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Capítulo 4 de 16
Parte 4 de 16
Psicologia e Universo Quântico · Adenauer Novaes
PUC (p 1-160-A).pmd 44 21/1/2009, 07:57 Psicologia e Universo Quântico – Um olhar sob o paradigma espiritual dizer que não precisamos olhar diretamente para a ciência e procurar, em seus manuais e padrões, aquilo que podemos enxergar graças à intuição. Essas áreas, em conjunto ou isoladamente, apontam para ideias que sustentam um novo paradigma no saber humano. O paradigma quântico tem modelado as pesquisas científicas, bem como teorias e estudos a respeito da vida, do ser humano e do Universo em que ele vive. Além disso, tem sido presente na consciência coletiva, balizando uma nova e surpreendente visão de mundo. Já fazem parte do vocabulário popular conceitos sobre relatividade, dualidade, interdimensionalidade, desmaterialização, realidade virtual etc.. Livros, filmes, documentários, teses de doutoramento, bem como a tecnologia da informática, atestam a penetração irreversível do paradigma quântico na sociedade. O Universo, como agora está sendo percebido, não é indiferente ao ser humano. Seria indiferente se fôssemos meros expectadores da realidade, sendo afetados por ela, sem a mínima possibilidade de modificá-lo, restando-nos apenas fazer escolhas entre as polaridades psíquicas do bem e do mal.
Nesse sentido, o livre-arbítrio não é uma simples escolha entre duas ou mais opções. O ser humano, sendo artífice da realidade, implica-se nela, tomando-a para si, como aquele que tem a responsabilidade de formatá-la a serviço da evolução pessoal e coletiva. Um Universo indiferente ao humano, determinístico, decorre da visão da Mecânica Clássica. Com o advento das ideias quânticas, cria-se um Universo cuja configuração depende do humano. Essa mudança no Universo não se deve à mera troca de concepção da mente humana, mas, de fato, a uma simultânea atualização evolutiva do próprio Universo, do ser humano e do que rege suas existências. A consciência de que se pode modificar o curso dos acontecimentos e dos fenômenos da Vida, amplia as possibilidades de
PUC (p 1-160-A).pmd 45 21/1/2009, 07:57 adenáuer novaes realização humana e de percepção do sentido e significado da vida. Há uma lógica (ou um sentido) no Universo, independentemente do “caos” observado no microscópico mundo quântico do átomo. Certamente que não é a lógica requerida para a compreensão do mundo, onde impera a ideia da causalidade. Mas, então, qual é essa nova lógica? O que será que permeia todas as coisas a as tornam um fenômeno único chamado realidade? Existirá mais de uma lógica, acima da que concebemos? Essa lógica estará fora do observador e deve por ele ser percebida em si mesmo, como parte integrante de seu ser? O aparente “caos” observado no mundo subatômico obedece a algum princípio, por enquanto, desconhecido para a mente humana. Aquele “caos” parece ser o estado originário de algo que tende à organização. Os físicos não aceitam o acaso, pois sabem que, em qualquer distribuição aleatória de eventos, números, por exemplo, é possível encontrar uma ordem ou uma lógica que justifique a sequência encontrada (Pagels, 1982). A palavra acaso, quando usada em argumentos de premissas pelos físicos, tem o sentido de aleatório. A própria mente humana não aceita um Universo regido pelo caos, mas também já não aceita que prevaleça a antiga lógica determinística. O que quer que seja está inevitavelmente conectado à mente humana.
PUC (p 1-160-A).pmd 46 21/1/2009, 07:57 Psicologia e Universo Quântico – Um olhar sob o paradigma espiritual As Ideias Quânticas Crise do mecanicismo, falência de determinismo e nascimento de uma nova visão de mundo são as consequências diretas dos novos paradigmas quânticos. Isso representa o início de uma modificação substancial e gradativa no funcionamento da mente humana. Uma mente mais criativa, mais livre e conscientemente disponível para o Universo está por acontecer. As ideias quânticas nos permitem sonhar uma realidade diferente que, mesmo emergida da lógica cartesiana, passa a ser permeada por uma liberdade construída pela própria mente humana. A questão é: com que valores se deve construir uma realidade pessoal que suporte a vida coletiva sem conflitos de interesses? Talvez, por mais pueril que possa parecer, o valor máximo do ser humano ainda é o amor desinteressado e espontâneo para com o outro, também ser humano, e, o amor Fati, como veremos adiante. As ideias quânticas devem nos levar a construir e a desconstruir antiquados modos de pensar a Vida.
