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Capítulo 3 de 14
Osvaldo Polidoro — parte 3 de 14
O Mensageiro de Kassapa · Osvaldo Polidoro
Osvaldo Polidoro Estaremos com a Verdade? Ou estaremos apenas com nossas pobríssimas verdades humanas? E por que motivo devemos silenciar, acatar mais a voz de uma tradição que pode muito bem ter as suas verdades felizes, mas que pode também ter suas falhas terríveis? Um ancião, ainda conservando os sinais vivos de sua encurvada carcaça, em tom de rogo, disse: — Irmãos! Não nos separemos por simples opiniões. Vamos tentar... Vamos tentar a oração em conjunto, no seio estuante da floresta, com olhos voltados para o Céu... Para o Sol, a maior glória com que Brama nos brindou. Tudo faz verter a Divina Sabedoria de Brama! O Céu e a Terra Lhe cantam o Infinito Poder! Logo, irmãos, também podemos colher alguma coisa através de Sua Maravilhosa Obra! Vamos tentar?... Alguns responderam que sim, outros calaram, outros tiveram opiniões contrárias. Houve um que retrucou, com azedume: — Eu tudo fiz, como melhor pude, para fazer a união de espírito para Espírito. Se por isso não deu certo, que é a medida tida e aceita pela tradição, e pelo melhor senso crítico, por que hei de agora virar os olhos para o Sol ou para uma simples
O Mensageiro de Kassapa floresta? Continuo budista, integralmente budista, não arredo um pé deste lugar! Se faltas há, que me venham dizer... Sim, que me venham dizer! Confio que alguém virá, algum dia, dizer alguma coisa, assim como nós confiamos e vivemos segundo a tradição. O ancião, todo paciência, monologou: — Tem razão... Todos têm razão... Ninguém deixa de ter a sua razão... Contrariando o esperado, foi saindo, saindo, até que o perdemos de vista. Foi então que um certo horror se apoderou de mim, estremecendo-me, razão por que lhe fui nas pegadas. Quando olhei para trás, outros vinham, quase uns duzentos, todos metidos em grande tristeza, cabisbaixos e silenciosos. Era a caravana modorrenta a se locomover pelos ermos, muda e triste, aguda e contrita; era a estampa da ilusão perdida, das convicções tornadas baldas, do vazio espetacular a corroer as criaturas antes cheias de vida interior, de esperanças e miríficos projetos. O todo sublime de antes, dos tempos iniciáticos, estava convertido agora em merencória ondulação através dos vales e montes. Uns á frente acompanhando Ananda, outros a filar perrengue pelas moitas e acidentes do terreno; todos, enfim, marchando no rumo das montanhas, ao encontro de algum re-
Osvaldo Polidoro curso, à busca daquele Nirvana que se apresentava difícil, quase impossível, depois de ter sido julgado pronto e liquidado, resolvido e absorvido. Ananda, o encarquilhado, parou. Estendeu o seu cansado olhar de espírito sofrido por sobre a dolente e triste fila de companheiros, indagando com sua rouca e apagada voz: — Por que vindes em meu encalço? Lembrai- -vos, eu não vos convidei! Para mim, se voltar ou não pouco importa. Mas não sei de vossas pretensões e não me responsabilizo pelas vossas esperanças... Somos já mortos para o mundo, mas temos as nossas necessidades, somos ainda homens, temos os nossos corpos e as nossas obrigações para com eles. A morte do corpo denso não eliminou a vida do corpo tênue. Tudo continua, tudo se prolongou para aquém do túmulo, como vedes. Olhou para a linha de montes ao longe, apontou e sentenciou: — É para lá que eu quero ir!... Ninguém está convidado; vá por si mesmo aquele que tiver suas intenções. A caravana encurtou-se, pois enquanto ele falava, os outros avançavam. Quando Ananda reco-
