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Capítulo 10 de 20
Primeira Parte — parte 7 de 7
Confissões de Um Corruptor · Osvaldo Polidoro
Como disse, minha última passagem pela carne foi visando colaborar na obra de Kardec; isto porque, como havia sido determinado pela injunção cármica, viria a coincidir com as faltas cometidas, contraditando a corrupção do Caminho do Senhor ou do batismo de espírito. Teria que acertar, naquele mesmo campo de atividade em que errara; se cumpria ao fator cíclico-histórico repor as coisas no lugar, cumpria aos indivíduos em particular fazer o mesmo. Assim sendo, as grandes movimentações coletivas importam em trabalhos de renovação individual; é o grande movimento a envolver as criaturas, forçando-as aos devidos reajustes. A palavra de um mentor, nas vésperas de minha nova imersão carnal, foi a seguinte: – Walter – disse ele – vais retomar o posto de trabalho que cumpre e compete, quer seja por motivo da lei ascensional comum, quer seja por causa das grandes faltas cometidas no tempo em que foste Proclo, um dos pervertores do Caminho do Senhor, no quarto século da Era Cristã, sob as ordens de Constantino. A tua função, preparado que estás, será a de servir de instrumento mediúnico; porque, estando as bases educativas mais ou menos preparadas, pelos trabalhos de Wicliff, Huss, Joana d’Arc, Lutero e Giordano Bruno, terá prosseguimento a obra de restauração do batismo de espírito, com a renovação em base de uma grande escala mediúnica. Um novo Pentecostes haverá, em maior escala, cujo seguimento nunca mais terá fim, nunca mais será truncado pelas disposições humanas. E o fim deste novo surto será, começando de maneira bisonha, ir aos poucos se transformando nos altos níveis de intercâmbio do porvir. Nos mundos superiores as relações entre os dois planos da vida se processam simplesmente, porque as faculdades se acham expostas em elevado grau de intensidade. O novo surto terá por objetivo essa colimação; irá avançando lentamente, elevará o teor psíquico das criaturas e forjará o intercâmbio fácil e glorioso da Terra do porvir. Fez breve pausa, envolveu-me com o seu simpático olhar, prosseguindo: – Não te esqueças, no entanto, que há uma verdade maior a ser encarada, verdade que diz respeito ao indivíduo em particular. Nenhuma coletividade será perfeita, se os seus membros componentes forem imperfeitos. Portanto, mais do que tratar das grandes questões externas, importa tratar da grave questão interna. O problema fundamental é o do Reino do Céu interior, é o da iluminação interior, é a lavratura do Amor e da Sabedoria no caráter do indivíduo. Em face de outra pausa do mentor, anuí: – Eu sei, bondoso mentor, que é assim. Estudei todas as lições, li tudo quanto foi dito pelos Grandes Reveladores. E em Jesus Cristo, não encontrei outros objetivos, sem ser a necessidade premente, inadiável e intransferível, de cada um trabalhar em si mesmo, a fim de se tornar melhor, cada vez mais espiritual, a ponto de se tornar ESPÍRITO e VERDADE, assim como Deus é. O mentor continuou, satisfeito e paternal: – Justamente, pois o sentido da UNIDADE é o ponto culminante da evolução, é o topo da escalada biológica. Coincidindo a evolução da criatura com a DIVINA UBIQUIDADE, teremos o filho integrado vibratoriamente no Pai, refletindo suas Glórias e Poderes. É o Esponsal Divino, é a Celeste Conexão. Por isso mesmo, Walter, não te ocupes de outros assuntos, não te faças objeto de outras aplicações durante a tua nova passagem pela carne. Deves um programa de trabalhos e terás que executá-lo; faze, pois, tudo em conformidade com as determinações cármicas, com as necessidades prementes que a tua conduta anterior criou e agora determina a solvência. Como estás preparado, pelo curso longuíssimo de trabalhos fraternos e de estudos levados a termo, não te será difícil vencer os obstáculos que naturalmente surgirão. O mundo irá dizer mil e uma asneiras, irá
