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Capítulo 5 de 20
Primeira Parte — parte 2 de 7
Confissões de Um Corruptor · Osvaldo Polidoro
carne. Do Cenáculo Essênio, Jesus transplantou a Revelação para meio da rua, e dali para o Pentecostes, da onde que teria que grassar pela Terra a fora. Surgindo a corrupção, seca a Fonte Informativa e a treva começa a ter o seu reinado estabelecido. Foram séculos de idolatrias, de mercâncias vergonhosas, de negociatas entre os usurpadores do Nome de Deus e do Seu Cristo. Um pouco de clerezia levítica, um pouco de paramentações jupiterianas e bastante força imperialista; eis a nova ordem imposta no lugar do batismo de espírito. Nada de documentos, nada de informes básicos. Ninguém teria direito a ler e a se informar. Tudo adstrito aos rituais e aos salamaleques, que deveriam render ao Império a sujeição e o dinheiro dos reis e dos povos. E para quem quisesse dizer inversamente, procurando livros, ou a própria Revelação às ocultas, teria sobre si a chama das indefectíveis fogueiras. Assim findou o batismo de espírito, motivo de assim ter começado a era das trevas e de idolatrias, era que um dia deveria findar, quando fosse chegado o tempo da reposição das coisas no lugar. Eu lá estive, eu também meti o meu pulso de romano imperialista entre as forças corrosivas que deitaram por terra a Graça trazida pelo Cristo. Fiz muita força para ganhar o mundo, esquecido de que, na razão inversa, perdia o Reino de Deus. Pretendia saber muita coisa, mas não sabia que estava lavrando a segunda crucificação do Cristo. Que pela segunda vez, desabavam sobre a humanidade as trevas do mundo espiritual inferior. Pior ainda, pois descia aos piores rincões, chafurdava nas trevas interiores, de onde teria que ir saindo um dia, à custa de arrastar a alma e as carnes pútridas por entre as lameiras de sangue e de terrores inenarráveis. Ao ver o Império triunfante, tendo na corrupção do Caminho do Senhor, a maior fonte de sujeições, e uma das maiores cornucópias de todos os tempos, fui também sentindo na alma o peso de fantasmagóricas tormentas, de alucinantes perseguições. Os dias finais foram tremendamente sofridos e as noites povoadas de sonhos tenebrosos. Atribuía as febres a visão de macabros quadros, onde me via arrastado pelas hordas infernais, arrastado e posto a mergulhar em putrefatas sangueiras, de onde emergiam, de quando em quando, homens e mulheres, moços e crianças, feitos de terror e de acusações, vertendo pragas e reclamando de Deus o meu justiçamento, a minha condenação ao fogo eterno. Não me foi dado ensejo a que conhecesse a transição, a libertação do invólucro carnal; tudo continuou, o mergulho foi integral, sem a menor sensação de haver eu transposto a barreira entre os continentes dimensórios. A morte fatal, o seccionamento abruto , segundo as conceituações tradicionais, não existiu de modo algum, não figurou, para mim, no canhedo das sensações diferenciais ou sensitivas, nem mesmo para intelectualmente vislumbrar a possível traslação, pois tudo foi questão de, a meu ver, cair doente e submergir num mundo de febre e de visões macabras infindáveis. A noção de infinidade, essa tinha presença marcante, avassaladora e soberanamente reinante; vinham-me das profundezas íntimas a dolorosa certeza de que estava perdido nas vascas da mais infernal tragédia, arrastado pelo carrilhão das psíco-físicas desgraças em desencadeio pleno. Nunca poderia supor, naquelas condições, que me entregavam às situações mais degradantes e dolorosas, através da sucessão de quadros medonhos e de envolvimentos monstruosos, que todo aquele amontoado de causticastes estados fosse apenas o produto dos desequilíbrios íntimos, da inversão da ordem moral. Tudo mais não era, como nunca poderia ser, do que desarranjo psíquico, do que acúmulos de faltas ou pecados. Estava em desarmonia com a Lei Geral de Equilíbrio, eis a tabela vigorante. Em lugar de, pelas práticas virtuosas, soltar o anjo, nada mais fizera do que edificar o reinado das trevas infernais. Tudo passado dentro, nas raias onde o Reino do Céu devera ter predominância, viver à farta, a espargir em derredor as fulgurâncias benditas do Amor e da Sabedoria. Assim foi que, convertido em túmulo fantástico e nauseante, fui abalançado aos séculos de lancinantes expiações. Hoje penso no que pode ser um espírito, em que autofabricante de estados pode converter-se; penso e considero que é sempre uma força, que é sempre um engenho, que nunca será menos do que um autocriador de estados, de condições e de situações. Nem poderia ser de menos, sendo alguém que contém, por natureza, poderes espirituais formidáveis, capacidade criadora sabe Deus até que ponto. É mesmo de se aquilatar, o quanto vale e representa o relativo direito de livre
