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Capítulo 13 de 14
Osvaldo Polidoro — parte 13 de 14
Moral, Amor e Revelação · Osvaldo Polidoro
manifestação não era universal, tinha caráter de revelação por merecimento. Somente os trabalhadores mais suficientes e eficientes é que ali poderiam ser admitidos. Quando chegou a hora da realização, soaram trombetas nos ares. O espaço encheu-se de luzes, cores e sons maviosos. Legiões de seres angélicos entoaram belíssimo hino, antes de virem pousar no solo, na encosta fronteiriça, ficando bem de frente para todos aqueles milhares de espíritos convocados à reunião. Houve, logo após, um grande, um profundíssimo silêncio! Parecia nunca ter havido ruído algum no Universo, tal a profundidade daquele silêncio. E antes que algum ruído se ouvisse, o grande acontecimento que se operou, foi a encosta vir ao nosso encontro, chegar bem pertinho de nós, a ponto de podermos observar com perfeição os mínimos traços daqueles gloriosos irmãos. A expectativa era intensíssima, embora tudo aquilo já fosse deslumbrantemente divino. E não era por acaso, pois nos ares pairava pruridos ainda muito mais deslumbrantes, muito mais intensos. Quando se esperava que das alturas viesse mais alguém, para aquele ambiente de todo preparado, pois os nossos olhos estavam voltados para cima, eis que se ouviu uma voz suave, meiga e penetrante a mais não poder ser. Foi um choque, foi um tremendo abalo, coisa de fazer sentir que dentro do peito ainda vibra um coração, apesar de estarmos há muitos anos distanciados da carne! Jesus foi surgindo daquele meio glorioso, assim como vivera no mundo; vestido com a Sua túnica opalina tendo Seu manto carmesim atravessado em diagonal, trazendo os cabelos à nazirena e não tendo os pés calçados. Era a reprodução do Homem-Deus, tal e qual vivera no mundo, como Celeste Ungido, a fim de ficar simplesmente como Divino Modelo, para todos os dias terrícolas. Depois da saudação, falou com simplicidade, como se fosse um ser humano, como se ainda estivesse encarnado: – Quero contar-vos uma parábola. Atendei ao seu espírito. E passou a dizer, com a Sua voz suave, profunda e penetrante: – Havia em certa cidade, um homem, que desejando estabelecer casa de pasto, e tendo de lhe por um nome, pôs-lhe este: “A Melhor Comida do Bairro”. Tendo vindo um outro, seu vizinho, a montar casa de pasto, considerando o nome do primeiro estabelecimento, colocou-lhe este: “A Melhor Comida da Cidade”. Um terceiro, tendo resolvido dedicar-se ao mesmo ramo de negócio, observando os dois primeiros títulos, anunciou-se assim: “A Melhor Comida do País”. Vindo o quarto, também ali a se instalar no mesmo comércio, escreveu: “A Melhor Comida do Continente”. E por sua vez, o quinto, apelou para o seguinte nome para a sua casa de pasto: “A Melhor Comida do Mundo”. Jesus silenciou, passou os meigos olhos pela vastidão de ouvintes, tendo continuado: – Eis que vindo um outro, apenas mais esperto, pelo fato de ser mais simples, escreveu no frontispício de sua casa de pasto: “A Melhor Comida Desta Rua”. E veio assim a suplantar a todos, porque realmente foi humilde, simples e sincero. Novo silêncio do Divino Mestre e nova expectativa geral. De fato, revelando no semblante augusto o fulgor dos Espíritos Perfeitos, explicou o Símbolo da Verdade: – A Lei de Deus é a Melhor Comida; foi dela que extraí elementos de ensino, toda vez que o Pai Divino ordenou-me enviar Mensageiros aos seus filhos da Terra. Foi dela, também, que me servi, em cumprimento da Vontade do Pai Divino, quando estive entre vós, para vos tornar herdeiros da Graça da Revelação generalizada. A Lei de Deus é a Matriz dos Livros Sagrados; fora da Lei de Deus ninguém poderá ser triunfador. Ela contém tudo em Moral, contém tudo em Amor e contém tudo em Revelação. Os Dez Mandamentos ensinam tudo sobre a conduta humana. E todo aquele que fizer por vivê-la, por dar-lhe cumprimento, virá a amar a Deus em Espírito e Verdade, que é o fim da jornada evolutiva, que é o fim da escalada biológica. Porque a Lei ensina, em sua rigorosa síntese, todo o programa evolutivo da alma. Tendo Ele feito silêncio, reinou de novo aquela imensidão silenciosa, como se o Universo Infinito não existisse. A encosta se foi afastando lentamente, Jesus foi sumindo no meio daquela multidão gloriosa, tendo por fim toda ela se elevado aos altos, onde as trombetas voltaram a soar, onde outra vez o hino foi cantado.