Isso implicará na ampliação da consciência para além dos limites, sem medos, sem bloqueios ou convenções, ao menos nas reflexões. Ideias cristalizadas, que servem como pontos de apoio para a própria existência, podem ser agora cotejadas à luz de novos paradigmas. Crenças antigas, sustentadas ou não pela lógica, podem e devem ser revistas sem que se resvale pelo anarquismo, mas que se tenha a coragem de questionar tudo. Não se
PUC (p 1-160-A).pmd 47 21/1/2009, 07:57 adenáuer novaes trata de destruir tudo, mas de construir o que se pensa, tendo como base o fato de se compreender a relevância do observador na configuração do Universo. Isso nos leva a entender que tudo que o ser humano viveu, pensou, sentiu e fez ao longo de sua história obedeceu aos ditames do corpo e de sua incipiente consciência. Tudo isso de forma inconsciente, isto é, sem a necessária autodeterminação. As ideias quânticas são conhecimentos oriundos da percepção não linear e não causal da realidade. Permitem um olhar diferente sobre o mundo, ampliando os limites estabelecidos pelos sentidos físicos e pelos condicionamentos enraizados na mente humana. São ideias que aproximam o ego da percepção do Espírito sobre a realidade que lhe é pertinente. Fazem parte de um conjunto de paradigmas que superam os limites condicionantes da lógica cartesiana empirista.
A ausência de uma causalidade para os fenômenos do mundo microscópico, como sugere a Física Quântica, contrapondo-se a uma realidade governada por leis determinísticas aguça a inteligência humana que, por enquanto, felizmente ou não, teima em não aceitar totalmente nenhuma das duas hipóteses. Elas são complementares e de acordo com a dualidade existente entre o Inconsciente e a Consciência. As duas ideias têm gerado imensos benefícios à vida humana. Os físicos quânticos tateiam a matéria na busca da “pedra filosofal”, atendendo, na sua curiosidade última, ao Self. Esperam, nos limites de seus instrumentos e, principalmente, nos da consciência humana, encontrar a unidade primordial da matéria. Muito provavelmente constataram, em meio à utilização dos princípios estabelecidos a partir de suas descobertas a serviço do bem-estar humano, que a matéria é um epifenômeno resultante de algo incognoscível. Promovendo-a, há algo que provoca o colapso que a torna “real” para o humano. É esse algo indiretamente
PUC (p 1-160-A).pmd 48 21/1/2009, 07:57 Psicologia e Universo Quântico – Um olhar sob o paradigma espiritual detectável como uma frequência de onda, como um quantum de energia ou como matéria. É de fato algo incognoscível ou irrepresentável em si. À semelhança, poderemos entender o mundo psíquico, no qual pensamentos, ideias, vontades, entes subjetivos são capazes de acionar células, moléculas, músculos etc.. A relação entre vontade e movimento corporal para a realização do simples ato de acenar com a mão para alguém obedece um complexo mecânico, psíquico e orgânico. A saudade, por exemplo, que me leva a pensar em alguém querido e que me move a acionar o telefone, se comporta como a onda e a partícula. Ela, a saudade, é imponderável e entra em “colapso” quando a trago à consciência na forma de pensamento (onda), que me leva a atuar (partícula) buscando um telefone. NovNovas ideias a construiras ideias a construir Novas ideias a construir NovNovas ideias a construiras ideias a construir Liberdade em relação à ideia clássica de Deus Comecemos analisando a ideia de Deus.
Isso quer dizer que teceremos considerações tão somente sobre a ideia, pois não poderemos penetrar na existência ou na essência de Deus, que, da forma como o postulamos, tornase inacessível ao humano. A crença em Deus sempre foi uma poderosa âncora psíquica, garantindo a base da segurança desejada por todo ser humano. Nos primórdios do desenvolvimento humano, imperava o inconsciente, promovendo medos e a criação de “monstros” e deuses para superá-los. Para justificar a existência de tantos deuses, um deus maior nasce na psiquê humana. Tornase, estruturalmente, a garantia da ordem interna, projetada num mundo assegurado pela força e predomínio daquele deus maior. Tornando-se, o indivíduo, consciente, construindo um ego maduro e preparado para enfrentar seus desafios
PUC (p 1-160-A).pmd 49 21/1/2009, 07:57 adenáuer novaes e toda a carga de conteúdos inconscientes, o deus maior começará a ser substituído. Tomará lugar a consciência de que lhe pertence o domínio do obscuro mundo inconsciente. A consciência de que o funcionamento do Universo tem sua participação e de que os “monstros” eram criações do ego imaturo, fomentará o surgimento de novas âncoras psíquicas garantidoras da ordem interna. Isso possibilitará o surgimento de uma nova forma de se lidar com a ideia que se tem de Deus. Talvez a evolução, tal qual a enxergamos, seja uma característica da dimensão em que se situa nossa mente. Da mesma forma, concebemos um Deus de acordo com nosso nível de compreensão. Ao invés de se apelar para Deus ou de se criar uma relação psíquica de dependência, ter-se-á a consciência de que Deus, não mais a ideia de Deus, opera através do ser humano, maduro e autodeterminado.
