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Capítulo 7 de 20

Primeira Parte — parte 4 de 7

Confissões de Um Corruptor · Osvaldo Polidoro

tempo. E lhe asseguro que estimo bastante a minha função, pois de quando em quando sinto que cresce em mim a capacidade de penetrar nas leis e de auscultar melhormente as graças de Deus. Quando para aqui vim, por exemplo, eu não enxergava ao longe, eu não conseguia divisar uma pessoa além daqueles primeiros outeiros. Agora, sendo necessário, posso ver até através dos montes mais distantes; o senhor, por exemplo, foi visto por mim desde que aportou naquela região de arbustos ressequidos, onde se pôs a comê-los, para satisfazer o desejo de comer e de beber alguma coisa. – Sabia, então, que eu vinha nesta direção? – Meu esposo avisou-me, como de costume, e eu fiz orações para que o senhor tivesse ânimo e viesse o mais depressa possível. Quando se chega a perceber que o Amor é a Lei que de fato engrandece os filhos de Deus, sente-se todo o interesse possível pelo bem próximo; e quando se sabe que se tem culpas no sentido de ausência afetiva, tanto mais se procura servir. De qualquer modo, saiba, devemos muito trato fraternal uns aos outros. E nós, os grandes errados, tanto mais temos que nos apegar aos trabalhos de solidariedade. Falo assim, para que não me julgue alguma coisa melhor, capaz de altos rasgos de renunciação expontânea. O que faço, lembre-se, é mais por inteligência e menos por elevação de sentimentos; é mais por obrigação e menos por devoção, embora reconheça que tenho sentido em mim o despertar dos melhores sentimentos. – De minha parte, senhora, agradeço tudo quanto fez por mim. E gostaria de saber uma coisa: a senhora é cristã? Encarou-me com gravidade no olhar, enrugou a testa e perguntou-me: – Não sei, ao certo, o que pensa o senhor do Cristianismo. Poderia dizer-me, com segurança, o que é o Cristianismo? Saberia compreender a distância que medra entre a Doutrina Pura e o culto leigo que vinga pelo mundo? – Creio que não, minha senhora. Todavia, gostaria de saber como a senhora interpreta a religião, o serviço de culto espiritual, a fim de eu poder meditar pelo caminho. Terei, assim, em que pensar; e pensando bem, terei muito que aproveitar desde já. Fez ela um sinal de concordância, afirmando: – Então, lembre-se daquilo que já lhe disse: Cristianismo é Lei, é Amor e é Revelação. Como tudo isso é parte integrante da vida universal, temos aí que Cristianismo é sociologia integral. Se, porém, quiser que religião seja o culto das fórmulas e das idolatrias, dos rituais e dos comercialismos inventados pelos homens, então estará militando em gravíssimos erros. Porque aquele que se entrega a simulacros, certamente não cultiva o trabalho de iluminação interior; cedendo ao que é material e formal, nunca chegaremos a ser essenciais. E ato de fé, ou religioso, como virá a saber, é trabalho de sintonia, é serviço de união com Deus, aquilo que nos ensinam ser a ESSÊNCIA DIVINA, a FONTE EMANADORA e onipresente. Se nos capacitarmos de que Deus é infinitamente presente, estando em tudo e em todos, nos princípios, nos meios e nos fins, poderemos então compreender que tudo e todos formamos uma só Emanação, estando todos ligados, nunca podendo ser menos do que parte e relação. Assim é que nos ensinam, aqueles que vindo de mais altas esferas e regiões, falam das esferas e das regiões onde a LUZ DIVINA brilha intensamente, fazendo brilhar aos que já se elevaram a tais merecimentos. – Devemos ser, então, apologistas do Panteísmo?... E antes que eu terminasse o meu pensamento, ela aparteou-me: – Panteístas não, mas Pantiteistas sim; sabe a diferença que há entre uma e outra concepções? – Sei, minha senhora, que o Panteísmo é a Doutrina da unidade total, portanto da volta absoluta para a ESSÊNCIA ORIGINÁRIA, perdendo a criatura todo e qualquer resquício de individualidade. Quanto ao Pantiteísmo, é a Doutrina de que Deus tudo fez, em tudo está, garantindo o direito de individualidade eterna. – Aí está, senhor – disse ela – como convém pensar e viver; isto é, procurar comungar tanto quanto seja possível, com a ESSÊNCIA ORIGINÁRIA ou Deus, para crescer nos valores íntimos e para cada vez mais funcionar como agente próprio de Deus. Nós temos aprendido, senhor, que os espíritos crísticos são aqueles que já se elevaram tanto, a ponto de se tornarem executores da Excelsa

