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Capítulo 1 de 14

Osvaldo Polidoro — parte 1 de 14

O Mensageiro de Kassapa · Osvaldo Polidoro

(reencarnação de Allan Kardec) O MENSAGEIRO DE KASSAPA São Paulo

www.divinismo.org Copyright desta edição INSTITUTO DIVINISTA C.N.P.J.: 09.344.266/0001-26 Rua Professor Artur Ramos, 404 – Térreo – Jardim Paulistano CEP: 01454010 – São Paulo – SP www.divinismo.org Todos os direitos reservados Tiragem: 1.000 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Polidoro, Osvaldo O Mensageiro de Kassapa / Osvaldo Polidoro (reencarnação de Allan Kardec). -- São Paulo: Instituto Divinista, 2021. ISBN 978-65-993307-2-8 1. Doutrina espírita 2. Espiritismo I. Título. 21-62661 CDD-133.901 Índices para catálogo sistemático: 1. Espiritismo : Doutrina espírita 133.901 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427 Produção Gráfica: Assahi Gráfica e Editora Ltda O Mensageiro de Kassapa DEUS Eu Sou a Essência Absoluta, Sou Arquinatural, Onisciente e Onipresente, Sou a Mente Universal, Sou a Causa Originária, Sou o Pai Onipotente, Sou Distinto e Sou o Todo, Eu Sou Ambivalente. Estou Fora e Dentro, Estou em Cima e em Baixo, Eu Sou o Todo e a Parte, Eu é que a tudo enfaixo, Sendo a Divina Essência, Me Revelo também Criação, E Respiro na Minha Obra, sendo o Todo e a Fração. Estou em vossas profundezas, sempre a vos Manter, Pois Sou a vossa Existência, a vossa Razão de Ser, E Falo no vosso íntimo, e também no vosso exterior, Estou no cérebro e no coração, porque Sou o Senhor. Vinde pois a Meu Templo, retornai portanto a Mim, Estou em vós e no Infinito, Sou Princípio e Sou Fim, De Minha Mente sois filhos, vós sereis sempre deuses, E, marchando para a Verdade, ruireis as vossas cruzes. Não vos entregueis a mistérios, enigmas e rituais, Eu quero Verdade e Virtude, nada de “ismos” que tais, Que de Mim partem as Leis, e, quando nelas crescerdes, Em Meus Fatos crescereis, para Minhas Glórias terdes. Eu não Venho e não Vou, Eu sou o Eterno e o Presente, Sempre Fui e Serei, em vós, a Essência Divina Patente, A vossa presença é em Mim, e Quero-a plena e crescida, Acima de simulacros, glorificando em Mim a Eterna Vida. Abandonando os atrasados e mórbidos encaminhamentos, Que lembram tempos idólatras e paganismos poeirentos, Buscai a Mim no Templo Interior, em Virtude e Verdade, E unidos a Mim tereis, em Mim, a Glória e a Liberdade. Sempre Fui, Sou e Serei em vós a Fonte de Clemência, Aguardando a vossa Santidade, na Integral Consciência, Pois não quero formas e babugens, mas filhos conscientes, Filhos colaboradores Meus, pela União de Nossas Mentes.

O Mensageiro de Kassapa ÍNDICE Deus ............................................................................ 3 Breves Notas ao Leitor ............................................. 7 Primeira Parte .......................................................... 11 Segunda Parte - Considerações de Ananda .......175 Terceira Parte - Síntese cósmica da Doutrina Espírita, apresentada através de vinte pontos fundamentais, cuja análise relativa se encontra no livro: “Espiritismo, a Doutrina Integral”. .........................................................221 Livros Indispensáveis ...........................................235

O Mensageiro de Kassapa Breves Notas ao Leitor Ao se apreciar as obras do Divino Autor — Inigualável Mestre de Doutrina Pura — percebe-se, facilmente, que várias delas se destinam, precipuamente, a certos núcleos de pessoas que se dedicam ao exercício de determinadas e específicas práticas religiosas. Nesta obra, em particular, emerge de forma bem clara o seu nítido objetivo de alertar aqueles que têm uma formação espiritual búdica. Mostra, durante o transcorrer da narrativa, o grande equívoco do radical abstracionismo, propulsor do acendrado abstencionismo de suas práticas. Infelizmente, no magistério do Autor, o budismo traz em seu bojo doutrinário volumoso contingente de conceitos, lamentavelmente, falhos. A Lei não exige dos encarnados mera contemplação de natureza imobilista, mas um esforço dinamicamente construtor. Renunciar a certas experiências sociais, que deveriam ser vividas, acarreta graves atrofiamentos de personalidade.

