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Capítulo 8 de 20
Primeira Parte — parte 5 de 7
Confissões de Um Corruptor · Osvaldo Polidoro
Messias e Sua Doutrina, toda ela estribada na Lei, no Amor e na Revelação. Isto mesmo, Proclo, em caráter transitório, pois a sua estada por aqui é favor que me fez o nosso regente superior. Eu não posso, portanto, deliberar nada a seu respeito... Não tenho elemento algum para fazê-lo. Caso você queira mesmo ir-se, agradecerei ao regente o favor que me fez, remetendo-o para onde ele designar. – Eu – obtemperei – não pretendo ir-me; nada sei sobre coisas deste mundo, que não sejam os fatos que se deram e que estão ocorrendo: estive nas trevas e sofri horrores e terrores, até perder as carnes, mesmo sendo um espírito. Eu nem sequer sabia que espíritos ou almas do outro mundo tinham corpos carnais! Depois de muito sofrer, vi uma luzinha e procurei segui-la, dando com a vida em lugares mais claros, até vir parar aqui, graças a Deus. Agora que estou aqui, com o corpo são, por mercê de vossos cuidados, desejaria saber mais e prosseguir nos trabalhos de reparação. Devo tremendas faltas e quero repará-las, nada mais. Como de costume, respondeu-me: – Eu também gostaria de melhores sítios e oportunidades!... Entretanto, Proclo, ordenam que vá ficando por aqui... Já pedi transferência várias vezes, mas a resposta é sempre a mesma: “Cumpra ali com os seus deveres”. – Não posso compreender certas coisas que se passam por aqui, meu senhor. Temos saúde e não podemos galgar melhores postos de conhecimento e trabalhos! Ora, se não nos permitem trabalhos, como poderemos alcançar o resgate de que tanto alarde fazem os livros doutrinários? O evangelho não tem mais, não manda fazer mais do que compreender menos de uma dúzia de verdades básicas: reconhecer o Emanador, a Emanação, a Lei, a Virtude, a Imortalidade, a Responsabilidade, a Evolução, a Comunicação ou Revelação, a Reencarnação e a Pluralidade dos Mundos. Isso contém tudo, tudo quanto já podemos conceber e aquilo que está além de nossas possibilidades de concepção. Entretanto, na hora de querer avançar, conhecer mais e trabalhar pelos resgates necessários, nada nos oferecem, tudo nos proíbem! Sorriu o chefe, o seu breve e cético sorriso, para murmurar: – Bem, nós também truncamos o andamento da Verdade, não é isso? – Mas agora queremos reparar a falta... – balbuciei, com forçada mansidão, já que o meu desejo era gritar, berrar, estrilar violentamente. Novo e alvar sorriso, para nova e simples murmuração: – A Verdade que foi por nós truncada, envolvia e envolve criaturas dedicadas e merecedoras de todo o respeito; nós, todavia, nunca procuramos saber isso e reconhecer os seus méritos e direitos. A Lei, no entanto, maneja a Justiça, com o seu devido critério... Ainda bem que não estamos mais nos lugares de treva e de tormentas!... Ainda bem que o senhor, um simples traidor do Messias, está todo forradinho de carnes perfeitas!... Admirado de suas palavras, que pareciam ocultar conhecimentos respeitáveis, anuí: – Sou reconhecido a Deus e a todos por isso, meu senhor. – Então – emendou ele – vá cumprindo com as suas funções de instrutor histórico-religioso... Mais tarde, quando for tempo, segundo o que tiver para dar em capacidade evangelizadora, terá outras funções. Por enquanto, saiba, eu também tenho os meus grandes desejos de aprendizados e de reparações, sem deixar de reconhecer que ainda não mereço semelhantes oportunidades. E o senhor, como é do seu conhecimento, não traiu apenas um Numa Pompílio...O senhor traiu o Maior Ungido, Aquele que tomou carne para derramar do espírito sobre toda a Humanidade; Aquele que teve por função missionária abrir as portas dos Cenáculos Esotéricos. E mais do que isso, cooperando na obra traiçoeira, fê-lo metendo a mão no sangue de muita gente! Eu já lhe disse, Proclo, que a Doutrina do Messias é Lei, é Amor e é Revelação. Portanto, sem muito cogitar de minúcias, de exegeses meticulosas, vá pondo bastante Amor em suas palestras, vá procurando reconhecer os recursos informativos da Revelação, não esquecendo que reentrar na Harmonia é problema sério, é programa recuperador que demanda longas etapas, impondo à condições e situações rigorosamente justas e necessariamente intransferíveis. Observando minha circunspecção, depois de breve pausa, concluiu:
