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Capítulo 4 de 14

Osvaldo Polidoro — parte 4 de 14

O Mensageiro de Kassapa · Osvaldo Polidoro

O Mensageiro de Kassapa expoença de suas colorações, ruídos e fragrâncias, nossos ânimos desciam, desciam sempre, comprimidos e achatados pela ausência do Céu. Aquele clamor patético ficara sem eco, perdera-se na imensidão de um mundo feito de grandezas telúricas. Deus parecia ter tudo, menos ouvido, menos sentimento... Já havia descrença e desilusão em nossas almas, pois alguns se deram a sussurrar termos de blasfêmia e rebeldia. De minha parte, confesso, beirava entre os dois estados, estava esquálido de espírito. Esconsa a esperança, como se devia portar a mente? Inclinado o coração, que poderia fazer a inteligência, sem ser decair, entregar-se ao mais terrível quebrantamento? A voz daquele companheiro, no entanto, surgiu na hora precisa: — Aí estão vindo alguns retardatários, irmãos que ficaram pelo estirão ao sabor da intempérie; vamos acolhê-los com ânimo forte, pois o culpado, se há quem o seja, está inconsciente, fora de responsabilidade. Também, irmãos, não devemos cair em desânimo; se é de angústia o percalço a vencer, não pode ser de menos que haja um fim a ser atingido. Estamos no plano da morte, plano imaginado por todos nós como sendo aquele que caracteriza e encerra o esplendor da vida real. Brama é Vida, é Amor, é Ciência, tudo ao infinito, sem

Osvaldo Polidoro limites, sem fim. Como nos deixará sem amparo, sem orientação, sem destino? Os retardatários se chegaram, foram passando as vistas, observando, examinando; procuravam em nossos olhares o sinal do triunfo alcançado, o vinco da vitória inciso em nossos semblantes. Depois entreolharam-se, fizeram sinal negativo e sentaram-se no dorso de uma laje. Ninguém disse palavra, todos começaram a cismar, todos foram se entristecendo. Aquele companheiro levantou-se, olhou-os com a firmeza possível e disse-lhes o que vinha de ocorrer. Tudo falho, tudo negativo, inclusive sua invocação ao Céu. — Onde está Ananda? — perguntou-lhe um deles, com ar revoltado. Fez um gesto de braço e apontou: — Faz pouco esteve ali, sobre aquela pedra enorme, dizendo palavras sem nexo. Não adianta criticar, apontar, responsabilizá-lo... Estacou, pensou, olhou para todos e completou: — Afinal, foi ele que nos mandou acompanhá-lo?

O Mensageiro de Kassapa Um dos presentes assentiu: — Nem foi ele quem inventou a confraria... É apenas um tolo como nós. Ananda apareceu no topo da rocha e bradou, colérico, desvairado: — Basta de Ananda! Basta de Ananda! Eu também estou farto de Ananda! Por que tenho acreditado tanto em mim? Por ser idoso? Por acreditar nos Budas ou em Brama? Mas Ananda é algum Buda? É Brama? Quem é Ananda?... Atirou-se lá de cima, caiu de pé e recomeçou o semi-louco discurso: — Eu perdi o caminho, não sei por onde se pode subir!... Idiotas!... Procurem o caminho... Eu... Perdi o... Desmaiou. Alguns o foram socorrer, mas ficaram sem saber o que fazer, pois era simplesmente um espírito e nós estávamos muito longe do mosteiro, daquele ambiente onde pelo menos havia paz e recursos energéticos. — Fazer o que? — consultou aquele que fizera a invocação.

Osvaldo Polidoro — Levá-lo ao Sol, quando muito — aconselhei. — Pensávamos saber tanto!... E disto nada sabemos!... — lastimou alguém, que se achava lá para trás. Arrastaram Ananda para um lugar onde havia Sol e alí o deixaram, voltando ao antigo posto, onde cada qual continuou a mitigar pensamentos os mais contraditórios e amargurosos. O Sol ficou a pino, razão por que sugeri uma atitude, que foi muito bem aceita. * * * Minha sugestão foi a seguinte: — O Sol está a pino. Deve estar em Zênite, no máximo de sua potencialidade em geral. Ora, vamos tentar colher algum benefício, seja de que ordem for, pois ainda sentimos falta de recursos materiais, apesar de sermos espíritos. Não sabemos o porquê do nosso fracasso, mas sentimos que o Sol nos aquece e que a água do lago nos alimenta... Estamos no mundo dos mortos e temos necessidade daquilo que é necessário aos chamados vivos. Sabemos como todas as forças e todos os elemen-

