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Capítulo 3 de 20

Os Tempos São Chegados

Confissões de Um Corruptor · Osvaldo Polidoro

A primeira perseguição em massa, oficialmente levada a efeito contra os cristãos novos – relata-nos a História – teve lugar no reinado do truculento Nero (ano 64 D.C.). Acusado o imperador pelo povo de haver ateado fogo à cidade de Roma, para se inspirar na poesia, pois fora visto, na ocasião do sinistro, de lira em punho a entoar um hino sobre o incêndio de Tróia, e já manobrado por elementos clericalistas, lançou toda culpa desse crime contra os seguidores do Nazareno (os do Caminho do Senhor). Daí o motivo para que o poviléu, açulado como a hiena bravia, exigisse o trucidamento sumário e impiedoso desses mártires, ora nas arenas à sanha dos leões, ora untados com pez para servirem de archotes vivos em dias de festa nos jardins do famigerado César. Foi esse , realmente, o primeiro golpe assestado contra o verdadeiro cristianismo nascente, nas pessoas dos seus ardorosos e sinceros sectários. Todavia, foi Décio, dos imperadores romanos (anos 249 a 251 D.C.), ainda e como sempre, de conivência com elementos do clero, o primeiro a empreender uma perseguição sistemática e oficializada contra os neófitos da doutrina cristã. Iniciada nesse reinado, ela se desdobrou até atingir o seu clímax no governo de Diocleciano (anos 303 a 311 D.C.). Caracterizada pela sua violência sanguinária, foi, entretanto, o marco inicial de uma completa transformação tática e política, no reinado do imperador sádico, transformação essa visando a nova seita. Como os métodos violentos aplicados contra essas vítimas inermes não surtiram o efeito desejado, havia portanto, mais do que nunca, necessidade de mudança dessa atitude drástica para outra mais inteligente e eficaz, uma vez que logo nos dois primeiros séculos de vida, o cristianismo havia aumentado consideravelmente o seu raio de influência; no terceiro, avassalara todo o Império Romano e no princípio do quarto século estendeu-se também por todo o Oriente. Era um fenômeno que força alguma poderia jamais deter. O sangue dos mártires era, assim, como que a essência generosa e providencial, que conferia à doutrina a consistência vigorosa e tenaz do cacto bravio a desafiar a aspereza do chão piçarrento e crestado pelo sol equatorial. No dizer de diversos historiadores, Constantino era um homem relativamente iletrado, porém sagaz, de uma acuidade espiritual inimitada; percebeu ele, desde logo, a inutilidade daqueles processos de perseguição aberta, calculada e fria, movida contra os nazarenos, como eram então chamados. Por outro lado, ante seus olhos, processava-se rapidamente o desmoronamento do Império, pela falta de unidade, coesão e moral. A sociedade romana deixava-se empolgar e corromper-se ante as pompas e ociosidades do viver oriental. De promiscuidade com os elementos bárbaros de invasão, os súditos não obedeciam mais ao governo central. Os desregramentos morais, as incontinências, a lascívia e outros vícios que prognosticam sempre a deterioração social, roíam surdamente o pedestal das instituições romanas, anunciando o fim próximo desta civilização decrépita e doentia. Tudo isso passou como um relâmpago , pelo cérebro de Constantino. Urgia, pois, uma providência eficaz para evitar a catástrofe iminente. No seu leito de morte, corroído pelas úlceras, Galério, aquele mesmo potentado que antes arrancara das mãos de Diocleciano o famoso edito de perseguição aos cristãos, entregava aos seus executores outra ordem, mas esta, de complascência à nova doutrina. Remorso ou não, quiçá – quem sabe? – os mesmos fundamentos que despertaram os cuidados e a preocupação de Constantino, o tetrarca moribundo via no seu último gesto o passo fundamental dado no sentido da solução de um grande e importantíssimo problema, eis o edito:

