrestrita proteção aos direitos do Império. Que tudo se fizesse em nome de Deus e do Cristo, porém em benefício do Império. Recordei os dias, o triunfo sobre Maxêncio, e a fundação da Igreja Católica Apostólica Romana, em detrimento da Igreja Viva de Jesus Cristo, edificada sobre a Revelação, sobre o derrame de espírito, o Pentecostes que jamais devia ter fim. E senti calafrios, revivendo os atos de perseguição, a caça aos do Caminho, que preferiam morrer no Circo, sobre flechadas ou massacrados, antes que se converterem em traidores de Jesus, o Crucificado. E como a ordem imperial devia ser cumprida a rigor, sabe Deus ao certo quantas mortes custou a fundação do Catolicismo. Os discípulos do Crucificado, por causa da Revelação, da comunicação dos espíritos, não temiam a morte! Sabiam que eram imortais e que morrer pelo Crucificado seria alcançar a maior glória, seria conseguir a coroa final, a libertação espiritual. Os dois poderes travaram luta de vida e morte; os discípulos do Cristo entraram com a sinceridade elevada ao grau de martírio, os beleguins de Roma concorreram com a chacina feroz, com frenesi sanguinário, sonhando com o domínio do mundo, esquecidos de que a função da vida é entregar o homem imortal ao além túmulo, onde o esperam a Lei e a Justiça. Dentro em pouco, salvo casos isolados, Roma e toda a volta do Mediterrâneo estavam conforme os desejos do Império; não havia quem desejasse cultivar os contatos mediúnicos, quem ousasse falar no batismo de espírito. Passada a refrega violenta, começaram a ser feitas as maquinações teóricas, deram-se início à corrupção dos manuscritos. Surgiram, então, as interpolações e os desvios de sentido. O simples batismo de espírito sobre toda carne, a abertura das portas iniciáticas, transformou-se em batismo de “Espírito Santo”. E este, como convinha ao Império, que não podia admitir a comunicabilidade dos espíritos, porque estes ordenavam a que se observassem os exemplos do Cristo, aquilo que seria a morte do Império, este, o “Espírito Santo”, passaria a ser uma terça parte de Deus, coisa que estava longe de se comunicar. Assim terminou a Igreja do Cristo, edificada sobre a Revelação; e assim começou a era das trevas, da idolatria e dos mercantilismos vergonhosos, acrescidos de sangueiras tremendas. Atirado ao chão, curvado sob aquelas tremendas avalanches de tortura, considerei como teria passado para os reinos da morte. Em que tempo? Em que condições? Que coisas se estariam passando em Roma? Que destino teriam dado ao credo inventado pelos homens, em nome de Deus e do Cristo, para servir aos exclusivos interesses do Império? Em que ano estaria vivendo? Quanto tempo ficaria entregue ao domínio da treva absoluta? Quanto tempo ficaria ali, naquela região sombria, sujeito àquele areião vermelho, quentíssimo e fedorento? Aquela fagulha luminosa, tremeluzente, onde teria ido parar? O que seria? Depois de tanto meditar, comecei a pensar no que seria eu, se mais aquele corpo espectral, se mais uma alma imortal, se um conjunto de tudo entregue aos tormentos eternos do inferno. E como existia, porque pensava e sentia vigorosamente, girava sempre em torno da mesma tese, sem de nada valer, sem adiantar coisa alguma. Veio-me à idéia pensar na fome e na sede, criando em mim o anseio desenfreado, a indomável necessidade de comer e beber! Havia estado sem ter essas necessidades por quanto tempo? E como sentia, agora, o desejo violento de comer e de beber? Como iria me arranjar, depois de tamanhas torturas, ainda com essa outra por sobrecarga? Se aquele areal vermelhão e quente não fosse fedido, eu teria comido areia. Água, entretanto, nem por sonho poderia cismar em encontrar. E foi assim pensando que criei em mim o maior, o campeão dos infernos! Eu todo me converti no medonho inferno que engendrei; eu todo era fome e sede! Era desespero mortal, se é que tem cabimento considerar a morte nos âmbitos da imortalidade. O delírio foi subindo de intensidade, foi me alucinando; convertido em alguma coisa febril, desbragadamente febril, atirei-me em correria sobre o areal escaldante! Não sei de onde veio a força, o poder, a vontade fantástica, naquele momento. A idéia era de febre, de terror alucinante. Entretanto, eu corria, gritava, chamava, invocava o Criador e o Cristo!