O Mensageiro de Kassapa tos se desdobram em múltiplos e infindos matizes energéticos; estamos vivendo, faz muitos anos, à custa do mundo substancial, dos recursos essenciais. Vamos apelar ao Sol, não como ídolo, não a título de religião, mas sim como fonte de vida cósmica e vertente indiscutível de virtudes essenciais. Quem mais trabalha e produz, em nosso sistema planetário, é o Sol; ele simboliza Brama, o PRIN- CÍPIO SAGRADO. Vamos honrar o trabalho?... Vamos apelar para seus inesgotáveis recursos?... — Meditemos, então — concordou um dos companheiros. Observei: — Não. Apenas meditar deu nisto, nesta miséria... Vamos fazer um círculo e de mãos dadas, formando uma cadeia magnética, vamos mentalizar a luz de Brama, o Seu BRILHO DIVINO, aquilo que em nossos êxtases temos procurado. Foi como infundir vontade, pois todos se puseram de pé, levantaram as respectivas cabeças e fitaram o astro-rei. Aos poucos, fomos sentindo a importância da ação, o produto da mentalização consciente. Aquele que havia feito a invocação, clamou:

Osvaldo Polidoro — Brama! Brama! Nós queremos trabalhar e servir!... Houve estremecimento geral, como se algum poder oculto nos sacudisse. Aquilo serviu para aumentar a esperança e favorecer a firmeza do pensamento. Era a primeira vez, depois de termos abandonado a carne, que alguma coisa nos sucedia, que o Céu vinha em nosso auxílio. E com o renovado poder mental, repetiram- -se os estremecimentos, deram-se alguns repelões, conseguimos ver focos de luz bailando no círculo, subindo e descendo. Alguns passaram a orar em voz alta, outros deram para chorar, ainda outros davam graças em tom de rogo. — Irmãos! Paz seja convosco! — bradou alguém, no meio do círculo. Todos ficamos atônitos, fitamo-lo com infinita devoção. Era um homem alto, todo vestido de branco refulgente e senhor de um semblante angélico. Irradiava autoridade, força moral incalculável. Estava de pé, mas não pisava o chão, pois se mantinha a uns dois palmos do solo. Quando estávamos refeitos, numa voz harmoniosa e suave, explicou:

O Mensageiro de Kassapa — Não vim pela minha vontade, mas pela vontade de Kassapa, o Buda, que precedeu ao último Buda, que foi Gotama Buda. Ele, por sua vez, sendo nos altos planos um grande chefe, atendeu o vosso apelo, por ter sido feito em honra ao trabalho. Passou o seu absorvente olhar pela assembleia de monges, mais farrapos do que monges, acentuando: — O trabalho é a grande oração. Tudo quando é feito, e resulta em bem para os semelhantes, isso mesmo enobrece e honra a criatura. Brama não carece de adorações de Seus filhos, mas Seus filhos, entre si, muito necessitam do mútuo amparo e das inadiáveis atividades de cooperação. Estamos no limiar do século vinte e o mundo se prepara, a fim de transpor um dos mais significativos ciclos, aquele que determinará a mudança de condição e de situação para toda a humanidade, na medida de suas possibilidades. Não será mudança de caráter fundamental, não haverá melhora radical, pois o espírito não amadurece de um golpe, não faz jus a um salto nas condições mesológicas, uma vez que não saltará nos valores íntimos. A reforma será relativa, mas não deixará de ser algum tanto violenta, pois a humanidade é, infelizmente, inimiga de esforços a bem do espírito... Há muita

