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Capítulo 4 de 20

Primeira Parte — parte 1 de 7

Confissões de Um Corruptor · Osvaldo Polidoro

Sendo parte integrante do Cosmo infinito, cada espírito é, pelo direito de individualidade, um centro desse mesmo infinito Cosmo. Antes de saber o que é, durante o tempo que vaga pelos sendeiros da inconsciência individual, desde antes de habitar o reino mineral, onde começa a sua marcha logo que emanado da ESSÊNCIA DIVINA, tem muito cabimento e justiça o fato de ser irresponsável, de viver por conta dos automatismos instintivos. Até mesmo depois de haver feito sua relativa escalada, assomando ao pórtico humano, porém em suas mínimas expressões, que é como primitivo ou silvícola, tem por direito decorrente não atender aos reclamos da valorização psíquica, das excelências conceptivas do homem civilizado. Quem desconhece a sua Origem, o seu Plano Evolutivo e a sua Finalidade, tem o direito de ser inatacável em seus mandos e desmandos; quem já chegou a ter alguma noção de seus direitos individuais, tem por obrigação reconhecer e respeitar os direitos alheios, na mesma proporção pelo menos; e quem se acha arvorado nas alturas do chamado Senso Cósmico, paira sempre embutido na mais excelente obrigação religiosa. Não tem o direito de alegar desconhecimento de causa; a sua responsabilidade se acha definida, pela mesma consciência cósmica de que é senhor por evolução. A base religiosa, desde que tenha informe histórico, é a Lei! Ela data dos mais antiquíssimos tempos, ela vem dos primórdios védicos, tendo sido muitas vezes retransmitida no curso dos tempos, no seio dos tempos e das eras, das raças e dos povos. E quando cumpriu à tarefa histórico-evolutiva apresentar ao mundo o mais alto Dignatário e Divino Portador da Graça e da Verdade para toda a carne, o testemunho desta assertiva foi dado por Ele, quando disse que veio para cumprir a Lei e não para derrogá-la. De algum modo, feliz daquele que chega a ter conhecimento da Lei; é sinal que atingiu o grau evolutivo para tanto, é prova de que já venceu a multimilenar carreira através dos reinos inferiores. De certo modo, porém, ou em face de certas infelizes atividades melhor fora que não se soubesse de sua existência. Porque o grau de conhecimento de causa é argumento fundamental, que nenhum álibi jamais conseguirá derrubar ou neutralizar. Fala-se muito no relativo livre arbítrio; mas bem poucas vezes temos medido através das próprias obras, a extensão de sua tremenda capacidade registradora. Ao se considerar a vigência da Lei, em tom fartamente teórico, bem poucas vezes compreendemos que praticamente estamos desmentindo as nossas mesmas falas e proclamações. Na maior das vezes, reconhecemos os fatos legais para na prática podermos esquecê-los, quando não aborrecê-los frontalmente. E é por isso que, ao que por Deus foi feito centro do Cosmo infinito, cumpre sujeições amargurosas. Se lhe é devido crescer nas Divinas Virtudes Íntimas, até planar nos cômoros das clarinadas psíquicas, tornando-se vazador da Excelsa Vontade, filtro ou refletor da Luz Divina, por usar mal o direito de relativo livre arbítrio, o que lhe acontece é ter que se sujeitar às condições e situações mais infelizes, tragando nas vascas da existência o fel das culpas acumuladas, e por vezes acumuladas com todo o rigor do malsinado devotamento aos fastos iníquos. Em que pese parecer ironia vertente dos paradoxos em que é rica a messe humana, verdade é que comumente convertemos em realidade viva, aqueles mesmos fantasmas infernais que tanto proclamamos a conveniência de estarem para sempre mortos. Bem disse o Profeta, que a sabedoria