arbítrio, para ser bem ou mal empregado; é mesmo de se aquilatar a montante humana de autojudiciado. Porque temos os poderes, porque dispomos de liberdades e porque conhecemos a Lei que manda não agir mal, que ordena, portanto, a que se faça todo o bem! Depois de atingir a fase evolutiva de consciência individual e de saber, por inteligência e raciocínio, por Revelação e por interesse pessoal, que temos obrigação de executar determinado e fundamental comportamento, como fugir ao dever de juiz em causa própria? Dentre dois caminhos, o certo e o errado, tendo pleno conhecimento daquilo que são e para que conduzem, como pretender a desculpa, pelo fato de espontaneamente escolher mal? Não é graça de Deus ter valores assim e não ignorá-los? Na hora amarga, por que pretender dizer o contrário, somente para arrazoar contra seus próprios direitos fundamentais? Todavia, se vai bem ostentar tais direitos básicos, nem só por isso temos desejado as melhores realizações internas. Entre saber e proceder tem havido muita distância, tremenda separação. Como naqueles dias, a receita é esta – “Faça-se tudo em nome de Deus e do Cristo, mas reverta-se tudo em benefício do Império”. É esse, ainda, o retrato do filho em face do Pai, na maioria dos casos e das vezes. Fala-se no Céu, mas viva-se o interesse mundano; tenha-se a Lei na memória, mas pratique-se tudo quanto serve ao animal e à fera. E enquanto assim marcha a Humanidade, chafurdando nas plagas sombrias e nos chavascais tenebrosos, cresce de monta a riqueza dos templos, alastram-se os galardões hierárquicos da fauna que se acredita existir em função das verdades eternas e inderrogáveis. Bem cabe, aos quadros de tais e tão tristes verdades, o rifão popular – “Por fora bela viola e por dentro pão bolorento”. Quem quiser o testemunho dessa assertiva, que venha observar o que despeja a morte nestas paragens; porque, a todos os minutos, gente que no mundo andou falando muito em Deus, e comprou bastantes salamaleques aos credos, deixa o corpo e nada entende das verdades e das vantagens da nova situação. Quase sempre, infelizmente, além de ignorar os fatos mais corriqueiros, ainda despenha nos baixios e passa tempos e mais tempos uivando e gemendo, gritando Senhor! Senhor! E é assim que vimos a ter certeza de que as realidades da vida comum viriam dar testemunho das afirmativas singelas do Cristo. Falando hoje, reporto-me aos dias e aos ensinos de Jesus, dando-me por honrado de Lhe estar servindo; em tudo quanto estamos fazendo, nada mais acrescemos, sem ser o trabalho transmissor, curtindo a pena de ter que dizer o seguinte: bem tarde, Senhor, nos capacitamos de Tua Divina Exemplificação! Em outra vez, lembro-me da Lei, que tendo por veículo a Revelação – a Revelação que era patrimônio das Fraternidades Esotéricas – a nenhum credo clerical e formal ordena que se sujeite o filho de Deus, concitando no entretanto a que a viva nos quadros da decência e nos moldes emancipadores do bem. Para mais distinguir a Vontade Soberana, em Seus chamamentos ao Amor e à Sabedoria, acrescento a Graça da Revelação trazida por Jesus para toda a carne, Graça que tanto mais concita a que se abandonem todos os falsos recursos da simulação e dos mercantilismos. Embora seja eu apenas um exemplo vivo dos erros acumulados, erros que por mim bradam conclamando ao viver simples e justo vertente das constantes da Lei, reafirmo todavia aquela necessidade de perdoar pelo menos setenta vezes sete, porque é natural que segundo o seu grau evolutivo o indivíduo e as comunidades podem pertencer a estes ou aqueles crivos religiosos. Paira de pé, infelizmente, aquele ditado saturado de verdade: “Dize de tua religião e dir-te-ei de tua evolução”. Evidentemente, concordareis, quem sabe mal sente mal, fala mal, age mal e para mal se encaminha. Embora, pela renovação, os odres e os panos velhos tenham de fazer-se novos, a fim de receberem vinho e remendo novos, o senso comum indica que os recursos básicos de forçamento cabem a Deus. Ele, que a tudo origina, que a tudo oferece valores fundamentais, recursos e meios, oportunidades e situações, falará mais alto do que nós, e convincentemente, pelos escaninhos da vida e do sofrimento. Nós apenas avisamos, cumprimos o dever de testemunhar a Graça da Revelação; Ele porém, através das leis, fará que cada um tome suas devidas providências. Quem não ouve os ditames do Amor e da Sabedoria, certamente ouvirá o zunido cortante das guascas dolorosas Eu também aprendi assim. Tendo sido mau aluno ou mau filho, deambulei pelos ermos negros e putrefatos, vindo a merecer hoje as valias de bom mestre. Para o serviço em vista, pela função a
cumprir, somente gente como eu poderia merecer a honra das precedências. Fora para outras lições e, naturalmente, seriam convocados outros elementos. Rogo, no entanto, o favor desta observação – quem já teve a voz clamante dos Grandes Reveladores, que precursaram ao derrame do espírito sobre a carne; quem já teve a dita de conhecer a Celeste Mensagem do Cristo e de fazer-se herdeiro da Graça trazida para toda a carne; e quem está tendo a ventura de ser aquinhoado com os anúncios derivados da mesma Graça, que ao menos se faça digno, para seu próprio bem, de toda essa ventura.
