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Capítulo 3 de 14
Osvaldo Polidoro — parte 3 de 14
Moral, Amor e Revelação · Osvaldo Polidoro
Quando a volta estava pronta, estando todos ao redor do leito, falou o Mensageiro ao enfermo, sobre a necessidade de oração e paciência. Depois, voltando-se para a jovem ex-protestante, disse-lhe: – Minha querida filha! Eu necessito de sua cooperação... Vá, chame-o de pai e beije as suas faces... Derrame lágrimas, não se importe, que assim é necessário... Muito amor reinava ali, naquela hora sublime! Seria impossível falar, mas os corações vibravam a impulsos do mais puro sentimento de piedade. E foi sob o guante daquele fremente sentimento de fraternidade que Leonardo foi introduzido no corpo e obrigado a acordar. Tendo a filha nos braços, a lhe chamar de papai! papai!, Leonardo acordou todo lacrimoso, chamando pela filha, sem saber o que dizia. – Que tem Leonardo?! – perguntou-lhe a esposa, aflitíssima. E o pobre homem, ganhando consciência do estado, enxugando as lágrimas murmurava: – Que sonho maravilhoso!... Nós nunca tivemos uma filha e eu estava com a minha filha nos braços!... Que anjo de bondade... Sim, que luminosidade!... Ó Alzira, ela era um anjo!... Todos eram anjos!... Todos brilhavam!... A esposa levantou-se, tomou o termômetro e procurou medir a febre do marido; porque, para ela, aquilo seria quando muito um acesso de febre. Como não encontrou febre alguma, abanou a cabeça e ralhou com o marido: – Leonardo, tenha piedade de mim!... Bastante já é que sofra do estômago, para que me venha agora com perturbações mentais!... Sem lhe dar atenção, Leonardo balbuciou: – Minha filha... Muitos anjos... A esposa, sempre triste, resmungou: – Durma, homem, que filha nunca tivemos e os anjos devem andar lá pelo Céu, se é que existem o Céu e os anjos! Deste lado, estando a observar o que se passava, o Mensageiro comentou: – Eis como pensam aqueles que estão enterrados na carne e que nada sabem das coisas maravilhosas do Consolador. Ou tudo é milagre ou nada existe! Entretanto, da parte de Deus foilhes entregue a Doutrina Integral, tendo por fundamento a Moral, o Amor e a Revelação. O discípulo comentou, entre alegre e triste: – Que pena causa a Humanidade encarnada! Tendo tantas graças ao redor, parece que vive para a cegueira, parece que foge da luz!... O jovem sírio aduziu: – O sal da Terra!... Vós sois o sal da Terra, disse Jesus... Quando será que o sal tenha entrado em toda a Humanidade e que toda ela se haja temperado? O Mensageiro, que sabia dos trabalhos restantes, convidou: – Temos ainda dois trabalhos na pauta, para esta noite. Vamos deixar Leonardo colhendo os frutos de sua própria semeadura, que com alguns trabalhos a mais, aprenderá a ficar quieto, quando lhe chamarem de maluco. E como visse a jovem a enxugar lágrimas, foi dizer-lhe: – Filha, muito bom foi o seu trabalho, embora tenha sofrido bastante. Creia que lhe estou muito grato e que em face da Lei registrou coisas bonitas a seu favor. Quem muito ama é quem mais pode, porque o Amor é, como lei universal, o maior instrumento de vitória que se conhece. Ela sorriu, agradecida, afirmando: – Eu senti, por ele, um amor filial intensíssimo, além de um certo sentimento de culpa, como se eu fosse culpada de alguma coisa. Terei sido, algum dia, alguém que o prejudicou? O Mensageiro meditou, demorou para falar, e quando falou disse apenas: – Por ora, filha, convém deixar as coisas assim mesmo. Não creio ser interessante descobrir o que houve entre vocês, embora deva lembrá-la de que nada deve a ele, sem ser o dever de irmã em direitos e deveres. Todos somos pais e filhos ao mesmo tempo! Todos somos tudo quanto é possível ser! Através dos mundos e das vidas os espíritos permutam condições e posições, para se irem auxiliando e completando! Não vamos, portanto, amesquinhar a grandeza da Obra Divina, com a miudeza de nossos parcos conhecimentos!