Não sei quanto terei andado, não sei os dias ou os tempos que terei empregado naquela corrida macabra; sei que vi, em dado momento, bem ao longe, qualquer coisa que se me afigurou ser vegetação, árvores mirradas. Foi uma nova luta, outra alucinante corrida, a busca daquilo tudo. Eram mesmo arbustos mirrados, porém verdes, seivosos, para mim opíparos alimentos! Comi o quanto pude, sendo exato que o gosto acre me fez bem, deu-me sentido ao paladar e ânimo ao estado geral. Até os ossos, dos membros inferiores, que estavam de fora, parece que tiveram sua cota de revigoramento. Lembrei-me de que andando mais, correndo mais, poderia chegar a melhor lugar. A natureza deveria prosseguir em melhora, avançaria no sentido de opulência, de outras farturas. Foi então que subi um pouco, galguei uma elevação próxima, tendo vislumbrado ao longe campos verdes, árvores maiores, paragens férteis. Todavia, quando quis correr não pude fazê-lo. Estava melhor, mas não podia correr, como havia corrido até ali. Por que? Não sabia, não tinha a menor idéia sobre aquele impedimento. Não estava pesado, não me sentia empanturrado; estava bem, estava num paraíso, em vista do estado anterior, daquela febre de comida e de bebida, que aqueles ramos mirrados haviam saciado fartamente. Fui caminhando vagarosamente, observando que tudo melhorava; e foi com alegria delirante que acariciei os primeiros tufos de erva, o capim verde que se esparramava pelo chão úmido e fresco, qual graça de Deus a se ofertar prodigiosamente. E dali em diante, apesar dos muitos percalços que tive que passar, tudo foram graças a Deus! Eu sei o quanto devemos respeitar a lei das intensidades... Ao diminuir a dor mais potente, aquela fraçãozinha diminuída representa uma dita celestial trazida pelos ares da misericórdia. Ao atingir outra pequena elevação, deparei ao longe com horizontes mais claros e convidativos; andando mais, comendo aqui e ali ervas e ramos, fui sentindo que pruridos de paz, emergiam de minhas entranhas esfogueadas e ressequidas. A claridade que ia aumentando, a cada lanço da caminhada, a cada dia que passava, trazia consigo alguma coisa de suave, de acariciante. O sentido de paz e de ventura era evidente, era patente. E ao ter pela frente outra visão do horizonte, vi que montanhas havia, não muito altas, e que manchas brancas a elas se apegavam. Pensei que fossem habitações, casas pequeninas, tendo acertado. Quando estive a centenas de metros da primeira casinhola, notei que uma mulher perambulava pelo quintal, mexendo em roupas, o que muito me chocou, pois eu não tinha a menor idéia do que fosse o mundo astral, cópia exata do mundo carnal, e cópia que se desdobra em matizes variantes e incontáveis, desde o mais rude e sórdido até ao mais deslumbrante e divino que se possa imaginar. Fui chegando e, como era de esperar, pensei estar na Terra dos encarnados, julgando mil e uma coisas de mim e do meu estado. Tantas pensei, tantas engendrei, que não tive coragem de falar com aquela mulher. Passei a olhar muito para mim mesmo, para meus ossos expostos, para o pasto dos infernos em que me fizera. E não pude chegar à conclusão alguma, porque tinha certeza de haver estado centenas de anos ou milhares de anos naquelas trevas absolutas. Como é que estava, agora, frente a frente a um local, todo ele terrícola, diante de uma casa e nela estando uma mulher a cuidar de suas roupas? Onde estava eu afinal de contas?! Sentei-me debaixo de uma frondosa árvore, procurando atinar com a situação; e como tudo parecia e era mesmo denso ou material, tudo terrícola, absolutamente terrícola, fiquei sem nada saber, vagando pelos ermos da quase estupidez. Tive o desejo de me julgar louco, varrido, porque só a loucura poderia admitir toda aquela tremenda alteração na ordem das coisas e da minha situação em geral. Quando me lembrei do céu-espaço, fui espiá-lo, notando que o sol pendia já e que era apenas mais vermelhão do que o sol terrícola. Talvez que fosse muito mais vermelho, com o que eu não atinaria muito bem, por haver estado em contato com uma natureza de todo vermelho-opaca, roxa e por vezes quase de todo negra. Acostumado ao tom de cor, não saberia distinguir de todo até onde seria aquele sol mais vermelho que o da Terra dos vivos. Nada, porém, foi além de meditar muito e a nenhuma conclusão interessante chegar. Meus pensares nada adiantavam, nada mudavam a natureza local. Meus cálculos, minhas cogitações, eram como se nada fossem; o problema estava ali, para ser conhecido e respeitado, não para ser julgado e