Liberdade em relação à causalidade absoluta A causalidade absoluta, embutida sob nome de lei de causa e efeito, vem merecendo novas interpretações por conta dos princípios apontados pela Física Quântica. Sob um olhar menos apurado, diz-se que um efeito advém de uma causa, porém não se pode afirmar com precisão que esta é igual àquele ou mesmo qual sua natureza. A lógica humana não consegue conviver com a ideia de uma não causalidade para os fatos. Não se aceita a possibilidade de algo surgir do “nada”. Realmente seria difícil sustentar-se essa ideia. Porém, o mundo subatômico suscitou uma nova ordem a esse respeito. Os saltos quânticos dos elétrons, sem que se saiba de onde e como surgem e desaparecem, exigem explicações à consciência. Evocar-se-ia uma outra dimensão, onde eles vão e voltam? Há um certo grau de “liberdade” inerente a tudo no Universo, que impossibilita a precisão de qualquer ordem? O espaço geométrico, bem como o tempo, são entes psíquicos ou abstrações necessárias ao funcionamento da
PUC (p 1-160-A).pmd 50 21/1/2009, 07:57 Psicologia e Universo Quântico – Um olhar sob o paradigma espiritual mente, que necessita de suas concretudes para que o Espírito se insira como vivente. Da mesma forma, a causalidade é uma necessidade do atual nível de evolução do Espírito. Não devemos considerar, porém, que será sempre assim por toda a evolução do Espírito. A causalidade obedece a uma lógica que nos obriga a aceitar a existência de um ente organizador dos eventos da Natureza, seja uma força, uma energia ou outra coisa qualquer. Tudo parece obedecer uma relação de consequência e de objetividade. Isso seria consequência da mente lógica, ou seria de fato algo inerente aos objetos e seus fenômenos? Se há um papel do observador nos fenômenos, então poderemos aventar a possibilidade de ser ele o fornecedor da causalidade aos eventos. Se há uma causalidade absoluta, então não há liberdade de escolha nem o surgimento de algo novo. Portanto, as coisas se sucedem umas às outras, sendo tudo um arremedo de uma única causa inicial.
O raciocínio é perfeito, lógico e simples, porém desaprovado por uma ordem de fenômenos que teimam em se apresentar de forma diferente. Se não há causalidade, então o que governa a Natureza? A questão não é o que governa, pois a pergunta implica numa causalidade. Talvez devamos perguntar o que queremos com a Natureza e como ela poderá se apresentar a nós. Há algo que permeia a Natureza e todos os processos, porém não dá mais para acreditar que seja algo mecânico e absolutamente racional. Esse algo parece convidar o humano à realização conjunta de propósitos não preestabelecidos. Liberdade em frente da impossibilidade de alteração das leis consideradas imutáveis Aprendemos que o Universo é regido por leis imutáveis, segundo uma lógica cartesiana da repetibilidade dos processos, o que garante a veracidade de enunciados. Significa dizer que os eventos se sucedem logicamente aos
PUC (p 1-160-A).pmd 51 21/1/2009, 07:57 adenáuer novaes outros de acordo com um princípio preestabelecido. Isso parece ser garantidor da ordem do Universo. Sem leis, haveria um caos. Na medida em que essa ordem tem a participação ativa do observador, ele poderá então intervir nela. Um observador mais consciente poderá, então, proporcionar fenômenos que parecerão não seguir tais leis, visto que seu grau de consciência sobre si mesmo e sobre o funcionamento daquelas leis ampliou-se. Ele não só protagonizará fenômenos que não obedecem aquelas construções, antes tidas como leis, como também poderá formular novas leis, mesmo que provisórias, desconhecidas até então. Por outro lado, ao se afirmar que é uma lei, têm-se a certeza de que se trata de algo universal, absoluto e válido, sempre. Mas não se vê a própria ciência modificar suas leis quando novos princípios são descobertos? Há quem afirme que tal ou qual lei não é do domínio humano, pois se trata de uma proposição divina. Mas quem tem, de Deus, um mandato, para lhe representar, que lhe traga a “palavra”?