Osvaldo Polidoro tendência para o comodismo, há muito apego ao mundo, mesmo que disfarçado em sentido religioso... Deus, porém, quer que se preze a Ciência e o Amor. Mas em base de serviços úteis, de préstimos inadiáveis e intransferíveis. As portas do Nirvana interior, sabei-o, somente serão abertas através do trabalho. Inatividades e comodismos geram desgraças, mesmo que praticadas em nome de Brama ou em Seu favor. Assim, como ninguém consegue viver, somente de pensar nas utilidades e nas realizações necessárias, assim também ninguém edificará o Reino de Brama, pelo simples afastamento das obrigações, pelo simples fato de só pensar em Brama. Sua palavra era potente, convincente ao extremo, vinha ungida de tremendo potencial moral. Ao fazer breve silêncio, ninguém ousou fazer a mais urgente arguição, pois estávamos todos sentindo profundamente a sua imensa capacidade discernitiva e funcional. Perguntar o quê, se ele nos penetrava em todos os sentidos? Relanceando seu meigo e potente olhar pela assembleia estática, ofereceu: — Quereis trabalhar? Quereis alcançar, de fato, na intimidade, o encontro e a união com Brama?

O Mensageiro de Kassapa A resposta foi um rumor, nalguns casos um sinal de cabeça, pois alguns não podiam falar, estando, como estavam, imensamente emocionados. Ele sabia e muito bem, qual seria o teor da resposta; a miséria estava no auge, levando-se em conta a qualidade dos elementos, considerando a proveniência vocacional dos seus portadores. Mas, como era de ordem superior, fez a pergunta e ouviu a devida resposta, a fim de propor: — Está bem; fiquem aí alguns instantes, enquanto presto contas e volto. Mantenham alto o padrão mental, desejem de fato trabalhar pelo bem da confraria humana, produzindo benefícios da mais variada ordem, ativando os mais urgentes e imprescindíveis atos de atenção, por todas as questões e sentidos de atividade, pois no Universo tudo é movimento, ordem e cooperação, esforço e progresso, não se justificando o abandono e a isolação. Um raio de luz esplendente rasgou o espaço, no rumo das esferas superiores e levemente na direção norte. Nós ficamos olhando para o espaço, na mesma direção, com pensamentos voltados para ele, o luminoso espírito, o mensageiro de Kassapa, que fora o penúltimo Buda. Havia um hino, um cântico em nossos corações, que se levantava em

Osvaldo Polidoro louvor a Brama, de maneira a mais espontânea, a mais deslumbrante. Apareceu ao longe um clarão, apenas um imenso clarão, que se foi aproximando, aproximando, até que se ampliou e se desdobrou, transformando-se em esfera de luzes argentinas, multicores e radiantes; era fantástico o esplendor, maravilhava e absorvia. Ao cabo de pouco, os focos de luz se fizeram individualidades, seres humanos que entoaram um belíssimo e sugestivo hino sacro. Todavia, nossos olhos procuravam aquele grande mensageiro, não o encontrando no meio daquela multidão feliz. É que ele era mais em hierarquia, sua personalidade revelava elevada posição e autoridade. Daqueles ali presentes, nenhum era tão luminoso, tão majestoso. Vieram ao nosso encontro, havendo um deles vindo falar conosco. Bem se via que era um chefe, pois apesar de ser muitíssimo inferior ao grande mensageiro, era o de mais forte envergadura e porte. Irradiava autoridade ao seu talante evolutivo, era alegre, meigo e comunicativo. Depois de nos saudar em nome de Brama, disse: — Vim para levá-los. Disponham-se a partir. Consultei-o:

O Mensageiro de Kassapa — Por que não veio aquele que nos visitou primeiro? Gostaria de lhe dizer o quanto estamos penhorados, o quanto lhe estamos devendo. Sorriu, meneou a cabeça, esclareceu: — Ele tem um nome que vos seria difícil entender e pronunciar; não adianta que vô-lo diga. Mas não o deveis aguardar, pois é de mui elevada escala, sendo um dos imediatos de Kassapa, que por sua vez é um dos imediatos de Jesus Cristo, o Diretor Planetário. Nós viemos ao seu mando, tudo faremos consoante as ordens superiores. Para iniciar, por exemplo, recomendo a máxima simplicidade e modéstia, sopesando a bom critério todos os fatores que venham a apresentar. Com relação aos mais elevados mentores, podeis estar certos, devemos todos observar uma conduta simples e de inteira confiança, pois sabem mais do que possamos julgar, estando ainda em cumprimento de ordens deveras respeitáveis, ordens que jamais deixarão de cumprir, menos que de cima venha a devida contra-ordem, acontecimento este que mui raramente se dá. — Teremos prazer em ser simples e modestos. Verdadeiramente, senhor, estamos acostumados a pensar um tanto altaneiramente ou presunçosamente... Isto é, estávamos assim acostumados, pois a morte física nos chocou profundamente, por termos