modificado por mim. Essa é que era a verdadeira situação a enfrentar. E foi pensando nisso que me dirigi à casinha encravada na encosta, para falar à mulher que remexia suas roupas, que lidava em favor de suas obrigações, terra a terra com as necessidades rudimentares e afetas à vida carnal. Temeroso de assustar, de horrorizar, detrás de um arbusto exclamei: – Ó senhora, eu necessito de socorro!... De amparo!... Ela deixou suas roupas, tendo vindo a mim, encostada a uma cerca feita de paus espetados. Assim que esteve mais perto, propôs: – Por que não vai ao posto de socorro, do outro lado da montanha? – Eu nada sei disto por aqui, minha senhora... Que lugar é este? Estou empenhado em saber, mas não posso chegar a conclusão alguma, porque tenho a cabeça cheia de cismas e de concepções contraditórias. A mulher olhou-me com olhar penetrante, como quem atravessa corpos com a vista, para depois dizer-me, em tom de imensa compaixão: – Pobre irmão!... Pobre irmão!... – Pobre... De todo pobre... Miserável, isso sim!... – repeti, angustiado, envergonhadíssimo, ferido em minha vaidade. Encolheu os ombros, como quem concorda com tudo, avisando: – O senhor, segundo me estão dizendo, tem três séculos de trevas nas costas! Deve ter feito coisas terríveis, deve ter sido grande inimigo da virtude! – Estou mesmo no mundo espiritual? Já morri para a vida humana?... Ela assentiu com a cabeça, balbuciando: – Decerto que está... Por que duvida? Não sente que há por aqui um sentido de paz e de amor que a vida carnal não pode oferecer, embutida que está na densidade material, densidade que retém as expansões naturais do espírito? – Senhora – falei-lhe – eu nada disso entendo... Estou até sem carnes... A senhora teria medo de saber o que ocorre comigo. Acho tudo isto muito contraditório, muito sem coerência... A senhora tem estado a lavar roupas, não é isso? E por que lavar roupas se já morreu?... Ela sorriu, um sorriso brando, pensativo, consultando-me: – Continuamos vivos, não é verdade? A vida espiritual jamais termina e nestas regiões tudo acompanha o grau de adiantamento do espírito. O grau real e não o aparente, compreende? O que realmente é, e não aquilo que poderíamos pensar que somos, entende o senhor? Porque uma coisa verdadeiramente somos, enquanto que podemos pensar de nós mesmos aquelas maravilhas que não somos. A morte situa as almas por suas respectivas valências vibratórias; logo, de que adianta pensar em grandezas que não nos pertencem? Demais, meu senhor, as verdadeiras grandezas, o verdadeiro valor é por natureza espiritual e ninguém consegue enganar a Deus. O senhor deve saber isso, pois não?... Enquanto eu estive meditando verdades dolorosas, sem responder, ela ordenou-me que esperasse, pois iria buscar um pano com que cobrir minha seminudez. Ao voltar, transpôs a cerca de paus espetados, entregou-me o pano alvo e grande como um lençol, dizendo: – Cubra-se, vá em busca do posto de socorro... É o que mandam dizer-lhe... – Quem? Quem é que manda dizer, minha senhora? – Os guardiões do deserto... Aqueles que vigiam o areal solitário e triste, por onde o senhor andou, a fim de chegar aqui. Informei-a: – Há pouco falou a senhora em haver por aqui um sentido de paz e de amor, que eu infelizmente não sinto bem, ou não sei se o percebo, em virtude de ter vindo de lugar tenebroso, e de estar na situação em que me encontro, a pior que poderia imaginar. Agora diz-me a senhora de guardiães, de gente que vigia o deserto árido, vermelhão e solitário por onde andei caminhando, correndo mesmo feito louco, movido não sei por que delírio incentivador. Pode me dizer, senhora, onde está essa gente? Gostaria de encontrar alguém, alguém que me fizesse companhia, que me pusesse a par de coisas que eu não posso compreender.