Osvaldo Polidoro Não se pode fugir da luta, negando cumprir obrigações temporais a pretexto, simplesmente, de ganhar o Céu mais depressa. Nesses casos, ao desencarnar, a maioria dos que assim procedem toma o rumo das regiões tenebrosas. O leitor perceberá no decorrer da leitura que o Divino Autor mostra os graves equívocos desse posicionamento filosófico perante a Justiça Divina. Passando pela encarnação em rotineiros rituais, fechados em mosteiros, em verdadeiro tugúrio, julgam com isso, encaminharem-se mais rapidamente e com um mínimo de sofrimento ao estado nirvânico. Ledo engano. Ao desencarnarem vão se encontrar, de forma frontal, com a realidade inescapável da Justiça Divina. Nada do que foi pensado e projetado ocorre... Ao contrário, dão-se conta do caminho equivocado que tomaram. Mas, aí já é tarde... Não há como voltar atrás na trilha então palmilhada. Como prelecionou o Divino Autor, inúmeras vezes, “A carne é lugar do frigir dos ovos e com o desencarne vai-se verificar a gordura que sobrou.”

O Mensageiro de Kassapa A desencarnação é, realmente, uma caixinha de surpresas... Quantos irmãos no Planeta não pensaram da mesma forma e ainda o fazem presentemente? Boas intenções, somente, não significam felizes soluções. É necessário encontrar e seguir o Caminho Certo. Assim, este livro é atualíssimo e serve para prevenir a todos quantos têm essas inclinações e tendências. Ao final, traz a maravilhosa Síntese Cósmica da Doutrina Pura, apresentada através de vinte pontos fundamentais. Em suma, face à imensa utilidade dos luminosos ensinamentos nele contidos, tomamos a liberdade de sugeri-lo ao prezado leitor. FIAT LUX Janeiro – 2001 Elzeário H. Sampaio Alves

O Mensageiro de Kassapa Se fôssemos aquilatar a responsabilidade do homem presente, pela soma das Revelações recebidas ou enviadas pelo Diretor Planetário, teríamos de apostrofá-lo com as mais veementes taxativas. Tal é, como posso encarar o homem histórico, aquele homem-humanidade que se apresenta hoje, em face das questões inerentes ao seu problema fundamental, que é a emancipação espiritual, arcado sob o jugo de infindas obrigações e quase que desprovido de valores despertados ou virtudes ativas. Que fez o homem, no uso de si mesmo perante os ciclos vencidos e as verdades ensinadas pelo Céu? Com que poderes internos despertados enfrentará o ciclo futuro?

Osvaldo Polidoro Nem mesmo a tanto se precisa atingir; basta observar os elementos de vigor moral com que defronta a fase transitiva presente, toda inçada de mil e um percalços, toda plena de vicissitudes as mais convulsivas e dolorosas. Afora um número diminuto, ínfimo, que se detém nas práticas salutares da fé consciente, quase tudo é mole que ondula e sacoleja por entre as trevas sinistras da incerteza e do pavor. Em tempo algum houve tanta necessidade dos melhores valores expostos, das melhores marcas registradas no quadro vasto das virtudes íntimas e desenvolvidas; no entanto, a imensa maioria não está de pé, não está em guarda, pouco ou nada faz pelo esforço equilibrador, pela movimentação evolutiva no âmbito da ordem, do regime de harmonia. O findar de um ciclo evolutivo, de ordem universal, apanha o homem-humanidade menos provido, quase totalmente desprovido de recursos combativos à altura do momento e da importância histórica e clássica concernentes. Buda já ensinava, seis séculos antes do Cristo: “Todas as coisas compostas são sujeitas à corrupção; não poderia ser de outra maneira”. Mas o nosso homem-histórico tem dado muito mais importância ao que é transitório, ao que é mu-

