Voltar ao livro A Vida Escreve

Capítulo 53 de 67

16 - Calvário Maternal

A Vida Escreve · Chico Xavier e Waldo Vieira, pelo espírito Hilário Silva

Quando Maria Quitéria, viúva e doente, chegou à casa do Dr. Lauro de Melo, tinha o corpo mais morto que vivo.

O médico e a senhora, amigos de longo tempo, receberam-na entediados.

Trazia Quitéria o semblante deformado.

Perdera um dos olhos e o outro se mostrava esbugalhado, a verter uma lágrima que não chegava a cair.

O rosto, queimado meses atrás por grande porção de vitríolo, impunha-lhe dolorosa feição. Parecia muito mais um monstro em corpo de mulher.

- Estou quase cega – dizia, humilhada -, e, além disso, com o acidente sou hoje inútil. Espantam-se todos. Leio anúncios, pedindo serviçais. Compareço. Entretanto, quando me vêem, desanimam... Tento a lavanderia; contudo, dizem que trago moléstia contagiosa. E apresentando Licurgo, o filhinho de cinco anos, falou súplice:

- Ofereço-lhes o menino. É meu único filho, mas vivemos os dois em fome e penúria. D.Ninita, a dona da casa, olhou o, pequeno com simpatia. Não tinha filhos e dispunha-se a tutela-lo. O petiz, mal vestido, correspondia-lhe a atenção, com agudeza e inteligência. - O garoto será nosso – disse. – Mas se vier com papel passado. Sem que você faça renúncia completa, desisto... A lágrima parada no olho doente fez-se mais grossa e o pranto jorrou. Pranto resignado, silencioso.

Ainda assim, Maria Quitéria teve forças para acariciar o menino e entregá-lo, assumindo o compromisso de assinar o sacrifício em cartório.

II

O menino Licurgo, agora o moço Licurgo de Melo, pela generosidade do casal que o perfilhara, sempre que vinha de férias encontrava no lar a pobre lavadeira cercando-o de atenções.

Não compreendia porque os pais adotivos facultavam a Maria Quitéria liberalidades tão grandes. E somente à força dos bons conselhos em casa lhe suportava os carinhos.

Às vezes, noite alta, ao chegar da rua, ouvia passos de leve. Podia esperar. Num minuto, a prestimosa lavadeira vinha trazer-lhe o chocolate que não pedira. E, sorrindo, zombava de suas poucas letras, exclamando:

- Você é uma excelente megera.

Acostumada a vocabulário restrito, a pobre criatura tartamudeava palavras de reconhecimento e alegria, como se ele houvera dito: - “Você é uma excelente mamãe”.

À mesa, servia-lhe quitutes raros em regime de exceção. Ele, porém, não perdia oportunidade para magoá-la. Se lhe dirigisse qualquer olhar de enternecimento, ao passar distraído, nas proximidades do tanque de lavar, avançava de pronto, à feição de um gato ferido, mergulhando-lhe a cabeça disforme na tina d’água.

Quando a via rondando o quarto, batia a porta, colérico.

E, quanto podia, buscava os pejorativos mais duros para lançar-lhos em rosto, com sorridente expressão, como se fossem elogios adocicados.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.