caluniar, irá atirar às tuas costas o peso de quantas incompreensões arrasta, por causa dos vícios idólatras, por causa dos interesses subalternos que a restauração do Cristianismo irá ferir frontalmente. Todavia, Jesus estará contigo através de Seus emissários, revigorando os teus ânimos, derramando em teus passos as luzes do Seu Amor. Fui objeto, por muitos dias, de aplicações magnéticas assim dispostas; aqueles que me impunham suas mãos, preparando-me para o reencarne imediato, infundiam em meu subconsciente a vontade de ser fiel servidor mediúnico, sem outros intentos, sem a nada mais pretender. Servindo ao mundo espiritual e servindo à obra da Codificação, teria feito tudo em sentido perfeito, porque teria contrariado aqueles erros do tempo em que fora Proclo, em que tudo fizera para auxiliar na liquidação da Graça trazida por Jesus Cristo. Felizmente, pelo que muito rendo graças a Deus, assim acontecera; o nascimento fez de mim um homem pobre, simples, inconscientemente agarrado a Jesus Cristo e à Sua função missionária. Se antes de saborear as graças mediúnicas era apenas um bom cidadão, sem outro sentimento religioso que não fosse ler muito a Escritura, depois de sentir em mim os primeiros sintomas espirituais exteriores, em tudo concorri para ser fiel servidor do mundo espiritual que me envolvia. A receita dos mentores espirituais era manter alto o padrão moral, atender com solicitude aos doentes que me procuravam e facilitar ao máximo as comunicações por meu intermédio. E foi assim que se cooperou na obra geral, contribuindo com a parcela mínima, com aquela vazação mediúnica que se me estava ao alcance. Porque foram muitos os contribuintes, aqueles que dos modos vários cooperaram na grandiosa obra que serve de base ao movimento doutrinário em geral. E nem poderia ser de menos, pois quando nasce um homem-símbolo, fadado a centralizar um novo surto, legiões de colaboradores formam-lhe a coroa de trabalhos, nos dois planos da vida. Jesus teve, no plano carnal, Discípulos e colaboradores; e no plano espiritual, aquelas legiões de anjos ou espíritos, às quais várias vezes fez referências. Se alguém quiser considerar o montante de colaboração havida, para os trabalhos restauradores, além de ter que sopesar as preliminares levadas a termo por Wicliff, Huss, Joana d’Arc, Lutero e Giordano Bruno, Kardec e outros, terá que acrescentar milhares de outros de menor graduação, todavia imprescindíveis. Não quero dizer que não tenha tido minhas horas de fraqueza, de presunção e de saliências comprometedoras; felizmente, o mundo espiritual veio em meu socorro, alertando-me. Acredito que poucos médiuns passarão pelo mundo, sem se verem envolvidos pela peçonha da presunção, da vaidade mediúnica. Ciúmes e vaidades, e muitas vezes faltas ainda mais graves, derivam de provas pelas quais devem mesmo passar, pois todo aquele que pretende ser o iluminador das consciências alheias, deverá provar que para consigo mesmo não é menos vigilante... Alguns dos apóstolos, antes mesmo de imaginar sequer nos trabalhos e nas lutas porvindouras, pois tudo ainda pesava nas responsabilidades de Jesus, já faziam presunçosos pensamentos sobre qual deles seria o maior no Reino do Céu... Enquanto isso o Divino Modelo, afirmava que Sua obrigação era servir, e não ser servido. Eu tive as minhas protuberâncias missionárias; cheguei a julgar que estava sendo um dos baluartes do trabalho informativo, pelo simples fato de receber comunicações que ofereciam oportunidade de estudos e catalogações, por parte do codificador. Graças a Deus, lembrou-me o mundo amigo que tinha no espaço, em tempo e com provas cabais, que não era mais que um grande culpado em trabalhos de reparação doutrinária. Foi através de uma jovem médium, que ouvi o seguinte aviso: – Preste atenção, Pierre, naquilo que lhe vai ser mostrado. – Quando? – perguntei, sem imaginar no que seria. – O quanto antes, o quanto antes! – repetiu, forte e grave, aquele espírito que nem sequer quis dar o seu nome. E foi naquela noite mesma; pela madrugada, aí pelas três horas, acordei em perfeito estado de saúde. Senti, a seguir, vibrarem ao meu redor pruridos de aproximação. Entreguei-me, forçando mesmo a manifestação do fenômeno. E assim foi que me encontrei na Roma dos dias de Constantino, perseguindo aos que cultivavam o Batismo de Espírito, com o fim de criar a Igreja Romana. Estive