O Mensageiro de Kassapa tável e aleatório; os bens do espírito ficaram para trás e o momento renovador mais intenso, mais brutal e universal, apanha-o quase que inteiramente desprevenido. Menos do que isso ou com alguns recursos espirituais a mais, formando na linha defensiva moral, e esta fase transitiva não seria tão violenta, assim carregada em extremo de sinistros prognósticos. Ao tempo que Buda ensinava diferenciar entre os bens aleatórios e aqueles de fato, com a seguinte e lapidar sentença: “ De tudo que teve uma origem causal, aquele que achou a Verdade mostrou a causa; e de todas estas coisas o grande asceta explicou a cessação”; nesse tempo, sem dúvida, bem menor era o montante de zelo espiritual necessário, por ser o fenômeno menos intenso e amplo. Portanto como não se deve agora portar, aquele que vive paralelo ao mais crítico momento cíclico-histórico? Temos certeza de que não estamos falando por acaso; de outras esferas partem determinações a esse respeito. Nossa missão é alertar, é lembrar a necessidade inadiável da melhor vigilância, da melhor estacada em face do monstro avassalador que tudo procura minar e destruir, atirando nas garras da degredação milhões de seres, tornando-os vítimas da própria negligência.

Osvaldo Polidoro Esta hora devia ser de atenção e prudência por parte de todos. Quando menos fosse, pelo menos por parte da maioria, a fim de que o antiCristo, que é o inverso de tudo quanto é do Cristo, jamais pudesse cantar alto o seu hino cavernoso através da humanidade e defronte ao Céu. No entanto, prevaricações de toda espécie e monta têm lavrado parada no caráter da humanidade, vinculando-se a ela de maneira arrasadora, minando-lhe os mais penhorosos recursos espirituais, diminuindo, nalguns casos, toda e qualquer capacidade de resistência ao mal. Fatos tidos como acidentais ontem, hoje valem pela mais desbragada e fatal lesão de caráter. Erros simplesmente admitidos como sendo superficiais, tanto se foram acumulando, somaram-se ao extremo no curso de ciclos e mais ciclos, vindo agora a formar peso incrível no dorso encurvado da humanidade, expondo-a aos golpes terríveis da adversidade, dos ventos pútridos que sopram de todos os quadrantes terrestres, principalmente os de ordem político-econômicas. A má política religiosa forçou a debacle no plano econômico espiritual; por conclusão lógica temos o irrisório teor psíquico vigente. Reina a fraqueza onde o poder íntimo devia comandar. Quer dizer que, por dialética ou ambivalência, o fracasso dos jogos espirituais fez carunchar o edifício temporal, vindo este, agora,

O Mensageiro de Kassapa a pressionar tremendamente o já enfraquecido alicerce daquele. O homem-humanidade deste século, portanto é um desnutrido de corpo e de espírito. Não me refiro a totalidade, mas ao grande número. Também não penso em levantar o dedo, em apontar e incriminar; lamento, deploro, lembro e se possível, aviso. Nada mais, pois eu também palmilho a senda comum, a trilha normal, tendo o histórico cheio de altos e baixos. Não sou quem possa falar de dedo em riste, por estar acima das contingências terrícolas, por ser alguém cujo teor evolutivo paire nas alturas da consonância UNI- TÁRIA. Eu ainda não me fiz um com o EU INFI- NITO – Deus. Outrotanto, como narrador, quero acentuar minha tendência doutrinária budista, comprovante de minha formação intelecto-espiritual, pois as minhas vidas carnais tiveram curso entre as paragens onde os oito Budas viveram e ensinaram. Terei oportunidade, no desempenho da narrativa, de expor e fixar minhas concepções sobre Jesus, a quem reconheço como Cristo Planetário e batizador em Espírito. Devo assentar aqui minha bateria mental e dizer, também, o quanto venero outros elevadíssimos vultos da história religiosa ou verda-