Com ar ponderoso, a jovem murmurou: – Todavia, eu sinto que lhe sou filha... Não podendo voar alto, vôo baixo e sinto-me feliz. No amanhã, depois de tanto viver, saberei pairar por essas alturas do pensamento e da vida; por enquanto, bondoso Mensageiro, sou apenas um espírito terrícola... Sou apenas uma filha da Terra, que faz o que pode para algum dia ser uma filha de Deus, um espírito pleno de Luz Divina, uma centelha cristificada! O Mensageiro fitou-a com paternal ternura, ciciando: – Sempre sincera, sempre espontânea, sempre grande em sua infantilidade! O Céu que a conserve assim, até o dia em que tenha que deixar o corpo... Naquele dia, nós diremos como Leonardo disse: “Um anjo de bondade!”. E o Céu ganhará um espírito formoso, enquanto a Terra perderá uma grande servidora, alguém que se esqueceu propositalmente da cabeça, porque sentiu em boa hora a vantagem que há nas imensidades do coração. Os dois amiguinhos encarnados foram para junto dela e beijaram-lhe as mãos. É que ela estava revelando estranha luminosidade, como que recebendo das alturas a recompensa de suas obras. E nós sabíamos que assim era, pois ela vinha de muitos séculos trilhando as veredas do Amor, aplicando todos os esforços no sentido de ser útil ao próximo sofredor. E quem poderia, em face de Deus, menosprezar a quem se entrega de alma inteira aos serviços da pura fraternidade? Que sabedoria conseguiria levantar-se diante do Amor, sem ser a sabedoria e a vivência do próprio Amor? Segundos após, consoante a pauta de trabalhos, estávamos rente a uma senhora, cujo filhinho havia desencarnado fazia poucos dias. Como era o seu primogênito, como já tivesse três anos e meio, o choque foi tremendo, meteu-a em estado passageiro de alucinação, mesmo que contando com a assistência do plano espiritual.
Capítulo III
Eram duas horas da madrugada, para os relógios da Terra, quando demos entrada na casa daquela senhora, que, acordada, choramingava a morte de seu filhinho idolatrado. – Vamos, – convidou o Mensageiro, – colocar as mãos sobre ela, mentalizando a figura meiga e luminosa de Jesus, a fim de lhe ministrar fluidos e magnetismo restauradores. Porque nestes casos, antes de mais nada é necessário substituir os fluidos alterados, para em seguida ir favorecendo a renovação das microcélulas nervosas. Assim foi feito, por largo período, tendo ela se agitado bastante, sentindo a nossa presença, inclusive. E pudemos ver, a seguir, o nosso médico fazer a sua operação de subtração de fluidos pesados, entre negros e marrons, puxando-os como se fossem cordões muito compridos e finíssimos. Ele operava, entretanto, mais com a força mental conjugada do que mesmo pela possibilidade de manusear os filetes com os dedos. Ao cabo daquela delicadíssima operação, disse o Mensageiro: – Façamos, agora, a descarga de fluidos humanos eletromagnetizados. Vocês, os encarnados, que pelo liame fluídico estão ligados à usina física, façam tudo que lhes esteja ao alcance, orando a Jesus com o máximo fervor. Procurem, no seu íntimo, forçar o aumento vibratório, entrar ao máximo na escala de Luz Divina que penetra toda a chamada Criação, e que se acha muitas vezes bem longe dos olhos da Humanidade, quer da encarnada, quer da desencarnada. Todos entramos em oração, ficando o Mensageiro a guiar os fluidos humanos, que pelos três estavam sendo jorrados sobre a cabeça da senhora enferma; foi um grande ato de amor, foi um espetáculo demonstrativo do que podem conseguir aqueles errados que se vão tornando penitentes e merecedores. A começar da cabeça, foi o chuveiro de luzes policrômicas descendo, penetrando os tecidos, higienizando as partes, os órgãos e os tecidos em geral. Viu-se muito bem a grande função do corpo astral, do perispírito, porque foi ele o natural veiculador de fluidos e de magnetismo. Chegado o momento, o Mensageiro ordenou-lhes: – Agora ordenem que durma; façam-no com energia, imponham a sua vontade. E os três companheiros encarnados começaram a repetir as palavras de ordem, a comandar a corrente fluido-magnética naquele sentido. Com isso, minutos depois, a irmã enferma estava do nosso lado, atraída pelo Mensageiro, que a sustentava, segurando-a pelas mãos. – Está satisfeita, irmã Deolinda? – perguntou-lhe ele, envolvendo-a na sua aura azulinodoirada. Ela olhou para ele, olhou para todos nós, e erguendo a cabeça para cima, disse com a voz embargada: – Meu Deus!... Tu sabes o quanto sou grata!... Virou-se a seguir para nós, respondendo: – Sim... Sim, eu estou no Céu!... Como estou feliz, meu Deus!... O Mensageiro recomendou-lhe cautela, prudência e muita confiança em Deus, ao voltar para o seu corpo: – Veja-o bem, encare-o com profundo respeito! É a máquina de purgação, é o instrumento de redenção e de edificação! Terá ainda cinco filhos, além desse pequenino que está no berço,
