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Capítulo 54 de 67
III
A Vida Escreve · Chico Xavier e Waldo Vieira, pelo espírito Hilário Silva
Jovem médico e recém-casado, o Dr. Licurgo de Melo, de parceria com o pai pelo coração, consagrava-se, agora, à arruinada saúde de D. Ninita, a caminho da morte.
E, junto deles, Maria Quitéria, mais cansada, era sombra a mover-se ajudando calada.
Vigílias. Dificuldades.
Rosana, a esposa jovem, mantinha-se a distância, no governo doméstico.
Depois de muitos dias e noites esfalfantes, a doente cerrou os olhos do corpo para não mais abri-los. Inconsolável, o viúvo aceitou o alvitre de parentes bondosos, decidindo-se por alguns meses no campo.
Maria Quitéria, abandonada agora aos caprichos dos donos mais moços da casa, passou a sofrer rude trato.
Nem mesmo a memória de D. Ninita, por ela invocada nos momentos difíceis, foi sequer respeitada.
Dr. Licurgo e Rosana, partilhando por ela a mesma antipatia gratuita, submeteram-na a insuportáveis humilhações. Velhos sapatos no fogo. Roupa humilde subtraída à velha canastra para servir como esfregão na limpeza dos pisos. Comida escassa.
E, por fim, a expulsão.
Entretanto, nunca se encorajava a sair, ainda mesmo sob ameaças.
Tantas lhe foram, porém, as dores e as privações, que um dia não mais se ergueu.
- Agora é leva-la à força para o hospital – dissera Rosana, dominadora; e Licurgo, com toda a facilidade, desterrou-a para uma seção de indigentes, descartando-se, enfim...
IV
Atendendo à oração de dois estudantes de Medicina, dedicados à assistência cristã, conhecemos Maria Quitéria, em seu leito de angústia.
A cirrose do fígado agravava-se pouco a pouco. Nada conseguia reter a esclerose retrátil, agora irreversível.
Visitamos, assim, a cãs principesca do filho que a conhecia, desconhecendo-ª E vimos a volta do Dr. Lauro de Melo ao antigo solar em que fora feliz.
Era noite. Depois do chá, com saborosos confeitos, perguntou pela serviçal, ao que Rosana informou displicente:
- Afinal de contas, Dr. Lauro, Maria Quitéria era um trambolho difícil de conservar.
O velho médico ouviu todo o relatório, carregando o cenho, e, depois, tomando corajosamente a palavra, explicou-lhe a palavra total. A pedido da própria Maria Quitéria, a esposa desencarnada e ele se abstiveram de dar-lhe a conhecer a realidade. Ela temia fazer o filho infeliz, diante da aversão que sua presença sempre lhe causava.
E, por fim, ele, que conhecia agora os segredos do sofrimento moral, ante a saudade constante da companheira, chorou intensivamente, ao contar que fora o próprio Licurgo, quando menino de quatro anos, quem lhe despejara no rosto um vidro de ácido sulfúrico.
O pai, operário simples de uma grande oficina, possuía o corrosivo em casa, como material de serviço. Na noite seguinte ao dia dos funerais dele, enquanto a infortunada viúva dormia, Licurgo, na inconsciência infantil, entornara-lhe o ácido na face.
Maria Quitéria sofrera terrivelmente, mas escapara, embora conservando monstruoso semblante.
Licurgo chorava, abraçado à esposa, igualmente banhada em pranto.
Na mesma noite, demandaram à enfermaria, que se abriu facilmente, extra - ordens, ante as duas patentes médicas. Entre leitos anônimos, Maria Quitéria agonizava...
Dr, Lauro tomou-lhe o pulso e abanou a cabeça. Era tarde.
Licurgo e Rosana ajoelharam-se ao pé da cama:
- Mamãe! Mamãe! – gritou ele, chorando – porque não me disse tudo?
A enferma, nas raias da morte, identificando as visitas, cobrou ânimo e contemplou-o, enternecida. Daria tudo para erguer a mão quase fria e afagar-lhe a cabeça, mas não pôde.
Licurgo, porém, viu que aquele inesquecível olhar o reconhecera, e pediu:
- Mamãe, minha mãe, perdoe-me, perdoe-me!
Ela, reunindo todas as forças e como se nunca tivesse razões para perdoar, simplesmente falou:
- Deus te abençoe meu filho!
E, passeando a triste expressão do olho semi – morto pelo aposento, disse ainda:
- Meu filho, meu filho, leve-me para casa...
Entretanto, não mais voltou.
Ao calor do abraço filial, encharcado de lágrimas, dormiu, e veio ter conosco.
A morte, qual humanitária cirurgia, refizera-lhe o rosto.
E dormindo em nossos braços, na viajem para a vida melhor, guardava a expressão serena de um anjo.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.