Osvaldo Polidoro encontrado nela sérios reveses, acúmulos de sofrimento, acima de tudo enormes angústias de espírito. — Eu sei, eu sei — afirmou ele. — O grande mensageiro vô-lo disse? — indaguei. — Não. É que temos feito visitas a muitos mosteiros, inclusive o vosso, estando registrado todos os fatos dignos de atenção. Fomos nós que atuamos sobre o ancião Ananda, forçando-o a encetar a caminhada. Não queríamos fazer este serviço naquele meio, pois alguns elementos estão longe de merecer o recolhimento no presente, devendo acontecer coisas, a eles bem pouco agradáveis, antes que venham a ser atendidos. — Então, senhor, tudo é sob regime? Houve momentos em que nos julgávamos completamente abandonados. — E a Doutrina aprendida? Como ensina ela? — Senhor, a desilusão foi tremenda... Pensávamos estar libertos, unidos ao Espírito Universal, a Brama, quando realmente estávamos apenas entregues à separação e ao abandono. A morte, como disse, foi um tremendo fracasso, meu senhor.

O Mensageiro de Kassapa — Chamo-me Calil. Trate-me de irmão Calil, portanto, que fica melhor. E agora responda-me — que espécie de Justiça seria a divina, se o Reino de Brama fosse integralmente acessível aos indolentes e comodistas, por mais que nutrissem os pensamentos elevados e dirigidos ao próprio Brama? Se a condição de subida, para todos os efeitos é a de trabalho, a fim de conquistar os lauréis do Amor e da Ciência de modo prático, de maneira a não restar dúvidas, como iria Ele fazer exceção, abrir precedente menos justo, apenas porque alguém inventasse de cultivar teorias avançadas, pretensiosas, abandonando trabalhos, desprezando serviços, simplesmente pesando nas costas daqueles que, trabalhando, são julgados, por isso mesmo, inferiores, por isso mesmo afastados ou menos dignos do Nirvana? Se a medida ideal é o mapa de trabalhos, de esforços e realizações nos mais variantes matizes de construtividade, por que deveriam outros ser menos obrigados, pelo fato puro e simples de se julgarem preferidos, apenas por se tomarem de certas convicções a respeito da Verdade? — Não quero discutir semelhante questão, irmão Calil. Não tenho por hábito a mania de pretender ensinar a Brama; tudo quanto fiz, afinal de contas, foi obra de sinceridade. Abstração, abstenção e contemplação, a fim de forçar a união. Tudo mais ficou à margem, foi abandonado como fardo com-

Osvaldo Polidoro prometedor, como ordena a boa doutrina budista. Devo confessar que desconfiava um pouco dos merecimentos do tal princípio, pois nada é no Universo por acaso; tudo é produto de trabalho, tudo vem de algum esforço, tudo tem a sua finalidade. Tanta facilidade seria como que contradizer a Ordem Suprema, fazê-la ser ao mesmo tempo benigna para uns e maligna para outros, o que não pode ser. Demais, concordo plenamente com vossas arguições, pois o que se come e se bebe, se veste e chega a ter, para fim de subsistência, se não representa o produto do próprio esforço, por certo representa o trabalho de terceiros; e não é decente viver à custa dos outros. Aquele que era tido como revoltado, interferiu: — ... Mormente quando se pretende ser mais que aqueles que trabalham, que têm família a sustentar, que se enchem de obrigações de caráter social e coletivo! Calil olhou ao redor, indagando: — Vamos embora? — Para onde, irmão Calil? — consultei-o com vivo interesse. — Para uma região vizinha — respondeu.

O Mensageiro de Kassapa — E Ananda? Esteve hoje entre nós, depois sumiu; não sabemos onde está. Calil abanou a cabeça, afirmando: — Não duvideis do bom amigo. Ele virá, será recolhido e dará um bom servidor do bem. De fato, segundos depois Ananda chegava, ainda meio esquivo, mas vivamente alegre, por deparar com aquela turma de servidores. Quis ajoelhar, agradecer, mas Calil lho proibiu, passando-lhe séria carraspana. Até hoje, esse adorável amigo, cuja última vida terçou-a em meio muçulmano, gosta imensamente de servir, tem um forte pendor a ser útil, mas não deixa passar uma oportunidade de estrilo, quando está na sua razão. Vamos acentuar bem — a sua razão é sempre aquela que mais se fundamenta nos melhores propósitos, motivo por que sempre leva de vencida os possíveis contendores. Com a presença de Ananda, restava apenas uma pergunta: — Irmão Calil, e aqueles que estão pelos caminhos? Éramos quase duzentos, creio, e aqui estamos apenas pouco mais de uma centena. Pelo que temos sofrido aqui, nestes últimos dias, sei