“Entre os importantes cuidados que ocuparam o nosso espírito em prol do bem e da preservação do Império, foi nossa intenção corrigir e restabelecer todas as coisas de acordo com as antigas leis e disciplina pública dos romanos. Fomos particularmente insistentes em chamar ao caminho da razão e da natureza os iludidos cristãos que tendo renunciado à religião e cerimônias instituídas pelos seus pais e desprezado, presunçosamente , a prática da antigüidade, intenderam de inventar opinião e leis extravagantes em harmonia com os ditados de sua fantasia, para, dentro delas, constituir como elementos das diferentes províncias do nosso Império, uma sociedade heterogênea. Os editos que publicamos para reforçar o culto dos Deuses, tendo exposto muito dos cristãos a perigo e aflição, muitos tendo sofrido a morte, e muitos mais que ainda persistem na sua ímpia loucura tendose visto privados de qualquer exercício público de religião, achamo-nos dispostos a estender a esses infelizes homens os efeitos da nossa habitual clemência. Damo-lhes, portanto, permissão para professar livremente as suas opiniões privadas e reunir-se em seus conventículos sem receio ou molestamento, desde que mantenham sempre o devido respeito pelas leis e governo constituído. Por um outro rescrito, manifestaremos as nossas intenções aos juizes e magistrados; e esperamos que a nossa indulgência estimule os cristãos a oferecer as suas orações à divindade que adoram pela nossa segurança e prosperidade, pela sua própria e pela república” (H. Universal – H. G. Wells). Anos depois, subia ao trono Constantino, o Grande. O “ato de clemência” do seu antecessor, mais ainda avivou no espírito do novo imperador a necessidade de uma outra medida acertada para a salvação do império e das suas instituições seculares. Romper definitivamente com estas para salvar a unidade política da pátria seria um sacrifício caro demais para ser posto em prática. O paganismo tinha de continuar vivendo, ainda que camuflado por qualquer modo e a qualquer preço. Um clarão diabólico iluminou, então, num átimo de tempo, o cérebro do filho de Constâncio Cloro: entraria em entendimentos com o clero e, mais tarde, simularia uma conversão sua ao novo credo; desse modo, estaria perfeitamente garantido o plano que concebera para manter a hegemonia do Estado em solapar os alicerces da novel religião em proveito das instituições romanas. Desse conchavo resultou o edito de Milão e a convocação, pelo poder temporal, do famoso primeiro Concílio de Nicéia (ano 325). Constantino fez da igreja uma instituição prepotente, autoritária, absoluta, porém sempre um instrumento dócil aos interesses políticos do Estado, ainda que, para isso, fosse necessário derramar, como derramou, o sangue generoso de tantos mártires. Assim entronizada pelo braço forte do poder estatal, iniciou a Igreja a sua jornada fatídica, pontilhando as páginas da história de crimes horripilantes e lançando sobre os povos uma imensa cortina de trevas. Ninguém tem o direito de opinar contra a Igreja Católica Apostólica Romana; o Papa é infalível... O segundo Concílio de Nicéia, fiel as tradições do paganismo, assegurou a adoração das imagens condenada pelos evangelhos. O “cristianismo” emergido dos decretos forjados nos concílios nada tinha de comum com a pulcra doutrina pregada e vivida por Jesus; em nada diferia dos cultos de Serapis, Amon ou Bel-Marduk, no dizer de Wells. Fez do Papa um deus e da verdade um mistério inviolável e proibido à argúcia dos fiéis. E é esse, infelizmente, o desfigurado arremedo de cristianismo que ainda hoje vige entre grande parte de nossa sociedade, se bem que apresentando já sintomas indisfarçáveis de um próximo colapso. De todas as ofensas, porém, dirigidas contra a pureza dos elevados ensinamentos de Jesus, a mais ignominiosa é aquela que proíbe, que sufoca e procura ainda hoje sufocar o exercício sagrado e fundamental do Espírito Santo ou mediunidade, conforme foi estabelecido em I Epístola de Paulo aos Coríntios, cap. XIV. Esse foi, sem dúvida nenhuma, o maior cisma cometido pelos falsos cristãos, embora conhecessem a terrível advertência:

“Portanto vos digo: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, porém, a blasfêmia contra o Espírito Santo não lhes será perdoada. E todo o que disser alguma palavra contra o filho do homem, perdoar-se-lhe-á ; porém, o que a disser contra o Espírito Santo, não se lhe perdoará, nem neste mundo, nem no outro.” (Mateus, XII, 30 a 32).