Vontade de Deus. Como pode observar, o Pantiteísmo é a Doutrina perfeita, é a Doutrina de Jesus e sempre foi a de todos os Grandes Reveladores. Estaquei por um pouco, compreendendo que lhe tomava o tempo; foi ela que continuou a fala, explicando como pensava, sentia e vivia: – E para se saber que as formalidades inventadas pelos homens são crimes de lesa-espírito, basta atender para este fato: sendo Deus o Fundamento Sagrado de tudo, e a tudo regendo por meio de leis sábias, não poderá ficar satisfeito com aqueles que O trocam por algumas patacas, e que O julgam através de simiescas atitudes, além de O figurarem como se fosse escravo da matéria. Como vê, para lhe dar a resposta melhor possível, sobre se sou cristã e como sou, devo antes saber o que o senhor de fato quer conhecer; isto é, se sou adepta da Igreja Romana ou se sou do Caminho do Senhor, da Doutrina que se fundamenta na Lei, no Amor e na Revelação, sendo portanto inteiramente acima de clerezias e de formalismos ou de paganismos. Sou essencial, não quero ser formal. Procuro Deus onde está, nas bases de Sua Emanação, sem apelar para simulacros e idolatrias. Demais, podemos compreender com muita facilidade, a matéria é para servir ao espírito e não para ser adorada como se fosse senhora do espírito. A importância, com relação à matéria, é saber usá-la, é saber aplicá-la. Mais do que isso é paganismo e idolatria.

Estive a meditar mil e uma questões, pelo caminho, depois de agradecê-la e haver partido. Apesar de toda aquela tremenda destruição que me dominava, ou por estar acostumado, cauterizado pelo sofrimento, consegui sopesar a responsabilidade da corrupção praticada, dos desvios assumidos pelo Império, acima de tudo pela adulteração dos documentos e pela proibição das leituras, a fim de que o novo Instituto, oficialmente imposto como estatal, pudesse funcionar a rigor e tivesse com que informar o Estado de tudo quanto ocorresse. Pela hóstia todos se ajoelhariam diante de Roma e pela confissão todos informariam de suas práticas; e quando alguns pudessem ocultar suas intenções, outros muitos poderiam fazer o contrário, informando as autoridades através do Instituto religioso. Quando cheguei defronte ao posto de socorro, uma grande construção toda pintada de azulclaro, que se achava no meio de amplo jardim, minha idéia principal era saber como estaria funcionando na Terra o Instituto, o instrumento de moderação do Império, o melhor órgão de controle que se poderia desejar, uma vez que contava com todos os recursos de autoridade do Estado; isto é, uma vez que estava capacitado para tomar qualquer decisão, de vida ou de morte, desde que em defesa do Império. Ao ser apresentado ao chefe, disse-lhe o seguinte: – Senhor, eu fui um dos principais corruptores do Caminho do Senhor, da Doutrina do Crucificado; tenho sofrido muito, tenho pensado gravemente sobre a questão. Se me fosse possível, gostaria de saber como se acha funcionando o Instituto forjado pelo Império, sob as ordens de Constantino, para remediar ou mesmo fazer retornar tudo ao estado anterior. O chefe, um homem de semblante grave, cujo olhar penetrante e investigador causava apreensão, meneou negativamente e aconselhou: – Ninguém, por aqui está capacitado para dar semelhante resposta; ninguém por aqui, tem autoridade para informar e, menos ainda, para movimentar ação de tamanha envergadura, monta e conseqüências. Sabemos, apenas, que o tal Instituto que é a Igreja Católica Apostólica Romana, funciona à base de fé, de clero, de rituais e de sacramentos, caminhando a ser grande dominadora do ocidente, encouraçada com a força do Santo Ofício. Ainda agora, que saibamos, vem de se consolidar o papado, a chefia da Igreja por um homem. Nós, por aqui, nada sabemos sobre tais questões; isto é apenas um posto de socorro, nas divisas do reino das trevas, cujo fim é recolher aqueles que se vão chegando, saindo dos lugares de dor, onde andaram purgando suas faltas e seus crimes. Fiquei acabrunhado, ao saber que aquele chefe nada tinha a dizer e nem a fazer a tal respeito; minha idéia era que os bons, no mundo espiritual, deviam estar a par de tudo, conhecendo perfeitamente todas as questões referentes ao mundo dos homens. Foi um choque ouvi-lo falar assim, pois se ele nada sabia dos movimentos terrícolas, mormente de ordem religiosa, de que devia saber tratar? Fiquei calado, pensativo e triste, diante dele e de um grupo de médicos e de enfermeiros, de gente que me olhava com intenções diferentes. Por notar a tristeza de que me fiz presa, ou lá pelo que quer que fosse, o chefe do posto volveu à palavra a fim de me dizer: – O Crucificado dirige a Terra, bem o sabemos, pelas informações dos maiores da espiritualidade. Portanto, se o senhor cometeu semelhante erro, em companhia de outros e sob as ordens do Imperador, faça seus apelos a Ele. Mesmo sabendo o pouco que sabemos, temos a certeza de que nenhum crime vingaria no mundo, sem o conhecimento de Jesus e sem que houvesse motivo. Dizem os mais capazes, que a morte por assassinato, do Messias e de Seus discípulos, devia acarretar para a Humanidade um longo e penoso tempo de trevas e de tormentas. Logo, como poderá imaginar,

