Voltar ao livro A Vida Escreve

Capítulo 15 de 67

12 - Incêndio na Serraria

A Vida Escreve · Chico Xavier e Waldo Vieira, pelo espírito Hilário Silva

O grupo de senhoras estava em prece.

Chamados a ouvi-las, nós, os desencarnados, tínhamos o coração enternecido.

Desejavam construir uma escola. E mentalizavam no doce requerimento o modesto edifício, limpo e alvo, que ofertariam aos pequeninos.

- Senhor - dizia a mais experiente das quatro -, Senhor, inspirai-nos e protegei-nos. Agradecemos as dádivas que já recebemos em Vosso nome. O pedaço de terra, a pedra e a cal... Agora, Senhor, precisamos de madeira para dar início... Confiadas em Vosso amor, visitaremos a fábrica de móveis... Rogaremos auxílio, contando com Vossa bênção!

Em seguida, levantaram-se para sair. E, comovidos, junto delas, pusemo-nos igualmente em marcha.

II

O gerente da serraria-oficina, importante empresa da grande cidade, recebeu a comissão cortesmente.

Contudo, o Dr. Alberto - era ele engenheiro hábil -, ao ouvir a sucinta exposição, esfriou, desapontado.

Mas, mesmo assim, a conversação se fez viva.

- Não temos interesse algum em concessão semelhante - disse.

- Doutor, mas é uma escola destinada às crianças menos felizes - falou D. Rute, a maior responsável.

- As portas serão abertas em nome de Deus - falou D. Constância.

- Contamos com o senhor - acentuou Dona Ester.

- Deus recompensará o que possa fazer - aduziu D. Amália.

- E que temos a ver com Deus? - falou ele, mordaz. - A educação é obra para governos. Não será lícito imiscuir o Criador em negócios que não lhe dizem respeito. Digo isso em consideração às senhoras, porque, de mim mesmo, sou materialista confesso. Ateu. Ateu puro.

D. Rute sorriu, delicada, ma não se deu por vencida. E aclarou:

- Decerto que esperamos do governo que nos dirige providências mais amplas a favor dos meninos. Entretanto, até que isso aconteça, não será compreensível fazer algo de nossa parte? O ensino será totalmente alheio ao ensino religioso.

- Mas, por que envolver Deus nesta história? - resmungou o engenheiro, positivamente sarcástico.

- Por que não? - ponderou D. Rute, paciente. - Respeitamos o seu ponto de vista, o seu modo de pensar... Mas cremos na força inteligente da vida. Admitimos a eterna bondade que orienta os sucessos do mundo. Sabedoria e amor que chegam de Deus. O senhor comanda uma fábrica. Conta dezenas de empregados. Dispõe de muitas máquinas. Entretanto, doutor, acreditamos que toda a matéria-prima, como sejam as árvores cortadas, os instrumentos em uso, o equilíbrio dos servidores e até mesmo a sua própria saúde são doações de Deus, que a todos nos sustenta.

- Quem é o dono real de tudo, senão Deus? - falou D. Ester, com brandura e espontaneidade.

O Dr. Alberto mostrou-se mais irônico. Referiu-se à Natureza. Exibiu mapas e apontamentos sobre botânica. Comentou as vitórias da contabilidade, da técnica, da fiscalização, da higiene...

Por mais de uma hora falou e falou sobre os novos progressos da Humanidade. E acabou notificando que não daria peça alguma, nem mesmo um centavo.

As senhoras, apesar de sorridentes, levantaram-se acabrunhadas.

Tudo em vão.

Começaram as despedidas corretas, quando o inesperado aconteceu.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.