Ela respondeu-me: – Em primeiro lugar, os guardiões são invisíveis ao senhor, porque o senhor é ainda muito culpado, por ter sido um traidor de Jesus Cristo, de Sua Doutrina; em segundo lugar, o senhor está por isso mesmo embrutecido, impossibilitado de captar as melhores vibrações do ambiente, podendo quando muito, beneficiar-se da claridade e das graças que a natureza por aqui oferece; e em terceiro lugar, deve ir em busca do posto de socorro, que é o local justo para onde ir. Ali o senhor encontrará todos os recursos; isto é, conforme os merecimentos... Não se esqueça desta realidade: O mundo espiritual tem de tudo, das trevas abismais aos altos planos de gloriosa luz e majestade. E cada qual recebe segundo os seus merecimentos. O senhor, por exemplo, recebendo as carnes que lhe faltam, já se deve dar por muito feliz... Afinal, deve compreender, é do número dos que corromperam a Excelsa Doutrina, que se estriba na Lei, no Amor e na Revelação. É um grande criminoso! – Um grande condenado! Condenado!... – emendei, sem saber como, parece que movido por íntima e estranha força. – Não é o primeiro, meu senhor; outros já passaram por aqui, e eu fiz por eles o que estou fazendo pelo senhor. Deve caminhar, deve ir em busca do posto de socorro. Eu também faço parte dos que zelam pelo areal e seus viajores... Esta casa e algumas outras, que estão esparramadas por aí, por essas encostas, pertencem ao serviço de socorro. Procure compreender, portanto, que há ordem na Emanação e que devemos, se quisermos ser felizes, acompanhar o ritmo da Harmonia Geral. Depois de pensar um pouco, falei-lhe: – Reconheço que sim... Mas é tarde, é muito tarde... O mundo me absorveu, o mundo me abocanhou por inteiro!... Pensei no Império exterior, nada fiz para engrandecer o império interior... Lembro-me do que diziam os do Caminho, quando se entregavam à morte sem o menor receio, alguns bradando vivas ao Cristianismo, glorificando a Deus pelo fato de poderem morrer pela Causa do Messias. Por acaso, senhora, eles também passaram por aqui?... A Senhora os viu?...Porque foram muitos milhares atirados a morte, por causa da fé que depositavam no Messias, no Cristo que os batizara em espírito. Ela assentiu com a cabeça, murmurando em tom maternal: – Nenhum deles, que eu saiba, passou por aqui. Embora eu esteja por aqui há poucos anos, sei que nenhum deles por aqui passou. Isto é para criminosos, não é para virtuosos. Eu disse ao senhor que o mundo espiritual tem de tudo, desde as máximas trevas até os altos planos de luz e de glória. Certamente, como deve entender, o inferno é para os infernais e o Céu para os celestiais. E como variam os graus de merecimento, assim variam os locais de estar. Fazendo breve estacato, olhou ao longe, apontando e dizendo: – Lá vem outro, seguindo o mesmo rumo... Também aquele, saiba o senhor, virá cheio de crimes, de trevas, de dores e de dúvidas. Também ele gostaria de fazer o mundo a seu gosto, a gosto de sua estultícia, por não concordar com a Sabedoria Infinita de Deus! – Devo ir-me, então, minha senhora? Ela abanou a cabeça negativamente, esclarecendo com carinho: – O seu verdadeiro interesse está em procurar o posto de socorro; eu já fiz a parte que me tocava, meu senhor, meu irmão. – A senhora é um anjo de bondade... Falar consigo foi um prazer muito grande, que eu jamais esquecerei. Por que está aqui, sendo tão amorosa como é? Sorrindo e abanando a cabeça, repetiu: – Por que julga a Sabedoria Divina, em lugar de acatá-la e vivê-la? Eu também vim das trevas, eu também matei alguns, não querendo ser mãe... Depois de recolhida e instruída, escolhi um posto de serviço, a fim de fazer pelos filhos de outras mulheres o que não soube e não quis fazer pelos meus. O senhor está em condições de andar e de se cobrir, não está? Saiba, porém, que aportam aqui aqueles que carecem de outros cuidados, antes de poderem seguir o rumo do posto de socorro. Eu e mais duas mulheres, temos feito desta enfermagem o instrumento de redenção, compreende? E se quer saber mais, saiba que meu esposo foi quem o fez atingir esta casa; eu e ele erramos muito, mas ele veio primeiro e me amparou na hora certa. A seguir, vim ter aqui, onde ele já trabalhava desde muito
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.