Osvaldo Polidoro como virão eles a sofrer, caso fiquem perdidos por aí. Gostaria de servi-los... Ficaria aqui, com muito prazer, desde que garantido pela vossa assistência. Eu os iria acolhendo, instruindo, preparando. Calil fez-se expansivo, exclamando: — Bravo! Bravo! Assim é que se ganha o Céu... Fique, pode ficar, que lhe prometo assistência necessária. Basta pensar bem, basta que me envie seu recado mental. Combinado isso, agrupou aquela centena e pouco de famintos de espírito, mandou que seus companheiros fizessem círculo ao redor e convocou cérebros e corações a propósito de uma oração. Finda esta, os servidores entoaram um cântico, cântico que girava em torno de uma quadra, que foi de pronto decorada, sendo cantada por todos. Ela dizia assim, e ainda diz, sendo bastante ocupada para os mesmos fins: “Recebe, Senhor dos Mundos, Minha proposta de amor; Sei de minhas fraquezas, Confesso meu pouco valor”. Sob seu poderoso estímulo, a caravana alçou- -se, foi subindo, subindo, até atingir a altura da

O Mensageiro de Kassapa majestosa cordilheira. Até ao presente, apesar de tudo que aconteceu em minha vida e nos quadros de minhas atividades, como entidade e como funcionário da Lei, não me lembro de espetáculo mais deslumbrante e significativo, dadas as circunstâncias que o mesmo se dera. Lenta era a caminhada, parece que propositalmente lenta, a fim de fornecer elementos de conjetura. Estando com a alma em frenesi, pelo feliz evento, e observando a imensidade daquela paisagem ultra esplendorosa, cheia de luz, de graça, de inconfundível realidade psíquica, todo o meu ser vibrava, meditava, curtia profundos pensamentos. O Universo Infinito faz pensar gravemente; é o concebível e o inconcebível que se mesclam e se apresentam, desafiando o pobre intelecto do cidadão terrícola, do bípede vertical, presunçoso e prosaico, afeito à emissão de conceitos e preconceitos os mais extravagantes e absurdos. Para quem vê a Terra, e os seus múltiplos complexos, através do prisma da morte, como eu estava naquele momento vendo, aquela fagulha do Universo Infinito já era muito acima de minhas possibilidades de concepção e conclusão. Fiquei estático, absorto, olhando para a caravana gloriosa e recitando aquela estrofe sincera, simples e tremendamente severa. Todas quantas ideias havia tido, como adepto do currículo budista, sobre Deus e o Universo, ficaram para

Osvaldo Polidoro trás, soterradas sob a presença daquela mista e realmente mística paisagem. O que sentia de grande, de glorioso, em mim, naquela contingência, naquele transe histórico, era saber e sentir profundamente a minha insignificância! Assim sendo, por ser bem assim, minha alma se avizinhava de Brama! Por isso é que, tendo ficado sozinho, sentia a Presença do Infinito no meu íntimo. Meus olhos eram fontes de lágrimas felizes; eu me sentia simples e humilde, sabia que estava ligado ao Supremo Espírito — à DIVINA ESSÊNCIA! Ocorreu-me a ideia de experimentar a levitação. Fiz a primeira tentativa e me pareceu conseguir um solavanco. Fiz a segunda, a terceira, a quarta... Cada vez mais sentia o efeito da vontade, do querer. Considerando a importância do pensamento, como instrumento de controle e direção, fui prosseguindo nas tentativas até dominar à vontade os movimentos. A seguir, teci conjeturas a respeito de como proceder. Devia ficar alí, aguardando a chegada dos retardatários? Devia ir, por volição, ao encontro dos mesmos, que deviam estar espalhados pela imensa planície? Fiz oração, invoquei um pensamento, uma ideia, a fim de agir; nada veio, nem o mais insignificante sinal. Então, seguindo velha determinação

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