Osvaldo Polidoro deira. Para mim prefiro falar em Verdade e não em religião, pois este último termo se presta a múltiplas confusões, havendo bastos conventículos humanos que, por ignorância espontânea ou proposital, tudo fazem a fim de confundir, para subtrair fartos proventos materiais. * * * Há que fazer distinção entre o indivíduo e o seu caráter. Melhor seria dizer, distinguir a origem divina, a individualidade e o caráter. Porque, afinal, as duas primeiras instâncias, embora sendo aquelas que dão origem à terceira, por serem fundamentais, nada poderiam representar ou constituir, na apresentação do homem clássico, do homem presente ou prático. Lembro esta necessidade em virtude de minha formação espiritual búdica; quero acentuar a minha repulsa a um dos axiomas da filosofia búdica, pois o seu radical abstracionismo, propulsor do mais acendrado abstencionismo, constitui erro clamoroso. Ninguém surtiu de Deus, da Divina Essência, como individualidade e comportando valores divinos em potencial, com a sagrada obrigação de fazê-los ter manifestação patente, e, ao mesmo

O Mensageiro de Kassapa tempo, numa flagrante manifestação de contradição, com o direito de sepultá-los, de renegá-los. Este conceito da filosofia budista é terrivelmente clamoroso, é aberrante, pois a Lei determina que haja, da parte do indivíduo, todo o esforço a bem do máximo desabrochamento. Faz-se mister trabalhar, aprender, organizar. A santidade é consequência lógica de um longo e trabalhoso processo íntimo de afloramento dos poderes latentes. E isto quer dizer, então, que o budismo, pelo menos nesta parte, carreia volumoso contingente de conceitos falhos. A Lei exige esforço construtor e não abstração e contemplação. Renunciar a determinadas atividades é perder experiências, é se entregar a prejudiciais atrofiamentos. E a prova que damos, para o caso, é que ninguém jamais foi levado a sério pelo Céu, pelo fato de se ter feito negação em face de obrigações temporais. O que se não deve fazer, em circunstância alguma, é proceder mal em caso qualquer. Afora isso, cada qual cumpra com o seu dever, não fuja da luta a pretexto de querer ganhar o Céu mais depressa. Também, por estarmos tratando do assunto, vamos dizer alguma coisa a respeito do ofício de ser clérigo, de viver à custa da fé. Abandonar a casa, e com ela as obrigações, a fim de viver do ofício religioso, ganhando os meios de subsistência, ou pe-

Osvaldo Polidoro dindo esmolas, isso não é decente, fica dito de uma vez por todas. Se alguém chega a ter alguma coisa, para subsistir, e essa coisa foi ganha desse modo, afirmo que nisso está errado, não andou bem perante a Lei e terá que com ela ajustar suas contas. De um modo geral, convenhamos, ato espiritual construtivo não é aquele que se dá foros de espiritualidade ou religião, pois o Céu não se move e nem comove à custa de fantasias, de formalismos e de idolatrias. Podemos dizer que a humanidade perdeu, nesse mister, até hoje, muito mais tempo do que todo o tempo somado em outras atividades perdidas. De todos os quadrantes da fé repontam aqui os elementos, equipados de materiais os mais extravagantes, atulhados de pretensos merecimentos, saturados de mil formas de pseudo validades, amuletos a que o Céu não confere sequer atenção. É vir com eles e largá-los no primeiro encontro com os planos de paz! Nalguns casos, tanto custaram para serem adquiridos, de tal maneira foram acumulados, que o seu dono ou proprietário, ao invés de vir bater nas esferas de Luz, toma o rumo das regiões trevosas. É que o castelo feito, em lugar de ser edificado pelas diretrizes divinas, foi erguido sobre os mais peçonhentos conceitos e preconceitos humanos, quase sempre filhos de conventículos clericais, de elementos de mau ofício.