– Não fale, apenas, aos seus ouvintes; transmita certezas imorredouras, passe adiante sentimentos deveras amorosos e fraternos. Não se esqueça de que falar em Deus e no Messias é muito simples, sendo mais fácil ainda comentar as lições de Harmonia, de Paz e de Progresso. Eu, pelo menos, custei muito a concordar com a Lei, reconhecendo que devia, antes de mais nada, ser obediente e ser fiel cumpridor dos deveres que me foram impostos. Creio que o senhor está passando pelo mesmo crivo psicológico, pois não? – O senhor pensa assim? – perguntei, impregnado de incertezas. – Eu sei assim... Tenho pena, por si e não por mim, de não lhe poder fazer alguma coisa... Todavia, lembre que já é um funcionário da Verdade, que deve a graça de estar falando aos outros sobre as leis regentes do Universo Criado. É bem possível que os outros, os seus ouvintes, saibam e possam menos... O senhor devia amar e prezar muito a sua função, creio eu... Eu estava desmantelado; sentia-me como que posto no avesso; dentro de mim, entretanto, fervilhavam idéias de renovação. Por isso mesmo, perguntei-lhe: – Quem me poderia informar sobre o meu futuro? – Vá ao departamento de organogramia ou programação. Meu poder vai somente ao ponto de indicar os departamentos de serviço. Todavia, quando há algum caso de rebeldia, de prepotência contra a ordem geral de disciplina, então a mim é que cumpre agir. Em tais casos, como deve saber, não uso de meias medidas. Tudo por aqui é digno de respeito, porque estamos nos limiares da Grande Vida; mas o principal é a disciplina! – A disciplina, senhor, pelo que tenho visto e sabido, é a base da vida, seja no rol do comportamento individual, seja nos círculos do funcionamento social. A Lei de Harmonia, sendo de alcance geral, fracciona-se em matizes de ordem particular, em nuanças disciplinares imprescindíveis. Seco, embora em tom suave, o chefe observou: – Então vá, Proclo, e mantenha alto o senso do dever... Se for capaz de se compenetrar do senso do dever, pelo simples fato de se compenetrar da valia das lições que dá, dentro em breve talvez seja transferido para lugar melhor. – Talvez muito melhor! – exclamei, satisfeito, pelo que me dissera. Abanando a cabeça afirmou, em tom ponderoso: – Isso, não!... Evite manter tais ilusões de pé, amigo Proclo, que nós os corruptores da Doutrina Certa e derramadores de sangue, não temos o direito de pretender tais prerrogativas. – Por que? – perguntei, impertigado, lembrando os séculos de tortura, as dores de toda ordem que andara sofrendo. Desconsolado, tristemente desconsolado, esclareceu: – Nossos erros, forjados e impostos, são fontes de erros coletivos que estendem seus venenos pelos tempos em fora... Verdadeiras caudais humanas, vivem trilhando os caminhos nefandos que nós abrimos na esteira do mundo e nas práticas religiosas. Há uma lição do último Buda, que afirma ser a melhor obra humana aquela que constitui de encaminhar o semelhante para o conhecimento e a união com o Emanador; logo, amigo Proclo, a pior obra humana é desviar a criatura do Reto Caminho. É o que nós devemos, não é? Aleguei, julgando as coisas a meu modo: – Apesar dos pesares, chefe, a Igreja Romana, se deu cabo do batismo de espírito, seu verdadeiro motivo de alastramento e de testemunhos irrefutáveis, também é certo que manteve as tradições do Deus Único e das lições morais e amorosas do Messias. Quanto ao morticínio, isso reconheço que foi além das medidas... Antes que eu terminasse o pensamento, ele aparteou... – Somos de muito baixo para julgar o que é de muito Alto; se o Deus Único, depois de tantas Revelações sucessivas, mandou Seu Maior Ungido batizar em espírito, abrir as portas dos Cenáculos Secretos para que todos possam conhecer as verdades fundamentais, que ser humano ou conjunto deles deveria meter-se a julgador e pervertidor? E a chacina levada a termo? Por que julgar sumariamente aos que cultivavam a comunicabilidade dos espíritos, se para isso o Messias contribuíra com o Seu próprio martírio na cruz? Como está escrito, Proclo?