não pode ser de tudo culpado, a não ser pelas mortes que tenha determinado e pelos assaltos que tenha levado a termo, sob pretextos vários. – Sabe o que fiz, então? – Temos alguma documentação, o suficiente para conhecê-lo um pouco e tratá-lo segundo os nossos recursos. Aqui quase ninguém pára, pois é um posto de socorro, devendo os já melhorados tomar seus devidos rumos. A seu respeito, sabemos apenas que devemos pensá-lo, enviando-o a seguir para a região imediatamente ligada a esta, onde não sabemos o que irá fazer e nem como. Por conseguinte, cremos que o senhor deve procurar a sua cura, sem pensar em coisa alguma, ciente de que Jesus de tudo sabe e pelos escalões direcionais tomará providências justas em tempo. – Meus erros não me permitem sossego, meu senhor... Na Terra, ou quando por lá estava, o Império significava mais do que a minha vida e do que o meu destino de espírito. Agora, que tenho passado por tamanhas tormentas, que tenho meditado amargamente nos meus erros cometidos, tudo se me afigura diferente. Não sei como pude ser tão cruel, tão errado e tão indiferente aos problemas da imortalidade e da responsabilidade! Parece que tudo foi um terrível e trágico sonho. Ele apontou para os presentes, esclarecendo: – Eles todos e eu, também fomos grandes errados; se o senhor, pelo Império, truncou o andamento da Igreja de Cristo, edificada sobre a Revelação, nós fizemos coisa mais ou menos igual com os discípulos de Numa Pompílio, o iniciado sibilino, que pretendeu para Roma um governo à base de orientação espiritual. Como vê, também somos grandes errados... Mas não queremos dar término aos erros, individuais ou coletivos, assim de um salto. Mesmo porque, faltas há que demandam grandes programações ressarcitivas. Aquelas faltas que tomam caráter coletivo, que passam a movimentar grandes massas humanas no mesmo sentido, demandam reparações individuais com grandes influências coletivas. Sobre isto, que lhe estou dizendo, temos ouvido e lido bastante. Os grandes errados penam suas faltas e preparam-se para agir, no devido tempo, no círculo dos grandes movimentos renovadores. Mudo e quêdo, ali fiquei a fitá-los, sem saber o que dizer. Minha vontade era chorar, derreterme em pranto, transformar-me em angústia e deixar de pensar. Todavia, como estava na presença de um grupo de pessoas que me fitavam com ares de curiosidade, mantive a melhor conduta possível; esperei que me dessem a devida e necessária direção. O chefe ordenou a um dos médicos, depois de passar-me detidamente as vistas: – Leve-o, senhor, para ser tratado. Quando eu ia acompanhando o médico, ouvi-o chamar-me; ao olhar para trás, disse-me ele, em tom bastante fraternal: – Empregue o tempo lendo o Evangelho, ouviu? Auxilia muito na cura, quando as pessoas são bem intencionadas; isto é, quando se fazem pecadoras penitentes. Eu nada sabia de haver, por ali, documentos e livros. Mas fiquei com aquilo na mente, perguntando a mim mesmo se eram os livros iguais aos da Terra, tal e qual como haviam escrito os discípulos do Crucificado, ou se eram iguais aos falsificados, pelo Instituto defensor do Império, por sinal que expressamente proibidos de leitura, a fim de que ficasse como obrigação máxima o culto dos rituais e a obediência aos mandatários da Igreja Romana. Meu tratamento começou com o agravamento das dores. Foi um tratamento geral, à base de extratos que deviam ser tomados, de emplastros feitos com ervas e de aplicações magnéticas ou passes. As dores foram passando quando as carnes foram cobrindo os ossos. O livro de João, o Evangelista, era uma cópia exata do escrito pelo vidente. E as leituras foram feitas a rigor, tendo eu feito centenas de perguntas, pois havia no posto gente cujo fim era ministrar lições religiosas e aplicar as mãos, tal e qual como faziam os do Caminho do Senhor, antes de serem liquidados ou transmudados em sacerdotes da nova instituição imperial. E como as Revelações foram várias, umas sucedendo a outras, por vezes uma pergunta curta importava numa digressão longuíssima, que ia começar nos Vedas, atravessando os Budas, transitando pelos seguintes Reveladores e vindo parar no Cristo, o que tinha vindo para batizar em espírito e, portanto, deixar

