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Capítulo 14 de 20
Terceira Parte — parte 2 de 4
Confissões de Um Corruptor · Osvaldo Polidoro
A Lei ordenando não cometer idolatrias e o batismo de espírito ordenando que se apelem aos espíritos melhores ou santificados. Nada mais simples, nada mais justo, nada mais terra a terra com a dignidade da criatura. Os fanatismos religiosos jamais existiriam, se houvesse o bom conhecimento da Verdade. Como se sabe ser Deus a Verdade, temos por Verdade as manifestações de Deus. E como as manifestações de Deus são através de leis, sabemos que o conhecimento das leis que regem os fenômenos significa conhecer a Verdade. Ninguém, segundo a Sabedoria Antiga, pretendia começar da parte para o TODO, mas sim do TODO, ou da UNIDADE, para a parte. Primeiro o alicerce, depois a edificação. Isto é, começar do COMEÇO da UNIDADE, para ter certeza dos encadeamentos, em linha descendente. Este o ponto chave da Sabedoria, a linha mestra de todo o poder conceptivo. E para quem tivesse faculdades, forçavam o estado de êxtase, a visão da LUZ DIVINA, o chamado batismo de fogo. A seguir, tomando por base a conduta humana, o trabalho ascensional, a marcha evolutiva, vinha então o conhecimento das leis mínimas, das práticas iniciais. A preliminar nunca deixava de ser a conduta social, o tratamento humano. Sem fraternidade, nada feito. Os espíritos conscientes usam dignamente as leis de Deus, e, por isso, aplicam bem a todos os elementos e recursos. E a conduta de quem sabe o que é e de como deve ser aplicado aquilo que se sabe. Pelo contrário, os espíritos medíocres nada sabem fazer com elevação, acreditando que formalismos e adulações representam a melhor conduta. Por isso mesmo, nos mundos inferiores o problema religioso é o problema das maquinações clericais, é o problema das aparências de culto e do comercialismo em nome da fé. Enfim, as práticas medíocres comprovam a mediocridade de seus autores. Como se aproximam dias melhores para o Planeta, depois da tremenda transição por que terá que passar, o que estamos fazendo é precisamente isto – convidar cada qual a que faça o possível, a fim de acompanhar a sua marcha, a fim de não vir a ser contado entre os cabritos... Para isso, como temos dado provas através de nossas narrativas, lembramos as bases doutrinárias e os fatos históricos. Porque a Moral, o Amor e a Revelação, queiram ou não, estão nas bases de todos os eventos históricos da Humanidade. Vasculhando as antigüidades, encontrareis os escritos espiritualistas na base das mais remotas civilizações. A Diretoria Planetária de tudo tem zelado, na parte que lhe toca, para que não falte ao homem a instrução espiritual. Como não lhe toca ser responsável pelas liberdades individuais, quem comete faltas fica sujeito ao Supremo Determinismo. Nem mistérios, nem milagres, nem favores e nem desaforos. Apenas leis, sempre leis. A Bíblia fecha o seu acervo de informes com o Apocalipse; e o último capítulo é formidável em sua capacidade de advertência. Remetendo os tutelados ao Tutelar do Planeta, remetemos normalmente à Lei e ao Amor, a fim de que saibam como cultivar a Graça da Revelação. Isto quer dizer, então, que os errados como eu, eu e outros que andamos tomando parte no acervo de narrativas, vimos trazer o testemunho da Verdade que livra, o testemunho vivo, e testemunho eloqüente ao infinito, porque a nossa palavra, com ser autorizada pela Diretoria Planetária, contém a confissão das leis e dos fatos. As conseqüências de nossas obras erradas foram trevas e dores; e somos as testemunhas vivas da Lei. As conseqüências das nossas ações amorosas e sábias, estão custando o prazer de transmitir mensagens ungidas de elevado teor fraternal; e somos as testemunhas da Lei e do Amor!
