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Capítulo 36 de 67

III

A Vida Escreve · Chico Xavier e Waldo Vieira, pelo espírito Hilário Silva

Ele, Abílio, sentia-se sonolento.

Chegara fatigado da corporação.

O dia foi cheio.

Tomou lanche reforçado e tentou repousar...

Mal começara a dormir, escutou a voz materna a chamá-lo: Abílio! Abílio!

Encontrava-se de pé ao telefone...

Da. Amélia, a genitora, ouvira-o dizer, de olhos cerrados, dando a impressão de diálogo pelo fio:

- Alô! Que alegria!

- Como vai? Disponha, disponha...

- Ah! sei. Perfeitamente.

- Hoje? Farei o possível. Conte comigo, conte comigo...

Impressionada, Da. Amélia despertou-o as sacudidelas.

O filho passava, às vezes, por semelhantes fenômenos. Era sonâmbulo. Costumava levantar-se à noite e andar automaticamente dentro de casa.

A mãezinha passou a relatar-lhe o que ouvira. Palavra por palavra.

Ele, porém, estava radiante e contou que conservava a lembrança nítida.

Seria simples sonho? Não ocultava, contudo, a alegria a lhe brilhar no espírito.

- Mas... que foi, meu filho?

E ele explicara à mãezinha espantada:

- Mamãe, foi o Amadeu! O Amadeu Barbosa, meu colega de serviço que morreu há tempos. Telefonou-me, precisamente na hora em que se habituara a fazê-lo...

- Meu filho, que é isso? Onde tem a cabeça? Tudo não passa de um sonho, pesadelo como os outros...

- Mamãe, mamãe, esperemos! Ele disse algo...

- Que disse?

- Pediu-me ajudar a uma jovem necessitada que enviará até nós ainda hoje...

Da. Amélia sorriu, bondosa, mais irônica, e afastou-se.

Contente, pusera-se ele a ler os vespertinos, em plena expectação.

IV

Onze da noite.

A história do sonho estava esquecida, quando alguém bate à porta.

Levantara-se mecanicamente para atender.

Era pobre moça mal vestida e despenteada.

Buscou a mãezinha e ambos a ouviram, interessados.

Chamava-se Irene. Estava órfã, sem destino. O pai, único apoio de que dispunha, falecera, havia dias, vitima de grande explosão. Tinham chegado, há tempos, do interior e o desastre surpreendera-os em quarto humilde de aluguel, exatamente quando o genitor desaparecido procurava trabalho. Expulsa dos escombros a que se acolhera, andava sem rumo. Tinha fome. Ouvira palavras desrespeitosas na rua e resolvera pedir socorro. Por isso, estava ali, sozinha e necessitada.

Chorava.

Da. Amélia consolou-a e consultou o marido.

Custódio Marques, o dono da casa, dera o contra.

Mas, Abílio, filho único, implorava ao pai auxiliasse à menina, como se fora a irmã que lhe faltava. E Custódio, vencido pelo carinho, enternecera-se.

Irene fora recolhido em casa, como em seu novo lar.

Trabalhava, ajudava, compreendia...

Fizera-se necessária.

Restaurara-se.

Era a filha que Da. Amélia esperava sempre.

Quando Custódio caíra febril, com tremenda infecção, fora ela a enfermeira dedicada e hábil...

Depois de dois anos, com a alegria de todos, Abílio desposara-a.

A pupila de ontem era-lhe agora a companheira querida.

Como se lembrava, agora, de todos os sucessos e de todas as minudências!

Procurávamo-nos asserenar-lhe a mente inquieta, quando ouvimos choro forte de uma criança.

Sorriu, aflito, enquanto a enfermeira reaparece com ar triunfante a chamá-lo:

- Sr. Abílio! Sr. Abílio! É um lindo menino! O parto, graças a Deus, foi normalíssimo...

Acompanhamo-lo ao quarto...

Abílio, emocionado, inclinou-se para a esposa e beijou-a, ternamente, na face.

Em seguida, tomou o recém-nato, em pranto de alegria.

- Então, meu filho – perguntou Da. Amélia, que se achava ao pé da nora -, como se chamará o netinho?

Ah! O nome? – respondeu Abílio, tonto de júbilo. – Ele se chamará Amadeu... Amadeu Barbosa Marques, não é, Irene?

E a esposa fez um gesto de aprovação, transbordando felicidade.

VI

Sim, Barbosa renascera.

Recomeçava a existência para lutar e triunfar.

E, diante dos fatos, recordamos a lição do instrutor:

- Amadeu, se você deseja a ajuda de alguém, comece por ajudar alguém.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.