Nos albores do século sete, depois de me arrastar pelos lameiros nauseantes e de estar como que a sentir a morte pela segunda vez, pude ver ao longe que uma fagulha pequenina tremeluzia. Fixando bem o que me restava das vistas, das vistas que tinham nas amargurosas lágrimas a única lavagem constante, notei que a fagulha as vezes se aproximava, num real ou aparente convite para que a seguisse. E foi como tive a coragem para me arrastar, pois desde muito que, sentindo os ossos dos membros inferiores descarnados, nada mais intentava, certo de que nenhum recurso poderia jamais valer-me. Foi assim que cheguei a um local ensombrado, porém ofertante de boa visão; foi assim que observei, em mim mesmo, a tremenda, a hedionda e tétrica devastação. Os ossos estavam a mostra, apenas cobertos de barro, de lodo endurecido, e lodo feito ou argamassado com sangue e com pedacitos de carne humana! Estava acostumado a gemer, a lancinar, a transfundir-me em lágrimas dolorosas. Diante daquele apavorante quadro, penetrei os confins de mim mesmo, recolhi-me de maneira tal, fiz-me o repasto de minhas próprias mortas angústias. Já não havia como chorar, porque a secura provocada pelo fogo íntimo, secou de todo aquele espectro que eu era! Espectro seco, mudo, liquidado a mais não poder ser. Encurvado e atirado ao solo, um areião bolorento e quentíssimo, sentia apenas a mim mesmo, a mente espiritual, que não deixava de funcionar, de clamar e proclamar a sua existência! Hoje recordo, revivendo tal acontecimento, a grandeza do fenômeno que é a existência. De dentro, do seio miserável de toda aquela tétrica devastação, emergia a consciência de mim mesmo, fulgurava a chama da imortalidade. Da imortalidade e da responsabilidade! Da responsabilidade e de todo seu glorioso esplendor! Porque eu era, porque eu existia, porque eu continuava a ser mais do que toda aquela hedionda e tenebrosa devastação! O germe sacrossanto da vida ali estava, ali presidia ao estado em que me achava, ali se mantinha para fazer reagir, para exigir o soerguimento fatal, justo e necessário, assim que fosse chegada a hora! Reduzido a mais não poder ser , ainda assim palpitava a alma imortal, vibrava tremendamente a criatura de Deus! Das profundezas de tamanha miséria, emergia o testemunho da vida eterna! Sumido nas vascas de tanta dor moral, infernalmente amesquinhado em face de mim mesmo e do meu corpo de espírito, era o Ego eterno que ali estava e se impunha sobranceiro a todas aquelas tormentosas vicissitudes. Não sei quanto tempo, ao certo, terei ficado ali, auscultando a vida que se fartava nos farnéis lutuosos do crime e das chagas conseqüentes; sei que em dado momento, ouvi ao longe um como assobio cortante, penetrante até o íntimo da alma. Ele vinha de muito longe, parece que do horizonte, como se fosse um assobio qualquer; mas ao chegar ao meu ouvido, tomava a feição de um instrumento penetrante, acutilante, formidavelmente assustador. Fui alertado por ele, que entrando pelos meus recônditos, com tudo remexia, tudo punha em polvorosa, como se me estivessem esvoaçando por dentro milhões de vespas! Cheguei a me sentir naquela hora, a partícula de vida mais odiosa de toda a chamada Criação! Por cima de tamanha miséria, depois de estar reduzido a um espectro fedorento, ainda aquela tormenta insuportável, ainda aquele assobio mortal! – Deus!... Meu Deus!... Ó meu Pai... – exclamei, aterrorizado, olhando para o alto, onde somente divisei fumaças e formas animais fantásticas, que tremulavam e deslocavam lentamente.