entre gente prisioneira e sacrificada, estive entre carnes podres e entre agonias tremendas. Andei alguns dias com o mau cheiro nas narinas, e nunca mais esqueci a tremenda revivescência do terrível e monstruoso drama. Daquele dia em diante, deixei de pensar que era um baluarte do novo surto espiritual, para viver a simples condição, de um simples errado em trabalhos de reparação. Estava sob o encargo de pesadas obrigações; não era nenhuma figura ilustre, coroada com os louros graciosos da devoção. Quando se apagavam as luzes do século dezenove; quando nos horizontes da História os primeiros vislumbres do século vinte se faziam presentes, deixei o mundo das formas densas, para reentrar na esfera causal, no mundo espiritual. Fi-lo em bom estado, pois basta que se mereça o amparo imediato dos amigos, para que se considere a recompensa de Deus, pelo pouco que se haja feito. Depois de enterrado o corpo, fui conduzido para o lugar onde deveria passar por um bom e reparador sono. E depois de acordar, fui imediatamente entregue ao departamento que me colocaria em face da minha história. Revivi dias longínquos, aqueles que não conhecia desde os tempos em que fora Proclo. Naquela vida, os criminosos trabalhos em que me ocupei muito me prejudicaram, muito embotaram as minhas possibilidades evolutivas. Todavia, nunca fora um espírito assinalado com as marcas do bom sentido espiritual; vivera como político e como soldado, tendo sido também grande senhor de terras, além de duas vidas passadas entre gregos sábios e artistas. Lá mais para trás, tudo bastante bruto, tudo muito animal e egoísta ao extremo. Após a graça de tais conhecimentos, fui devolvido ao trabalho de intercâmbio, pois os livros doutrinários passaram a produzir seus frutos imediatos, passaram a interessar grande número de criaturas nos mais distantes pontos da Terra. Ao observar as extensões atingidas pelo trabalho codificado, lembrei-me daquelas palavras de Jesus que se acham no primeiro capítulo dos Atos, sentindo em mim profunda alegria. É que, embora tendo sido um dos corruptores da Excelsa Doutrina, nos dias de Constantino, nem por isso deixaria de ser um dos mais humildes trabalhadores, na hora do novo surto mediúnico. A graça da Revelação se espargia pelo mundo, testemunhando a Verdade, consolando aflitos, enxugando lágrimas e advertindo consciências menos prudentes. Estando agora o Espiritismo a completar cem anos de codificação, tanto mais observamos a grandiosidade da obra levada a termo sob as ordens de Jesus; se estamos, inclusive e infelizmente, diante de muitos casos em que a mediunidade não é cultivada nos moldes indicados pelo Evangelho, também é certo que o grande número que se movimenta pelo orbe, o faz com inteireza de propósitos, o faz com a mente e o coração voltados aos exemplos vívidos do Cristo e aos ensinos consecutivos deixados pelos Apóstolos. Quanto me é grato rememorar, ainda mesmo aqueles dias infelizes, desde que conseguindo a obtenção posterior de tomar parte no trabalho de restauração. As trevas se transmudaram em luzes! As aflições deram nos pórticos da sublimação! A retenção nos planos inferiores converteu-se em deslumbrantes extensões de liberdade! A compressão de consciência metamorfoseou-se na Paz de Deus! Na situação em que me encontro, que mais poderia desejar? Bem sei que as virtudes de Deus jazem no meu íntimo, tão imensas que nem sequer posso imaginar ainda; bem sei que a Lei, o Amor e a Sabedoria, aguardam de mim outras e melhores realizações; bem sei que o porvir terrícola contará com os meus galardões a conquistar! Entretanto, eu sei que isso tudo, que eu ainda devo fazer, isso mesmo cumpre a todos fazerem, porque a Terra terá que vir a ser um mundo de esplendor e de glória! A Lei adverte contra os erros básicos; concita ao cumprimento dos deveres para com Deus e para com o próximo. Estar fora da Lei é estar fora da melhor posição, podendo vir a estar enquadrado na pior, no mais ínfimo nível gradativo! O Amor exemplificado pelo Cristo é o Amor Paradigma; é o caminho certo, é a estrada infalível que conduz à vivência da Lei, de onde surte a Harmonia. Quem não sabe amar, nunca poderá adorar a Deus em ESPÍRITO e VERDADE! É o Amor Paradigma quem faz a criatura abandonar as formas inferiores de culto e dedicar-se ao culto da verdadeira fraternidade universal! A Revelação jamais deixou de ser o instrumento informativo por excelência. Nos dias anteriores a Jesus Cristo, obedecendo aos imperativos esotéricos, ela ofertou à Humanidade as