Recitei o texto evangélico: “ O que crê em mim, como diz a Escritura, do seu ventre correrão rios de água viva. Isto porém dizia ele, falando do espírito que haviam de receber os que cressem nele; porque ainda o espírito não fora dado, por não ter sido ainda glorificado Jesus” – João, 7, 38, 39.
O chefe emendou, cheio de unção:
“Mas o Consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”. – João, 14, 26.
Quase que forçado, tangido por estranha imposição, avancei:
“Mas eu digo-vos a verdade: a vós convém-vos que eu vá. Porque se eu não for, não virá a vós o Consolador; mas se for, enviar-vo-lo-ei”. – João, 16, 17.
Elevado o chefe ao estado de frenesi, prosseguiu:
“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e me sereis testemunhas em Jerusalém, e em toda a Judéia e Samaria, e até às extremidades da terra”. – Atos, 1, 8.
Senti em mim a invasão de cruenta e indomável tristeza; parecia que todo o fel do mundo entrara num repente em minha alma. Fiquei calado, cabisbaixo, sem poder pronunciar o que quer que fosse. Enquanto isso, o chefe continuava a recitar:
“Assim que, exaltado pela destra de Deus, e havendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou sobre nós a este, a quem vós vedes e ouvis” – Atos, 2, 33.
Assim como ele terminava o recitativo textuário, lembrando as palavras de Pedro naquele inolvidável dia em que se dera a grandiosa eclosão mediúnica, eu me emborcava todo, sendo obrigado a rolar pelo chão, gemendo sobre o guante de terríveis dores, tão íntimas e tão profundas que eu não sabia o que pensar.
Quando dei acordo de mim, estava na enfermaria, deitado em um leito. Nada me doía, porém sentia em mim amargura tremenda. Ao primeiro enfermeiro que se me aproximou, perguntei: – Que foi isso que eu tive? Ele olhou de soslaio, fez um esgar e respondeu: – O médico poderia dizer umas palavras complicadas... Mas isso é muito pecado que o senhor tem... Demorou um pouco e emendou: – Que nós todos ainda temos... Apesar de tudo, tive vontade de rir; que mais fazer, diante de tantas realidades simples, porém vívidas ao extremo e patentes a toda a prova? – Quer trazer-me o meu evangelho? – roguei. – Está debaixo do travesseiro – respondeu. – Você adivinhou? – estranhei. Entressorrindo, esclareceu: – O chefe e o médico acharam que é seu grande remédio... – E você, o que pensa, Vitório? – Eu penso que é o grande remédio, senhor Proclo. Na conferência de ontem, falou o instrutor, quando o espírito é brilhante o corpo não pode ser chaguento. E o Evangelho ensina isso tudo, sem complicações e sem fazer a coisa comprida, como o médico sempre repete. – Você costuma ler, Vitório? Ele me olhou com espanto, dizendo com solicitude: – Nós, os enfermeiros e os médicos, temos obrigação de ler o Evangelho. Nosso trabalho demanda a posse de acúmulos energéticos curadores, e o Livro do Crucificado é uma fonte de eflúvios maravilhosos. Costumo ler, costumo colocar a mão direita sobre ele e fazer minhas orações. Aprendi isso na Grécia, quando fui para lá como soldado, com alguns discípulos do Caminho. Eles costumavam colocar o livro sobre a cabeça dos doentes, rogando a Deus que fosse feita a Sua Vontade acima de tudo. – E os doentes saravam? – perguntei. Olhou-me o enfermeiro com algum desdém, respondendo: – Nem a religião e nem a medicina podem evitar que morra o que teve nascimento; entretanto, enquanto não for hora de morrer, tudo deve ser tentado; e o Evangelho faz bem para os corpos e para as almas. – É isso mesmo, Vitório. Tornou ele a me encarar, afirmando: – Mais faz ele pelas almas!... Afinal de contas, já que os vivos devem morrer, que o façam nas melhores condições, não acha o senhor? – Nem diga, Vitório! Logo a quem você pergunta isso?!... O enfermeiro indicou a si próprio, batendo com a mão direita no peito, a fim de dizer: – Eu também fiz das minhas... Matei e depredei por conta dos outros, até que dei em ser fugitivo e bandido dos mais bárbaros. Ganhei isto... Ainda agora estou folgado, porque trabalho e faço o bem que posso...