O Mensageiro de Kassapa meçou a marcha, alguns lhe estavam à frente. Seus passos lentos arrastavam-se pelo chão ariento, escaldante, como se fossem os de um encarnado. Todos nós éramos, em verdade, encarnados de certo modo, apenas invisíveis aos olhos do mundo. Os nossos corpos pesavam, as nossas necessidades eram prementes; começou a nos invadir a sede e a fome. Isso mesmo, tal como se fossemos portadores daqueles corpos que havíamos largado fazia muito tempo. Um jovem, que havia passado em virtude dos excessivos jejuns, soltou alguns gemidos e caiu por terra. Seu peito arfava e sua voz não saía. Sua vida era feita de surdo gemido, apesar de ser espírito, a despeito de haver morrido. Nem parecia o mesmo, aquele jovem sonhador, aquele asceta completo, aquele homem em cujo semblante místico muitos viram raiar o sol da união perfeita. Ele pareceu, um dia, ter realizado em vida, a entrada em Brama, tal o alvor de sua aura. Muitos o tiveram na conta de um grande Buda; mas ali estava, agora, entregue a terrível e angustiante cansaço, feito igual a qualquer pecador, entregue à necessidade dos mais lancinantes gemidos. Ao seu redor alguns pararam, enquanto que outros fizeram conta de nada ver; o Cristo, ali, faria rememoração de grandiosa e impassável parábola. Mas, seja como for, eu também não fiz melhor; pa-
Osvaldo Polidoro rei, olhei, lastimei e recomecei a marcha. As montanhas estavam longe, todos estávamos famintos de muitos alimentos, principalmente de pão espiritual, não havendo motivo para ficar, pois ele era espírito, estava entregue ao rigor de uma Verdade Superior, estava aquém dos conceitos humanos, também havia transitado pela barreira do túmulo. Não sei quem lá ficasse, pois não quis olhar para trás. Eu não sabia que espécie de sorte me iria aguardar um pouco adiante, mais além. Tudo poderia acontecer, para um homem morto que se achava bem vivo e bastante sofrido aquém da morte. A medida, a meu ver, era caminhar sempre, atingir as montanhas, mesmo sem saber no que isso daria. As montanhas! Quantos pensamentos fiz antes de a ela chegar, morto de cansaço, derreado ao extremo, exangue a ponto de me largar por terra e perder os sentidos por muitas horas ou dias! Poucos atingiram as montanhas, daqueles quase duzentos saídos. Quando muito a quarta parte, se tanto, conseguiu lá chegar, alguns se arrastando como serpentes feridas, sangrando pelos pés e pelas mãos, suando sangue e derramando lágrimas a valer, elementos que, de mistura, formavam lodo e mau cheiro. De par com os traumas, com o frenetismo místico, havia horror nas frontes e desespero nos olhares mortiços. Cinco ou seis pareciam
O Mensageiro de Kassapa aloucados, pois começaram a atoar desencontrados cânticos, fora de tom e de tudo, com as mãos levantadas, perseguidos de íntimos terrores. Um espetáculo horroroso, sinistro, filho da esquizofrenia. Uma noite havia passado, sobre um dia de mortificante caminhada, e outra noite se debruçava sobre a imensa natureza. A Terra exposta na estuância das montanhas e na fragrância de vales verdejantes, tinha por teto uma cintilante abóbada e era envolvida pelos rumores múltiplos da bicharia. Mesmo entregue a tamanho tormento, atacado frontalmente pelos horrores da fome, da mais angustiante expectativa, e de mais um dia arrastado pelos ermos, sentia-se alguma satisfação ante o espetáculo fantástico da natureza. Ananda subiu, subiu, obrigando alguns outros a subir e a outros tentar subir. Tentar, é claro, pois a maioria ficou no sopé da encosta, bem rente ao lago sereno, cantante e poético, visitado por animais e bafejado pelo clarão da lua crescente. — Ananda! Ananda! – gritou um dos caminhantes desesperado, vendo-o subir, agarrar-se a tudo, picos e frestas, num tremendo esforço, numa esperança louca. Veio o surdo rumor:
