Voltar ao livro A Vida Escreve

Capítulo 38 de 67

2 - O Encontro

A Vida Escreve · Chico Xavier e Waldo Vieira, pelo espírito Hilário Silva

Rosabela preparava-se. Não cabia em si de esperança. Visitara o cabeleireiro, e experimentava, feliz, o vestido novo.

Sozinha no apartamento, relia a última carta. A última carta de amor que a buscava, enfim. E a sós, enquanto a noite de sábado transbordava de música, recordava, recordava...

Casara-se, havia cinco anos; todavia, Tristão, o esposo, revelara-se libertino. Não conseguia olvidar os primeiros tempos. A presença dele, suas palavras e promessas, estavam em seu pensamento como inolvidável perfume.

Ainda assim, tivera coragem de romper consigo própria e tentar outra experiência. Isso porque não tivera força de perdoar-lhe.

Rememorava a noite em que se haviam despedido...

Regressava do interior fluminense, onde fora ter com os pais, em repouso breve. Entretanto, inesperada queratite obrigara-lhe a volta em momento imprevisto. E não olvidava o quadro que a ferira, fundo.

Penetrando em casa, surpreendera Tristão embriagado junto de outra. Ambos agressivos. Inconvenientes. Dilacerada nos melhores sonhos, protestara, chorando; contudo, o marido alterado, atira-lhe as malas na rua. Expulsara-a como se fora um animal corroído de peste.

Acolhera-se à residência de amigos e mudara o curso dos próprios passos.

O esposo, talvez mudado, tentara a aproximação, mas debalde.

Ultrajada, negou-se.

Alugando pequeno apartamento em bairro distante, aceitou as funções de datilografia quase anônima, em grande companhia comercial. E mergulhara a mente no serviço.

De quando em quando, esse ou aquele Don Juan de esquina lhe deitava olhos menos sensatos; todavia, pelo comportamento irrepreensível, não lhes encorajava qualquer palavra incorreta.

O tempo correu lentamente.

Um, dois, três, quatro anos...

Sentia-se, no entanto, intimamente desamparada.

Ensaiava a aquisição de amizades novas. Acabava, entretanto, desiludida.

Às vezes, supunha que faltava Tristão, mas arredava para longe o pensamento.

II

Surgiu, no entanto, uma noite diferente.

Lia velho número de uma revista sentimental e encontrara aí um convite a esmo.

Cavalheiro, anunciando trinta e dois anos de idade, desejava estabelecer amizade com alguém, por sentir-se sozinho.

O curioso anúncio era assinado por Benjamim Solis e apresentava expressivo cunho de serenidade. Após refletir, resolveu arriscar. E ofereceu-se, endereçando bela missiva datilografada para a caixa postal indicada.

Dizia chamar-se Rosalinda Malvar e informava a posta-restante para a resposta.

Benjamim escreveu, contente, feliz.

Declarava adotar igualmente a datilografia por sistema ideal, até que pudessem estabelecer um encontro franco.

E as cartas começaram afetivas para se tornarem longas e belas, carinhosas e ardentes.

Confidências recíprocas. Autobiografias discretas. Flores e lembranças pelo correio. Respeitosamente, contou-lhe Benjamim uma longa história. Era casado. Mas via-se distanciado da esposa, desde muito. Não acusava-a informava, apenas, que não soubera fazê-la feliz.

Em outras missivas, historiava estranhos episódios. Relacionava dificuldades do pretérito.

E dizia-se um homem a caminho de regeneração.

Enviava livros. Livros espíritas, consoladores, que ela manuseava com imensa emoção. Aqueles apontamentos dele inclinavam-na à alegria e à esperança. Falavam de renúncia, entendimento, perdão...

Ela mesma, com dez meses de correspondência, estava modificada. Mais paciente, mais tolerante.

E pensava: “se conhecesse tudo isso ao tempo de Tristão...”, todavia, mentalizava Benjamim e expulsava a imagem do esposo, buscando anular-lhe o reflexo...

Impossível que Benjamim fosse mau... E ainda que houvesse cometido algo passível de justa reprovação, ali estava, naquelas cartas, religiosamente datilografadas, plenamente refeito.

Estava presa aos compromissos legais. Contudo, nada a impedia de manter uma afeição pura e nobre. Incentivo do coração que pudesse auxiliá-la a viver...

Pensando em como prosseguir no romance, revirava nas mãos a última carta...

Antes, deliberadamente, adiavam sempre, entre si, a remessa de fotos. Benjamim, no entanto, convidava-a, agora, a que se avistassem.

Esperá-la-ia às dez horas em ponto, do dia seguinte, domingo, à porta do velho Jardim Botânico.

Envergaria costumes de linho alvo e traria gravata escura com pequeno alfinete em forma de “R”.

Respondera aquiescendo.

E informara que trajaria um vestido da mesma cor, mostrando um broche singelo lembrando os contornos da mesma letra.

Enfim, enfim o encontro...

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.