do homem é falsa e traidora. Ele não quis, é evidente, desmerecer os verdadeiros recursos do cérebro e do coração humano; ele quis e fez, com perfeição, escandalizar a sua virtude. Ele sabia que a verdadeira sabedoria é aquela que se torna o reflexo da Divina Sabedoria, que é aquela sabedoria que sintoniza com a Divina Sabedoria. E tanto prova que sua razão estava certa, o fato de ter vindo o mais alto Dignitário a dizer, que não tinha outra vontade a pôr em prática, que não fosse a Vontade do Pai. Bem sabemos nós, espíritos de alguma desenvoltura experimental, não quero dizer senhores de alguma sabedoria espiritual, que a missão progressiva do filho é tornar-se reflexivo das Virtudes Divinas; bem o sabemos, repito, que é para ser assim. Longe vem o tempo, no entretanto, em que estaremos aptos a semelhante função. Nossa condição é, ainda e infelizmente, a de quem, estando faminto, ser, todavia, sabedor de que excelentes manjares existem e foram preparados para serem ingeridos à farta. E por que, direis, tanta fome em quem sabe de tamanhas farturas? Como podem os percalços do caminho vedar a entrada aos que conhecem de fato as regalias do celeste banquete? E por sobre tudo isso, para agravo de quem sabe e não pode conseguir de pronto, e nem tão pouco em breve, tendo por cúmulo da desdita saber que o banquete é de origem íntima, é no Ego que se deve manifestar. Eis aí o quanto é e pelo quanto responde o filho de Deus – trazendo consigo mesmo as clarinadas celestiais, porém submissas, porém sujeitas aos tredos envoltórios do erro, aos truculentos assaltos da falsa e traiçoeira sabedoria do homem. Quanto seria limpo o caminho a palmilhar, quanto seria fácil a andadura pelas trilhas do progresso, se jamais os parvos conceitos arrogantes do homem quisessem fazer pose e alarde nas glebas onde um pouco de liberdade pode vilegiar! Ao menos que, desconfiado de suas plumitivas presunções, atendesse aos arroubos infalíveis de suas necessidades fisiológicas imediatas, para julgarse o que é e pelo que é, homem cheio de protuberâncias animalizadas, cativo de trastes atávicos, escravo de lastros pecaminosos. Ao menos que a isso fizesse notório; capaz de aliciar nos alicerces do caráter cauterizado, os elementos de falha e de culpa com que se advertir dos maiores males, com que se desviar das piores vielas. Entretanto, esquecido de suas fraquezas, entregue ao desvario das liberdades malsinadas acumuladas, eis que, seguindo qual animal de brida solta, avança e atira-se pelas brenhas do que a Lei adverte e proíbe. Eis o que é ter consciência da evolução feita, pela vivência dos recursos da inteligência, e com isso invadir a esfera de práticas criminosas, de onde logo mais surtirão as pronunciações cominativas, os veredictos inapeláveis. Porque assim é, em vista de ser fundamental e inderrogável, simples e exeqüível ao infinito Que prenda celestial é o espírito! Que de glórias divinas contém o filho de Deus! Quem poderia, em seu estado de embrião psíquico, como podemos qualificar o homem padrão, dizer das luzes que no âmago lhe conclamam ao ensejo libertador? E, todavia, eis que se agarra aos entraves do caminho, parece que num esforço terrível, para se tornar escravo das vagas duendes, com quem partilhar das paragens sombrias, dos sítios escuros onde agouros infernais recordam fastos macabros e cenas bestiais. Como se atira nas lamas e nos gemidos o filho de Deus, pelo simples fato de pensar que a Lei é apenas composição decorativa, enquanto pensa com orgulho e mil empáfias, que sua passageira liberdade poderá um dia afrontar os Divinos Alicerces do Universo Infinito! Tendo por natureza a Divina Paternidade, faz o troco do imbecil e agarra-se de unhas e dentes aos títulos, aos brasões e aos bazóficos institutos humanos. E por mais que se pense com repulsiva intensidade agora, que bem se sabe quanto deseja Deus e aquilo que podemos nós, a bem de todo o esplendor íntimo, não podemos esquecer que, naqueles dias, com a boca torta pelo cachimbo vicioso, a ninguém poderíamos ter ouvido, a pretexto de que, eventualmente, poderia estar com o mínimo de alguma possível e fugidia razão. Eis porque, companheiros de Origem, de Plano Evolutivo e de Finalidade, temos por obrigação máxima auscultar os ditames da Lei, para, confrontando os atos, aquilatar das responsabilidades futuras e das conseqüências do porvir. Porque o futuro é, saibamos ou não, queiramos ou não, a seara onde no presente vivemos a semear; tal e qual a semeadura, assim será no porvir a colheita. Se com ou sem Lei, se contra ou se a