Osvaldo Polidoro — Quem me chama? O desesperado companheiro rogou: — Eu!... Eu!... Espera, por Brama... Espera!... Ananda, espera!... Ananda replicou firme: — Não! E se tivesse caído no caminho? Quem me acudiria? O interlocutor reclamou, mas antes gemendo que falando: — Piedade!... Espere um... Um pouco... Por Brama... Ananda, sumido entre as fendas da rocha, enviou o seu duro recado: — Brama nos esperou? Teremos agido bem? Quem falhou, nós ou Ele? Não vou esperar, nada prometo, não me responsabilizo! Penso em mim, por mim e para mim! Eu fazia o quanto podia, a fim de não perder Ananda de vista; mas naquela hora, frente a tamanha sanha egoísta, pensei estar seguindo um
O Mensageiro de Kassapa espírito enlouquecido, tornado indigno de todo e qualquer acatamento. Estaquei, pensei, meditei. E voltei atrás, fui ter com os outros, com os que haviam ficado junto ao lago, alguns dos quais choravam, pranteavam agoniadamente, reclamando contra o encurvado companheiro, incriminando a sua dureza de coração. — Nós ao menos teremos água... — balbuciou alguém. — E dizer que somos espíritos!... Que ultrapassamos o túmulo! — exclamou o que estava ao meu lado, até então com a cabeça enterrada entre os dois joelhos. — Mistérios de Brama! Quem os sondará? — comentou aquele que estava ao lado. Um que vinha vindo, daqueles que se haviam atrasado, retrucou-lhe: — Mistérios coisa alguma! Leis, sempre leis! Nós estamos errados, totalmente errados! Somos apenas egoístas, tremendamente egoístas... Surtiu pesado rumor, depois um baque surdo. Fora à nossa direita, não muito afastado de nós. Fiz o possível, levantei-me e fui investigar. Lá estava
Osvaldo Polidoro Ananda, o encurvado companheiro, todo gemente, dizendo palavras sem nexo, clamando por Brama, rogando misericórdia, tudo de mistura, numa balbúrdia mental sem conta. Sacudi-o, mas sem efeito. Estava fora de si, estava enlouquecido ou desvairado. Lá o deixei, vindo ao encontro dos outros e informando-os. — Bem feito! — exclamou um deles. — Pobre Ananda! — lastimou um outro. Uma gargalhada se levantou, depois do que surtiu a opinião: — Temos sido verdadeiros idiotas! Egoístas infames!... Pensando ser mais, que ganhamos? Até depois de mortos caímos, temos fome, vivemos feito bichos! A união, a libertação, a entrada em Brama!... Brama pensou do mesmo modo? Quem é que trouxe o recado? Que Buda contou o resultado de sua experiência? Qual deles voltou para confirmar sua teoria e doutrina? Onde foram parar? Será que estão lá no alto da montanha, clamando por Brama, como nós o estamos fazendo aqui? Cessou a fala, num repente, caindo em convulsivo pranto, em desesperada crise. Aos poucos foi
O Mensageiro de Kassapa passando, passando, até que silenciou de uma vez. A natureza estava majestosa, estuante de esplendor, cheia de luar e de vida animal. Aos poucos a neblina invadiu tudo, revestiu de branco véu a moldura dos montes e das árvores; a lua viu-se ofuscada, os insetos diminuíram a intensidade dos ruídos, o lago ficou debaixo do manto úmido e alvicente. A noite pareceu dormir, envolveu a natureza toda, encerrou-se na quietude. Cada um de nós se recostou, procurou dormir, fazer aquilo que sempre o fizemos, com toda a regularidade e necessidade, a contar do primeiro dia da morte física. * * * Se os nossos pensamentos, e estado geral, no seio dos monges, deixava a desejar, agora tudo pairava em grau superior de piora, muita piora. Naquele meio havia com que nos nutrirmos; o padrão mental era forte, as convicções dos encarnados mantinham elevado teor de vibração, imantando tudo, o chão, as paredes, os móveis e todas as peças com o magnetismo deles irradiante. Nossos pensamentos estavam aliados, vibravam em uníssono, sugavam fluidos e absorviam ondas mentais, o que era suficiente para manter o grau considerado ótimo com relação ao meio e ao plano hierárquico.