Como reinava ali silêncio sepulcral! Como ecoou por aqueles mundos quietos a minha exclamação impetrante! De todos os lados chegava a minha própria invocação, cheia de terror, povoada de angústia, eivada de anseios flamejantes! O assobio desapareceu, sumiu, perdeu-se na imensidão desolada e quieta; apesar de tudo, depois de julgar-me o mais miserável de todos os seres criados, cheguei a me sentir feliz pelo simples fato de haver desaparecido aquele assobio terrível, aquele mortífero ruído que veio dos confins do horizonte. Erguido sobre meus ossos, montado naquela fartura de ossos recobertos de lama fedorenta, por um pouco que não rendi, graças a Deus, por ter sumido aquele assobio infernal. Ciente daquele ecoar formidando, lancei novo apelo: – Deus meu!... Senhor, socorrei-me!... E a quietude imensa, ampla sombria, trouxe de volta o rebôo de minha exclamação. Cessada esta, tudo volveu ao tredo abandono, tudo caiu na mais ampla e soturna solidão. Que quadro medonho estar ali, isolado, entregue a toda aquela vastidão cruciante! Sentei-me, antes atirei-me ao solo, fazendo ranger os ossos. Nem aquela chamazinha, nenhuma esperança. Estava certo de ser espírito, de estar submerso nos reinos da morte e entregue aos tentáculos da Justiça. Foi nisso que me abalancei a meditar, recordando a vitória de Constantino, comentando comigo mesmo as ordens emanadas do novo Imperador, para que se desse término às reuniões dos cristãos, da gente do Caminho, cujo fim era comungar com os espíritos, cujo objetivo era erigir o Reino de Deus no âmago das criaturas. Porque, conforme todos sabíamos, eles minavam pela base os alicerces do Império; eles nada queriam com o reino do mundo, bastando que tivessem o que comer e o que vestir, para se darem por felizes. Roma não encontrava neles os homens de que carecia, os políticos, os soldados e os dominadores em geral; Roma virava de pernas para o ar, Roma encolhia, Roma estava situada entre as presas fáceis de qualquer conquistador que lhe batesse as portas. Urgia, pois, liquidar Maxêncio e dar fim aos homens do Caminho, aos que davam curso ao batismo de espírito; e foi isso o que se fez, depois da vitória de Constantino, havendo sido criado o novo credo, em nome de Deus e do Cristo, tomando-se por base humana os primeiros discípulos, criando-se o ritual, forjando os sacramentos, liquidando a Revelação e impondo a nova ordem de coisas através do Santo Ofício da Inquisição, a polícia secreta imperial que, para ter cunho de integral autoridade, funcionava como se fosse a instituição guardiã da fé. Lei, Amor e Revelação, essa era a base doutrinária dos homens do Caminho; a seguir, entretanto, as práticas mudaram de feição, tomaram rumo totalmente diferente. A festa do pão e do vinho, que era a da confraternização anual, criada pelos antigos Essênios como sendo a da igualdade, pois comer do mesmo pão e beber do mesmo vinho simbolizava a fraternidade comunal, essa foi transformada em instrumento subordinante em meio de compressão, obrigando a sujeições diante dos beleguins do Império. O mundo ajoelhar-se-ia diante de Roma, através de seus novos funcionários; e os novos funcionários agiriam em nome de Deus e do Cristo, embora a corrupção doutrinária levada a termo. Clerezia, ritual, sacramentos, hierarquia, pompa e rigorosidade funcional. Outra prática que os do caminho cultivavam era aquela fundamentada na exclamação do Batista, sobre a necessidade de conduta irrepreensível: “Que os vossos atos, confessados em público, não vos envergonhem”. A Igreja de Roma, substituta violenta da Igreja do Cristo, transformou essa prática em divisa coercitiva. Criou a confissão auricular, outro meio de vasculhar a vida íntima dos indivíduos e de executar as mais prontas e violentas eliminações. Essa corrupção doutrinária converteu-se, no curso dos tempos, na maior fonte de crimes e de vergonhosas práticas. Até ao presente, coisas afrontosas passam-se mormente em relação ao sexo feminino, sujeito a perguntas realmente imorais, verdadeiramente escabrosas, ofertando margem a que homens recalcados de certas proibições, e tarados de certas necessidades instintivas, tenham campo para invadir aquela esfera de recato e de sentimentos que jamais deveriam estar assim franqueadas. Em minhas rememorações, vi-me nobre, terrivelmente cumulado de apreensões, esmagado pelo desmoronamento imperial, sujeito a perder todas as valias e prerrogativas; revivi o chamado imperial, para que me apresentasse e tomasse função entre a nova ordem religiosa. Devia ser autoridade, cumpria-me tomar posto na luta e na vitória, assumindo a seguir o comando da reforma
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