Calou-se por um instante, para logo mais recomeçar, tendo visto que eu lhe esperava o prosseguimento: – Por aqui, senhor Proclo, não dá gente boa... É quase tudo a mesma coisa, é só gente que vem dos abismos!... – Onde esteve você, Vitório? – Eu vim das águas, pois a minha morte carnal foi por afogamento. Um companheiro traiume, preparou-me uma emboscada; depois de me haver ferido, ainda vivo atirou-me às águas, tendo eu deixado o corpo físico naquele estado, que ficou sendo a minha tortura por cento e quarenta e poucos anos. Passei tudo isso desesperado, gritando por socorro, berrando como um danado!... – Como foi que se deu a sua libertação? Encolheu ele os ombros, como quem não valoriza os meios, desde que os fins sejam aqueles determinados por Deus; mas falou, explicando: – Um barqueiro passou e recolheu-me, nada mais. De tanta gente que por ali passava, ninguém me vendo naquele estado, somente aquele barqueiro me viu, quando chegou a hora indicada pela Justiça Divina. O problema, senhor Proclo, é tratar de não dever! Quem deve, certamente terá que pagar... Que adianta condicionar a vida aos efeitos, considerar tanto os seus pretensos valores, quando os verdadeiros valores pertencem às causas? Se tivéssemos sempre em mente as leis básicas, as virtudes fundamentais, por certo não teríamos tanto que pensar em recursos que por si mesmos nada valem. Desprezamos ao que é fundamental, quando é hora de pensar e de agir com seriedade, e depois ficamos por aí a tecer considerações sobre paliativos e outras coisinhas, não é isso? – Você gosta de ler sobre filosofias, Vitório? Ele sorriu francamente, respondendo: – Meu fraco, senhor Proclo, era negociar; as guerras é que me tiraram do sério... Eu acho que na vida tudo é questão de saber transacionar, trocar de tudo, permutar sempre, nunca porém fazer negócios desonestos. Veja o senhor, como eu vivo agora : não é puro negócio? Dou a minha parte e os outros me dão o que lhes cumpre. Deus que é o Senhor de tudo, distribui por Sua vez aquelas pagas morais que não poderiam vir de outro modo e nem de outra Fonte. Não se resume tudo em colher na Fonte Divina e permutar de acordo com as leis de Deus? – Deveras, Vitório, tudo é questão de viver o regime de permutas, lembrando a obrigação elementar de não sair fora das normas fundamentais de Harmonia. Todavia, não se aprende isso tão fácil assim... A falta de conhecimentos gera a falta de certezas e a falta de certezas gera a negligência e a queda, vindo por aí as dores e as necessidades de resgate. – As vidas cheias de percalços e de sofrimentos – emendou ele, peremptório. – Por falar em vidas, você conhece bem esse negócio, Vitório? – perguntei. Vitório assentiu com seu habitual gesto de cabeça, anunciando: – Depois de dois anos de serviço, mereci uma bela experiência demonstrativa; fui enviado à região acima, tendo lá visto umas tantas verdades a meu respeito, umas facetas do meu roteiro de vidas e de liberdades mal usadas. Detendo-me em sua expressão incriminativa, indaguei: – Liberdades mal usadas? – Sim senhor. Quase que um roteiro de liberdades mal usadas e nada mais. Não sei o que fiz quando fui habitante dos reinos inferiores, porque então vi tudo em plena escuridão, sem imagens e sem a menor noção de coisa alguma. Ao entrar porém na esfera hominal, depois de ser conhecedor de algumas verdades fundamentais, quase tudo quanto fiz foi usar mal das liberdades que tive. Cometi erros e mais erros, descendo aos abismos do sofrimento e tendo que reencarnar em corpos terrivelmente defeituosos ou mesmo sobrecarregados de taras doentias. Minha última vida carnal, essa foi quase um programa completo de inversão da ordem moral. O abuso das liberdades mal usadas fizeram-me viver nas trevas e por entre vermes, gemendo ceitil por ceitil as maldades cometidas. Rendo graças a Deus por isto, isto que estou fazendo, porque assim consigo fazer o bem... Pensando feridas, enxugando lágrimas, falando sobre as leis de Deus; tudo isto benção que chove sobre mim, vinda dos altos planos de onde nossos maiores executam a Vontade de Deus. Para quem matou,
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