uma Igreja Viva, baseada na Revelação de portas abertas, sem esoterismos e sem iniciações complicadas. Quando estava curado, recebi convite para ficar por ali alguns meses, contrariando a disposição inicial. Disse-me o chefe que assim pedira aos superiores, a fim de que eu ensinasse religião; teria, portanto, oportunidades para dizer dos acontecimentos havidos, dos erros perpetrados pelo Império, com o fito de garantir sua sobrevivência, ainda que sacrificando a pureza da Doutrina de Jesus, Doutrina isenta de cleros e de formalismos pagãos, toda ela direta e cabalmente dirigida ao espírito, à consciência e ao cérebro dos filhos de Deus, por isso mesmo que fundamentada na Lei e na Revelação, as verdades básicas que concitam à Moral, ao Amor e à Ciência, transformando as criaturas em iluminadas e gloriosas, dignas servas do Soberano Poder, do que Jesus é o Modelo ou Exemplo. Como vim a saber mais tarde, o Universo Criado é regido por leis, por uma Lei de Equilíbrio. As meta-galáxias, as galáxias, os sistemas planetários e os mundos, formam partes de incomensuráveis organizações, criadas e sustentadas pelo Criador, melhor é dizer DIVINA ESSÊNCIA, e conduzidos pelos Excelsos Cristos, ou espíritos cuja intensidade em Amor e Sabedoria ultrapassam de muito o poder concepcional dos homens terrícolas. A Terra, portanto, com as esferas astrais que a circundam, esferas concêntricas e superpostas, ou Céus, formam um todo, uma unidade habitável, oferecendo meios e recursos variadíssimos, onde os espíritos pertencentes aos mais variantes graus evolutivos vão realizando sua programação evolutiva, cujo ápice resume o Amor e a Ciência. Entretanto, para quem como eu saiu da terra sólida em tamanho estado de atrofia e dores, era como um sonho estar numa esfera astral, onde tudo parecia ser a mesma Terra dos encarnados, havendo condições de vida que nada diferiam das da crosta, assim como havendo aquelas que constituíam extremos condicionais e situacionais. Eu, que vinha das trevas e dos maiores tormentos, nada sabendo das gloriosas esferas, que estavam para o exterior, (para não falar para cima, que é errado), devia considerar as melhores expressões pelo que de melhor revelavam ser as criaturas do local. Não tendo visto e nem vivido realidades superiores, devia aquilatar dos fatos pela melhora dos habitantes do local. Estes, por sua vez, diziam dos melhores ou mais evolvidos que os visitavam, com o fito de trazer ensinamentos, através de palestras que proferiam, em recintos apropriados e para aqueles que se fossem tornando merecedores. Este conceito, o de merecedor, andou perambulando pela minha idéia por muitos dias. Por fim, cansado de tolerar minha própria indecisão, pedi para falar ao chefe geral; e quando fui admitido à fala, disse-lhe de tudo quanto me vagava pela mente, achando que era justo que me ofertassem oportunidades de aprendizados, pois eu era um grande errado, porém altamente compenetrado disso e fartamente penitente. Desejava conhecer, a fim de triunfar sobre as torturas de ordem moral que me azucrinavam dia e noite. O chefe geral, apenas um espírito também endividado, cumprindo função ressarcitiva em ambiente bisonho, lidando com elementos portadores de muitos erros e sobrecarregados de traumatismos psico-mentais, nunca dava uma resposta certa, curta e concisa, suficiente para fazer calar ou falar mais; ele mantinha a disciplina, sendo que os trabalhos específicos, de medicina, enfermaria e instruções gerais, eram executados por outros, pelos diferentes departamentos. Não havia como prevalecer confusões, desde que as secções funcionavam normal e estritamente para aquilo que eram destinadas. E os necessários e obrigatórios entrosamentos, esses eram feitos rotineiramente, nunca havendo motivo de alteração, porque havia também e deve haver ainda, um departamento de programação, cujo fim era preencher as lacunas, suprir os elementos, quando por ventura surgisse um caso. Apenas estabelecido em sua condição de administrador disciplinar, respondeu o chefe, como sabia e como podia: – Você pertence ao quadro dos instrutores histórico-religiosos, pelo simples fato de ter sido um dos corruptores do Caminho do Senhor; lendo um pouco, como de fato tem lido, pode falar alguma coisa sobre os Grandes Reveladores, precursores do Messias, devendo ainda falar mais sobre o

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