favor, isso nos compete vigiar e a mais ninguém. Ao filho deu o Pai, de todos os tempos, as graças fundamentais e o conhecimento da Lei, quando é chegada a hora. Haja, pois, em cada filho de Deus, a melhor noção daquilo que é e para o que foi destinado. Acostumando a focalizar seus interesses pessoais pelo prisma das leis cósmicas, por certo virá a trilhar a senda harmoniosa, a via luminosa que o entregará, quando menos esperar, ao Luzeiro Íntimo, ao Pai Comum de tudo quanto existe. Importa, entretanto, que no âmago do homem se trave a luta titânica entre o que está para trás e o que está na frente; importa, segundo a linguagem antiga, que o Anjo sujeite o animal; que o espírito vença a impetuosidade vegetativa da carne e das infelizes tendências inferiores, tendências que se foram recalcando, registrando durante a viagem que se fez pelos reinos anteriores. Se o instinto foi a arma com que pudemos vencer noutros tempos, cumpre agora que a inteligência lhe apare as arestas, a fim de que essa força primitiva se converta aos poucos no maravilhoso poder intuitivo dos tempos porvindouros. Quem não luta para transformar o primitivo em força subliminal, claro que ficará sujeito a seus guantes; a regra é simples, embora demande esforço pertinaz. E que a vantagem é de imediato patente, disso podemos dar testemunho, nós que temos acreditado no milagrismo das falsas musas ritualísticas, motivo de não termos tratado com denodo das intransferíveis e inadiáveis tarefas, razão por que ainda vos estamos aconselhando, não como senhores de poderoso coturno hierárquico, mas apenas como culpados sobrecarregados de angustiosas experiências, de fartas exemplificações tangentes. A nossa vinda não foi para outro fim; foi para falar aos fracos a linguagem da lei de Causa e Efeito, ou dos efeitos que as práticas causais reclamam. A mensagem é de igual para igual, salientando-se apenas a importância dos bons avisos, de acordo com o programa de Jesus, de que outro seria aquele que de Seus divinos exemplos daria testemunho – o derrame de espírito sobre a carne.

O derrame de espírito sobre a carne, como sabeis, no Espiritismo se restaura e atinge os extremos da Terra, consoante as palavras que os dois primeiros capítulos do Livro de Atos proclamam ininterruptamente há quase dois mil anos. Porque o Livro de Atos força ao conhecimento desta realidade – a Excelsa Doutrina deixada pelo Cristo se alicerça na Lei, no Amor e na Revelação. Em seguida ao Pentecostes era comum dar-se isto, era natural perguntar se aos novos já se havia manifestado o intercâmbio com o mundo espiritual:

– “Vós recebestes já o Espírito Santo, quando abraçastes a fé? – Antes nós nem sequer sabemos se há Espírito Santo. – Em que batismo, logo, fostes vós batizados? – No batismo de João.”

E depois de ouvir Paulo essa resposta negativa, mas naturalmente cheia de pruridos esperançosos, prontificou-se a passar adiante a Graça e a Verdade trazidas por Jesus Cristo. Eis como está no décimo nono capítulo do Livro de Atos:

“E havendo-lhes Paulo imposto as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e falavam em diversas línguas, e profetizavam. E eram ao todo algumas doze pessoas.”

E que aos agraciados com o derrame de espírito cumpre discernir, compete analisar as comunicações, di-lo João Evangelista no seguinte texto, que se acha na sua Primeira Epístola, capítulo quatro:

“Caríssimos, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque são muitos os falsos profetas que se hão de levantar no mundo”.