Estas manifestações não poderiam jamais ser relatadas, assim como são divinamente gloriosas. A linguagem humana fica devendo tudo, porque não tem com que expor o que se passa em grau ultra, em escala divina. Rente à mesa de trabalhos, mostrando-lhes os respectivos corpos, disse-lhes o grande Mensageiro: – Como já nos havia dito Ele, eis que temos dentro de nós mesmos o Reino do Céu, e Céu que não virá com mostras exteriores. Se Ele teve a Lei de Deus por Estrada Celestial, procuremos nós também fazer o mesmo, para segui-Lo. Porque Aquele que foi pelo Pai Divino colocado diante da Humanidade terrícola como Divino Modelo, nunca terá Suas palavras contraditadas. Ele pronunciou palavras de vida eterna, porque a Moral, o Amor e a Revelação jamais passarão, ainda que passem os mundos físicos. Depois de fazê-los acordar, fomos embora, em busca de santos trabalhos. E sobre o trabalho imediato, disse-nos o Mensageiro, o menor, o seguinte: – Vamos recolher um pobre irmão, na zona sombria? Podemos fazê-lo já, e podemos adiá-lo, porque o infeliz paira em condições alternadas, ora tendo-se como feliz, ora julgando-se o homem mais sofredor do mundo. Antes de responder, passou-me pela mente a Lei da Unidade, a Lei Chave, aquela que nos mostra sempre a Causa Originária, seja por motivo de Emanação, seja por razão de leis regentes, seja por questão de justiçamentos. Ela para todos os efeitos contém e demonstra a Origem e os Efeitos; ainda que o homem, encarnado ou desencarnado, ignore os porquês, há sempre lei a explicar motivos e efeitos. E, como tal, considerei que era mais um irmão, mais uma centelha em processo evolutivo, que em tal ou qual grau da espiral hierárquica, se comportava de modo infeliz, ou sofria pelo mau comportamento já levado a termo. Nada mais poderia ser, encarando a questão em conjunto. E o Mensageiro, apanhando-me o pensamento, informou: – Justamente isso, quanto ao plano geral; porém, nos detalhes está a grandeza que explica a divindade da Origem e a glória da Finalidade. E tanto mais devemos atenção especial a todos os pormenores, porquanto temos de levar oito estudantes conosco, irmãos que devem aprender pelo menos o que nós já sabemos, para virem a servir, pelo menos o que nós já servimos. – Sem dúvida. – concordei, considerando a observação. E o Mensageiro adiantou: – Antes do Cristo, a sentença mais sábia e profunda era aquela que mandava o homem conhecer-se a si próprio, a fim de através de si mesmo conhecer o Universo e os deuses. Depois do Cristo, ou do Modelo Anímico e Cósmico, podemos e devemos tomá-Lo como ponto de referência. E tanto mais cumpre fazê-lo já, antes que a Nova Era surja, para que os habitantes da Terra, encarnados ou destas plagas, vão considerando com severidade a questão evolutiva. Não haverá nenhuma Nova Era milagrosa, pois o homem, de lá ou de cá, irá muito lentamente enfrentando os problemas íntimos, os problemas de consciência, de ciclo em ciclo, até chegar ao ponto culminante, no Grau Crístico, que é o Cristo Anímico, de onde surte o Cristo Cósmico, o Divino Funcionário. Intercalei: – Perfeitamente. Atingido o Grau Anímico Perfeito, dá o espírito entrada na Organização chamada na antigüidade “Providência Divina”. E Cristo Anímico vem a dizer Cristo Cósmico, uma vez que é impossível ser Autoridade antes de ser perfeito. Portanto, a escala é simples, é normal, começa do marco zero e atinge o ponto final, que é ingressar na esfera da Organização Providencial ou Cósmica. O Mensageiro sorriu, inteligente, murmurando: – A teoria sempre marcha muitíssimo na frente da prática. Nós, que conhecemos em teoria o programa crístico, ainda estamos longe, muito longe do ponto final. Que fariam aqueles que ainda não o conhecem, se ninguém lhes dissesse? Respondi: – O mesmo que nós, se ninguém nos tivesse informado. É lei da vida, que todos devemos uns aos outros os trabalhos informativos e cooperadores.