Como a questão da hierarquia é indiscutível, ninguém poderia pretender contatos diretos com o Emanador e o Diretor Planetário, embora o Emanador seja infinitamente íntimo e a presença da Autoridade de Jesus seja fato consumado. Há que atender ao fator dos escalões hierárquicos, para que o sentido de fraternidade jamais fique à margem das transações entre irmãos. Quem quiser continuar resistindo ao Batismo de Espírito, certamente estará resistindo à Deus e ao Cristo. Nem por isso, entretanto, irão prejudicar em muito a evolução planetária. A Lei confere relativas liberdades e responsabiliza pelas obras, uma vez que nenhuma liberdade tem o direito de ser contra a Lei Geral de Harmonia. Cristo, agindo em sintonia com a Lei, e não podendo ficar com o Templo, antes sendo por ele escorraçado, foi cumprir com o Seu dever no seio do povo, nas ruas e nas praças. Portanto, lembrando os deveres de hierarquia e de fraternidade, lembramos que há muita diferença entre o rótulo e o conteúdo, entre as aparências e essências. Gente como eu, que tanto concorreu para estabelecer o erro, tem por obrigação advertir; para fazê-lo em base de simplicidade, diremos que autoridade espiritual se reconhece nos valores espirituais e não nas aparências fornecidas pelo mundo exterior. Se do ponto de vista hierárquico, o merecimento estivesse nos rótulos ou nas aparências, Jesus Cristo teria perdido tudo em favor de Anaz e Caifaz, de Pilatos e de Herodes... Importa é saber isto: de tudo aquilo que o homem tem e ostenta, o que sobrará para depois do túmulo? Luzes e Glórias ou tremendas decepções? Em muitas coisas da vida e para muitos efeitos, ao falarem as essências, recorrem aos sucedâneos; em matéria de Lei, de Amor e de Revelação, cremos que não adiantam semelhantes recursos. Eu, por exemplo, sou prova disso. E aqueles que mais fizeram pelos sucedâneos, depondo contra as essências puras, já disseram de suas respectivas tragédias. Com a hierarquia não se deve facilitar.
Nos dédalos infinitos do espaço e do tempo, comporta-se o espírito como quem de direito agencia leis e valores íntimos, registrando em si as reações, comprometendo-se com isso a ser feliz ou infeliz. Atuando sobre si mesmo, para desabrochar o Céu ou para cavar suas trevas e dores, nem sempre o faz com o devido e necessário conhecimento de causa, tomando muitas vezes a nuvem por Juno, colocando as práticas idólatras no lugar da Sabedoria e do Amor. Cede, por injunção da ignorância, situando alto os manobrismos inventados por homens, a fim de rebaixar a Virtude. Essa tem sido a conduta humana, salvo raríssimas exceções. Mormente ao se tomar o culto da fé simples meio de vida, processo de garantir a subsistência, por parte de indivíduos ou agrupamentos. E a separação entre os dois planos de vida, causada pelo acidente chamado morte, quase sempre entra em cena para causar tremendos abalos e dolorosas decepções. As presunções e as bazófias caem por terra, ficando o espírito, acostumado em suas altas prerrogativas, a gemer cruciantes estados, abandonado nas trevas e por vezes perdido na incomensurável tragédia dos abismos desérticos, onde aflições e gemidos se erguem por todas as partes, sem ao menos serem vistos, parece que apenas existindo para não admitir a mais fugaz idéia de esperança. Como é terrível trocar as pompas e os rótulos do mundo pela devastação geral produzida pela morte! Quanto é triste não ter a menor idéia de esperança, o menor sentimento de que tudo um dia terá passado, continuando o espírito a sua marcha progressiva! Surgem, então, os brados desesperantes – Senhor! Senhor! E o Senhor, por Lei e por Justiça, responde através do silêncio, do abandono e da treva – Não vos conheço. Apartai-vos de mim, os que obrais a iniquidade. Figurões do mundo, tende muito cuidado sobre vós mesmos; porque de tudo chega a hora. E como escapulários humanos de nada valem; e como perdões e absolvições de institutos inventados por homens de nada resolvem, eis que a treva assalta, eis que o pranto e o ranger de dentes envolve a criatura e a faz vítima de suas próprias condições criadas. Perguntarei pelo valor dos recursos comprados aos mercados religiosos do mundo, mergulhados na aflição mais negra e devorante; e pelos caminhos da tragédia imensa, a Lei e a Justiça falarão pelo Senhor, respondendo – Onde estão as virtudes salvadoras? Onde esquecestes o Amor e a Sabedoria? Aí está que, concorrendo aos simulacros inventados por homens, vos esquecestes das práticas dignas em sociedade. Ficai pois, com aquilo que é vosso. Apelai para vossos ídolos, apelai para vossas