porque assim está escrito no seu programa da vida presente. E pelo que pode agora observar, irmã Deolinda, Deus não é surdo, a Lei não é cega e a Justiça não é muda! Se está sofrendo, pode estar certa de que é por suas dívidas pretéritas... Não viemos aqui para acusar, e sim para auxiliar, mas temos o dever de agir como servos da Lei de Equilíbrio, através da qual todos os filhos do Pai Divino com Ele entram em contato, para pagar até o último ceitil e para receber também até o último ceitil. Note bem, irmã Deolinda, que tudo no Cosmo é questão de leis e não de aparências, porque Deus a tudo rege das profundezas onde se encontra, movimentando Sua Divina Providência, através dos Cristos Planetários, que por sua vez o fazem através dos escalões hierárquicos. – Eu sei, meu Santo... Meu Santo!... Que Santo o senhor é?... – foi ela dizendo, fremente de alegria, mergulhada que estava em sua aura brilhante. O Mensageiro respondeu-lhe, com ternura: – Filha de Deus, aqui ninguém é Santo ainda, e infelizmente. Somos candidatos à Santidade, mas ainda somos apenas socorristas e servidores da Soberana Vontade. Não espere pelos Santos, por agora, e talvez por muitos séculos ainda, pois nós sabemos que aqueles Santos feitos pelos homens presumidos e blasfemos do mundo, muitos deles se encontram em lugares tristes, sendo que outros passam na carne por duras expiações! Confie em Deus, espere em Jesus e aceita o nosso trabalho de simples servidores da Lei. Cumpre com o seu dever de esposa e de mãe, sem o que estará fracassando, pois a melhor maneira de adorar a Deus e de esperar em Jesus é cumprindo fielmente com o programa escolhido ou imposto pelas necessidades ressarcitivas. – Sim... Sim, meu senhor, eu tudo farei para cumprir com o meu dever... Peço a sua ajuda, imploro seu amparo!... – exclamou ela, muito feliz. – Quem tudo rege, irmã, – disse o Mensageiro, – é a conduta do próprio encarnado. Suas ações é que o representam perante a Lei de Harmonia ou de Equilíbrio; e por essa representação é que nós, os servos da Lei, podemos nos aproximar e contribuir com alguns ou com muitos benefícios. Quem nada faz para merecer, em face da Lei de Harmonia, nada poderá conseguir de nossa parte, pois nós somos apenas servos e não senhores da Lei. Lembre-se de Jesus, que proclamou diante do mundo, para todos os tempos, que veio para exemplificar ou cumprir a Lei de Deus e não para derrogá-la. Ela é que contém o Divino Alicerce de todos os Livros Sagrados da Terra! Sem Lei não há Cristo e nem Profeta! Vibrante e luminoso estava o ambiente; e a senhora, envolvida naquela felicidade celestial, tendo ouvido aquelas palavras, lembrou-se de alguma coisa e rogou: – Meu senhor! Diga-me sobre os livros que me emprestaram... Olhe ali, cinco livros que dizem conter maravilhosos ensinamentos. Tudo aquilo já havia sido observado, pois fora mesmo por causa de pessoas amigas da casa que ali fôramos parar pela primeira vez; é que, em virtude de sua dor e de sua tremenda conturbação, vizinhos e amigos procuraram pedir por ela nas casas de oração, tendo alguns oferecido livros doutrinários. Ali estavam cinco livros, um de rezas católicas, dois espíritas, um rosacruz e um teosofista. Eram as ofertas de gente piedosa, eram os corações humanos que ali estavam representados, assim como podiam estar, segundo o poder conceptivo de cada ofertante, pois cada qual encara o problema da Verdade pelo seu ângulo de visão, de acordo com as suas possibilidades evolutivas. O Mensageiro respondeu-lhe, paternal e ponderoso: – Por ora, irmã Deolinda, convém não se extremar em tais cogitações; primeiro espere pela sua melhora, que será para muito breve, para depois ir lendo com vagar e profundo respeito tudo quanto for bom. – Essas leituras me atraem! – exclamou ela, sorridente e feliz. – Está sendo muito auxiliada, irmã Deolinda; sua casa tem sido muito visitada, quer seja por nós, deste lado, quer seja por pessoas de suas relações de amizade, e, muito mais ainda, pelas orações que muitos estão fazendo em seu benefício. Observe, portanto, o quanto está sendo objeto de felizes envolvimentos. Sobre os livros, entretanto, desejo dizer que os melhores são aqueles que mais aproximam as criaturas da sabedoria da Lei de Deus, de quem o Divino Modelo deu exemplo de ser o Servo Fiel e não o seu senhor. Se puder lembrar, irmã Deolinda, lembre-se dos três sentidos da Lei de Deus, que são:
1 – A Moral absoluta que contém, cuja extensão vai à adoração de Deus em Espírito e Verdade, fato que implica na evolução total da mônada espiritual, ou sua integração no grau crístico ou cósmico, acima de mundos e de formas, pois isso representa ultrapassar a lei de reencarnações ou de sujeição às injunções planetárias; 2 – O Amor que encerra, para todos os efeitos a síntese das conquistas evolutivas, o maior dos instrumentos de edificação, pois começando humano, confinado ou restrito ao mundo de relações humanas, ele irá crescendo, irá se avolumando, até realizar na mônada espiritual a obra de sintonia ou de união com o Pai Divino; 3 – A Revelação que lhe foi o veículo, pois a Lei foi várias vezes transmitida e retransmitida, no curso dos tempos e das raças. Em sua unidade, portanto, a Lei de Deus contém três sentidos inamovíveis, que são a Moral, o Amor e a Revelação. Em matéria de Doutrina, conseguintemente, a mais perfeita será sempre aquela que mais se aproximar da Lei e do Divino Modelo apresentado por Deus, para servir de Caminho, Verdade e Vida. O médico interveio, dizendo ao Mensageiro: – Ela nada poderá entender, por ora, de verdades tão simples o quão profundas. O Mensageiro sorriu, assentiu com breve movimento de cabeça e murmurou: – Na Terra e por aqui, nos planos erráticos, muita gente que se julga senhora de bons arquivos doutrinários, não sabe disso e ainda não pode conceber a profundidade doutrinária que a Lei de Deus encerra. É fácil a todos os cultivadores de religiões ou de religiosismos, dizer que Jesus, o Cristo Planetário2, veio ao mundo carnal para viver e não para derrogar a Lei. Todavia, nós que vivemos em contato perene com os encarnados, por sermos servidores do Seu Batismo de Espírito, bem sabemos o que podem alcançar, até mesmo aqueles que são realmente os mais capazes, os mais lúcidos... Silenciou de repente, abanou a cabeça negativamente e perguntou: – Qual de nós, aqui dos presentes, habitante do mundo espiritual, vivendo em contato com as clarinadas a que já faz jus, pode dizer que vive totalmente os três sentidos da Lei? Somos portadores da Moral perfeita? Vivemos todo aquele Amor que ela proclama? Cultivamos a Revelação integral ou sem medida? Ninguém respondeu, porque todos ficamos a realizar soleníssimos pensamentos; e foi ele mesmo, o Mensageiro, quem rompeu o silêncio: – Quando formos tanto mais vizinhos da adoração de Deus em Espírito e Verdade, por termos evoluído até alturas tais, então viveremos melhormente a Moral, o Amor e a Revelação! Outra vez o silêncio maravilhoso reinou, maravilhoso porque ungido de santíssimas vibrações. E quando foi rompido, foi por ordem do Mensageiro, que disse à irmã Deolinda: – Que julga você, irmã Deolinda? Pense e fale o que puder e quiser, desde que em plano de sinceridade. – Nada posso dizer, – foi ela murmurando, – porque tudo isso é divino demais para as minhas ínfimas possibilidades. Se eu pudesse perguntar a Jesus, se por qualquer graça de Deus isso fosse possível, tenho certeza que lhe daria uma resposta absolutamente justa! Mas isso não é para mim, não pode ser para mim, que devo ser ainda muito pecadora, muito pecadora... Enquanto ela tremia sob o guante de estranha vibração, e derramava lágrimas de maneira incontrolável, o Mensageiro foi a ela e falou-lhe com muita brandura: – Deolinda, você transmitiu o pensamento de um nosso chefe, muito superior a mim e a todos nós aqui presentes, que se acha oculto a todos, menos a mim e a outro dos presentes, em virtude da função autorizada que estamos desempenhando. É que você é portadora de uma graça mediúnica, uma graça que eu penso que virá a se manifestar, acontecimento que muito poderá fazer por você mesma, pelo bem que poderá causar ao próximo. Ele é que falou, embora você pense que não... Ela interrompeu, afirmando: – Não poderia explicar o fenômeno, mas sabia que estava sendo agitada por estranho poder... Um sentimento imenso de paz e de amor, como se fosse o Céu que me estivesse a envolver!...
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