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Capítulo 60 de 67

22 – Suicida

A Vida Escreve · Chico Xavier e Waldo Vieira, pelo espírito Hilário Silva

Desde o momento em que sorvera a mistura venenosa, Marina sentia-se morrer, sem morrer.

Na queria viver mais. Via-se desprezada. Acariciara o sonho de esposar Jorge e criar-lhe os filhos. Dois anos de vã esperança.

O pai costumava dizer-lhe: “Cuidado com os rapazes de hoje, nem sempre têm bom caráter”; ela, porém, achava-o antiquado e exigente. A mãe entretanto, sorria e deixava passar.

Além disso, como resistir? Jorge assobiava todas as noites. Começou pedindo-lhe livros.

- Estou em dificuldades com meu professor de latim – dissera. E levara-lhe a gramática, voltando no outro dia para solicitar informações. Percebera a manobra, encantada. Desde então, encontravam-se noite a noite. A princípio comentavam estudos.

Queixavam-se dos professores, criticavam colegas, embora freqüentassem instituições diferentes. Complicara-se, contudo a conversação. Após quatro semanas de convivência, iam juntos ao cinema do bairro. E tudo se agravou numa noite de chuva. Haviam assistido a um filme pitoresco. Uma jovem tímida, contrariada pela família, entregara-se ao rapaz, com quem fugiu, confiante. Ninguém poderia dizer o que teria acontecido depois, mas o cinema coroara a aventura com um beijo.

Sob a marquise, pensavam no tema, mergulhando o olhar um no outro. À frente da garoa persistente, sentiam-se como numa ilha de encantamento.

- Você teria coragem de acompanhar-me num longo passeio? – perguntou ele, com intenções ocultas. Ela corara, sem responder. Refletia na heroína do filme. Não conseguira desvencilhar-se do braço que a envolvera. Ele interpretara-lhe o silêncio pelo “sim”. Ela não tinha voz para dizer-lhe “não”. Deixou-se conduzir. Automaticamente. Lembrava-se de tudo... Jorge chamara um táxi. Inebriada, sentia-se deslizar no asfalto, como quem patinasse acima das nuvens. Sonhava...

Nem viu quando o moço fez sinal ao motorista.

Qual se fora um animal hipnotizado, seguiu o companheiro. Desceram.

Pingos de chuva caíam-lhe nos cabelos de menina e mulher, como se a noite compassiva desejasse apagar vulcão de sentimentos e idéias a lhe transtornar a cabeça.

Transpuseram um pequeno portão.

A pequena escada pareceu-lhe um trecho de espaço, à frente do paraíso...

II

Ele apertou um botão que encimava um florão da parede.

Alguns instantes de espera e abre-se a porta.

Senhora gorda e afável atendeu, prestimosa.

- Minha velha amiga – dissera Jorge, sorrindo. E continuou loquaz, enquanto ocupavam pequena sala. A chuva apoquentara-os, e pediam abrigo por alguns minutos a fim de conversarem a sós. A dona da casa nem de leve se surpreendera, e indicou-lhes quarto próximo. O moço tomara-lhe a mão trêmula e arrastou-a quase. Mal teve ela tempo para relancear os olhos pelo recinto. Um belo leito de casal estava perto. Na parede um retrato do Cristo. Que fazia ali a imagem do Cristo?

Recordou em relampagueantes pensamentos repetidas palavras maternas: - “Todos devemos orar.” Mas não dispunha de espaço mental para ocupar-se do assunto.

Jorge enlaçara-a e as horas se perderam da imaginação, como se o tempo estivesse morto.

Acordou junto dele, alta madrugada. Lembrou-se do lar, como se fosse uma rosa despetalada que devesse retornar ao jardim. Chorou.

Jorge despertara, generoso, e acalmou-a

- Tolinha, não há motivos para lágrimas. Levantaram-se, tornando à sala.

A senhora hospitaleira, embora estremunhada, tinha no rosto a calma das enfermeiras de plantão.

O moço pediu chá e explicou-lhe algo em voz baixa.

Depois do chá, o táxi, chamado pelo telefone, compareceu.

A viajem de volta não apresentava o sabor da vinda. Entre os dois, agora, o silêncio.

- Conversaremos amanhã – disse Jorge simplesmente, ao deixá-la em casa.

O coração materno esperava-a.Parecia adivinhar tudo, pela inquietação que denunciava. - Porque afligir-se, mãezinha? Mentira pela primeira vez, como passaria a mentir sempre – a chuva atrazou-nos em excesso e descansamos em casa de Jorge – afirmara, beijando-lhe a face. E não obstante a caratonha do relógio mostrando as três horas, D.Marcília nada respondeu, suspirando fundo.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.