invenções, continuai a confiar na mentira. Foi o que aconteceu, é o que está acontecendo em milhões de casos. Ao deixar o mundo, envolvido por amigos, fui dormir o meu sono reparador. Ao acordar, sentindo-me leve qual pluma, feliz a mais não poder conceber, vi que tinha ao redor dezenas de amigos e de parentes já desencarnados. Dentre eles, compareceu esbelto e simpático vulto que assomando à frente de todos, falou: – Pierre, aqui estou... Sou Eugênio, o seu guia... Se é certo que cada um dos que se foram apresentando custou funda emoção ao meu coração de recém desencarnado, mais certo é que Eugênio fez-me sentir profunda comoção emotiva. Aquele que fora, por quase cinqüenta anos, um constante e digno mediador entre os altos planos da Grande Vida e eu, fez-me realmente considerar a importância dos motivos causais da existência. Minhas lágrimas foram os meus agradecimentos. Quis beijar-lhe as mãos; ele porém não concordou, afirmando:
– Pierre, a vida é, queiramos ou não, o processo evolutivo natural. Estamos formando, no vasto mecanismo, a nossa própria caracterização psíquica. O produto da movimentação, em concordância com a grande Lei de Harmonia, é o benefício geral, é a colheita coletiva, é a elevação consciente, é a religação com a LUZ DIVINA. Qual de nós foi mais bem sucedido? Eu não sei ao certo, irmão Pierre. Sei, todavia, que em virtude dos nossos respectivos comportamentos, aqui estamos respondendo graças ao Céu, pela colheita que fizemos. Comovido, ainda murmurei: – Sim, Graças ao Céu!... Eugênio repetiu a sua palavra de sempre: – O Céu é sempre perfeito e completo. O Céu não depõe contra quem quer que seja. Ao render graças ao Céu, consideremos o bom caminho trilhado, a justeza e a precisão dos esforços empregados... Muitos daqueles que confiam no Céu, de tal modo se portam, de tal maneira agem, que o Céu os repele. Sempre disse e repito, Pierre, a linha certa a ser observada – “Faça-se em nome do Céu, aquilo que é do Céu!”. Verdadeiramente, as trevas exteriores estão cheias de elementos que, de um ou de outro modo, andaram acreditando em Deus e tendo lá a sua religião. Como porém a lei é Justa e a Justiça se impõe, exclamar Senhor! Senhor! de nada vale. O que vale é não esquecer da Sabedoria e do Amor nos tratos sociais, pois as macaquices feitas a título de obras de fé não convencem ao Senhor. Fazendo silêncio, apresentou a um outro, majestosa figura irradiando fortaleza e bondade: – Gastão, o nosso chefe. Sempre lhe falei dos nossos superiores, não é verdade? Gastão é o chefe da nossa comunidade servidora. Vindo abraçar-me, Gastão falou-me: – Subordinado, graças a Deus, a outros chefes, aos quais sirvo com grande satisfação. É a Ordem Divina que se movimenta, que se filtra e impõe pelos escalões hierárquicos. Servindo uns aos outros, obedecemos a Deus e colhemos vantagens na própria obra levada a termo. Fora grande, a seguir, a movimentação das apresentações. Alguns tinham vindo de outras esferas, de outras regiões, de outros departamentos de trabalho, para visitarem o amigo recémdesencarnado, o companheiro de serviços, aquele que fora servido e que nalguns casos também servira. Quanta alma! Quanto reconhecimento! Quanto amor em tudo aquilo! Penhorado de gratidão, parecia-me desfazer o coração em pedacinhos, a fim de ir-se por toda aquela multidão de parentes e amigos. Ao cabo de tudo, Eugênio convidou-me: – Pierre, vamos também nós daqui. Esta casa, onde você dormiu o seu sono reparador, tem por função apenas isso. Quem merece, para aqui é trazido, somente para dormir o seu sono reparador. Deixemos, portanto, esta casa; vamos para o nosso departamento, pois você está inscrito como seu funcionário, faz muitos anos. A sua inscrição foi feita, depois de vinte e dois anos de trabalhos no mundo... É que, no seu passado, havia muita coisa a ser reparada; isto é, devia reparar no presente a muitas lesões do passado. Quando, pelo trabalho, atingiu o ponto exato de rearmonização, deu-se a sua inscrição no departamento em que trabalhamos, eu e centenas de outros, sob as ordens de Gastão. Ouvindo falar em passado, lembrei-me de visões tenebrosas, perguntando: – Sim, o meu passado... É certo, Eugênio, que andei cometendo tremendas faltas? Assentiu com a cabeça, indagando: – Não lhe mostramos, algumas vezes, para fins de observações os lugares onde foram massacrados aos milhares os discípulos do Caminho do Senhor? Você não reviveu cenas terríveis, com fedores e tudo? Não lhe ficaram gravadas nos ouvidos as palavras de acusação e agravo, de misericórdia e de perdão, vibradas por aqueles que preferiam a morte, a trair ao Divino Portador da Graça e da Verdade? – Então, Eugênio, fui mesmo um inquisidor?!... Eugênio abanou a cabeça em sinal de não, ficou muito triste e balbuciou: – Não, Pierre, você não foi apenas um inquisidor... Muitos inquisidores agiram, mais tarde, acreditando na justiça do Santo Ofício, apesar de ser ele contradição à Lei de Deus. Todavia, tiveram