Deus se revela no humano, em todo ato humano, e é pelo humano que surgem suas leis. Quando observamos o funcionamento das coisas, acreditamos que assim ocorre por uma lei externa à psiquê humana. Não percebemos que as leis que acreditamos existir fora de nós se encontram embrionariamente na mente coletiva, constituída ao longo da evolução anímica. Novas compreensões e desdobramentos dessas leis, ditas divinas, fazem parte do amadurecimento humano. Liberdade em relação ao encontro do Si-Mesmo Aprende-se, principalmente no Ocidente, que o ser humano deve buscar a Deus. Para tal, ele conta com um arsenal de possibilidades que englobam livros sagrados, sacerdotes que se mostram como intermediários divinos, rituais cabalísticos, substâncias miraculosas, fórmulas mágicas, vestes especiais, palavras místicas, alimentações
PUC (p 1-160-A).pmd 52 21/1/2009, 07:57 Psicologia e Universo Quântico – Um olhar sob o paradigma espiritual rejuvenescedoras, cultos a divindades, entre outros. Com a consciência de si mesmo e a percepção do divino como algo autoportante, deve-se entender a necessidade de dispensar-se tais instâncias, que, na sua maioria, atendem a projeções inconscientes. Liberdade em relação ao domínio do próprio destino O destino sempre foi algo imaginado pelo ser humano como pertencente ao divino. Somos conduzidos a ele sem alternativa de mudança ou de escolha. Ou já estava traçado por Deus, ou pelo carma passado. Agora, podemos antever que o Espírito, dono de seu destino, sabendo-se influenciador da matéria e de todos os fenômenos do Universo, poderá alterar seu destino segundo alguns limites decorrentes de seu próprio nível de evolução. A consciência do mito pessoal levará cada indivíduo a alterá-lo, ou não, de acordo com sua percepção do que lhe é mais vantajoso do ponto de vista evolutivo.
Ideias a desconstruir Concomitantemente à construção dessas ideias, outras, no entanto, necessitam ser desconstruídas, plasmando-se um novo edifício psíquico adequado aos paradigmas quânticos pessoais e coletivos. O processo de desconstrução é lento do ponto de vista prático, mas intenso e fundamental do ponto de vista psíquico. Muda-se o modo de pensar e perceber a realidade e, depois, o de agir. É preciso buscar não mais raciocinar de acordo com a causalidade absoluta, mas num universo de probabilidades de respostas e de eventos não alinhados com causas conhecidas. Deve-se permitir pensar que aquilo que acontecerá consigo não estará de acordo com suas expectativas negativas ou positivas, principalmente em relação ao primeiro aspecto.
PUC (p 1-160-A).pmd 53 21/1/2009, 07:57 adenáuer novaes Deve-se adotar uma religião pessoal não necessariamente alinhada com os preceitos formais das religiões tradicionais, mas oriunda da experiência pessoal com seu próprio sentimento de Deus. Buscar o entendimento de que o Deus pregado, discutido e procurado pelas religiões serve para o consumo coletivo, devendo-se adequar o conceito apreendido com a vivência pessoal. Dentro da dimensão religiosa, refletir sobre os meios oferecidos para se alcançar a Deus ou a sua máxima essência, compreendendo que se tratam de representações arquetípicas; portanto, servem de molde ao encontro da própria forma direta de proporcionar a percepção do Si-Mesmo. Deve-se passar a considerar que o funcionamento do Universo obedece princípios desconhecidos, até então compreendidos pela causalidade e pela presença de um Princípio Ordenador Divino, mas que agora devem ser construídos pelo próprio indivíduo. Tal construção se dará na base da tentativa, pelos erros e acertos, cotejando-se com o compartilhamento dos outros.
As leis do Universo serão, agora, percebidas sob um outro olhar, que admite a probabilidade de serem diferentes e surgirem novas a cada momento. Consequentemente, a chamada realidade se tornará um mosaico maravilhosamente construído pelo mundo interior das pessoas. A conhecida expressão “O homem é Cocriador da Natureza” ganha novo colorido, pois alcança conscientemente a dimensão prática. Torna-se possível a realização de projetos, sonhos e todo um mundo interior maravilhoso, pertencente de fato à alma humana.
PUC (p 1-160-A).pmd 54 21/1/2009, 07:57 Psicologia e Universo Quântico – Um olhar sob o paradigma espiritual CONSTRUIR DESCONSTRUIR Liberdade em relação à cau- Causalidade absoluta salidade absoluta Deus Pessoal Deus coletivo Liberdade em relação à ideia Antiga ideia de Deus clássica de Deus Liberdade em frente da im- Leis de Deus e concepção possibilidade de alteração das humana do funcionamento do leis consideradas imutáveis Universo Realidade definida pelos senti- Realidade multidimensional dos humanos Liberdade em relação ao en- Religiões como únicas vias de contro do Si-Mesmo acesso a Deus Liberdade em relação ao Destino inflexível e pré-defidomínio do próprio destino nido.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.