O Mensageiro de Kassapa De toda e qualquer forma, porém, há uma diferença muito grande entre o que é verdade por Deus e o que é conceito humano. De cima surgem determinações impolutas, diretrizes inabaláveis, regras de absoluta segurança; de baixo procedem os conchavos, as maquinações, as espertezas e os tribofes. Quem se agarra ao que determinam os conceitos humanos, principalmente quando filhos de conventículos exploradores, aqui chega e se vê aniquilado, derrotado e até envergonhado. Percebe o engano, porque reconhece que empregou em obras de formalismo vazio o tempo e o esforço que devia empregar na aquisição do Amor e da Ciência. Não trabalhou para obter conhecimentos superiores, nem fez da decência de conduta e da caridade o baluarte supremo. Pensou em ser esperto, julgou estar lidando com a muito elástica justiça do homem… Enganou-se, todavia, pois estava defrontando aquela Justiça Imaculada, cujo tribunal é por excelência íntimo à criatura! Estas questões são de caráter, não são de fundo originário e nem de natureza individual. Estão na alçada organizável, devem ser tratadas com todo o rigor intelectual, merecem todo o esforço mental possível. Afinal, se não fosse para isso, para o indivíduo levantar sobre a origem divina e o direito de individualidade o seu caráter, a sua construção científico-moral, para que serviriam aquelas bases, aqueles alicerces?

Osvaldo Polidoro Todo indivíduo deve proclamar — “Sou de origem divina! Sou uma individualidade eterna! Devo organizar meu caráter à custa de meus esforços!” Em poucas palavras, essa é a tabela fundamental, sem a qual tudo o mais é aleatório, se não absolutamente falho e comprometedor. Quero convir, no entanto, em que essa tabela, para ser executada ou levada a termo de prática, demanda coragem e trabalho, virtudes que, infelizmente, em muitos elementos, já sofrem longa e pertinaz acuação, estando, portanto, recolhidas aos rincões mais afastados da personalidade. O vício da idolatria e o comodismo devoram, quase sempre, os melhores florões do espírito. E quando a hora chega de se apresentar perante o tribunal íntimo, onde a Lei através da Justiça exerce a função que lhe compete, então surgem o arrependimento, as amarguras, tudo quanto é doloroso e tredo, com aquele terrível acréscimo de nulidade, com o pior dos sentimentos negativos — o quebrantamento moral. A criatura sente estrugir, em toda sua estrutura sensitiva, a mais voraz arremetida do remorso. Mas é tarde… Depois de penar o devido, um dia voltará ao plantel carnal e tentará vencer a prova. Esse fiasco, devo dizer, colhi por conta do budismo. Fiz-me partidário do abstracionismo, entreguei-me ao culto das abstenções, caí em cheio

O Mensageiro de Kassapa no culto da contemplação. Era fácil cair em êxtase, ver a Luz Excelsa, gozar o Céu… Mas com a separação do corpo, embora não fosse um culpado, um sofredor, era um vazio. Tinha paz, estava em ordem, mas num plano bem inferior, bem rente ao homem carnal. Foram vidas e mais vidas, todas elas repassadas de místico fervor, mas num campo onde as flores do bem e os frutos do trabalho faltavam, por falta de cultivo prático. A terra era fértil, as nuvens derramavam água e eu respeitava essas e as demais dádivas da natureza; mas respeitava em teoria, não trabalhava, não ocupava, não punha a produzir, para ter e para dar. Consequentemente, fui pedir esmolas, fui viver da caridade. Isto é, comecei a explorar o próximo, a extorquir do trabalho alheio, pois quem come de esmola também come o produto de algum trabalho. Como pode caber, confessemos, que um Deus de Verdade concorde com tal prática? Então, a pretexto de religião, ou de culto espiritual, alguém tem o direito de ser vagabundo e comer do trabalho de terceiros? Num mundo cheio de misérias, de doenças, de faltas em geral, tem cabimento que, a título de fé ou de amor a Deus, viva alguém a vida do parasita? O verdadeiro credo se comprova depois de passar para este lado, quando a passagem é feita em condições de poder aquilatar fatores qualitati-

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