Perseguidos e espezinhados por todos os lugares pelo feroz anti-Cristo, esses médiuns outrora conhecidos por advinhos, oráculos, pitonisas, áugures, etc., foram paulatinamente desaparecendo pela falta de exercício, enquanto a besta 666, ao contrário, ia consolidando os seus tentáculos em todos os quadrantes do mundo profano. O materialismo, como conseqüência dessa apostasia, desenvolveu as suas raízes; as qualidades morais foram subvertidas e em seu lugar imperam o ódio e o egoísmo. Cumpre-nos, todavia, o dever de saber fazer a distinção devida entre Catolicismo e Cristianismo, hoje tão lamentavelmente confundidos. Assim, enquanto advertia o profeta Jeremias: maldito o homem que confia em outro homem, o Papa se fazia entidade infalível. Enquanto recomendava Jesus : “A qualquer que te ferir uma face, dá a outra; quem quiser apossar-se da tua roupa, dá-lhe também a tua capa; ama aos vossos inimigos, etc.”, a bula do Papa Nicolau II proclamava: “Anátema eterno e excomunhão ao temerário que não tenha em conta o nosso Decreto e que em sua perseguição tentar submeter ou perturbar a igreja romana. Que nesta e na vida futura prove a cólera (!) de Deus e a ira dos apóstolos, cuja igreja ele tenha tentado derrubar; que sua casa fique deserta, que seus filhos fiquem órfãos e viúva sua mulher; que seja desterrado e seus filhos obrigados a mendigar seu pão e expulsos de sua casa; que toda terra combata contra eles e que todos os elementos lhes sejam hostis!” Que belíssimo exemplo de amor fraternal! Quanta diferença da mansidão e humildade de Jesus! O Mestre dizia: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” – mas a Igreja diz: “Se não for por mim, vai para o inferno”... Também foi dito: “Guardai-vos dos que querem andar com vestidos compridos e gostam de ser saudados nas praças e de ter os primeiros assentos nos banquetes, os quais devoram as casas das viúvas a pretexto de longas orações. Receberão uma condenação severa”. ( Sem comentários... ). Eis aí, pois, a que ficou reduzido, em breve resumo, o pretenso “cristianismo” da besta 666: lobo disfarçado de cordeiro... A chamada conversão de Constantino não era, como se vê, mais do que uma reação para sobrevivência do politeísmo pagão da Grécia e de Roma dos primeiros tempos. Todavia, as profecias de Jesus já previam a futura restauração da verdade antes do ano 2000; e hoje vemos o Espiritismo sacolejando vigorosamente os alicerces falsos dessa máquina diabólica que não tardará a se desmantelar e a igreja de Jesus, fundada no Pentecostes, a irradiar benditas verdades para a salvação dos povos. São de Emanuel as seguintes palavras: “Em vão o mundo esperou as realizações cristãs iniciadas no império de Constantino. Aliada do Estado e vivendo à mesa dos seus interesses econômicos, a Igreja não cuidou de outra coisa que não fosse o seu reino perecível. Esquecida de Deus, nunca procurou a evolução do homem físico à do homem espiritual, prendendo-se a interesses mesquinhos da política do mundo. É por isso que agora pairam-lhe sobre a fronte os mais sinistros vaticínios”. (A Caminho da Luz ). Como, perguntamos nós, haver realizações cristãs à margem do Consolador, que tão bem deixara Jesus expresso nos capítulos quatorze, quinze e dezesseis, de João? Como, perguntamos ainda, haver cristianismo no anti-Cristo, no movimento político que tinha e teve por fim truncar a marcha do Batismo de Revelação, que levaria presto a Humanidade à máxima consciência da Verdade, assim como podemos ler nos Atos, capítulos um, dois, sete e dezenove? Como, perguntamos, pode haver cristianismo, dando truculento fim ao sistema de reunir dos Apóstolos, conforme podemos aprender na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulos doze, treze e quatorze? Seria, então, pelos caminhos da corrupção que deveriam triunfar os ensinos do Divino Mestre?

No primeiro capítulo dos Atos, está afirmado que o Consolador, a Revelação, seria o veículo transmissor da Excelsa Doutrina; equipados assim, escudados na comunhão com as Legiões do Senhor, os seguidores de Cristo levariam de vencida as trevas da ignorância, do erro e suas conseqüências, fazendo marchar o mundo para os santos desígnios do Senhor. E se estamos com um retardamento de quase dois mil anos, a quem o devemos? Todavia, convenhamos, os tempos de reposição das coisas no lugar chegaram. O Espiritismo está aí. A onda de fenômenos psíquicos em crescente intensidade invadiu toda a terra e já não há mais quem tenha o poder de sustá-la. Nesse crescendo constante e rápido, ao som do tropel fragoroso dos quatro cavaleiros apocalípticos, enquanto o mundo velho se esboroa irremediavelmente, os raios brilhantes de um novo sol começam a despontar no horizonte da vida. Em meio desse caos, o surdo rumor da velha Igreja que se desmorona afugenta, espavoridos, os escravizadores do homem. Iniciada foi, pois, a restauração da igreja revelacionista. O ciclo agora vive a sua fase sintética e, assim, tudo procura seguir a senda da unificação. O livro de Osvaldo Polidoro é mais um documento histórico de relevada importância para o ressurgimento da igreja cristã.

Heráclito Carneiro

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.