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Capítulo 17 de 67

13 - Um Caso de Ciúme

A Vida Escreve · Chico Xavier e Waldo Vieira, pelo espírito Hilário Silva

Atingimos grande maternidade, na altura da noite.

Antésio, o amigo espiritual que nos chamara, recebeu-nos a postos.

Seguimos.

O quarto de Maria Regina era um cubículo anexo à enfermaria. Velha câmara de despejo, convertida em refúgio. Espantada, rendia-se à prece.

Não seria necessário maior exame para estabelecer o prognóstico. O nasciturno assemelhava-se a semente viva ansiando sair do fruto deteriorado.

Inclinamo-nos para a parturiente.

A agonia tomava-lhe o rosto edemaciado. Suor abundante. O organismo anêmico não reagia.

Entretanto, o pequenino ser vivente excitava-se todo, como alguém a bater porta selada.

Maria Regina, esperando o cirurgião, recordava, recordava...

Quantos sucessos dentro de um ano!

Via-se abraçada, no cartório, ao desposar Gilberto, o marido confiante.

Rememorava o noivado difícil.

Gilberto reqüestado por Clênia, demorara a se decidir.

Clênia era a prima dele, a quem devotava amizade pura.

Seguira-o, desde os primeiros dias da escola.

Entre as duas, sofria ele a intercessão de parentes.

Amava-a, a ela, que se lhe tornara a companheira legal; contudo, era sensível às demonstrações de ternura que recebia da outra.

Haviam sido felizes, imensamente felizes, durante dez dias. Depois disso, a rival caíra doente. Inspeções radiológicas. Desinteressada, talvez, da vida, Clênia entregava-se aos bacilos a lhe trabalharem os pulmões.

Surgiram as primeiras dificuldades sentimentais.

Experimentando conflito enorme, Gilberto, compadecido, deixava a residência da prima, alta noite.

Confortava-a. Estimulava-lhe o gosto pela medicação...

Torturada, Maria Regina costumava dizer-lhe: "Venha hoje mais cedo... sinto a cabeça pesada ..."

- Ciumenta! - era só o que ele respondia, embrulhando amostras gratuitas de remédios caros, para à prima enferma.

O esposo era mecânico bem pago e saía cedo. Se quisesse vê-lo e ouvi-lo que levantasse de madrugada, oferecendo-lhe o café quente. Salvo isso, almoçava fora e à noitinha fazia trampolim do lar, simplesmente para a troca de roupa.

Relegada a si mesma, entregou-se ao ciúme, e começou a fantasiar. Como se possuída por fantasmas estranhos, parecia transportada, em espírito, à casa de Clênia. E mentalizava Gilberto a recostá-la no próprio peito.

Delirando, ouvia-lhe juramentos de amor. Chorava a debater-se no leito frio.

O esposo chegava tarde e surpreendia-lhe os olhos vígeis, inchados de pranto.

- Que houve? - a pergunta vinha irritante como chicote no ar.

- Estou cansada, doente...

Ante a resposta, Gilberto ria, nervoso, irônico.

Depois de quatro meses, apareceu uma noite mais aflitiva.

Procurara não pensar, trabalhando. Habituara a insculpir em madeira. Trouxe pequena faca. Cortava cuidadosamente com os dedos ágeis, mas o espírito andava longe.

Tinha a idéia de entrar no quarto de Clênia e surpreender o marido em posição pouco digna. Debalde o tenta-me. Deixou o instrumento cortante na mesa próxima. E deitou-se para sofrer ainda mais.

Madrugada além, chega Gilberto.

Ela geme, estertora.

O marido aproxima-se. Ela não se contém e grita-lhe insultos.

O esposo estaca, aturdido.

- Loucura! Loucura! - clamou colérico.

Sentindo-se humilhada, bradou acintosamente.

Entretanto, porque o marido buscasse contê-la, premindo-lhe um dos braços, estendeu a outra mão e empunhou a faca.

Gilberto, espantado, toma-lhe agora os pulsos.

Atracam-se.

E, sem querer, em movimento instintivo, ela lhe enterra toda a lâmina.

O abdômen é atingido. O esposo rola. Sai dementada. Pede socorro aos vizinhos.

Gilberto é transportado ao pronto-socorro, perdendo sangue.

A intervenção é feita num átimo; contudo, a hemorragia fora abundante. E a bênção da anestesia devolve simplesmente um cadáver...

II

Maria Regina continua lembrando...

Confessou-se assassina. Não lhe permitiram nem mesmo chorar sobre o morto. Detida. A polícia interveio.

Advogado familiar esposa-lhe a causa. Requer a inspeção de saúde, admitindo-lhe a insanidade.

Submete-se à apreciação de generoso facultativo, que, após o exame, lhe fala em gravidez.

- A senhora deve ter coragem! Confiemos em Deus - dissera o clínico, entre discreto e humano, enquanto as lágrimas rolavam da face da infeliz.

Declara-se culpada.

- O esposo era amigo e leal - repetia, sempre -, fora o ciúme, simplesmente o ciúme...

Comovem-se autoridades e obtém-se o "habeas corpus".

Volta a casa. Sozinha. Desolada.

Uma sombra que chora incessantemente. Nem as recordações do marido encontrara, ao retorno. A família tudo levara.

Alimentando-se à força e dormindo menos, ouve amigos preocupados: "Maria Regina, lembre-se do filhinho ..." "Maria Regina, nem tudo está acabado. Você vai ser mãe."

Aborrecia-se.

Que lhe importava o filho? - pensava.

Queria somente tranqüilidade. Mas o remorso era espinho invisível, revolvendo-lhe o coração.

A hora esperada chegou e dores rudes surgiram nela.

Excitava-se o ser não-nascido com violência. Chegara a refletir consigo mesma: "Parece uma ave assustada buscando fugir ao ninho de angústia."

Amorosa parenta internou-a.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.