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Capítulo 61 de 67
III
A Vida Escreve · Chico Xavier e Waldo Vieira, pelo espírito Hilário Silva
Desde essa ocasião, aparecera-lhe o outro lado da vida.
Conheceu mais de perto a residência da cancela rosada. Conversou mais demoradamente com a mulher que velava e conheceu outras clientes do do pequeno edifício.
Ao fim de quatro meses, sentira-se diferente. Tinha vertigens. Vomitava.
Jorge levou –a ao gabinete de um médico ainda jovem, que lhe deitava olhares ambíguos.
Revoltava-se diante dele, mas submeteu-se a tratamento.
Processou-se o aborto esperado. Todavia, desde então, tinha sonhos alucinantes.
Via-se perseguida por alguém. Rouquenha voz lhe gritava aos ouvidos: “Mãe,mãe, por que me mataste?” Acordava, enxugando o suor álgido, no lençol.
Queria ser mãe. Para isso, porém, precisava casar-se.
Jorge, no entanto, exigia-lhe calma. Devia terminar o curso de bacharel. Mas, nos últimos tempos, fizera-se arredio.
Contava-lhe os sonhos, perturbada. Ele ria-se e falava em consulta ao psiquiatra. Dizia-se também cansado. Estudos intensivos.
Passavam-se agora semanas de ausência. Telefonava-lhe. Pedia conselhos, rogava conforto. Ele sempre a dissipar-lhe os temores com a promessa do matrimônio. Desde o aborto era outra. Parecia-lhe viver com o filho que não nascera. Sentia-se visitada por idéias estranhas, como vidraça clara atravessada por largo jogo de sombras.
Na véspera, buscara Jorge na esperança de mais decisivo socorro médico. E estarrecera-se. O amigo, que sempre considerara noivo em particular, estava com outra.
Apresentou-a.
- Companheira de infância – informou.
E afirmara, sem rebuço, que pretendia casar-se dentro de poucos dias.
A rival cumprimentou-a, indiferente à dor que a fulminava. Empalidecera. Jorge, sorridente, conduziu-a a pequena distância e explicou-se.
Não a amava, confessou impassível.
- É melhor terminarmos assim - falou, frio -, antes de mais sérias dificuldades.
Ela implorou em lágrimas.
- Dissuada-se – concluiu quase áspero.
E afastara-se, retomando o braço da jovem que sorria, tranqüila, a ignorar-lhe a tragédia.
IV
Mundo íntimo desmoronado.
A idéia de suicídio envolveu-a de todo.
Arrastou-se de regresso a casa.
Adquiriu a substância letal.
Escreveu bilhetes.
E, pela manhã, sorvera a porção de uma só vez.
Pavorosa dor irrompeu-lhe na carne, nos nervos, no sangue, nos ossos...
Convulsões sucessivas não lhe permitiam morrer.
Entretanto, ouvia sua própria mãe gritar como louca: “Morta! Morta!”
Ouvia algazarra, nas o próprio sofrimento não lhe conferia o privilégio das discriminações.. Viu-se carregada. Dois homens colocaram-na em “vasta gaveta”, a única interpretação que podia dar ao espaço fechado de pequena ambulância.
Não apenas chorava. Rugia em contorções, mas ninguém lhe percebia agora os terríveis lamentos.
Viu-se atirada, sem qualquer consideração, de encontro ao que lhe pareceu “laje fria”. Suplicava socorro. Agitava-se.
Ninguém, no entanto, atendia aos seus apelos.
Seis homens aproximaram-se. Um deles, mais experiente, parecia conduzir outros cinco.
Queria ajoelhar e pedir-lhes a necessária assistência.
Arrependera-se. Desejava retomar o corpo e viver. Pensava no martírio dos pais. Reconhecia-se jovem ainda.
Poderia sobrepor-se à situação. Trabalharia por vencer. Nenhum dos circunstantes lhe ouvia os brados. Pareciam desconhece-la, desrespeita-la. E mais que isso, desnudaram-na.
O homem amadurecido afastou-se por minutos como quem se esquecera de trazer algum remédio a fim de ajuda-la. Dois dos cinco rapazes presentes tocaram-lhe o corpo. Beliscaram-na.
Alarmou-se, indignada ante o vexame evidente.
O mais velho, longe de garanti-la, fez mais. Tomou de um bisturi e abriu-lhe o abdômem.
- Assassinos! Assassinos! – estertorava.
Mas a operação prosseguia. Ouvia vozes. Alguém dizia: “Bela mulher!”, enquanto o cavalheiro amadurecido, em grande avental branco, falava em “cianetos” e “cheiro de amêndoas amargas”.
Um dos moços, de olhar irônico, exclamou, tateando-lhe o busto: “Porque matar-se desse modo?”
Sentindo-se em desespero total, clamava que não. Tentara o suicídio, mas recuara.
- Terminassem a operação! – pedia, em pranto, reconhecendo tratar com jovens cirurgiões em estudo.
Tinha pressa. Desejava tranqüilizar os pais, refazer a existência. Mas, em meio das sensações turbilhonárias que lhe atormentavam a alma, sentiu que continuavam a lhe cortar a carne.
Era demais. Viu-se separada do próprio corpo, como jóia que salta mecanicamente do escrínio.
E conheceu a verdade,enfim. O corpo que ela própria arruinara apresentava máscara triste.
Mãos ágeis trabalhavam-lhe as vísceras, separando material de exame necrológico.
Entretanto, ela – Marina, ela mesma – cambaleava, de pé, com todas as dores e convulsões de momentos antes...
- Mãe! Minha mãe! – clamou aterrada – quero viver! Viver!...
Outra voz, contudo, bramiu-lhe ameaçadora e sarcástica aos ouvidos:
- Mãe, minha mãe, eu também quero viver!...
Procurou com os olhos agoniados quem lhe falava, mas apenas sentiu que braços vigorosos a aprisionavam.
Lembrou, aturdida, o aborto, os sonhos, a tortura,e o suicídio, e esforçou-se terrivelmente para voltar e erguer de novo o corpo tombado na mesa fria.
Mais era tarde...
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.