suas dirimências, porque encontraram a instituição em pleno funcionamento criminoso, agindo como se fosse realmente uma das guardas doutrinárias . Você foi, entre muitos outros, pior do que um simples inquisidor... Porque foi um dos corruptores do Caminho do Senhor!... Sob as ordens de Constantino e seus imediatos políticos, chefes militares e dominadores, vocês crucificaram o Cristo pela segunda vez... Vocês liquidaram com a Excelsa Doutrina, edificada pelo Divino Mestre sobre a Lei, sobre o Amor e sobre a Revelação. Vocês truncaram, por muitos séculos, o Caminho do Senhor. Vocês fizeram verter o sangue de milhares de milhares de criaturas, além de terem imposto ao mundo as trevas da idolatria e do materialismo. Liquidando com a Revelação, para criarem a Igreja Católica Romana, no quarto século, vocês espargiram pelo mundo avalanches de erros, de falsas doutrinas, de animalismos desbragados. Aqueles mais simples e ignaros, tornaram-se crédulos e supersticiosos; aqueles mais inteligentes e analíticos, descambaram para o materialismo e para a brutalidade. Eis o que vocês fizeram, contra o Cristo e contra a Humanidade. Realmente, eis o que vocês fizeram contra vocês mesmos... – Santo Deus!... – exclamei, profundamente conturbado. Eugênio falou-me, conselheiro e fraterno: – Não se aborreça agora, que quase tudo está reparado... Grandes lavras foram levadas a termo, lavras que resultaram nos benefícios do presente e nas glórias do porvir. Lembre-se, Pierre, que grandes resgates foram feitos. – Agradeço a Deus, agradeço a Jesus e a vocês todos... Ele interrompeu-me, para dizer: – Quanto a mim, não tem de que agradecer, pois também andei metido naquelas coisas feias... Meus erros foram decorrentes dos seus, por isso obtive boa soma de dirimência. Já lhe disse, o Santo Ofício parecia ser mesmo a guarda fiel e necessária da Igreja. Foi por isso que, embora reconhecendo ser ele contrário à Lei de Deus, ainda lhes demos completa guarida, aplicando-o rigorosamente. Não tivemos, eu e muitos mais, conhecimento algum de ser a Igreja Romana a corrupção do Caminho do Senhor. Assim como agora acontece, que os clérigos e o povo confundem catolicismo romano com Cristianismo, assim mesmo nós o entendemos no século sete, quando foi consolidado o papado, quando aumentou bastante o rigor do controle inquisitorial. Estava eu meditando gravemente naquelas questões, sem ter coragem para falar, quando se chegou radioso vulto feminino, espargindo graças espirituais e absorvente simpatia. – Isabel... Isabel foi uma das mártires do seu movimento corruptor... Não tive acanhamento algum, diante daquela vítima de outrora, porque ela esplendia graças espirituais para mim indefiníveis, porém altamente convincentes. A sua alegria, tão pura e tão penetrante, tão viva e tão envolvente, derreteu em mim qualquer resquício de receio ou de introspecção. Ela abraçou-me, falou-me e tomou conta de minha alma. Parecia feita de amor, de graça e de virtude. Quando falou, aparteou as palavras de Eugênio. – Antes de ser vítima do seu movimento corruptor do Caminho do Senhor, fui feiticeira no tempo em que Elias viveu e deu grandes provas em favor do Deus de Verdade e de Justiça. Escapei da morte por haver fugido em tempo, continuando a servir à rainha Jezabel, que por sua vez acreditava em Baal e Astartéa, como deuses superiores ao Deus Vivo de Israel. Pode ver, portanto, que andou fazendo justiça ao lançar-me no suplício da fogueira... – Andei cometendo gravíssimas faltas, pois ninguém tem o direito de contrariar a Lei de Deus. – De qualquer maneira – revidou ela – eu teria que pagar pelos meus erros, assim como você pelos seus, e, assim por diante, todos os que erram devem resgatar seus erros. A Sabedoria Divina, entretanto, na hora justa vai buscar o elemento com que fazer acertar os passos ao que disso carece. Quando menos a criatura perceber, estará sendo servida ou estará sendo servidora da Lei. Quem erra entre irmãos, entre irmãos acertará. Disto, ninguém jamais poderá furtar-se. E agora, que estamos em melhor posição perante a Lei de Equilíbrio, vamos tratar de quem está precisando de nossos trabalhos?
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.