chamadas Grandes Revelações. Com a vinda de Jesus, cuja função missionária fora derramar do espírito sobre a carne, devia tomar ela a dianteira dos trabalhos de espiritualização da Humanidade. Como porém houve a corrupção, o grande cisma perversor, prosseguiu a Humanidade na idolatria e no comercialismo das religiões clérigo-pagãs. Como porém a evolução planetária é por lei, eis que chegou o tempo de reposição das coisas no lugar, tomando ela a frente dos trabalhos espiritualistas; pois lhe cumpre, de direito e de dever, dar testemunho do Cristo, Daquele que para todos os efeitos é o Mestre e Diretor Planetário. Se para efeito de ordem, de Lei e de Justiça, entre a criatura e o Criador paira a Força Equilibradora Fundamental, também é certo que, para efeito de orientação e de consoladoras atenções, entre o Diretor Planetário e Seus irmãos dirigidos paira a Revelação, o Seu batismo de espírito. Cumpre, portanto, não olvidar como se deve e para o que se deve cultivar a Revelação. Quem não esquecer a Lei e nem o Amor, certamente saberá como cultivar a Revelação. Os riscos possíveis, decorrentes dos possíveis maus usos mediúnicos, correrão por conta do risco daqueles que olvidarem as advertências da Lei e das dadivosas bênçãos do Amor. Porque, falando que estamos a quem possa vir a cultivar a Revelação, implicitamente estamos falando a quem reconhece estarem a Lei e a Revelação constituindo uma unidade doutrinária, funcional e legal, visto como a Lei veio sempre através de fenômenos mediúnicos. Ao ler os Dez Mandamentos da Lei, ninguém olvidará que Moisés os recebeu no Monte Sinai, por via mediúnica; e há de se lembrar, também, que eles não mandam observar instituto sactário algum, antes proibindo a tudo quanto seja de caráter formal e idólatra. Sabemos que espíritos inferiores praticam ações correspondentes; não pretendemos obrigar a quem quer que seja, para que nos ouça e ponha em prática; nem o Cristo proibiu que O pregassem na Cruz!... Estando, porém, a cumprir ordens superiores, diremos apenas o seguinte – estaremos sempre em nosso posto de honra, esperando que a vida e o tempo nos dêem o devido testemunho. Nem se diga, também, que para abandonar formalismos e idolatrias sejam necessários grandes esforços. Para conquistar as ciências e as artes, cumpre atender a longos e persuasivos cursos; mas para deixar os farandulismos inventados pelos homens, basta um pouco de boa vontade e capacidade de algum esforço. Quanto às práticas harmoniosas, fraternas e até mesmo de elevada capacidade amorosa, até mesmo os mais egoístas poderão decidir de suas vantagens. Sem fazer paradoxo, diremos que um pouco de boa vontade, somada a algum egoísmo bem intencionado, levarão a criatura aos melhores conceitos e às melhores práticas. Até os irracionais, disse um pensador, se descobrissem que viver em paz é melhor, tudo fariam para não desmanchar a harmonia social. Não é muito, portanto, que o espírito se eleve em caracteres amorosos e sábios, a fim de ornamentar com os divinos florões da consciência cósmica. Afinal de contas, desde os Vedas, que são as bases da Verdade Revelada, ou a primeira Grande Revelação, a Humanidade conhece a chave de todas as demais verdades ou verdades complementares; porque a Revelação Védica ensina, desde muitas dezenas de séculos: “Em Deus tudo tem Origem, Sustentação e Destinação; aquele que chegou a saber isto, e faz questão de crescer em suas próprias virtudes, presto entrará em estado de Plena Harmonia e ultrapassará o ciclo das reencarnações”. Que mais poderia desejar, para saber com suficiência e poder realizar com eficiência, o mais exigente cidadão, uma vez capacitado das vantagens da Revelação tornada de alcance geral? Ela mesma não prova e comprova tudo, quer seja a infalibilidade de Lei, quer seja a oportunidade da Justiça, quer seja a força do Amor, quer seja a autoridade do Conhecimento? Se, porém, tem alguém motivo de queixa contra as religiões ou seitas, que esse alguém dê tratos à palavra autorizadíssima do Cristo; Ele, assim como a Lei o ensina, a ninguém mandou cultivar sectarismos, idolatrias, rituais e formalismos. O caminho do Senhor, como Doutrina, era uma síntese de Lei, de Amor e de Revelação. O resto foi e é invenção de homens. Bem o sei, e infelizmente, tomei bastante parte nas corrupções que foram levadas a cabo e impostas com todo o rigor das forças politico-administrativas. Quem quiser voltar à Doutrina Pura, que retorne. Mais não terá que fazer,
do que ser sincero para consigo mesmo. Pergunte-se como executa a Lei, como exemplifica o Amor e para o que cultiva a Revelação. Se estiver certo, continue; se estiver errado, procure acertar.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.