– Então, – disse ele, – vamos levar a turma de aprendizes, para que os nossos mentores também tenham prazer em nos ensinar. Por mais que pareça um ato rotineiro, quanto ao plano geral, do ponto de vista individual e particular é uma necessidade. Isto é, são duas necessidades, pois juntam-se ambas, a nossa obrigação de ensinar e a necessidade deles de irem aprendendo. – E o irmão sofredor? – perguntei, mais para efeito de conversação. Como sempre, esclareceu o Mensageiro: – A engrenagem da vida, para efeito evolutivo em geral, apresenta a lição, o mestre e o discípulo em conjunto. O irmão sofredor, sem saber servirá de tese, enquanto que nós seremos os mestres e os outros os aprendizes. E nunca deixará de ser assim, porque Deus sempre serve a uns pelos outros, jamais servindo diretamente. Quem despreza as leis regentes despreza a Deus, assim como quem desprezar o seu próximo despreza as leis regentes. Na ordem cósmica tudo é por encadeamento, porque assim o é na ordem anímica, que lhe é diretora. Tudo vem do TODO, e tudo ao TODO retorna; apenas, como é normal que aconteça, tudo começa no embrião e termina na perfeição. A matéria sublima-se e o espírito diviniza-se. Fomos buscar o grupo de aprendizes e lá aportamos, junto ao irmão sofredor, em uma zona sombria, não de todo trevosa. Ele caminhava sozinho, abandonado, tendo às vezes a certeza de ser muito feliz, pelo fato de estar sozinho, enquanto que em outras vezes caía em estado de angústia profunda, por se ver abandonado. Fora um homem como tantos outros, que por notar a complexidade universal, tanto anímica quanto cósmica, dera em querer saber de tudo, em investigar tudo, e caindo por fim em estado de desconfiança total. Em certos momentos, julgava saber mais do que os outros; em outros momentos, desacreditava de si próprio e de tudo quanto havia concebido. E de modo algum chegava a acreditar nos outros. E foi assim, vazio e desconfiado, que veio a desencarnar. A morte e o nascimento, como nada mais fazem do que trasladar de um plano para o outro, nada lhe deram de especial, como nunca o darão a ninguém. Ele formou o seu juízo e com ele viveu, até vir para cá, nas mesmas condições, é claro. Outro fator imperioso, que não tinha a seu favor, era o das boas obras; nada fizera a mais, sem ser viver para si mesmo. Ruim não fora; mas também nunca tivera feito para considerar as obras de fraternidade, o auxílio fraterno, fosse em caráter particular ou através de organizações coletivas. – Silvestre! – chamou o Mensageiro, vendo-o sentado e a meditar, debaixo de uma árvore ressequida, parte integrante de uma coreografia bastante sofrível. Silvestre levantou os olhos, revelou desconfiança e perguntou: – Quem são os senhores? O Mensageiro perguntou: – Que pensa de nós? Em que conta nos tem, Silvestre? Ele encarou-nos bem, muito bem, até encolher os ombros e dizer: – Desiludidos como eu!... Andantes do mundo!... Procurando o que não existe, o que talvez exista... Quem sabe se existe?... Quem sabe se não existe?... Aproveitando o ensejo, falou-lhe o Mensageiro: – Se o exterior existe, certamente existe o interior, não é exato? Ele tornou a olhar bem para todos nós, perguntando: – Em que sentido o senhor pergunta? O Mensageiro respondeu-lhe: – No sentido geral. Se o homem carnal existe, o espiritual não pode deixar de existir. Se o Universo formal existe, o Universo Essencial existe em primeiro lugar. Primeiro o que é interior, depois o que é exterior. – É uma filosofia... Simplesmente uma filosofia... – respondeu ele, quase em tom de indiferença. O Mensageiro perguntou-lhe: – É capaz de iluminar a ti próprio? Silvestre levantou-se, encarou-nos como quem encara loucos e perguntou: – De onde os senhores saíram?!... De algum manicômio?!...