Osvaldo Polidoro Saindo, abandonando aquele meio, fomos tragar um mundo diferente, alheio às questões psíquicas, sendo envolvidos pela natureza fria e penetrados daquela gradação vibratória de todo inferior, sem intelecto e sem mente, acima de tudo fora das normas vocacionais, isenta de proposituras espirituais. Os monges tinham para si e para nós, pois, mesmo a despeito de todas as abstenções, irradiavam energias, colhiam e devolviam, como é ordinário, mantendo um ambiente farto, além de sustentar um elevado coeficiente psíquico. Despertar, naquela manhã, foi o mesmo que sentir faltas conhecidas e desconhecidas, patentes e latentes, sondáveis e insondáveis. Havia frio material, frio e fome espirituais, necessidades variantes. Diante daquela conjuntura esmagadora e abaladora em extremo, alguns se mantinham calados, taciturnos, enquanto outros diziam absurdos, propunham atividades descabidas e não raro blasfemavam, julgando-se traídos por Brama e pelos Budas. Eu havia aprendido, como eles todos, a julgar tudo pela ORIGEM, achar que Deus era a ES- SÊNCIA INTEGRAL, e tudo quanto mais fosse ou existisse não podia ser menos do que semi- -deus, do que forma de manifestação de Deus ou Brama. Sabia que a Criação era uma descida, um ramo involuído, para efeito de particularização ou
O Mensageiro de Kassapa individualidades infinitas, cumprindo a cada partícula, a seguir, ir-se levantando, erguendo, subindo, “psiquisando”, angelizando. Enfim, sabia que Deus se transforma em Criação por um intrínseco processo de involução ou descida, e que a Criação se eleva a Deus, de novo, pelo íntimo processo de evolvimento ou subida. O que não estava muito certo, no entanto, referia-se ao MODO de subida ou infindos matizes de modos, pois há variações sem conta e as teorias não eram precisas. Agora, que estava em má situação, fervilhava na mente todo um aluvião de ideias e conceitos, pensamentos e preconceitos em choque, sentindo a cabeça girar, agindo como tonto e cada vez mais piorando. Naquela manhã, acordando, apesar de ter passado a noite numa furna de rocha, estava umedecido, friorento, pior do que se fosse um encarnado, pois a sensibilização que a perda do corpo obriga, se aumenta a glória quando é merecida, também aumenta a tragédia quando não se faz jus a outra condição. Fosse nos seios dos monges, teríamos ambiente farto e feliz, pois havia de tudo um pouco e muita irradiação da parte dos encarnados, com que nos beneficiarmos. Ali, no entanto, tudo era pobreza e miséria, apesar do fausto esplendoroso da natureza. Não havia alimentos, pensamentos e nem acomodações apropriadas, como no convento, onde tínhamos o que sugar, o que vampirizar
Osvaldo Polidoro ou sorver, pois a morte, como já disse, não nos libertou dos jugos inferiores. Acordei os demais e conversei com os que vinham chegando, pois de quando em quando chegavam alguns daqueles caravaneiros atrasados. O pior é que nos julgavam bem e melhorados, pois todos tinham por certo que Ananda sabia onde chegar e para que fim. Ninguém podia admitir que ele tivesse agido como louco, sem a menor certeza, completamente desprovido de finalidade segura. — Então — disse um deles — porque veio ele para estas bandas? Outro, comentava duvidoso: — Não parece estar sofrendo das faculdades mentais... — Idiota! Idiota! — resmungou alguém — Como fui sair de lá?!... Ao menos havia paz, alimentos, esperanças de... Outro interrompeu-o: — Paz e comida, sim; mas esperança não creio... Todos estávamos custando a suportar aquilo. Ser espírito e ficar do mesmo modo, como se fosse um
O Mensageiro de Kassapa encarnado, a cogitar de necessidades tão animais!... Aquilo precisava acabar, ter fim. Dormir, comer, beber, respirar, etc. Era preciso ter fim!... Replicou-lhe um outro, com acentuada amargura: — E acabou mesmo!... Aqui estamos em melhores condições!... — Onde está esse trôpego? — indagou um outro, com violência, como se quisesse tomar desforra. Acalmei-o: — Tinha qualquer coisa em mente, pois se meteu a escalar a montanha. Foi agarrando, segurando, trepando, num doido esforço, numa loucura quase, até que o perdemos de vista. Estava belíssimo o luar, mas não pudemos vê-lo e nem acompanhá-lo mais, razão porque ficamos cá em baixo. Pouco depois ouvimos um ruído surdo e um gemido grave. Quando fomos ver, ele havia caído e estava sem fala, gemia apenas. Arrastei-o até uma furnazinha e lá o deixei... Deve estar lá se não recomeçou a escalada, hoje pela madrugada, caso tenha podido fazê-lo. — Vamos procurá-lo? — consultou-me um dos presentes.