Estava tudo dito, feito e em pleno curso de andamento; os Profetas estavam em dia, Jesus saldara a Celeste Promessa e os discípulos da Excelsa Doutrina viviam na plenitude da graça consoladora. Barrados pelo mundanismo, que se vazava pelos brasões temporais e seus beleguins, os discípulos da Verdade estendiam o círculo de suas atividades sob a égide dos emissários de Jesus; teriam que respirar o ar infecto dos porões mal cheirosos, mas visitava-os ali o esplendor das legiões servidoras, concitando ao cumprimento dos deveres, ainda que correndo riscos fatais, pois que se a isso fossem levados, além dos pórticos tumulares estaria o Príncipe dos homens, para recebê-los com a merecida coroa de vitória. Assim foram triunfando, na vida e na morte, através de felizes intercâmbios e de fúnebres perseguições os primeiros transmissores da Revelação trazida para toda a carne. Convencidos pela Verdade, emancipados pela Graça, aos milhares, foram escandalizando a morte através do Circo, das cruzes e dos cutelos, dos espancamentos e das pedradas. A plévia humana encontrou sempre de pé a consciência espiritual dos seguidores de Jesus; é que a Revelação mantinha alerta os cérebros e os corações, transformando simples homens em heróis. Reconhecendo a realeza do além-túmulo, os emissários encarnados do Cristo sorriam diante das ameaças do ignorantismo arvorado em autoridade. A Lei, entretanto, registrava os fatos. A cada um estava sendo marcada, para efeito de responsabilidade, nos registros íntimos, a função do momento. Alguns se aureolavam com as luzes do Amor e do Saber; outros, entretanto, faziam-se vítimas de si mesmos, tomando parte na chacina que as trevas promoviam em louvor dos abismos. Se em todos os tempos houve quem cometesse crimes contra a Virtude, certo é que nos dias do desabrochamento cristão tais práticas ganharam foros de galhardia em favor do Céu. Perseguir e matar aos que falavam em Jesus e viviam tendo contato com os chamados mortos era bem servir aos altos interesses de Deus, mesmo que a Lei fosse vinda pela Revelação e que ordenasse não matar. A concepção trevosa do homem podia estar adiante da maior advertência que jamais o Céu enviara aos homens. Que poder conseguiria ter a Lei, naqueles dias, perante homens que somente conheciam e se curvavam diante dos rituais e dos manejos inventados pelos homens? Deus quer assim? Mas quem é Deus diante do imperador e dos padres vendedores de salamaleques pagãos?! Acaso saberia Deus, mais do que pretendiam saber os políticos e os senhores dos templos? Tinha alguém certeza, de não mancomunar o Criador com as batoteiras de Suas criaturas inconscientes? E, se bem seja verdade constrangedora o fato de ainda viver a humanidade mergulhada nos mesmos chavascais ronceiros e revéis a Lei, o exato é que as coisas assim foram rompendo através dos dias, até que ao findar o primeiro quartel do século quatro, já finava por todas as partes, nas voltas do Mediterrâneo, sobre os impulsos romanos, a Graça e a Verdade trazidas pelo Cristo. A grande eclosão mediúnica do Pentecostes, que os primitivos discípulos faziam questão de estender pelo mundo a fora, até as extremidades da Terra, teve fim precisamente onde o catolicismo romano teve começo. Iniciada a vigência de Constantino, caducou a vigência do batismo de espírito. Foram dias de treva, de conturbação na crosta e de agonia nas esferas espirituais; o martírio de Jesus e de milhares de abnegados da Verdade ficou soterrado sobre os impactos imperialistas do novo imperador e de sua linha política. Onde se encontrassem cultores do mediunismo, ali haveria a reação da novel Inquisição; a glória do Pentecostes se transformara no vinco denunciador, dos que deveriam morrer em benefício do sadismo imperialista. Trevas desceriam sobre a Humanidade, nuvens negras envolveriam o mundo! O Profeta havia dito, importava acontecer:

“Eis a que vem os dias, diz o Senhor, e enviarei fome sobre a Terra: não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir a palavra do Senhor. E eles se comoverão desde um mar até outro mar, e desde o aquilão até o oriente; eles andarão por toda parte buscando a palavra do Senhor e não a encontrarão” – Amós , cap. 8.

A palavra do Senhor jamais foi a letra; ela sempre foi a Revelação. Com o advento do Cristo, a Graça e a Verdade, que viviam no círculo das Fraternidades Esotéricas, foram entregues a toda

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.