O Mensageiro acionou a vontade, modificou-se, iluminou-se. E o pobre Silvestre, que primeiro quis fugir, aos poucos foi caindo em si, até que veio e se propôs a ajoelhar em sua frente. – Levante-se, Silvestre! Ergua-se filho de Deus! – bradou-lhe o Mensageiro, com energia, porém com evidente piedade no tom de voz. E Silvestre ficou estático, absorto, sem fala. Todavia, estava expectante, revelava no semblante a alegria de que estava tomado. O Mensageiro falou-lhe, convidando-o a pensar melhor: – Silvestre, que tamanho tem a Verdade Integral? O pobre homem baixou os olhos, para baixinho responder: – Meu senhor, não me pergunte semelhante coisa... Eu nada sei... – Por que então julga com tanto rigor? – perguntou-lhe o Mensageiro. Sempre de cabeça baixa, respondeu: – Ignorância, muita ignorância... Eu me arrependo... Sei que devo ter morrido... Condoído, murmurou o Mensageiro: – A unidade revela a diversidade, assim como a simplicidade revela a complexidade, e viceversa. Não devia ter sido assim tão desconfiado... Pelo menos poderia ter acreditado nas obras amorosas, nos trabalhos de solidariedade. O que não pode fazer a Ciência, por ser ainda incipiente, pode realizá-lo o Amor, porque é sensível, porque sente e faz sentir, mesmo sem investigar e sem saber. A razão é fria, mas a emoção tem tudo para não sê-lo, porque pode trilhar a senda intuitiva. Ademais, todos sofrem necessidades nos planos inferiores da vida, motivo por que todos podem sentir as necessidades alheias. Para conhecer as razões da necessidade é preciso investigar; mas para sofrer, ou para curti-la, basta ser vivo e ser sensível. Se não pôde compreender Deus, por que não foi bom para com os semelhantes, para aqueles que precisavam de boas palavras e de ações solidárias? Que ganhou com a sua descrença de Deus, e com o seu afastamento dos semelhantes, pelo fato de julgá-los menos conscientes e até mesmo tolos? Silvestre ergueu a cabeça e simplesmente perguntou: – Estou, senhor, no mundo dos mortos? Abanando a cabeça, o Mensageiro falou-lhe: – Estás, Silvestre, no mundo onde a vida é tanto mais intensa... O mundo espiritual revela tudo, tanto o Bem como o Mal, tanto a Paz como a Tormenta, em tom bastante mais intenso, precisamente por ser menos denso, menos pesado e vagaroso. Silvestre rogou, de modo a causar piedade: – Senhor, eu me arrependo!... Que Deus me perdoe!... Deu-lhe o Mensageiro a resposta: – Nunca é caso de condenação ou de perdão vindos do exterior, porque sempre é caso de normalização e realização interiores. Quem em si mesmo errou, em si mesmo terá que reparar; e quem não se santificou, em si mesmo terá que se santificar. Portanto, considere que perdeu grandes oportunidades, ao mesmo tempo em que deve considerar as oportunidades futuras. – Agradeço a Deus por tudo isso! – exclamou Silvestre, satisfeito. E o Mensageiro explicou-lhe: – Deus, o que quer de nós, é conhecimento de causa e boas realizações. Quanto ao mais, ninguém modificará lei alguma, por agradecer ou por não respeitar. É bom saber, para todos os efeitos, que as leis menores são o reflexo da Lei Maior, assim como funcionam dentro de nós, que somos o Microcosmo, aquelas mesmas leis que regem o Macrocosmo. Isto é, que repercutem na PARTE as leis regentes do TODO, saiba ou não, goste ou não a PARTE. Em vista desta realidade fundamental, não se preocupe em tecer agradecimentos; compenetre-se de que deve servir, se quiser vir a ser servido. O problema do Céu é de trabalho, não é de contemplação. Silvestre ficou sem saber o que falar, porque nada conhecia, ele que se julgava muito mais sábio do que os outros, durante a vida carnal. E foi o Mensageiro que, prosseguindo, convidou-o: – Silvestre, quer começar tudo de novo, em matéria de convicções? – Quero! – respondeu ele, prontamente. E foi convidado a seguir-nos e a imitar-nos:
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.