Osvaldo Polidoro Saí para o fim proposto, pois ficava a uns vinte metros da beira do lago e atrás de uma enorme pedra. Lá chegando, não o encontramos, motivo porque demos uma busca nos arredores, também sem proveito. Para onde teria ido? Qual seria seu objetivo? Ficamos meditando, sem nada falar, até que um disse, num gemido: — E dizer que somos espíritos!... — O que não é espírito? — revidou um outro. — Nós somos budistas, acima de tudo. Cultivamos os melhores pensamentos, temperamos nossas almas... O revoltado, de pouco antes interferiu: — ... Nossas vaidades, nossos egoísmos! Eu bem desconfiava que o Nirvana jamais seria conquistável assim tão fácil! Como não? Só pensar que se é da mesma ESSÊNCIA que Brama é, imaginar uma união, meter o pensamento nessa união, pretender tê-la realizado! Muito bonito, muito cômodo, muito ligeirinho!... Os que trabalham, lutam, criam filhos; aprendem e ensinam; edificam povos no culto das ciências e das artes; todos os que comem e bebem à própria custa, todos aqueles que cooperam com Brama, todos eles são pecadores
O Mensageiro de Kassapa indignos do Nirvana! Nós, porém, que temos as nossas manhas, os nossos pensamentos adestrados na malícia de pensar fácil e comer de esmolas, somos os bons filhos de Brama!... Ora! Ora! E dizer que vivemos até aqui, atrás de um pobre velho, tão errado quanto nós, tendo apenas um pensamento — pensar que Brama está no alto da montanha!... Que lá se encontra, rodeado de Budas e de egoístas como todos nós!... — Apoiado! Apoiado! – gritou uma voz cavernosa, surgida no lado direito. Olhamos e vimos Ananda, todo ensanguentado, erguido sobre uma enorme rocha. Estava sorrindo, mas demonstrava desequilíbrio regular. Fazia esgares, tinha os olhos vidrados, babava-se todo. Causava lástima, imprimia horror. Fora chocante sua apresentação, havendo quem chorasse copiosamente. — Vamos orar! — gritou um dos companheiros — Vamos reclamar atenção, pois o nosso erro não foi tão grande assim... Brama estará longe, nos confins de nossa intimidade, mas os Mestres devem estar ao nosso alcance!... Devem estar... Soluçando ajoelhou-se, clamando ao Céu em voz alta, gritando pela misericórdia celestial:
Osvaldo Polidoro — Brama! Ó Brama! Envia Teus servos!... Se estivemos em erro, Senhor, é nosso desejo acertar!... Ó Mestres! Ó Mestres!... Vinde em nosso amparo! A cena era terrivelmente patética, ultrapassava de muito a majestade da natureza maravilhosa. Suas palavras ecoaram para além dos picos, perderam-se no imenso da cordilheira fantástica. Quando ele fez silêncio, parece que tudo lhe acompanhou o gesto sepulcral. Não se ouvia um canto de ave, um silvo de serpente, um estrídulo de qualquer inseto. Parecia haver morte na Terra e nos ares, assim como havia pranto em nossas almas e angústia em nossos corações. Não se sabia, todavia, o que estaria havendo no Céu, onde talvez tivesse chegado aquele profundo clamor, aquela medonha invocação. Estáticos, inermes, amortecidos, ali ficamos alguns minutos. Recomeçaram os ruídos; recomeçou aos poucos o cântico da natureza, a sinfonia da vida, o clangor estuante do astro rei, cujos raios iluminavam, vibravam, tangiam, impunham vivência e forçavam o formidável concerto da natureza. Só nós éramo pequenos, infelizes; só nós estávamos aterrados, mergulhados no mais cruciante dos sofrimentos. Dentro em pouco, chocante era a diferença entre a paisagem e os nossos ânimos; enquanto ela crescia, aumentava e se desdobrava na
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